sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre os Ombros Dourados da Felicidade



O Marcelo Paiva que me disse: esse conto dá filme. A pulga instalou-se atrás da minha orelha. Deixei pra lá. Um pouco por orgulho besta, isto é, por achar que o texto bastava-se por si mesmo e não precisava virar filme para existir. E outro tanto porque ninguém se interessou mesmo. Pois bem. O tempo passou e “Sobre os Ombros Dourados da Felicidade” virou uma peça-punk nas mãos do Fernando Maatz e da Anti-companhia de Teatro, garotada aqui do Rio de Janeiro.
Fui ver o ensaio ontem e saí feliz da vida com o resultado. Eles tão mandando muito bem. Vendo os espasmos do Bruno Aragão que no palco é uma mistura de Cazuza com Darth Vader, em conjunto com a fúria erótica da Fabiana Russeff e mais a violência dos Dissidentes ( a banda ) bem, vendo isso tudo, cheguei a conclusão de que sou punk desde criancinha.
E foi só um ensaio. Os garotos fizeram uns ¾ do texto e ainda tem luz e os efeitos especiais na jogada. Vai ficar nervoso, com diria meu amigo Brecão. Estreiam agora, no primeiro dia de outubro. Toda segunda-feira no Reserva +, que fica no Arpoador quase Ipanema, lugar ideal, segundo Fernando me garantiu, para falar de uma bolota escrota com pelos grisalhos que vai crescer sobre os ombros dourados da felicidade de uma cidade que continua sendo o Rio de Janeiro, apesar da visão pessimista que temos( resolvi incluir a garotada) dos barquinhos a deslizar sobre o macio azul do mar.

Marcelo Mirisola

Não quero saber


Samba  de Paulo Marquez

Quando ela perguntar por mim,
Diga - "Foi para onde não sei"
Diga que eu morri,
Desapareci,
Que é para o nosso próprio bem.

Não quero nem saber se ela pensa ou não em mim,
Porque com ela seria triste meu fim.

Não quero nem saber seu endereço,
Faz de conta que nem a conheço,
Será bem melhor assim.
Pois não quero saber se ela pensa ou não em mim,
Porque com ela seria triste meu fim.



Vou-me embora


Samba de Paulo Marquez (Cyro Monteiro)

Eu vou-me embora,
Minh´alma chora,
Muita saudade vou sentir, minha querida,

Você foi boa,
Você foi grande,
Você foi tudo o que sonhei na minha vida.

Mas eu tenho que dizer antes de dar adeus
Que jamais esquecerei os lindos olhos teus
E por toda minha vida hei-de recordar
As nossas noites de luar.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

'' Io penso che un uomo senza utopia, senza sogno, senza ideali, vale a dire senza passioni e senza slanci sarebbe un mostruoso animale fatto semplicemente di istinto e di raziocinio, una specie di cinghiale laureato in matematica pura.'' * Eu penso que um homem sem utopia, sem sonho, sem ideais, e vale até dizer sem paixões e sem impulsos, seria um monstruoso animal feito simplesmente de instinto e de raciocínio, uma espécie de javalí formado em matemática pura* (Fabrizio De Andrè)
‎{a vida nada mais é que [...] uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa...} macbeth; w. Shakespeare

Gato negro

Alma de duende en cuerpo de sombra. Enjoyada la cabeza, el espinazo interrogante, el paso de seda. Las campanas desbordan sus doce vinos. Luna en los tejados. Brisa en las ramas deshojantes. La pedrería de los ojos de gato se abrillanta. Espera… La bruja de la escoba, andrajosa y hambrienta no ha de venir ahora; se durmió de cansancio en el campanario del pueblo. La desesperación en el lomo del gato forma un arco y lanza la flecha de un maullido. Un signo lúgubre se alarga en el silencio. Gato negro, embriagado de luna. Gato negro, bohemio de los tejados; eco del infierno, silueta de un pecado. Gato negro: seda, sombra y pedrería. Emma Posada

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vai Querer?

