"Raduan Nassar realmente merece todas as glórias. Autor
de apenas três ou quatro livros excelentes, ganhou todos os prêmios literários
e só abre a boca quando tem algo de relevante a dizer. Esse seu estilo conciso
e sem afetação talvez seja uma de suas maiores qualidades, além da simplicidade
e completa ausência de sabujice aos poderes constituídos. Um exemplo a ser seguido
nesses tempos nada exemplares. Em vez de cultuar beleguins e
"ôtoridades" de poucas letras, a juventude deveria se mirar no
exemplo desse grande escritor, e conhecer melhor sua obra e sua vida. Depois
ainda dizem que no Brasil não existem pessoas dignas em quem devemos nos
inspirar..." (Sérgio Braga)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
A institucionalidade do elitismo burocrático desnaturalizador da classe trabalhadora
Sérgio Braga______Um sociólogo norte-americano dos anos 50
já deu o diagnóstico: com o deslocamento geográfico de um segmento da classe
média intelectualizada para os "campi" universitários, um setor
importante da esquerda, que varia de numero segundo a institucionalização do
aparelho burocrático-universitário de país para país, separou sua experiência
de vida quotidiana da grande massa da classe trabalhadora. Daí que surjam
tantas palavras de ordem e arroubos radicais dos quais a massa sequer toma
conhecimento. A pergunta que se coloca é: as redes sociais agravaram esse
fenômeno, insulando ainda mais os "liberals" do restante da população
comum, ou serviram para "reconectar" as camadas médias liberais com o
duro e sofrido cotidiano do cidadão comum? Talvez esteja aí a fonte do famoso
"mal-estar" com a democracia monitorada que tantos ideólogos
sentem...
Mariana R Espinosa__________ Interessante. Acho que a
universidade federal com seus ritos, formas e status não deixa ser aquelas
pessoas que vem de classe social menos privilegiadas. Mas de uma vez presenciei
e vivenciei represarias por expressar pautas o comportamentos de classe
trabalhadora. Um detalhe que sempre reparo é que aqui não cumprimentam os
funcionários de limpeza o aqueles que estão na porta. De modo que, existe a
possibilidade de que as instituições tenham certo padrão tendem a obrigar o
coagir a quem deseje permanecer nela, um comportamento que pode ser contrário a
sua própria classe.
O Monitor Legislativo
Sérgio Braga____________O Monitor Legislativo. Pergunta
inocente: se o parlamento não tem importância no sistema político brasileiro,
como dizem muitos politólogos, por que a Odebrecht e outras empresas gastavam
tanto dinheiro com os políticos como mostram os relatórios das delações? Algum
entendido aí pode explicar? Ou os executivos da Odebrecht não entendem
patavinas de neoinstitucionalismo?
Edilson Montrose _________Pertinente. Mas acho que também
seria o caso de aferirmos o quanto de sucesso teve a Odebrecht et.al. no lobby
junto ao Legislativo: quantas leis, ou outras proposições legislativas,
conseguiram emplacar; tais leis emplacaram porque tinha apoio do Executivo? Ou
emplacaram mesmo contra o desejo deste?
Sérgio Braga____________ Edilson Montrose. A meu ver essa
tese da ausência de relevância do parlamento é uma das grandes falácias que
circulam por ai, e só se explica pela adesão de boa parte de nossos
intelectuais ao populismo explícito. Essa contagem de leis tem pouca relevância
e serve apenas para fazer levantamentos quantitativos preliminares. O
importante são "pequenas" alterações nos textos dos projetos durante
sua tramitação, como pode ser verificado pela leitura das delações. É aí que
ocorre o lobby e onde o parlamento pode impor sua vontade ao executivo, mesmo
com o poder de veto deste. Não se esqueça que a gloriosa Petrobrás, no formato
em que a conhecemos, surgiu de uma pequena emenda ao texto do PL que a criou, e
que não contemplava o monopólio da exploração. Uma pequena alteração legal,
muitas vezes imperceptível para o leigo, pode gerar diferenças colossais na
elaboração das políticas públicas ao longo do tempo. Aprendi isso com o saudoso
Goffredo Telles, mas as delações deixam isso muito claro.
Sérgio Braga ____________Dos 20 países com maior IDH e onde
os trabalhadores tem maior qualidade de vida, 19 são parlamentaristas, onde
partidos social-democratas possuem grandes bancadas ou maioria no parlamento.
Isso parece ser um mero detalhe para a maioria de nossos pensadores e
bolivarianos de esquerda e de direita....
Edilson Montrose__________ 1- Fecho com o parlamentarismo,
também me parece melhor, dá uma feição mais programática aos partidos. E isso,
para um espectro de esquerda, a qual me reivindico, considero deveras
importante. O Décio Saes tem um bom texto defendendo o parlamentarismo. 2 -
Quanto a importância somente relativa do Congresso Nacional, que é a tese dos
neo-institucionalistas, me parece que ela deriva menos de pendores populistas,
mas sim, de aferições robustas dos poderes de agenda do Executivo, bem como das
taxas de dominância e sucesso. As teses dos brasilianistas (Ames, Maniwaring)
me parecem ser um modo de encaixar a configuração do modelo institucional
brasileiro na teoria eleitoral deles, mas não me parece que dá certo. Eu tive
aula com o Limongi, obviamente que sou mais influenciado pelas teses deles e
outros neo-institucionalistas. Mas tô ligado que você e outros tem críticas
qualificadas. Vamos debater, é capaz de me convencer....hahahaha
Sérgio Braga____________ Edilson Montrose Sim, Edilson
Montrose. Eu conheço o debate. Mas há autores que criticam os Limongi por
várias vias, além do Ames e Mainwaring: taxa de atropelamento; importâncias das
emendas na tramitação dos projetos; ausência de aprovação da agenda declarada
do executivo etc.. Lula, por exemplo, durante sua primeira campanha eleitoral
disse que iria fazer quatro reformas: a) política; b) tributária; c)
trabalhista etc. etc. Para visualizar melhor o propalado "poder de
agenda" do Executivo, você pode tentar encontrar 10 propostas do PT que
foram ou não implementadas durante os 14 anos que o partido esteve no governo:
http://www1.folha.uol.com.br/.../candidatos-lula-programa... É um ótimo
passatempo para noites insones.
