domingo, 5 de fevereiro de 2012

Un poco de poesía no le hace mal a nadie

Hay gente que no lee poesía nunca: le revienta, le parece cursi, no la entiende. Son el producto de la mala formación que la escuela peruana –y latinoamericana en general– logra producir tras un proceso horroroso de solemnidad, aderezado con rigurosas dosis de estupidez y amasado en el transcurso de once años sostenidos. Entonces la poesía tiene que ser “trascendente”, “sublime”, “proteica” y todos esos adjetivos que provocan sarcasmo. Hasta que algunos espíritus rebeldes y persistentes descubren en sus adolescencias a algún poeta que los saca de cuadro, Rimbaud, Bukowski, Pavese o Luchito Hernández, y regresan a vislumbrar esa fuerza perturbadora de lo simbólico, escondida detrás de estos signos sobre un papel o pantalla en blanco. La verdad que la poesía es solo un juego con el lenguaje que de muy pequeños nos encanta porque lo vamos descubriendo y poco a poco le vamos perdiendo el interés, a menos que la sigamos cultivando despacio, tranquilamente, evitando la mala hierba, para recuperar la sorpresa ante esas extrañas y perfectas epifanías.



Wislawa Szymborska, la gran poeta polaca y Premio Nobel de Literatura 1996, es una de aquellas personas que tras su aparente bonhomía permiten a cualquier mortal volver sobre la fe en las palabras. Su obra es parca, como su estilo, y sin embargo a través de un riguroso trabajo de constancia y de penetración en las sensibilidades contemporáneas ha forjado una manera diferente de contemplar el mundo y escribirlo. Aquí uno que titula simplemente Agradecimiento: “Debo mucho/ a quienes no amo.// El alivio con que acepto/ que son más queridos por otro. // La alegría de no ser yo/ el lobo de sus ovejas. //Estoy en paz con ellos/ y en libertad con ellos,/y eso el amor ni puede darlo/ ni sabe tomarlo”. Genial.



Szymborska, “¡cómo se pronunciará correctamente!, pero como lo decimos en castellano se percibe tremendamente sonoro”, ha sido un espíritu juguetón y especial. Aprendió castellano para leer a Cervantes “con diccionario” y porque le parecía que el español sonaba “a un latín bellamente estropeado”. Durante sus ratos libres solía realizar pequeños collages de figuras extraídas de revistas de 1920. Por expresa decisión de ella, sus libros de poemas con collages nunca han sido traducidos del polaco. Nunca se movió de Cracovia. Cuando la invitaban a diversos lugares, sobre todo después del Nobel, ella siempre contestaba: “iré cuando sea más joven”. Leyendo sus poemas uno puede deducir que detestaba los círculos literarios, la gente que respira en poesía todo el día, y prefería recluirse en su departamentito de edificios grises y burocráticos de su ciudad para simplemente atisbar la vida: sus poemas nos hablan de los amores-no amores, de las cartas de la hermana, de una bomba puesta en un bar, de los edificios cayendo en Nueva York en setiembre del 2001 o de los desayunos de los obreros del movimiento Solidarinosc. La simpleza de cada una de esas palabras es, en realidad, años de años cincelándolas, controlándolas, domándolas, en uno de los idiomas más complicados de la tierra.



El miércoles 1º de febrero Szymborska murió en Cracovia, acompañada de sus amigos más cercanos, y al parecer de la misma manera tranquila como trascurrieron sus últimos años. De cara a la muerte recordemos este poema sobre la vida: “En esta escuela del mundo/ ni siendo malos alumnos/ repetiremos un año/ un invierno o un verano“

Rocío Silva Santisteban – La República



DISCURSO DE NOIVADO APÓS O JANTAR

Este eu, um recipiente, que

desde que ninguém o abra,

parece compacto, liso

como um ovo Kinder,

quase apetitoso. Somente lá,

no interior, está escuro. Quem sabe

o que estará dentro, à tua espera.

Obsessões, sem dúvida,

hábitos enferrujados,

medos incompreensíveis,

truques em segunda mão,

desejos infantis.

Que tu a desejes ter,

a esta prenda embrulhada,

roça o milagre.

