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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Parem o Brasil que eu quero descer!



"Até anteontem eu tinha sido poupado do conhecimento da existência de Italo Marsili. É um psiquiatra que ganhou certa notoriedade nos círculos da extrema-direita mais desvairada, em particular no olavocatolicismo. Num episódio que causou reboliço, mas que tinha passado batido para mim, ele se gabou que tinha "curado" um pedófilo mandando-o procurar prostitutas com aspecto infantil.
Acho que isso basta para ver a laia do sujeito.
Agora, ele, que se autointitula "o médico mais famoso do Brasil", o que por si só já indica um distúrbio de autoimagem meio sério, está em campanha para ser o novo ministro da Saúde. Alardeia sua lealdade canina a Bolsonaro como principal atributo. É uma palhaçada, claro - nem Bolsonaro terá coragem de colocar um clone de Weintraub no Ministério da Saúde em meio à pandemia. Mas ganhou reforço de olavetes, imagino que também de alguns robôs, e chegou aos trending topics do Twitter.
Supus que ele tinha um currículo pífio, como é a regra com esse pessoal. Mas não. Tá lá no Lattes: ele não apenas assistiu a várias palestras como morou com Olavo na Virgínia. Morou! Sob o mesmo teto!
Eu entendo a lógica: co-habitação = osmose. Só não sei como isso o credencia para ministro da Saúde. Se ele estivesse buscando um cargo nas áreas de astrologia, picaretagem ou mau-caratismo, aí sim."
Luis Felipe Miguel

quarta-feira, 18 de março de 2020


"Colunistas da imprensa conservadora e políticos de direita, como Rodrigo Maia, reclamam por medidas de enfrentamento da crise econômica e contam com o SUS para resistirmos ao coronavírus.

Todos apoiaram com entusiasmo a emenda de congelamento dos gastos públicos e todas as políticas de destruição do Estado brasileiro.

Cadê a famosa autocrítica, que eles tanto cobram de outros?"

Luis Felipe Miguel

sexta-feira, 12 de julho de 2019


Estamos testemunhando a destruição de um país.

Destruição de sua democracia, de sua economia, de seu povo, de suas esperanças.

O que nos aguarda no futuro, a continuar nesse passo, é um Estado policial, para conter a multidão de miseráveis, enquanto a “elite”, sócia minoritária do capital transnacional, desfruta do sol de Miami.

Há, nessa destruição deliberada, uma boa participação dos interesses de fora, mas essa destruição não seria possível sem a colaboração ativa dos locais.

Empresariado predatório, classe política vendida, mídia amoral, cúpula militar arrivista.

Sem esquecer, claro, de 58 milhões de pessoas estúpidas e perversas, que colaboram para sua própria tragédia a fim de satisfazer sua maldade.


Luis Felipe Miguel

terça-feira, 9 de julho de 2019

Pequena lição de economia contemporânea.




Em 1703, o embaixador britânico John Methuen e o Marquês de Alegrete, representando o Reino de Portugal, firmaram o tratado que passou à história com o nome do primeiro.

O tratado é um documento curto, de meia dúzia de linhas. Determina que Portugal não cobrará impostos de importação de têxteis ingleses. Em troca, a Inglaterra não cobraria impostos dos vinhos portugueses.

O volume de exportação dos "panos" ingleses para Portugal era muitas vezes maior que o volume de exportação de vinhos portugueses para a Inglaterra. Mas essa nem foi a mais grave consequência do tratado.

Ele matou a nascente indústria têxtil portuguesa - lembrando que, na época, a indústria têxtil era o carro-chefe da industrialização. Quanto à indústria vinícola inglesa, ela não existia nem poderia existir, até por questões climáticas.

É possível elencar muitas razões para a decadência e o atraso de Portugal a partir do século XVIII. Em qualquer listagem, porém, o tratado de Methuen aparece com destaque.