Edilson Montrose _____________Sérgio, óbvio que você conhece
o estado das artes do debate. Sua tese inclusive fala disso (a qual iniciei a
leitura ano passado, não terminei de ler, mas prometo fazê-lo). Mas fique
registrado: vamos cerrar fileiras em defesa do parlamentarismo.
Sérgio Braga________________ Edilson Montrose Sim, Edilson
Montrose. Mas eu deixei de fora muita coisa na tese, que não me satisfez.
Espero ter tempo de reescreve-la algum dia. Sobre o parlamentarismo, a melhor
defesa que conheço adaptada ao contexto brasileiro é a feita por Ives Gandra e
pelo Dr. Franco Montoro: https://www.youtube.com/watch?v=yOmCtyOmdHQ
Edilson Montrose____________ Ives Gandra???? Amanhã eu
assisto, do contrário terei pesadelos. Em tempo: Montoro foi bom. Desde que
nasci, 79, com certeza foi o melhor governador que SP teve no período.
Sérgio Braga ________________Edilson Montrose O Ives Gandra
é Opus Dei, mas a defesa que ele faz do parlamentarismo é bastante
interessante.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Rei Leopold II: O Holocausto oculto no Congo
Quando se fala em atrocidade, um nome, inevitavelmente, vem
à cabeça: Hitler! Mas, agora, outro nome se juntará à galeria dos monstros da
história da humanidade: o do rei Leopoldo II, da Bélgica. E isso graças ao
escritor polonês, naturalizado britânico, Adam Hochschild, que no livro “O
Fantasma do Rei Leopoldo”, relata uma das maiores chacinas já cometidas em nome
do poder, a mando do rei belga, quando colonizou o Congo (atual Zaire), no
continente africano. As piores atrocidades aconteceram entre 1890 e 1910, tudo
isso sem que o rei colocasse os pés na África e com o aval dos líderes
mundiais, que fizeram “vista grossa”, enquanto milhares de congoleses sucumbiam
ante a tirania do “filantrópico e humanitário” rei, que aos olhos do mundo
“apenas libertava aquele povo medieval de uma ignorância crônica, levando até
eles as benesses da civilização”.
Congo Belga, como ficou conhecido na época, foi uma das
grandes fontes de riqueza para a minúscula Bélgica, que se enriqueceu com a
venda de marfins. Outra fonte de riqueza foi a extração da borracha,
responsável pelo desaparecimento de muitas espécies de árvores nativas daquela
região.
Mas foi em outro aspecto que a tirania do rei Leopoldo mais
se acentuou: na instituição do trabalho escravo. A ordem era lucrar muito com
pouco investimento, e isso, logicamente, significava não se preocupar com a
folha de pagamento. Muitos oficiais belgas foram enviados ao Congo, após
previamente estudarem um “Manual”, onde se ensinavam as “técnicas” de como
subjugar o povo. No dizer do próprio autor, “poucas vezes a história nos oferece
uma chance como essa de ver instruções detalhadas de como executar um regime de
terror”. São muitas as atrocidades, impossíveis de serem descritas, uma delas
são as mãos cortadas. Mas, para quem pensava que no ranking dos monstros da
humanidade, Hitler fosse imbatível, uma novidade: o pódio é também ocupado pelo
rei Leopoldo II, da Bélgica, que traz em seu currículo 8 milhões de africanos
dizimados, contra 6 milhões de judeus mortos, inseridos no histórico do
austríaco.
O poeta norte-americano Vachel Lindsay traduziu bem a
impressão deixada por Leopoldo, após sua morte:
“Ouçam como grita o fantasma de Leopoldo/A queimar no
inferno por suas hostes sem mãos./Escutem como riem e berram os demônios/Lá no
inferno, a lhe cortar fora as mãos”.
FONTE: FDR
/ King Leopold's Ghost: A Story of Greed, Terror, and Heroism in Colonial
Africa, Adam Hochschild, Mariner Books, 1999
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Receita para destruir um país
O filósofo Vladimir Safatle tem uma receita infalível para
destruir o Brasil. Segundo ele, há três formas de chegar a esse resultado: a
guerra, as catástrofes naturais, e “a mais segura e certa de todas, é
entregando seu país para economistas liberais amigos de operadores do sistema
financeiro”.
Vale a pena ler o artigo. Não apenas porque é um artigo
muito bom, mas também porque quem o escreve é um filósofo que não tem medo de
falar sobre a economia. Seu exemplo deveria ser seguido por outros cientistas
sociais como sociólogos e cientistas políticos, e, mais amplamente, pelos
cidadãos letrados. A política macroeconômica hoje é uma coisa muito séria,
muito importante, para, em uma democracia, ser deixada por conta dos
economistas.
Não é preciso temer a matematiqueira que os economistas
ortodoxos usam. Se entenderem que a economia é uma das ciências sociais, e se
usarem o método histórico, os cidadãos e, em particular, os cientistas sociais
não ficarão nas mãos dos economistas que trabalham para o sistema financeiro.
