sábado, 14 de dezembro de 2013

Kabul.Afeganistão 1910


"[...] O tempo é de alteridades permanentes e recicláveis. Não é tempo de absolutos. Não é tempo de eu sei. É tempo de eu quero saber. Não é tempo de certezas duradoras. É tempo de dúvidas permanentes. O tempo é de reinvenções perenes e continuadas. O tempo nos exige transmutações rápidas e sinceras. O tempo está a exigir de nós: ouvir, ouvir, ouvir, ouvir,......... O tempo está a exigir de nós só saber depois de sentir. É tempo de alteridades e emoções radicalizadas."
- Paulo Baía

* Leia o ensaio na íntegra no site:
http://www.elfikurten.com.br/2013/11/e-tempo-de-alteridades-radicalizadas.html


Monólogo de uma sombra

"Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!"


- Augusto dos Anjos


A alma das velhas casas


No silencio do pósmeridio grave e ardente
entrei a velha casa onde vivêra outr’ora,
quando, ainda alma em flor e corpo adolescente,
era luz, era ardor, era sonho, era aurora.

A sala ampla e deserta, a varanda silente,
echoam do meu passo ao ruído e, frio agora,
o quarto onde dormia é lúgubre e dolente
e o terreiro ermo e nu de rosas não se enflora.

É sêcco o algibe. Chora uma rola num galho.
Abro o velho portão. Galgo a estéril, maninha
gleba de morro mal vestida de cascalho. . .

E desses que — ai de mim! Outr’ora aqui viveram
resta, pairando no ar, a alma triste e sosinha
das velhas casas cujos donos já morreram!

- José de Mesquita, Matto--Grrosso evoccativo - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).

Serenidade


Refugiado

 Refugiado


O sol atravessa as fronteiras
sem que os soldados atirem
o rouxinol canta manhã e tarde
e dorme em paz
com todos os pássaros dos kibutz
um asno extraviado
pica o pasto
em paz
sobre a linha de fogo
sem que os soldados atirem nele
e eu
teu filho exilado
- Ó terra de minha pátria
entre meus olhos e teus horizontes
a muralha das fronteiras 

(Salim Jabran)

Lakota chiefs who negotiated with General Miles to settle the Indian War. 1891.

The Chiefs are: 1. Standing Bull, 2. Bear Who Looks Back Running [Stands and Looks Back], 3. Has the Big White Horse, 4. White Tail, 5. Liver [Living] Bear, 6. Little Thunder, 7. Bull Dog, 8. High Hawk, 9. Lame, 10. Eagle Pipe. Probably on or near Pine Ridge Indian Reservation.

Vela


Mikhail Lermontov

Branqueia a vela solitária
Na névoa azul do mar!...
O que ela procura no país distante?
O que ele deixou na terra pátria?

As ondas brincam, o vento assobia,
E o mastro se curva e range
Ai! Ele não procura felicidade,
E não corre atrás da felicidade!

Sob ele um jato de azul claro
Sobre ele um raio dourado de sol
Mas ele, rebelde, pede tempestades,
Como se nas tempestades estivesse a calma!

~em russo~

~Парус

Белеет парус одинокий
В тумане моря голубом!..
Что ищет он в стране далекой?
Что кинул он в краю родном?..

Играют волны - ветер свищет,
И мачта гнется и скрыпит...
Увы, - он счастия не ищет
И не от счастия бежит!

Под ним струя светлей лазури,
Над ним луч солнца золотой...
А он, мятежный, просит бури,

Как будто в бурях есть покой!

La Reine de Mohély. Album de Madagascar, Mission de 1863.

//...Désiré Charnay (dit), Charnay C.-J. le Désiré...//
(1828-1915)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Estado de exceção

“Nos últimos dez anos a PM do Rio de Janeiro matou cerca de dez mil pessoas, a maioria jovens e negros. Em 2012 só em São Paulo foram 5,3 mil internações involuntárias para ‘tratar’ dependentes químicos. Desde 2003, 500 índios assassinados no país. Entre 2010 e 2011, um aumento de 177,6% no número de camponeses ameaçados de morte. Não como exceção, como regra, ração diária de barbárie, exercício sistemático de arbitrariedade. Em todos os casos com aparatos legais e parâmetros jurídicos e institucionais estabelecidos...”