Não foi ruim para todos, claro. O Marquês de Alegrete, que foi o principal negociador português do tratado, por exemplo, era um grande produtor de vinhos.

Luis Felipe Miguel

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Um governo de recordes



Até onde posso ver, o atual governo está batendo todos os recordes.

Já tivemos ministros da Educação de todos os feitios, inclusive péssimos: ultra-autoritários, como Francisco Campos e Gama e Silva, ou ignorantes, como Mendoncinha. Tivemos Suplicy de Lacerda, notório inimigo dos estudantes, defensor da educação como forma de adestramento. Tivemos negocistas como Jorge Bornhausen. Tivemos Cristovam Buarque, de notável incapacidade administrativa e vazio de ideias. Sofremos o longo reinado de Paulo Renato, adepto da ideia de que educação é, em primeiro lugar, despesa. Era também um grande amigo do ensino privado, como vários outros, entre eles Cid Gomes. Poucos são aqueles de quem se pode dizer que estiveram sempre, sem vacilo, ao lado da educação pública, gratuita e emancipadora. Mas um lunático agressivo como Weintraub nos coloca em outro patamar. Perto dele, qualquer outro se torna um erudito iluminista. Incapaz de sustentar um argumento, inimigo da lógica mais elementar, com um conhecimento do mundo que parece alimentado exclusivamente por youtubers de extrema-direita, repleto de ódio ao saber, de preguiça intelectual e de ressentimento pela academia, atormentado por bizarras visões conspiratórias: só neste governo alguém assim poderia ocupar um cargo.

O ministério da Justiça era, na ditadura, o espaço por excelência dos algozes da democracia, de Gama e Silva a Alfredo Buzaid e Armando Falcão. Pois Moro não deve a nenhum deles em termos de desprezo pela democracia e ainda acrescenta a suprema incompetência em matéria de Direito, a inigualável desfaçatez e a vocação serviçal.

Pelo ministério da Economia - ou da Fazenda, o nome muda - passaram monumentos de arrogância: Roberto Campos, Delfim Netto, Zélia Cardoso de Mello. Nenhum é páreo para Guedes. Passaram muitos próceres de projetos de destruição do povo brasileiro, chegando a Joaquim Levy. Guedes põe todos no chinelo. Até um recorde considerado imbatível, que pertencia a Mailson da Nóbrega, o da incompetência na gestão da economia, está sob ameaça. Como escreveu Luis Nassif, é "um ministro sem a menor noção do mundo real, movendo-se exclusivamente pela ideologia".

Um criminoso ambiental no Ministério do Meio Ambiente. Uma apóstola do machismo no Ministério da Mulher. Um alienado delirante, que anuncia que seu objetivo maior é a submissão plena do Brasil aos Estados Unidos, no Itamarati. Uma ministra da Agricultura cujo projeto é nos envenenar a todos. Um Onyx Lorenzoni na Casa Civil. O maior plantel de militares saudosos de uma ditadura que já chegou ao poder em um país formalmente democrático.

E, na presidência, o que todos sabemos.
Luis Felipe Miguel

domingo, 2 de setembro de 2018

COM O SUPREMO, COM TUDO




"Permitindo a terceirização irrestrita, o Supremo deu seu aval a mais uma etapa da desproteção total da classe trabalhadora no Brasil - um projeto central do golpe.

Quatro dos sete ministros que viabilizaram este ataque brutal aos direitos do trabalho chegaram à corte por nomeação de governos de um partido dos trabalhadores. É só um lembrete de que a política de menor atrito com os interesses dominantes pode evitar problemas no curso prazo, mas os multiplica depois."

Luis Felipe Miguel


"Luís Roberto Barroso merece ser estudado. Não por ele próprio, mas como uma trajetória emblemática daquilo que leva ao sucesso no campo jurídico-político brasileiro atual.