Luiz Caerlos Bresser Vieira
A teoria se confirma, mas sombriamente
Um cientista se alegra quando desenvolve uma teoria que
implica uma predição e esta se confirma na prática. Em 2008 eu propus a
tendência fundamental da macroeconomia desenvolvimentista que venho
desenvolvendo desde 2001 – a tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da
taxa de câmbio. Isto significa que a taxa de câmbio se deprecia fortemente nas
crises, mas logo volta a se apreciar, o país passa a ter deficits em
conta-corrente, e alguns anos depois, devido ao contínuo aumento das dívidas
das empresas e do país, uma nova crise financeira se desencadeia, e a taxa de
câmbio novamente se deprecia.
Em 2008 a taxa de câmbio, que se depreciara fortemente na
crise financeira de 2002, já voltara a se apreciar e desde o ano anterior
estava sobreapreciada ao mesmo tempo em que o deficit em conta corrente do país
já voltara a ser grande, dada a forte correlação entre este e a taxa de câmbio.
Nos anos seguintes a tendência se confirmou, e a taxa real de câmbio, a preços
do final de 2015, flutuou em torno de R$ 2,80, quando a taxa de câmbio, que
torna competitivas as boas empresas industriais do país, era de R$ 3,80 por
dólar. Assim, a previsão se confirmou, como também se confirmou sua
consequência: as empresas, tornadas assim sem competitividade, deixaram de
investir, houve uma nova e brutal onda de desindustrialização, as empresas se
endividaram, e, no segundo semestre de 2014, o país entrou em crise financeira,
e a taxa de câmbio voltou a se depreciar. Ela chegou a R$ 4,40, mas logo voltou
se a apreciar, e hoje, a preços de hoje, quando a taxa de câmbio competitiva ou
de equilíbrio industrial é de cerca de R$ 4,00 por dólar, ela caiu
(apreciou-se) para R$ 3,00 por dólar.
Novamente a teoria se confirmou na prática. Mas não estou
alegre. O que se confirmou foi uma previsão sombria. Quando a taxa de câmbio
não é apenas volátil, mas tende a permanecer apreciada por vários anos – algo
que apenas a macroeconômico novo-desenvolvimentista afirma – o país fica
condenado a exportar apenas commodities e permanecer semiestagnado, como está
desde 1990, crescendo em média, por pessoa, 1% ao ano. Hoje o Valor publica
ampla reportagem onde as empresas industriais afirmam que essa taxa de câmbio
inviabiliza a indústria – é mais que isto, inviabiliza o Brasil.
Por que a taxa de câmbio tende a se sobreapreciar nos países
em desenvolvimento? No plano econômico, porque muitos deles sofrem a doença
holandesa, porque suas taxas de juros tendem a ser elevadas, atraindo capitais,
porque seus governos acreditam equivocadamente que o pode crescer com “poupança
externa”, ou seja, com deficit em conta corrente financiado por investimentos
diretos e empréstimos, e finalmente, porque usam o câmbio como âncora para
controlar a inflação; no plano cultural, porque os brasileiros revelam uma alta
preferência pelo consumo imediato, que é incompatível com uma taxa de câmbio
competitiva ou de equilíbrio industrial, e, segundo, porque deixaram de ser
nacionalistas, e passaram a acreditar nas recomendações e pressões dos países
ricos.
Keynes afirmou que a economia é uma ciência triste, sombria.
Tinha razão. Mas ele mostrou que através de uma boa política macroeconômica –
fiscal e monetária – seria possível superar suas previsões sombrias. Os
economistas novo-desenvolvimentistas concordam, mas acrescentam: é preciso
também uma política cambial – algo que o Brasil não tem desde 1990, quando se
submeteu ao capitalismo financeiro-rentista do Oeste, suas elites se tornaram
liberal-dependentes, e semiestagnação se tornou o novo normal .
Luiz Carlos Bresser Pereira
"É preciso ler 'Minha luta', de Hitler", diz sociólogo
Leilão fracassado de exemplares autografados traz à tona na
Alemanha debate sobre proibição do panfleto-biografia do ditador nazista. DW
entrevista especialista sobre a suposta fascinação de um texto pouco conhecido.
Minha luta (Mein
Kampf) de Adolf Hitler é o livro tabu por definição. Banido na Alemanha desde o
fim da Segunda Guerra Mundial, no último dia de 2015 ele cai em domínio público
na Europa. Assim, estaria aberto o caminho para sua reedição, comentada ou não.
No entanto, órgãos governamentais querem manter a proibição,
alegando tratar-se de um panfleto de incitação racista. Apenas recentemente o
Instituto de História Contemporânea (IfZ, na sigla em alemão) conseguiu impor
definitivamente sua intenção de lançar uma edição histórico-crítica.
O misto de panfleto e autobiografia que o futuro ditador
nazista lançou em dois volumes, em 1925 e 1926, voltou agora às manchetes.
Juntamente com outros itens hitleristas, uma casa de leilões de Los Angeles
anunciava para esta quinta-feira (26/03) a venda online de dois volumes da
primeira edição, assinados por Hitler e presenteados a um dos primeiros
seguidores de seu Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores.
A casa de leilões classificava o lance inicial de 35 mil
dólares como "um pouco cauteloso", considerando-se que um comprador
pagou 64.850 dólares por um conjunto semelhante em 2014. No entanto, a
transação não se concretizou, pois a "pechincha" não encontrou nenhum
comprador.
A Deutsche Welle entrevistou o sociólogo Horst Pöttker,
ex-docente de jornalismo da Universidade de Dortmund e professor emérito da
Universidade de Hamburgo. Para o projeto Zeitungszeugen 1933-1945, de
reprodução de matérias jornalísticas da era nazista, ele comentou trechos de
Mein Kampf, mas sua publicação, planejada para janeiro de 2012, foi sustada.