Mauro Iasi reflete sobre o uso da expressão “Estado de exceção” diante da repressão trazida à tona nas manifestações brasileiras, no Blog da Boitempo: http://wp.me/pB9tZ-28B

Revolução Russa de 1905


Em 12 de dezembro de 1905, o Conselho de Deputados Trabalhadores da cidade russa de Novorossiysk, sob influência da agitação revolucionária e acompanhado por soldados e cossacos da guarnição local, proclamou a República de Novorossiysk. O controle da cidade foi, no entanto, retomado pelos exércitos czaristas em 25 de dezembro daquele ano, e os responsáveis pelo movimento separatista foram condenados a longos anos de trabalhos forçados. O episódio de Novorossiysk, tida como a maior cidade portuária da Rússia, faz parte do que ficou conhecido como Revolução Russa de 1905. Geralmente, esta revolução é considerada o marco inicial das mudanças sociais que culminaram com a Revolução de 1917.


O Eterno Retorno.

''E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"


F. W. Nietzsche

domingo, 8 de dezembro de 2013

Não vás tão docilmente


(Dylan Thomas / Augusto de Campos)

Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.

Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

termo



venha sem aviso
de repente
invisível

e me leve o mais
rapidamente
possível

Arnaldo Antunes 

Sociedade Sem Escolas

"A maior parte da aprendizagem ocorre casualmente e, mesmo, a maior parte da aprendizagem intencional não é resultado de uma instrução programada. As crianças normais aprendem sua primeira língua casualmente, ainda que mais rapidamente quando seus pais se interessam. (...) A fluência na leitura é também, quase sempre, resultado dessas atividades extracurriculares.
(...)
A desescolarização da sociedade implica um reconhecimento da dupla natureza da aprendizagem. Insistir apenas na instrução prática seria um desastre; igual ênfase deve ser posta em outras espécies de aprendizagem. Se as escolas são o lugar errado para se aprender uma habilidade, são o lugar mais errado ainda para se obter educação. A escola realiza mal ambas as tarefas; em parte porque não sabe distinguir as duas. A escola é ineficiente no ensino de habilidades, principalmente, porque é curricular. Na maioria das escolas, um programa que vise a fomentar uma habilidade está sempre vinculado a outra tarefa que é irrelevante."


Ivan Illich

De ombro na ombreira


De ombro na ombreira (Edições D. Quixote)

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire.
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro.
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

ALEXANDRE O´NEILL

Ler mais:
http://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=1350


INVICTUS



Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma."

Do poeta inglês William Ernest Henley (1849-1903).

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
 Yákov Protazánov, uno de los fundadores del cine de Rusia.

Después de la Revolución de Octubre, Protazánov permaneció en Europa occidental pero regresó a Rusia en 1923. Los años siguientes dirigió Aelita, posiblemente la primera película soviética sobre viajes espaciales.

En 1928, dirigió Águila Blanca (Белый орёл), con Vsévolod Meyerhold y Vasili Kachálov (Василий Качалов: 1875 - 1948) como actores principales. El juicio de los tres millones (Процесс о трёх миллионах, 1926) y La Fiesta de San Jorge (Праздник святого Йоргена, 1930) lanzaron las carreras cinematográficas de Ígor Ilinski (Игорь Ильинский: 1901 – 1987) y Mijaíl Zhárov (Михаил Жаров: 1899 - 1981).


El musical antifascista Marionetas (Марионетки, 1934), dirigido junto con el actor Anatoli Którov (Анатолий Кторов: 1898 – 1980), fue su primera película sonora. Su última obra destacable fue una adaptación de 1936 de La novia sin dote (Бесприданница, 1853), pieza de teatro de Aleksandr Ostrovski.