Por um lado, ele é uma demonstração quase caricata dos atributos do nosso renitente bacharelismo. A vaidade gigantesca e indisfarçável. O discurso pomposo, arrogante e vazio de ideias. O gosto pelas palavras altissonantes. Até mesmo o jeito de torcer a boca para pronunciar nomes estrangeiros.

Barroso também é ilustração perfeita da tese, no entanto controversa, do caráter fake de nossos valores políticos dominantes. Ostenta a toga de herói do liberalismo, mas não esconde seu desprezo pelos direitos e horror a qualquer forma de igualdade. Posa de iluminista, mas é guardião das trevas. Paladino intransigente da moral, defende com unhas e dentes benefícios imorais para o seu grupo e o vale-tudo contra os adversários.

Visto por outro ângulo, ele pode ilustrar a ideia de 'neoliberalismo progressista', colocada em circulação por Nancy Fraser. Há uma adesão a teses progressistas no âmbito da vida privada, que lhe permite manter uma fachada de homem de seu tempo, mas que se combina ao reforço de uma estrutura social extremamente excludente e autoritária.

O mais interessante, porém, é pensar por que, com tantos candidatos ao posto na política eleitoral (está aí o Álvaro Dias que não me deixa mentir), o espírito do lacerdismo decidiu reencarnar em um político togado. Desconfio que isso nos diz bastante coisa sobre a dinâmica recente da política brasileira."

Luis Felipe Miguel

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A manobra do TSE


"A manobra do TSE que ameaça impedir a campanha de Lula na TV - uma candidatura registrada e, até o momento, perfeitamente regular, já que não houve julgamento do pedido de impugnação - mostra o grau de desespero do golpismo. Não há nenhuma intenção sequer de manter as aparências. Se depender deles, a eleição de outubro será algo parecido com as eleições indiretas da ditadura militar: um mero ritual, desprovido de qualquer capacidade de legitimar um novo governo."

Luis Felipe Miguel

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A mídia corporativa faz um esforço gigantesco para transmitir a impressão de que o julgamento de Porto Alegre encerrou o jogo.


 A narrativa quase unânime em suas páginas diz que a justiça foi feita, as culpas foram provadas, a isenção do julgamento está acima de suspeita. Agora, trata-se de continuar o jogo. Por isso, o noticiário foca no "plano B" do PT e nos preparativos para a prisão de Lula.

Na tentativa pueril de esconder sua parcialidade de sempre, a mídia dá a entender que a certeza quanto à lisura do processo vem da "qualidade" do trabalho do TRF-4. Chega a ser constrangedor ver colunistas que foram entusiastas da perseguição a Lula desde seus primórdios escrevendo coisas como "eu tinha dúvidas sobre a sentença de Moro, mas os votos dos desembargadores esclareceram tudo".

Uma legião de juristas já demonstrou, com mais propriedade do que eu seria capaz, os vícios do julgamento de Lula. Ausência de provas, cerceamento do direito de defesa, constrangimento ilegal a testemunhas, enquadramento em crimes inexistentes no código penal, desvio de foro, parti pris contrário ao réu... Não falta nada. Para o condomínio golpista, porém, é fundamental impedir que estes questionamentos sejam levados em conta.

O subtexto é que, sendo justo o julgamento de Lula, é justo todo o processo político-judicial brasileiro dos últimos anos - incluídos, é claro, o golpe que derrubou Dilma Rousseff e seus desdobramentos. E será justa também a eleição de outubro, embora privada do candidato favorito.

A continuidade do processo judicial de Lula, com recursos às cortes superiores, tem muito mais o caráter de denúncia do que de esperança de uma correção das arbitrariedades até aqui praticadas. A apresentação dos recursos abre uma brecha, ainda que pequena, para a exposição dos vícios do julgamento. Mas se ilude quem pensa que STJ ou STF teriam um pingo de disposição de resistir ao cerceamento das liberdades e dos direitos que está em curso.