DW: Uma edição autografada do Minha luta foi leiloada em Los
Angeles, com lance inicial de 35 mil dólares. O que o senhor acha de leilões
desse tipo?
Horst Pöttker: Isso é um comércio de relíquias obsceno. Sou
totalmente contra, mas também sei, claro, que no contexto da livre economia é
impossível proibir algo assim.
O que aparentemente se pode proibir é a publicação na
Alemanha do panfleto agitador de Hitler. A partir de 1º de janeiro de 2016,
caem os seus direitos autorais. Ainda assim, em meados do ano passado, as
secretarias estaduais de Justiça alemãs decidiram seguir interditando a
divulgação do livro. O que o senhor pensa dessa decisão?
É preciso tomar cuidado com a palavra "proibir".
Não é proibido ler esse livro: pode-se vê-lo em bibliotecas. Tampouco existe
uma lei penal proibindo sua reedição. Mas há direitos autorais, e eles ficam no
nome do autor da obra por 70 anos [após sua morte].
Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados
transferiram os direitos de Mein Kampf da Editora Eher para o estado da
Baviera. Dentro de uns nove meses, o livro entra em domínio público. Se os
secretários de Justiça deliberaram proibir a reedição em alemão e na Alemanha,
eles precisam fazer uma lei que proíba a difusão. Até agora, não vi isso acontecer.
Os secretários da Justiça dizem que o crime de incitação
popular basta para impedir uma publicação. O senhor concorda que o livro contém
incitação?
Não concordo, pois, na minha opinião, esse livro é um
documento histórico. Não é um texto político atual. Podem-se declarar
anticonstitucionais textos redigidos após a entrada em vigor da Constituição: o
que foi feito antes são documentos históricos.
De resto, não considero inteiramente procedente o termo
"panfleto de incitação popular", pois, em parte, ele não é tão
incitador assim. Conhecer esse livro é útil para entender por que tanta gente
seguiu o nazismo nos anos 1930 e também 1920.
O então presidente Theodor Heuss já dizia na década de 50
que se devia publicá-lo, para que os alemães soubessem como os nazistas
pensavam e de que crimes eram capazes.
Qual é o conteúdo de Minha luta?
A argumentação que permeia o livro é a ideologia racial. Em
primeira linha, trata-se da luta entre as "raças" germânica e
judaica. A "raça judia" é, para Hitler, o principal inimigo, que cabe
combater e exterminar, em nome da autopreservação.
Portanto, já em 1925, quando ele foi lançado, se podia saber
que os nazistas planejavam exterminar a "raça judia". Até o fim da
guerra, foram impressos 13 milhões de exemplares. O argumento de muitos
alemães, depois de 1945, de que as pessoas não sabiam de nada, é, assim,
improcedente.
O Instituto de História Contemporânea de Munique trabalha há
anos numa edição comentada, que, depois de muito vaivém, possivelmente vai sair
no início de 2016. Não seria esta a solução certa, impedir edições não
comentadas, mas permitir as comentadas?
Não precisamos de uma edição histórico-crítica – muito menos
de uma que custa tanta verba pública –, porque não temos necessidade de saber o
que o autor Adolf Hitler queria dizer exatamente. "Histórico-crítico"
também significa, afinal, compreender diferentes camadas do desenvolvimento do
texto. Será que filologia textual é realmente importante, aqui? Na minha
opinião, é importante um público amplo finalmente ficar conhecendo o conteúdo
desse livro e desenvolver uma avaliação realista, criticamente fundamentada.
O senhor mesmo trabalhou há alguns anos num comentário de
Mein Kampf para o projeto Zeitungszeugen, antes que ele fosse sustado pela
secretaria de Finanças da Baviera. Qual era a intenção do Zeitungszeugen, ao
publicar o panfleto do ditador e genocida?
Deutschland Presse Zeitungszeugen Hitlers Mein
Kampf am Zeitungskiosk
Anúncio de "Zeitungszeugen": "Em breve: o
livro que ninguém deve ler. Leia-o"
Nós havíamos planejado três brochuras com excertos de Minha
luta, comentados por mim. Minha meta era esclarecer a respeito desse livro e
responder à pergunta: por que tantos alemães o compraram e leram. E por que
seguiram o que constava dele. Eu queria examinar os argumentos aparentemente
atraentes de Hitler, buscando sua pertinência, e mostrar, justamente, que eles
não são pertinentes, por só serem plausíveis no contexto de uma ideologia
brutalmente racista.
Eu temo que, no momento em que esse livro seja lançado, ele
adquira uma certa atratividade, por todos estarem munidos da falsa noção de que
se trata exclusivamente de um panfleto grosseiro, onde o mal se anuncia
imediatamente, por toda parte. Não se devia tê-lo mantido tabu por tanto tempo.
Eu queria combater isso com a publicação dos trechos e das explicações.
Em outros países, a difusão de Mein Kampf não é, em
absoluto, problemática – veja-se o leilão de uma edição autografada nos Estados
Unidos. Por que os alemães têm tantos problemas com o livro de Hitler?
Impedir que esse livro seja lido por muitos na Alemanha,
fazendo justamente uso do direito autoral, é um absurdo. Isso quase lança a
tese de que os alemães são mais seduzíveis do que outras nações. Eu, realmente,
torço para que os nossos políticos não sejam dessa opinião, mas sim que – 70
anos após o fim desse terrível regime – confiem que os alemães possuem
maturidade suficiente.