Hans Magnus Enzensberger

UMA CANTIGA COR-DE-TERRA

Outro poema sobre a morte, etc. –

certamente mas e quanto à batata?

Por razões óbvias não é mencionada

por Horácio ou Homero, a batata.

E o que dizer de Rilke e Mallarmé?

Será que não lhes disse nada, a batata?

Muito poucas palavras rimam

com ela, a batata cor-de-terra?

Não é muito preocupada com o céu.

Espera pacientemente, a batata,

até que a arrastemos para a luz

e a atiremos ao fogo. A batata

não se importa, mas será possível

que seja demasiado quente para os poetas, a batata?

Bom, vamos então esperar um pouco

até que a comamos, à batata,

e a cantemos e depois a esqueçamos novamente.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

POR VEZES

Quando conheces alguém

mais inteligente ou mais estúpido do que tu -

não faças caso disso.

As formigas e os deuses,

acredita, sentem o mesmo.

Que exista mais gente na China,

digamos, que em San Marino,

não é uma desgraça.

A maioria das pessoas, sem dúvida, é

mais negra ou mais branca que tu.

Por vezes és um gigante,

qual Gulliver, ou um anão.

Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir

uma beleza ainda mais radiante,

alguém ainda pior.

És medíocre,

felizmente. Aceita-o!

Sete graus centígrados a mais

ou a menos no termómetro -

e estarias além da salvação.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

SERMÃO DOMINICAL DE ASTRONOMIA

Quando a conversa se volta para as nossas desgraças –

fome, homicídios, assassinatos, etc. –

Garantido! Uma casa de loucos!

Mas, por favor, permitam-me

ressalvar, sem falsas modéstias

que apesar de tudo

é um planeta bastante favorável

este, no qual nos encontramos,



uma pérgula rosa,

comparado com Neptuno

(menos 212 graus centígrados,

velocidade do vento de mais de 600 mph

e uma pipa de metano

na atmosfera).

Só para que se saiba que noutros lugares

é muito menos confortável.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fachadas

FACHADAS



1.



No fim da estrada vejo o poder

e é como uma cebola

com rostos sobrepostos

que caem um a um…



2.



Esvaziam-se os teatros. É meia-noite.

Palavras ardem nas fachadas.

O enigma das cartas sem resposta

afunda-se na fria cintilação


Tomas Tranströmer – Poesia & Lda

Morre aos 88 a poeta e Nobel de Literatura Wislawa Szymborska

A escritora, premiada em 1996, sofria de um câncer de pulmão

A poeta polonesa Wislawa Szymborska, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, morreu ontem, aos 88 anos, em Cracóvia.

Szymborska (pronuncia-se Chembórska), conhecida por ser fumante inveterada, tinha câncer de pulmão e morreu em casa, de acordo com seu assistente pessoal, Michal Rusinek.

Em sua premiação, o comitê do Nobel a qualificou como o “Mozart da poesia”, destacando a elegância de sua linguagem. Szymborska também foi agraciada com o prêmio Goethe, em 1991, e o Herder, em 1995.

A escritora teve sua primeira compilação lançada em português no ano passado pela Companhia das Letras, com o título “Poemas”.


Também em 2011, o presidente polonês Bronislaw Komorowski concedeu a Szymborska a maior distinção do país, o prêmio “Order Orła Białego” (”Águia Branca”), por sua contribuição à cultura nacional.


Em reação à sua morte, o presidente escreveu que ela “inspirou os poloneses por décadas com seu otimismo e com o poder da beleza e a força de sua palavra”.


O primeiro-ministro Radek Sikorski afirmou em seu Twitter que a morte da poeta foi “uma perda irreparável para a cultura polonesa”.


Seus escritos são vistos como uma forte crítica às utopias e tragédias do século 20.


Entre os admiradores de Szymborska, estão o cineasta Woody Allen e o escritor Umberto Eco, que já declarou que ela escrevia “de forma descomplicada sobre as coisas mais importantes”


Fonte: Folha de São Paulo 02/02/2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cinco breves poemas

I



Talvez a juventude apenas seja isto:

sem arrependimento amar sempre os sentidos.