A mídia propaga a ideia de que o STJ poderia adiar ou evitar a prisão de Lula - o que já mostra o enquadramento escolhido, que despreza a exigência de revisão da sentença propriamente dita. Mas é claro que a decisão sobre prender ou não o ex-presidente não tem nada a ver com o processo legal, assim como sua condenação não teve. O que está em questão é a conveniência política e a estimativa do efeito que terá, o cálculo de custo-benefício, isto é, se aprisioná-lo mais estimula ou mais arrefece a resistência popular.

A eleição de outubro também deve ser vista como um espaço de propaganda; dificilmente como aposta para reversão do quadro. A pequena brecha que o debate eleitoral abre permite denunciar o processo em curso. Boas votações de candidatos antigolpistas ampliam os custos da manutenção dos retrocessos.

Mas está claro que a coalizão golpista não chegou até aqui para em seguida entregar o poder a alguém que não estiver alinhado com ela e contar apenas com esse capital insignificante, o apoio da maioria da população. A campanha certamente será pesada. Assim como Lula foi afastado, outros candidatos que parecerem competitivos podem sê-lo. Se ainda assim um candidato próximo do campo popular se sagrar vitorioso, ninguém sabe se tomará posse, muito menos se conseguirá governar.

Isso não é alarmismo, é realismo. A ruptura do compromisso das classes dominantes com as regras mínimas do ordenamento democrático-liberal é profunda e nada indica que está para ser revertida.

Para que o seja, é necessário alterar a correlação de forças na sociedade. É necessário investir na reorganização do campo popular e na ampliação de sua capacidade de resistência.

Isso não se faz com bravatas de palanque. Não adianta falar em "desobediência civil", como fez o senador Lindbergh Farias, sem a menor organização capaz de colocá-la em marcha. Também é sem sentido reclamar, como vi parte da esquerda antipetista fazendo, que Lula obedeceu à absurda determinação de entregar o passaporte, porque ele estaria se submetendo à ordem imperante e injusta. Desobediência civil não é porra-louquice ou martírio individual.

Há mais de cem anos, Rosa Luxemburgo escrevia que "é impossível propagar a greve de massas como meio abstrato de luta assim como é impossível propagar a revolução. A revolução e a greve de massas são conceitos que enquanto tais significam apenas a forma exterior da luta de classes, que só têm sentido e conteúdo em situações políticas bem determinadas". ("Desobediência civil", claro, bem poderia entrar na lista de exemplo da pensadora polonesa.)

Ou seja: o necessário é investir no trabalho político e assim construir as condições de uma ação mais ofensiva dos grupos dominados. Infelizmente, a noite que se abateu sobre o Brasil será longa e superá-la exigirá muita luta. Sonhar com uma saída milagrosa é só isso: sonho.

Luis Felipe Miguel

domingo, 19 de março de 2017

"Entre as acusações contra Lula, aquelas lançadas por Delcídio do Amaral estão entre as mais insubstanciais. Ontem, ele foi depor diante de um juiz que o chamava de "seu Luiz Inácio" - quando a praxe, nos círculos do poder, é usar sempre o cargo mais alto ocupado, no caso "presidente". Ouviu perguntas de um procurador infantil, que queria porque queria passar um vídeo do Youtube que "provaria" que Lula controlava todas as nomeações da Petrobrás (uma fala de palanque banal, em que o ex-presidente dizia que ninguém tinha dado tanta atenção à empresa quanto ele). Teve que explicar também porque cometeu o grave crime de conversar sobre política na sede do seu instituto. Lula respondeu a tudo com calma, mas sem esconder a indignação.
E o que a Folha tem a dizer é que Lula "se preparou longamente" para o interrogatório, mas "parecia bastante nervoso". Eu não tinha notado que ele estivesse tão nervoso assim, mas a Folha explica. Ele coçou o bigode com o indicador direito. "Quem o conhece interpreta o gesto como sinal de nervosismo".
Com o perdão dos especialistas em lulogestologia da Folha, para mim, muito mais do que nervoso, Lula estava era puto. E com razão."
Luis Felipe Miguel


sábado, 11 de março de 2017

DE OPORTUNISTA EM OPORTUNISTA, O GOLPE ENCHE O PAPO.