Pode-se comprar o livro por todo o mundo em traduções; com
as tecnologias digitais é até bem fácil ter acesso a elas. Não percebo o que se
pretende com a planejada proibição. Quem vem da [extrema] direita, consegue o
livro, de qualquer jeito.
Autoria Sarah Judith Hoffmann (av)
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1920: Nacional-socialistas criam tropa de segurança
A tropa de segurança do NSDAP (Partido Nacional Socialista
Alemão dos Trabalhadores) foi criada no dia 12 de novembro de 1920,
transformando-se mais tarde na SA (Seção de Assalto) da organização.
Seção de assalto, suporte do terror nazista
Gritando palavras de ordem, uniformizados e usando coturnos
pesados, os integrantes da tropa de segurança do NSDAP (Partido Nacional
Socialista Alemão dos Trabalhadores, o partido nazista) marchavam pelas ruas das
cidades alemãs. Na sua maioria, eram recrutados entre os jovens desempregados,
para os quais a nova República de Weimar não tinha mais qualquer sentido.
A Alemanha tinha sido derrotada na Primeira Guerra Mundial.
O desemprego era catastrófico. Quinhentos quatrilhões de marcos estavam em
circulação, mas as pessoas não tinham dinheiro suficiente no bolso – nem mesmo
para comprar manteiga para o pão.
A situação era propícia para um demagogo como Adolf Hitler,
que pôde facilmente incutir nos jovens inseguros e insatisfeitos a sua
ideologia, da mesma forma como os convencia a vestir as camisas marrons, que
tinham sido o uniforme das tropas imperiais alemãs na África oriental. A tropa
de segurança do NSDAP foi criada no dia 12 de novembro de 1920, transformando-se
mais tarde na SA (Seção de Assalto) da organização.
"Camaradas, agora vamos juntar até a última força. O
coração tremendo, o peito erguido, o punho cerrado, o sangue fervendo. O ódio e
a raiva nos movem. Nós temos de vencer. O inimigo tem de ser derrotado. Nós nos
mantemos coesos: homem por homem", ditava o juramento de lealdade dessa
tropa armada de combate, segurança e propaganda.
Assembleias em cervejarias
O berço da posterior organização de massa nazista foi
Munique. O partido de Adolf Hitler começou a promover assembleias cada vez mais
concorridas nas cervejarias da cidade. E, como os outros partidos, necessitava
de uma tropa de segurança para fazer frente aos que perturbavam as reuniões.
Desde o seu início, a SA foi um dos suportes do terror nazista. Tumultos,
agitações de caráter antissemita, badernas na rua e em espaços fechados, lutas
contra comunistas e social-democratas e até homicídios eram as armas da
organização.
Conluios entre membros da SA e criminosos eram fatos
corriqueiros. Em 1930, um líder da organização, Horst Wessel, frequentador
assíduo da zona de prostituição de Berlim, foi assassinado a tiros durante uma
briga. A SA aproveitou a situação, transformando-o em mártir: "Vamos
vingar a morte do nosso Horst Wessel e de todos os que eles tiraram de nossas
linhas de combate. Que seu espírito nos guie, para que possamos conseguir
aquilo pelo qual eles deram suas vidas."
Em 30 de janeiro de 1933, o dia em que o idoso presidente
Paul von Hindenburg passou o poder para as mãos de Adolf Hitler, 300 mil homens
usavam as camisas marrons da SA. Daí em diante, o número de membros da
organização cresceu vertiginosamente. Mais de quatro milhões de pessoas
passaram, com o tempo, a fazer parte da maior organização de massa do Terceiro
Reich.
Último líder ativo na política até 1961
Seu tempo de glória, no entanto, já havia passado. Depois
que o novo regime se estabeleceu, as camisas marrons tornaram-se uma pedra no
caminho dos governantes nazistas. Hitler queria demonstrar seriedade e tentava
aproximar-se dos conservadores.
Nesse contexto, não era adequada uma tropa de assalto, que
dizia palavras de ordem do tipo: "Mesmo que o inimigo ainda reaja de forma
feroz e busque ajuda até do diabo; mesmo que ele se contorça como uma cobra,
cuspindo veneno. Nós não nos deixamos enganar: a tempestade começa, o dia
amanhece. Milhões de homens, que querem vencer ou morrer, apresentam-se armados
para entrar em ação."
Em 1934, Hitler mandou executar o líder da organização,
Ernst Röhm. A partir de então, a SA passou a exercer apenas um papel secundário
no sistema nazista. Seu último líder, Wilhelm Schepmann, escapou de uma
condenação pela Justiça alemã do pós-guerra. Como muitos outros colaboradores
menores do regime nazista, ele acabou trabalhando, discretamente, para o governo
de Konrad Adenauer, o primeiro eleito democraticamente na Alemanha do
pós-guerra.
Talvez Schepmann acreditasse que tinha razão. Pois, afinal,
tinha obrigado seus correligionários a jurar: "Então vai chegar de novo o
dia da liberdade, em que um novo povo ressurgirá. Canções alemãs ecoarão e as
terras alemãs serão libertadas." Ele atuou como político regional do
partido BHE, que representava os alemães expulsos da Europa oriental, e só se
retirou da política no ano de 1961, quando as críticas a seu passado se
tornaram públicas e veementes.
Autoria Gerda Gericke (sv)
Link permanente http://dw.com/p/1MXq
1920: Lançado o programa do partido de Hitler
Em 24 de fevereiro de 1920, o Partido Alemão dos
Trabalhadores apresentava um programa nacionalista, antissemita e
anticapitalista. No mesmo dia, tornou-se Partido Nacional-Socialista Alemão dos
Trabalhadores (NSDAP).