(de Croce e delizia, 1958)



II



Este corpo que aperto (e me aperta)

tem um sabor de estrelas e de lodo.

E eu não sei quem agora me tinge

(profundíssimo jogo) de vermelho

as estrelas.



(de Stranezze, 1976)



III



Era no cinema, onde as portas

se abrem e fecham continuamente.

Àquele rumor ela pensou

que ele voltasse

mas não voltou.



(de Stranezze, 1976)



IV



Fazer do verde prado

um jogo proibido.

Já o tenho tentado.

Sem o ter conseguido.



(de Appunti, 1950)



V



«Poeta exclusivo do amor»

me chamaram. E era talvez certo.

Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores

da cidade longínqua

não são eles também amor?

Sob nuvens quentes

não são ainda o som

de um amor que arde

e não mais se afasta?



(de Stranezze, 1976)



Sandro Penna
– Poesia & Lda.






Tradução de David Mourão-Ferreira

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Hilda Hilst

Carta de amor

CARTA DE AMOR

JORGE SOUSA BRAGA






(A Eugénio de Andrade)



Un día de estos

te voy a matar

Una mañana cualquiera en la que estés (como de costumbre)

midiendo el empalme de las flores

allí en el Jardín de San Lázaro

un tiro de pistola y…

No te voy a dar tiempo siquiera a que te fijes en mi rostro

Puedes invocar a Safo, Kavafis o San Juan de la Cruz

a todos los poetas celestiales

que ninguno vendrá en tu ayuda

Comprometidos definitivamente tus planes de eternidad

Adiós pues mares de septiembre y dunas de Fão

Un día de estos te voy a matar…

Una certera bala de polen

justo en el corazón



§



MUJER



Mitad mujer mitad pájaro

Mitad anémona mitad niebla

Mitad agua mitad amargura

Mitad silencio mitad concha

Mitad mañana mitad fuego

Mitad jade mitad tarde

Mitad mujer mitad sueño.



Fonte – Poesia & Lda.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

REGRESSO

Voltei a esse lugar

onde nunca tinha estado.

Do que não foi, nada mudado.

Sobre a mesa (de oleado

aos quadrados) meio vazio

encontrei o mesmo copo

nunca cheio. Tudo

permanece tal e qual

eu o não tinha deixado.

EXPERIÊNCIA

Todos os lugares que vi,

que visitei,

agora sei – estou certo:

nunca lá me encontrei.

CONDIÇÃO

Um homem só,

fechado no seu quarto.

Com todas as suas razões.

Com todos seus erros.

Só, nesse quarto vazio,

e falando. Aos mortos.

PEDRADAS

Também eu tentei falar.

Sem talvez saber a língua.

Todas as frases erradas.

Em resposta: só pedradas.

AMANHECER

Meu amor, nos vapores dum café

ao amanhecer, meu amor que inverno

longo e que calafrio estar à tua espera! Cá

aonde o mármore do sangue é gelo, e sabe

a frescura até o olho, agora no ermo

ruído além da geada eu que elétrico

ouço, abrindo e fechando eternamente

as portas desertas?… Amor, está parado

o meu pulso: e se o copo no fragor

subtil tem um tremor nos dentes, talvez

seja o eco dessas rodas. Mas tu, amor,

não me digas que agora em vez de ti está o sol

brotando, não me digas que daquelas portas,

eu cá, com teus passos, já estou a aguardar pela morte.

Giorgio Caproni – Poesia & Lda.






(de «Il passaggio d’Enea», 1956)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma atordoante distopia

Ousadias e desencanto marcam ‘A Visita Cruel do Tempo’, de Jennifer Egan





Jennifer, que foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo no ano passado



Manoela Sawitzki – O Estado SP

Para escrever seu quinto livro, a norte-americana Jennifer Egan afirma que se serviu de referências surpreendentemente distintas: Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Pulp Fiction, filme de Quentin Tarantino, e Família Soprano, uma série televisiva de sucesso. O resultado arrebatou o júri do Pulitzer Prize, que deu ao romance A Visita Cruel do Tempo (A Visit From the Goon Squad, no original) o prêmio de melhor ficção de 2011. A obra também recebeu outras premiações importantes, como o National Book Critics Circle, e tem se desdobrado numa profusão de traduções e vendagens substanciosas. Mas dizer isso tudo é somente sublinhar o que o leitor entenderá por si se deixando tragar pelo caleidoscópio humano de Egan.