Por Luis Felipe Miguel

"Eis que Leandro Karnal posta uma foto tomando um vinho com o "amigo juiz Sérgio Moro", a quem classifica de "gente inteligente". Conclui: "Discutimos possibilidades de projetos em comum".
Não há como justificar. Adaptando algo que disse Lolitchen Csrez, é como se, em pleno regime militar, um conhecido intelectual "de esquerda" confraternizasse com o delegado Fleury. Tá bom, são circunstâncias bem diferentes, Moro (até onde sabemos) não está arrancando as unhas de ninguém. Mas, num caso como no outro, são operadores principais e símbolos de escaladas repressivas, com a restrição a direitos e liberdades a quem fica do lado "errado" de uma divisão ideológica e política...


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"O desemprego está aumentando. O poder aquisitivo dos salários, diminuindo - hoje o valor médio pago na indústria é menor do que o da China. Milhões de pessoas voltaram a ficar abaixo da linha de pobreza.
Isso não é um retrato do fracasso do governo golpista. É o indício de que ele está conseguindo fazer o que se propôs: fragilizar a classe trabalhadora.
O passo seguinte é a abolição das leis trabalhistas, que é o que significa a famosa 'prevalência do negociado sobre o legislado'. Trabalhadores fragilizados, cercados por um exército de reserva crescente, serão compelidos a trocar direitos por emprego, na "livre negociação" entre Golias e Davi. Lembrando: Davi só ganha na história bíblica. Fora dela, pode apostar em Golias, que é barbada.
Para completar, a 'reforma do ensino médio' institucionaliza o apartheid educacional no Brasil e retira dos trabalhadores até mesmo a esperança da mobilidade social individual."

Luis Felipe Miguel

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017


Muitas vezes, vejo estudantes com talento e potencial travarem na hora de escrever. Não estou falando da procrastinação inicial. A pessoa já desligou o Netflix, já desistiu de organizar as canetas pela enésima vez, já largou desse facebook, está pronta para trabalhar, mas tem um bloqueio quando vê a tela em branco. Passa horas em frente a ela e, no final, não batucou nenhuma tecla. Ou faz com que o trabalho funcione como forma de sempre adiar este momento.

Não sei até que ponto dar “bons conselhos” ajuda a superar a situação – sempre que vejo a expressão, lembro da frase de La Rochefoucauld, “os velhos dão bons conselhos porque não conseguem mais dar maus exemplos”. Mas, de qualquer maneira, alinhavei meia dúzia dicas que podem ser úteis:

1. Pare de ler. Colocar uma pilha de textos na sua frente e pensar “antes tenho que ler isso” é a melhor maneira de nunca escrever. Cada texto lido aponta para novos textos, num processo que nunca acaba. É necessário dimensionar o mergulho na literatura existente, de acordo com o tempo para realização do trabalho, estabelecendo prioridades e lembrando sempre que o objetivo não é uma erudição vazia (saber “tudo” o que se escreveu sobre determinado assunto), mas construir um argumento consistente. Aqui e ali, a própria escrita vai eventualmente exigir uma leitura adicional (a palavra crucial da frase é “eventualmente”).

2. Prepare um roteiro. O tempo que se gasta preparando um “esqueleto” do texto a ser escrito é amplamente recuperado depois. Um roteiro da construção do argumento solidifica a organização das ideias e dá direção à escrita, já que sabemos para onde estamos indo. Quem tende a ser muito prolixo ou se perder em caminho laterais pode, junto ao roteiro, indicar quantos parágrafos ou quantas laudas vai dedicar a cada item.