Cartão de filiação no
partido de Hitler
"Essa risível pequena criação, com seus poucos
filiados, me pareceu ter a vantagem de ainda não ter se solidificado numa
'organização'. Aqui ainda se podia trabalhar, e, quanto menor o movimento
fosse, tanto mais ele estaria apto para ser conduzido à forma certa. Aqui o
conteúdo, o objetivo e o meio ainda podiam ser determinados." Palavras de
Adolf Hitler em seu livro Mein Kampf (Minha luta).
A "risível pequena criação" mencionada era o
Partido Alemão dos Trabalhadores (DAP), no qual Hitler ingressou em setembro de
1919. Como narra o historiador Eberhard Jäckel, de Stuttgart: "Era
realmente um grupo muito pequeno e insignificante de Munique. Chamava-se então
Partido Alemão dos Trabalhadores. Hitler entrou em contato com ele apenas
alguns meses depois da fundação".
Adolf Hitler fazia parte de um comando militar que passou a
controlar Munique após o breve período de regime socialista ali instaurado por
Kurt Eisner, assassinado em fevereiro de 1919. Nesse mesmo ano, Hitler
filiou-se ao pequeno partido, fundado pelo ferroviário Anton Drexler e o jornalista
Karl Harrer. Não demorou para que assumisse a chefia do departamento de
propaganda da agremiação. Sua influência sobre o partido foi tão grande, que
escreveu de próprio punho o programa de 25 pontos, apresentado em 1920.
Reivindicações populistas
O programa exigia, em primeiro lugar, a unificação de todos
os alemães numa Grande Alemanha. Exigia a aquisição de colônias e o
cancelamento do Tratado de Versalhes, que selara a derrota alemã na Primeira
Guerra Mundial. Além disso, só teria o direito de ser cidadão alemão quem
tivesse "sangue alemão". Os não alemães não teriam acesso aos órgãos
públicos e estariam sujeitos a leis especiais.
As diretrizes socialistas do programa concentravam-se na
estatização das empresas e na exigência de participação nos lucros de grandes
firmas. No aspecto da política interna, citava apenas palavras de ordem, sem
oferecer estratégias definidas. Pregava, por exemplo, o combate "à mentira
política" ou "melhorias na saúde da população".
Em suma, um apanhado de reivindicações populistas,
apresentadas na época diante de 2 mil pessoas, na famosa cervejaria Hofbräuhaus
de Munique. Hitler aproveitou para mudar o nome da facção para Partido
Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores (Nazionalsozialistische Deutsche
Arbeiterpartei – NSDAP). Da abreviatura "Nazi", pela qual passou a
ser identificado, vem o termo "nazista".
O pequeno grupo nazista começou a arregimentar elementos das
mais variadas tendências e classes sociais. O próprio partido se via como
"movimento", que representava os anseios da população. Um movimento
em que Hitler foi tomando as rédeas, até assumir a presidência, em 1921.
Dois anos depois, fracassou na tentativa de golpe que ficou
conhecida como "o putsch da cervejaria de Munique", para derrubar a
República de Weimar. Hitler foi condenado a cinco anos de prisão, mas só
cumpriu nove meses.
Resolveu então chegar ao poder através de eleições, e
começou a reorganizar seu pequeno partido. Na grave crise econômica de 1929, a
classe média e os industriais, temerosos do avanço do comunismo, viram a
salvação nos nazistas. Em 1930, o partido foi o segundo mais votado no país,
com 6,5 milhões de votos.
Heinz Dylong (rw)
Link permanente http://dw.com/p/1s0n
O grupo majoritário de políticos em Brasília que tenta fugir
da cadeia promoveu, em 2015, o impeachment de Dilma. Temer pensou que a obra
fosse ele.
O grupo majoritário de políticos em Brasília que tenta fugir
da cadeia promoveu, em 2016, a manutenção ou retorno de políticos denunciados a
cargos de primeira escalão do governo. Temer pensou que o governo fosse dele.
O grupo majoritário de políticos em Brasília que tenta fugir
da cadeia articulou as eleições da presidência da Câmara e do Senado. Temer
pensou que era a ação da força política dele.
O grupo majoritário de políticos em Brasília que tenta fugir
da cadeia sustentou a nomeação do novo ministro do STF. Temer pensou que a
indicação fosse dele.
Agora, de tanto pensar que manda, Temer resolveu indicar um
ministro da justiça sem ouvir o grupo majoritário de políticos de Brasília que
tenta fugir da cadeia. Parece que Temer vai pular miudinho nos próximos dias de
folia.
A solução que ele já apresentou foi criar mais um ministério
para atender a demanda dos parlamentares descontentes com Serraglio. Nada
coerente com o discurso de moralidade do governo e de oposição à política de
troca de ministérios por apoios. Mas, isso, Temer nunca achou que tivesse mesmo.
Emerson Urizzi Cervi
Oyfn Pripetchik
(written by
Mark Warshavsky)
אױפֿן פּריפּעטשיק
Oyfn
pripetchik brent a fayerl,
un in shtub
is heys.
Un der rebe
lernt kleyne kinderlakh
dem
alef-beyz.
Zet zhe
kinderlakh,
gedenkt zhe, tayere, vos ir lernt do.
Zogt zhe
nokh a mol un take nokh a mol:
"Komets-alef:
o!"
Lernt
kinderlakh, lernt mit freyd,
lernt dem
alef-beyz.
Gliklekh is
der Yid, wos kent die toyre
un dos
alef-beyz.
ENGLISH
TRANSLATION:
At the
fireplace
(Yiddish
Translation)
At the
fireplace a little fire burns
And in the
room it's warm.
And the
Rabbi teaches little children
the
aleph-bet
See you
children-dear,
remember
dear, what you're learning
here.