A escritora ousa e se arrisca ao suspender noções cartesianas de espaço e tempo. Passado e futuro coexistem na alternância aparentemente caótica de episódios. Porções de um período estão contidas no outro, mesmo que sob o viés da contradição. A memória revela a argamassa original, matéria a partir da qual sujeitos são moldados e deformados. É construída assim uma narrativa fragmentada, polifônica, que subverte as fronteiras pacificadoras entre continuidade e descontinuidade de discurso. E há algo de autêntico, franco na forma como as muitas histórias e vozes ali contidas se desvelam e entrelaçam que garante uma unidade singular ao livro. Embora nem sempre o texto se mantenha fluente, o vigor narrativo acaba por se impor. Isto porque Jennifer Egan sabe ousar e se arriscar numa medida rara.

Resumir sem reduzir os saltos e conexões desse exercício de fabulação notável é tarefa inglória. Dividido em duas partes, A e B, compostas por pequenos capítulos, A Visita Cruel do Tempo dá conta de cerca de quatro décadas e mais de duas dezenas de personagens. Valendo-se ora da terceira, ora da primeira pessoa (e conseguindo utilizar a segunda com destreza em um trecho comovente do livro), a narração retrocede e avança por diferentes etapas dessas vidas com cortes precisos. Ao longo de 13 capítulos, coadjuvantes tornam-se protagonistas (e vice-versa). Cada capítulo possui tom próprio, cada época compõe seu elenco.

Começamos com Sasha, ex-assistente de Bennie Salazar, importante executivo da indústria musical americana. Diante do analista, ela discorre sobre um recente episódio envolvendo seu “problema” e a noite de sexo casual com Alex, jovem recém-chegado a Nova York que conheceu pela internet. Seu “problema” é a cleptomania. Na década anterior foi namorada de Drew e melhor amiga de Rob, que tentou o suicídio e parecia não estar de acordo com nada no mundo à sua volta. Bennie, aos 40 e poucos anos, se recupera do divórcio, salpica flocos de ouro em xícaras de café – receita afrodisíaca obtida num livro sobre medicina asteca – e ainda se embaraça com os vexames do passado, desde quando era o péssimo baixista da banda punk Flaming Dildos. Nessa época conheceu Lou, um produtor musical que tenta fugir do impacto da velhice cercando-se de namoradas e esposas muito jovens. Stephanie trai a juventude roqueira tornando-se parceira de tênis de uma loira republicana no Country Club de um bairro esnobe. Enquanto isso, Jules, seu irmão, jornalista especializado em celebridades, condenado à prisão por atacar uma jovem atriz de Hollywood durante uma entrevista, é solto. Músicos fazem sucesso, frequentam o ostracismo, engordam e ensaiam retornos – um deles assumidamente suicida. A assessora de imprensa Dolly é banida dos meios sociais e acaba trabalhando a imagem de um ditador genocida. A menina Alison inventaria o cotidiano da família Blake num diário escrito em PowerPoint. E ainda não estamos perto de abranger uma parte substanciosa da trama. De um safári na África de 1973, a um concerto de rock ao ar livre em uma Nova York futurista, repleta de helicópteros, o fôlego de Jennifer Egan parece inesgotável.

A Visita Cruel do Tempo trata da distopia de uma geração forjada em meio ao cenário musical underground dos anos 70, que chega despreparada à explosão consumista e à tirania do retoque do século 21, e terá que se confrontar com os novos parâmetros da cibercultura. E toma pelas mãos os herdeiros, crianças que crescem sob o impacto desse emaranhado de incertezas e reelaborações. Ao se questionar sobre que tipo de evento simbolizará o mundo novo que se desenha à sua frente, por exemplo, Dolly sabe que a resposta já não está consigo, mas com Lulu, sua filha. “Se existem crianças deve existir futuro, certo?”, quer acreditar Alex.