O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu vendia alicates Ganhava uns trocados Arrancando uns dentes E agora preciso apertar uns parentes Pra pagar as contas Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu vendia tridentes A loja era cheia Fiz meu pé de meia Lucrei nos conflitos Agora preciso espetar uns palitos No lugar dos dentes Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu matava meus porcos Eu quase mudei Fui morar no planalto Mandava no povo E agora dou facada nos incautos E nunca devolvo Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar (Luís Capucho/Suely Mesquita)
Não mandes contra essas moças de capas de revistas: um corpo bonito pertence aos olhos do mundo. _____Mario Quintana - Da preguiça ao método de trabalho

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"Todo excesso é uma loucura. É tão insensato exagerar na comida e bebida como na dor e na alegria."

"De todas as flores da vida, a vingança é a que mais rápido murcha."

“A vida é uma jornada calorosa, e a morte é, talvez, um sopro de vento fresco."

“A solidão é patrimônio da idade adulta.”

“Como a água gasta lentamente a pedra, assim o tempo gasta os corações.”

19/9/1908 - Mika Waltari, escritor finlandês.
L'inferno dei viventi non è qualcosa che sarà: se ce n'è uno, è quello che abitiamo tutti i giorni, che formiamo stando insieme. Due modi ci sono per non soffrirne. Il primo riesce facile a molti: accettare l'inferno e diventarne parte fino al punto di non vederlo più. Il secondo è rischioso ed esige attenzione e apprendimento continui: cercare e saper riconoscere chi e cosa, in mezzo all'inferno, non è inferno, e farlo durare, e dargli spazio.

_____________________Italo Calvino

O inferno dos vivos não é algo que será, se houver um, é o que vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de escapar do sofrimento. A primeira é fácil para muitos: aceitar o inferno e tornar-se parte do ponto de não mais vê-lo. A segunda é arriscada e exige vigilância constante e apreensão: procurar e saber reconhecer quem éo que, no meio do inferno, não é inferno, então fazê-los durar, dar-lhes espaço.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

“Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
...Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!”


Mario Quintana:

Ninguém Perde Sempre

tive um tio chamado Sol
que era um fracasso completo e
quase todo mundo comentava que ele deveria
ter partido para o vaudeville talvez pois meu Tio Sol podia
cantar McCann He Was A Diver na noite de natal como o Diabo o
que pode ou não explicar o fato de meu Tio

Sol haver se metido na possivelmente mais imperdoável
de todas para usar uma frase pomposa
extravagâncias que é ou para aprender
a fazer criações e cultivos e seja
desnecessariamente acrescentado

a fazenda de meu Tio Sol
fracassou porque as galinhas
comeram as verduras então
meu Tio Sol teve uma
fazenda de galinhas até que
os gambás comessem as galinhas quando

meu Tio Sol
teve uma fazenda de gambás mas
os gambás pegaram gripe e
morreram então
meu Tio Sol imitou os
gambás de uma sutil maneira

ou porque se afogou na cisterna
mas alguém que havia dado ao meu Tio Sol uma Vitrola
Victor e discos enquanto ele era vivo deu-lhe de presente
à auspiciosa ocasião de seu falecimento um
delicioso para não dizer esplêndido funeral com
meninos grandes de luvas negras e flores e tudo mais e

eu lembro que todos choramos como o Missouri
quando o caixão de meu Tio Sol súbito se moveu pois
alguém apertou um botão
(e para baixo se foi
meu tio
Sol

e começou uma fazenda de vermes)

by e.e. cummings/ tradução Rodrigo Madeira

domingo, 16 de setembro de 2012

O LOBISOMEM


O amor é para mim um Iroquês

De cor amarela e feroz catadura

Que vem sempre a galope, montado

Numa égua chamada Tristeza.

Ai, Tristeza tem cascos de ferro

E as esporas de estranho metal

Cor de vinho, de sangue, e de morte,

Um metal parecido com ciúme.



(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar

Onde estou à mercê:

É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,

Passando por entre uns arvoredos colossais

Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).



Outro dia eu senti um ladrido

De concreto batendo nos cascos:

Era o meu Iroquês que chegava

No seu gesto de anti-Quixote.

Vinha grande, vestido de nada

Me empolgou corações e cabelos

Estreitou as artérias nas mãos

E arrancou minha pele sem sangue

E partiu encoberto com ela

Atirando-me os poros na cara.