Say once
again, and then once again,
"Komets-alef:
o!"
Children,
learn with happiness,
learn the
aleph-bet.
Lucky is
the jew who knows the Torah.
and the
aleph-bet.
Note: At
the end of the video are TWO POLISH JEWS paintings. "'Samuel Goldenburg
and Schmuyle' were two Polish Jews and were originally the subjects of two
separate paintings by Victor Hartman. Mussorgorsky combined the essence of the
two paintings into one movement, perhaps to emphasize a rich man/poor man
contrast. Samuel Goldenburg, probably large, well dressed and rich, is
represented by the first tune in the movement. Schmuyle on the other hand is
represented by a piercing, troubled-sounding melody, making him 'appear' to be
thin and poor." MUSSOGORSKY : PICTURES AT
Mark
Warshavsky
Mark
Markovich Warshavsky -- folk poet, was born in Zhitomir ca. 1845*, died in Kiev
in 1907. He graduated from the Kiev University and practiced law in Kiev. In
spare time Warshavsky liked to compose and sing Yiddish songs. He wrote lyrics
and music for these songs simultaneously. Assuming that his songs have no
artistic value, Warshavsky did not record them. Later, following Sholom
Aleychem's advice, Warshavsky published his first 25-song collection
"Judische Volkslieder" with Sholom Aleychem's enthusiastic preface.
Music to these songs was published shortly thereafter. Warshavsky's book was a
great success, many of his songs became very popular and were regarded as folk
songs (for example, "Der Alef-Beis", "A Brif fun Amerike",
"Der Zeide mit der Babe"). Warshavsky's songs ingenuously and
emotionally embody the motifs of Jewish folk poetry, whose spirit the author
grasped so precisely. Warshavsky's work is inseparably linked with the life of
his people, with all their sufferings and joys. People's tears ("Tsum
badekens der Kale"), and sadness ("A Yidish Lid fun Ruminien"),
pogroms ("Peisach"), poverty ("Neben Klaisel"), and
immigration ("A Brif fun Amerike", "Di shif") find a
response in Warshavsky's songs. But these sad motifs are alleviated by the
presence of special spiritual courage. Jewish hero of Warshavsky's songs is an
optimist. Suffering could not restrain their deep believe in better future,
suppress theirs joyous sense of life: "Suffer and sing". Warshavsky's
songs are warmed by touching love to the "Yidishe Gas" (Jewish
Street) with its simple way of life. Stuffy cheder, where Jewish children study
AlefBeis, Jewish wedding rituals ("Tsum badekens"), family
anniversaries ("Der Zeide mit der Babe") - all
this
cherished and familiar to the author. The language of the songs is simple and
open-hearted. It is an authentic dialect spoken in Volyn. The metre of the
verses is not always sustained, form is quite diverse, poem's structure and
rhyme is folk and gentle. Melodies are graceful, intimate and in full harmony
with the text. Sincere melody of the "A Brif fun Amerike" makes
especially strong expression. Many Warshavsky's poems remain unpublished.
* in 1840,
1845, or 1848 according to different sources.
Adopted
from the article by Noah Prilutsky (1882-1944), Yiddish linguist and
folklorist, in Evreiskaia entsiklopediia. S.-Peterburg: Obshchestvo Dlia
Nauchnykh Evreiskikh Izdanii, Brokhaus-Efron, 1906-13. Translated into the
English by Shura Vaisma""
sábado, 18 de fevereiro de 2017
Cântico negro
José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos
doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis
Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra,
ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores
da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo,
ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a
mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de
Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que
viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o
espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de
todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da
sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
Moçambique
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Muitas vezes, vejo estudantes com talento e potencial
travarem na hora de escrever. Não estou falando da procrastinação inicial. A
pessoa já desligou o Netflix, já desistiu de organizar as canetas pela enésima
vez, já largou desse facebook, está pronta para trabalhar, mas tem um bloqueio
quando vê a tela em branco. Passa horas em frente a ela e, no final, não
batucou nenhuma tecla. Ou faz com que o trabalho funcione como forma de sempre
adiar este momento.
Não sei até que ponto dar “bons conselhos” ajuda a superar a
situação – sempre que vejo a expressão, lembro da frase de La Rochefoucauld,
“os velhos dão bons conselhos porque não conseguem mais dar maus exemplos”.
Mas, de qualquer maneira, alinhavei meia dúzia dicas que podem ser úteis:
1. Pare de ler. Colocar uma pilha de textos na sua frente e
pensar “antes tenho que ler isso” é a melhor maneira de nunca escrever. Cada
texto lido aponta para novos textos, num processo que nunca acaba. É necessário
dimensionar o mergulho na literatura existente, de acordo com o tempo para
realização do trabalho, estabelecendo prioridades e lembrando sempre que o
objetivo não é uma erudição vazia (saber “tudo” o que se escreveu sobre
determinado assunto), mas construir um argumento consistente. Aqui e ali, a
própria escrita vai eventualmente exigir uma leitura adicional (a palavra
crucial da frase é “eventualmente”).
2. Prepare um roteiro. O tempo que se gasta preparando um
“esqueleto” do texto a ser escrito é amplamente recuperado depois. Um roteiro
da construção do argumento solidifica a organização das ideias e dá direção à
escrita, já que sabemos para onde estamos indo. Quem tende a ser muito prolixo
ou se perder em caminho laterais pode, junto ao roteiro, indicar quantos
parágrafos ou quantas laudas vai dedicar a cada item.