Entre encontros, separações, vidas perdidas e destinos às vezes magicamente reorganizados, um personagem é onipresente, central e contínuo em sua missão: o tempo. “O tempo é cruel, não é? Vai deixar ele intimidar você?”, pergunta Bennie ao guitarrista aterrorizado, incapaz de voltar ao palcos. “O tempo venceu”, ele responde. O esquadrão que nos impõe sua marcha sempre vencerá.

TRECHO

“Bennie deixou-o descer do carro e lhe deu um forte abraço. Como sempre, Chris se imobilizou em seus braços, mas Bennie nunca sabia dizer se estava aproveitando ou suportando o abraço. Ele recuou e olhou para o filho. O bebê que ele e Stephanie tinham afagado e beijado agora era aquela presença dolorosa, cheia de mistério.”

A VISITA CRUEL DO TEMPO
Autora: Jennifer Egan
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: Intrínseca (336 págs., R$ 29; e-book: R$ 19,90)

MANOELA SAWITZKI É AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

Para escapar do cárcere do real

A partir da análise de ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo, ‘A Tentação do Impossível’, de Mario Vargas Llosa, reflete sobre as ambições que norteiam a arte da escrita
28 de janeiro de 2012



Ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa – Justin Lane/EFE – Arquivo



Carlos Granés – O Estado SP

A julgar pela vastidão da obra que deixou, pareceria que a vida de Victor Hugo se consagrou exclusivamente a compor poemas, redigir ensaios, escrever peças de teatro e planejar suas imensas criações literárias. Assim parece porque quem quisesse esgotar sua bibliografia teria de gastar pelo menos dez anos lendo seus romances e as milhares de páginas que foi redigindo com facilidade invejável desde que descobriu sua vocação literária, antes dos 15 anos de idade. O surpreendente é que não foi assim. Victor Hugo também teve tempo para participar dos acontecimentos que marcaram o curso do século 19 francês, e viver grandes aventuras amorosas com mulheres de todas as condições sociais, de damas da alta sociedade até criadas, às quais seduzia ou pagava para satisfazerem seus caprichos eróticos.

Tudo isso e muito mais é contado por Mario Vargas Llosa em A Tentação do Impossível, seu ensaio sobre Os Miseráveis, a obra maior de Victor Hugo e do romantismo francês. Publicado originalmente em 2004, o ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa e pelas criações literárias caracterizadas pela ambição descomunal, pelo desejo de recriar toda a vida em seus grandes e pequenos detalhes por meio da palavra escrita.

Três ideias fundamentais fazem deste um livro fascinante. A primeira é que Os Miseráveis marca o fim do romance clássico, isto é, aquele em que o narrador participa ativamente da história dando sua opinião sobre os acontecimentos ou explicando ao leitor por que as coisas sucedem tal como sucedem. Esse narrador consciente de si mesmo desaparecerá no romance moderno, inaugurado por Gustave Flaubert com Madame Bovary, no qual ele se fundirá com os eventos narrados para perder o protagonismo humano e ganhar clarividência divina: não o veremos, mas ele estará em todas as partes determinando tudo.

A segunda ideia fundamental diz respeito à maneira como o escritor transforma a realidade em material literário. Nenhum romance digno do nome, mesmo que narre episódios reais, pretende substituir a história vivida. O romancista emprega essa matéria-prima para criar uma realidade autônoma, irreal, fictícia; um cenário no qual poderá explorar não o que ocorreu na realidade, mas os dramas humanos, os dilemas morais, as perguntas fundamentais da vida que o perturbam e obcecam, e que são o tema essencial do romance. Se a história, a sociologia e a antropologia se ocupam dos fatos reais, o conhecimento que o romance projeta tem a ver com os anseios, ilusões, desejos, paixões e frustrações que assaltam homens e mulheres em determinado momento e em determinado lugar. No caso de Os Miseráveis, esse anseio é a perfeição humana, a redenção pelo sofrimento e a luta para alcançar o infinito, para tocar a divindade.