E eu parti travestido de Dor,

Dor roubada da placa da rua

Ululando que o vento parasse

De açoitar minha pele de nervos.

Veio o frio com olhos de brasa

Jogou olhos em todo o meu corpo;

Encontrei uma moça na rua,

Implorei que me desse sua pele

E ela disse, chorando de mágua,

Que era mãe, tinha seios repletos

E a filhinha não gosta de nervos;

Encontrei um mendigo na rua

Moribundo de fome e de frio:

“Dá-me a pele, mendigo inocente,

Antes que Ela te venha buscar.”

Respondeu carregado por Ela:

“Me devolves no Juízo Final?”

Encontrei um cachorro na rua:

“Ó cachorro, me cedes tua pele?”

E ele, ingênuo, deixando a cadela

Arrancou a epiderme com sangue

Toda quente de pêlos malhados

E se foi para os campos da lua

Desvestido da própria nudez

Implorando a epiderme da lua.

Fui então fantasiado a travesti

Arrojado na escala do mundo

E não houve lugar para mim.



Não sou cão, não sou gente - sou Eu.



Iroquês, Iroquês, que fizeste?

Décio Pignatari
''As revoluções não são fatos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São fatos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias''

Eça de Queiroz

sábado, 15 de setembro de 2012

Dois Poemas de Yu Xuanji


Poetisa chinesa (844-869 d.C.)

EM RESPOSTA A POEMA DE MEU NOVO
VIZINHO A OESTE, CONVIDANDO-O
E PEDINDO-LHE VINHO

Teu poema chegou e catei-o cem vezes
cada novo sentido em um som como ouro
Busco oeste: estou pronta a vencer tua cerca
À distância, não vai o coração virar pedra?
É tão longe a Via Láctea, vazio o horizonte
Desafina-se a cítara e os rios se acordam
Tremo à falta de casa neste inverno frio
Tens bom vinho: esta noite, não bebas sozinho!

• • •

A PARTIR DE POEMA DE UM RECÉM-APROVADO CANDIDATO AO SERVIÇO PÚBLICO, EM LUTO PELA MORTE DE SUA MULHER

I

Aos imortais perdem-se as coisas deste mundo
Outonos passam como apenas um momento
Fica às cobertas o calor do amor recente
Do papagaio à jaula o eco ainda circunda
O orvalho cobre as flores, rostos que se velam
O vento verga em sobrancelhas os chorões
Nuvens dissipam-se entre cores, tornam à sombra
Pan Yue lamenta e seu cabelo acolhe a neve*

II
Da cássia, um galho ergue-se à lua, encontra a névoa
Vermelho à chuva: ao rio, mil pessegueiros brotam
À frente, ofertam vinho; aceita, enche teu copo:
são alegria e dor unidas pelos séculos
___

* *Pan Yue (247-300) foi um poeta da Dinastia Jin (265-316, Jin do Oeste) famoso por sua beleza e pela poesia de luto e melancolia. Seus “Três Poemas para Minha Esposa Morta” são particularmente aclamados. Sobre ele se diz que, quando da morte da esposa, seu cabelo tornou-se branco da noite para o dia. Sua história pessoal é associada em textos chineses ao amor inconsolável diante da morte e entregue a um luto infindável – em Yu Xuanji, há um sentido de entrada na imortalidade pelo luto, que projetaria o amor para além “desta” vida.
Mais sore Yu Xuanji:

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4855

Remorso

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac
“Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…”

15/9/1933: Rubem Alves: psicanalista, educador, teólogo e escritor, seus livros e artigos abordam temas religiosos, educacionais e existenciais

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

POETA DE COMBATE

Poeta de combate me chamaram.
De combate serei. Não mercenário!
Poeta de combate é um operário
das palavras que nunca se entregaram.

Poeta de combate! E porque não?
Sou poeta. Serei também soldado.
O meu canto será um canto armado
e o meu nome de guerra uma canção.

Poeta de combate me quiseram
os que cedo da luta desertaram
ou aqueles que nunca combateram.

Poeta de combate eu hei-de ser
até quando o meu povo precisar
ou nada mais houver a combater.

* Joaquim Pessoa *


in AMOR COMBATE, Moraes Editores
Litexa, "Obra Poética, vol. 01.