3. Atropele os detalhes. Uma armadilha frequente é parar de
escrever para pesquisar uma informação secundária. Pode ser bacana saber qual é
a proporção de mulheres na câmara baixa do parlamento de Ruanda, em que data a
cidade da Paraíba mudou o nome para João Pessoa ou o nome do meio do agente
Ethan Hunt, mas isso é realmente crucial para o desenvolvimento do seu
argumento? Se não é, deixe marcado, prossiga e pesquise depois. (Em tempo: as
respostas são 63,8%, 4 de setembro de 1930 e Matthew. Eu parei aqui para
pesquisar...)
4. Abandone o perfeccionismo. Convém aceitar logo de cara
que seu texto não vai ficar perfeito. Se eu só vou escrever se estiver
perfeito, já estou assumindo que nunca vou escrever nada. A exigência de
perfeição leva à paralisia. Em geral, enquanto estamos escrevendo, temos alguns
momentos em que achamos que somos geniais e outros, mais frequentes, em que
tudo parece imprestável. Normalmente o resultado está em algum ponto entre os
dois extremos. A palavra escrita é menos maleável, mais definitiva do que a
fala, por isso nos expõe mais. São os ossos do ofício e o único consolo é
pensar que estamos bem acompanhados: não há nenhum autor que se livre da
imperfeição.
5. Seja claro. A escrita é uma forma de comunicação; nela, a
clareza é ainda mais necessária do que na expressão oral, uma vez que o
receptor não pode interromper e pedir esclarecimentos. Infelizmente, o ambiente
acadêmico muitas vezes estimula o discurso empolado, que parece profundo quando
é apenas obscuro e confuso. A obscuridade impede o debate de ideias, porque
impede o acesso às ideias que deveriam ser debatidas. (Um grande cientista
político, James Scott, escreveu certa vez: “Sou acusado com frequência de estar
errado, mas raras vezes de ser incompreensível”.) Na verdade, esse conselho tem
pouco a ver com ficar travado na hora de escrever, mas é tão importante que tem
que ser repetido sempre que possível.
6. Escreva. O melhor caminho para superar o bloqueio é
escrever: da forma que passar pela cabeça, mesmo que depois tenha que ser
refeito de cabo a rabo. Sente na frente do computador e comece a escrever,
imediatamente. Não precisa de “inspiração”, não precisa de nenhum estado de
espírito especial: é um trabalho. Uma alternativa é estabelecer metas diárias e
se obrigar a cumpri-las (metas realistas; não adiante dizer que vai produzir a
Crítica da razão pura no final de semana). Escrever, mesmo que de forma
insatisfatória, rompe com a mistificação sobre o ato da escrita que gera o
bloqueio.
Luis Felipe Miguel
domingo, 12 de fevereiro de 2017
O que o início de 2017 mais uma vez comprova é que o Brasil
é incompatível com um governo de direita. O caos, a crise e a ingovernabilidade
na perda de salários, direitos e o aumento da corrupção também revelam que não
existe golpe de direita contra governo de direita. O General Newton Cruz não
conseguiria o golpe contra o General Figueiredo e as Diretas Já. O General
Sílvio Frota não conseguiria o golpe contra o General Geisel e a Abertura. Hoje
a extrema direita é sócia e integrante do desgoverno do temer. Bolsonaro e
outros extremistas elegeram diretamente esse bando golpista no poder. Um golpe
de direita só existe contra governos de esquerda, tipo Jango, Allende e outros.
As forças empresariais, jurídicas e políticas de direita, que apoiariam outro
golpe de direita já estão no poder e se afundando juntas. O PSDB golpista
cresceu nos ministérios, hoje com 5 e está fundido com Temer. O PSDB é para o
PMDB golpista o que o PMDB foi para o PT ganhador das eleições, um bando de
traíras querendo mais poder, com chantagens nos bastidores. Um golpe de extrema
direita contra os golpistas significaria o imediato nocaute e colapso de toda
direita, o que Newton Cruz ficou com medo no desastre do Governo de Figueiredo,
em 1984, quando a ditadura se desmoronava em todas as frentes. Temer já
fracassou miseravelmente, total insegurança jurídica e política, total
desagregação político-moral e se conseguir ser um Sarney no quinto ano, ou um
Figueiredo piorado, será muita sorte para o bloco golpista, caso não sejam
expulsos do poder pelo povo via movimentos sociais e por movimentos
redemocratizadores vindos de dentro do Estado, como a Revolução dos Cravos, de
1974.
Ricardo Costa de Oliveira
De todas as medidas perversas e reacionárias de Greca na
prefeitura, uma das mais socialmente regressivas foi a eliminação da passagem
de ônibus domingueira, com o aumento de 2,50 para 4,25. Outra verdadeira
política de expulsão dos trabalhadores e pobres do centro e dos bairros com
mais equipamentos coletivos urbanos, lazer, diversões e cultura. Os excluídos,
principalmente os negros, os mais jovens e as mulheres, que utilizavam a
domingueira, devem ficar estagnados e isolados nas periferias abandonadas e
desassistidas pelo capital, pelos governos e pela prefeitura. A violência
aumenta na falta de políticas públicas para essa juventude oprimida.
Ricardo Costa de Oliveira
Só para leitores
"Eu tomo um remédio para controlar a pressão.
Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.
Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o
'preção.'
Tô sofrendo de 'preção' alto.
O médico mandou cortar o sal. Comecei cortando o médico, já
que a consulta era salgada demais.
Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico.
Sério!
Não sei mais o que é real.
Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no
banco.
Não tem mais um Real.
Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as
coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!
Aquela viagem? Esquece!
Tudo o que o presidente prometeu? Esquece!
Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao
meu time:
- nas últimas.
Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala
perdida...
Entra por um ouvido e sai pelo outro.
Faz diferença...
'A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a
República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo'
'Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não
tem remédio'."
(LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO)
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