Essa última observação nos remete à terceira ideia cardeal que Vargas Llosa ressalta em A Tentação do Impossível. Inicialmente, Os Miseráveis não foi recebido pelos críticos como a obra imortal que hoje lemos, mas como um livro terrivelmente perigoso, escrito para provocar descontentamento e insatisfação nos leitores. Nada mais delicado, dizia o escritor Alphonse de Lamartine, um desses críticos, que criar um mundo literário povoado de personagens ideais, capazes de se comportar como santos laicos ou heróis justiceiros, porque o contraste entre essa ficção e a imperfeita realidade poderia causar tamanha frustração, tamanha irritação, que despertaria o desejo imperativo de revolta contra a sociedade.

Não é casual o fato de Vargas Llosa ter explorado esse tema na obra de Victor Hugo. Não o é porque entender o papel que tem a ficção na vida humana, entender por que romances são escritos e são lidos, entender esse impulso poderoso que move ele mesmo e outros romancista a desafiar a realidade real antepondo-lhe uma realidade fictícia, foi uma das grandes obsessões do escritor peruano. E a resposta que obtemos a essa interrogação em A Tentação do Impossível é tão sugestiva como a análise pormenorizada que seu autor faz de Os Miseráveis. Criamos ficções porque, por meio delas, saímos do cárcere do real e vivemos as mil vidas que de outra forma não poderíamos viver. Ademais, como antecipou Lamartine, porque no ir e vir da ficção vemos as imperfeições do mundo real e se afina nossa consciência crítica, a ferramenta que impede que as sociedades se paralisem na resignação e na apatia. Aspirar ao impossível, como fazem Victor Hugo e, em maior ou menor grau, todos os grandes criadores de ficção, é um antídoto contra o conformismo e a indolência. Esta é a razão de ser do romance, esta é a razão pela qual há escritores – entre os quais Vargas Llosa – que põem todo seu empenho em se deixar tentar pelo impossível.

Esse ensaio literário, como os muitos outros que Vargas Llosa escreveu ao longo de sua dilatada carreira, é uma chave extremamente útil para entender sua própria concepção de romance e os temas e problemas que lhe interessa abordar em seus projetos narrativos.

Se em 1975, quando publicou um ensaio sobre Flaubert e Madame Bovary intitulado La Orgia Perpetua, ele refletia sobre o desejo individual e a possibilidade de vencer os determinismos sociais, temas que apareceriam em seus romances seguintes, em 2004, ao mergulhar em Os Miseráveis, Vargas Llosa nos revela sua paixão pelas personagens exacerbadas que desafiam a condição humana com condutas extremas e paixões inquebrantáveis. Essas personagens enfeitiçam Vargas Llosa porque, como Flora Tristán, Paul Gauguin ou Roger Casement, protagonistas de O Paraíso na Outra Esquina e O Sonho do Celta, dois de seus últimos romances, não se rendem às exigências da realidade e se empenham em viver, sem se importar com as consequências, de acordo com seus sonhos e ideais. Nesses romances aflora esse traço humano, a possibilidade de viver uma vida iluminada pela ficção ou por princípios morais inquebrantáveis. Com eles, Vargas Llosa explorou as venturas e desventuras que vivem, e os benefícios e tragédias que produzem essas personagens que vão além da realidade tentando transformar o mundo para que se pareça mais com os sonhos e fantasias tecidos pela imaginação. Isto é, o que ocorre quando alguém, cuja finalidade não é escrever romances, se nega a se render à realidade e cai sob o influxo sedutor do impossível. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LA IMAGINACIÓN – ANTROPOLOGIA DE LOS PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO SUPERIOR DEINVESTIGACIONES CIENTÍFICAS DE MADRID)

domingo, 22 de janeiro de 2012

O premiado Yu Hua fala de Crônica de Um Vendedor de Sangue e da realidade do país

Sob o signo da política

Filho de médicos, o escritor Yu Hua passou a infância em um hospital e todos os dias via filas de camponeses que vendiam sangue para complementar sua escassa renda e sustentar suas famílias nos turbulentos anos do regime maoista.

Dessa visão saiu o personagem principal de Crônica de Um Vendedor de Sangue, Xu Sanguan, que descobre nas visitas regulares a bancos de sangue o caminho para sobreviver e alimentar seus três filhos.