3. Atropele os detalhes. Uma armadilha frequente é parar de escrever para pesquisar uma informação secundária. Pode ser bacana saber qual é a proporção de mulheres na câmara baixa do parlamento de Ruanda, em que data a cidade da Paraíba mudou o nome para João Pessoa ou o nome do meio do agente Ethan Hunt, mas isso é realmente crucial para o desenvolvimento do seu argumento? Se não é, deixe marcado, prossiga e pesquise depois. (Em tempo: as respostas são 63,8%, 4 de setembro de 1930 e Matthew. Eu parei aqui para pesquisar...)

4. Abandone o perfeccionismo. Convém aceitar logo de cara que seu texto não vai ficar perfeito. Se eu só vou escrever se estiver perfeito, já estou assumindo que nunca vou escrever nada. A exigência de perfeição leva à paralisia. Em geral, enquanto estamos escrevendo, temos alguns momentos em que achamos que somos geniais e outros, mais frequentes, em que tudo parece imprestável. Normalmente o resultado está em algum ponto entre os dois extremos. A palavra escrita é menos maleável, mais definitiva do que a fala, por isso nos expõe mais. São os ossos do ofício e o único consolo é pensar que estamos bem acompanhados: não há nenhum autor que se livre da imperfeição.

5. Seja claro. A escrita é uma forma de comunicação; nela, a clareza é ainda mais necessária do que na expressão oral, uma vez que o receptor não pode interromper e pedir esclarecimentos. Infelizmente, o ambiente acadêmico muitas vezes estimula o discurso empolado, que parece profundo quando é apenas obscuro e confuso. A obscuridade impede o debate de ideias, porque impede o acesso às ideias que deveriam ser debatidas. (Um grande cientista político, James Scott, escreveu certa vez: “Sou acusado com frequência de estar errado, mas raras vezes de ser incompreensível”.) Na verdade, esse conselho tem pouco a ver com ficar travado na hora de escrever, mas é tão importante que tem que ser repetido sempre que possível.


6. Escreva. O melhor caminho para superar o bloqueio é escrever: da forma que passar pela cabeça, mesmo que depois tenha que ser refeito de cabo a rabo. Sente na frente do computador e comece a escrever, imediatamente. Não precisa de “inspiração”, não precisa de nenhum estado de espírito especial: é um trabalho. Uma alternativa é estabelecer metas diárias e se obrigar a cumpri-las (metas realistas; não adiante dizer que vai produzir a Crítica da razão pura no final de semana). Escrever, mesmo que de forma insatisfatória, rompe com a mistificação sobre o ato da escrita que gera o bloqueio.

Luis Felipe Miguel

domingo, 13 de março de 2016

" 'Balança que essa quenga cai'. 'Prisão é pouco, fuzilamento já'. 'O PT vai sangrar'. A mãe que exibe orgulhosa o desenho do filho, aparentemente uma criança bem pequena, dois bonecos com a legenda "morra Lula - morra Dilma". Saudações nazistas.
A agressividade dos protestos da direita é impressionante.
Lembro das passeatas pelo impeachment de Collor. Não foi nenhum espetáculo de consciência política, o discurso em geral era raso, pipocavam refrões sexistas ('Rosane, sua galinha/Foi o PC que pagou sua calcinha'). Mas não se via na rua uma fração do ódio que hoje é ostentado.
O mesmo para os protestos de Fora FHC. Ou, recuando, para as manifestações das Diretas. Queríamos o fim da ditadura. Ninguém queria enforcar toda a cúpula das forças armadas.
Na verdade, acho que nem as manifestações anticomunistas que precederam o golpe de 1964 verbalizaram um ódio assim tão escancarado.
Isso é o mais assustador: o avanço de uma mentalidade claramente fascista, que se orgulha de sê-lo, que nem disfarça mais.

Luis Felipe Miguel