O pano de fundo da saga do camponês são os anos do Grande Salto Adiante (1958-1962) – quando 30 milhões de pessoas morreram de fome – e a Revolução Cultural (1966-1976), que fechou escolas, queimou livros e deixou o tecido social chinês à beira da ruptura.

“A venda de sangue era extremamente comum naquela época e ainda é hoje, apesar de ser ilegal”, disse Yu Hua em entrevista ao Estado. Entre os mais festejados escritores chineses contemporâneos, ele nasceu em 1960 e cresceu durante a Revolução Cultural, quando o mais inocente gesto ou frase poderia ser tachado de “burguês” ou “contrarrevolucionário” e dar margem a uma perseguição implacável pelos temidos guardas vermelhos de Mao Tsé-tung (1893-1976).

“Foi um período deprimente e muito repressivo. É por isso que na minha obra não há enredos muito felizes”, disse o escritor, que fuma cigarros Panda e se veste com simples sobriedade.

Mas Yu Hua é hábil no uso do humor, que ganha um tom ligeiramente negro em meio à precariedade em que vivem seus personagens. Em Crônica de Um Vendedor de Sangue, a saga de Xu Sanguan é temperada por traições, intrigas e a diversidade dos habitantes de uma típica vila rural chinesa em um período de alta voltagem política.

Editada pela Companhia das Letras, a obra é a terceira de Yu Hua a ser lançada no Brasil, depois de Viver e Irmãos, seu mais ambicioso trabalho, que apresenta de maneira épica a trajetória de dois irmãos dos anos 60 até o período de abertura econômica nos quais o enriquecer passou a ser glorioso.

A improvável sucessão de eventos que marcaram a história chinesa das décadas de 1950 a 1980 são o pano de fundo da maior parte da obra do escritor, que trabalha em um novo livro ambientado no mesmo período, que viu o igualitarismo maoista ser substituído pela busca desenfreada da prosperidade material.

Na sua mais recente obra, China in Ten Words (sem tradução para o português), Yu Hua provoca risos no leitor ao lembrar da impossibilidade de acesso a livros durante a Revolução Cultural. Os únicos disponíveis eram as Obras Selecionadas de Mao Tsé-tung e o Livro Vermelho, que trazia citações do líder comunista.

Quando a loucura daqueles dez anos chegou ao fim, Yu Hua mergulhou na leitura de obras estrangeiras, que exerceram influência determinante sobre seu trabalho. Sua primeira fonte de inspiração foi o japonês Yasunari Kawabata (1899-1972), vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1968, a quem ele tentou imitar na habilidade de descrever detalhes e ainda deixar espaço para a imaginação do leitor.

A fase durou até 1986, quando Yu Hua conheceu a obra de Franz Kafka (1883-1924), que segundo ele “libertou” sua maneira de criar. “Aprendi com Kafka que o ato de escrever não deve ter limites e que eu deveria escrever qualquer coisa que quisesse.”

Fiel a esse princípio, Yu Hua disse não se influenciar pela existência da censura chinesa, que impediu a publicação de China in Ten Words, um trabalho de não ficção que tenta fazer um retrato de temas fundamentais do país. “Nunca mudei nada por causa da censura. Se um livro é proibido, eu sempre posso lançá-lo em Taiwan”, observou.

O principal motivo do veto à obra é a maneira explícita com que o autor relata os protestos pró-democracia realizados em 1989 na praça Tiananmen, que terminaram em uma sangrenta repressão no dia 4 de junho daquele ano.

“Essa é a diferença entre ficção e não ficção. Na China não se pode falar do dia 4 de junho, mas em uma obra como Irmãos eu posso me referir ao mesmo evento como o dia 35 de maio”, exemplifica, mencionando a data fictícia que muitos chineses usam para se referir ao massacre de Tiananmen.

Com 14 milhões de seguidores em uma das versões chinesas do Twitter, Yu Hua é um ativo crítico do governo chinês na internet, onde vários de seus posts acabam deletados pela censura. “O futuro político da China é muito claro e só há uma opção: ou o país caminha na direção da democracia ou haverá outra revolução.”

Em sua opinião, a disseminação de informação na rede e o crescente número de chineses que desafiam os limites impostos pelo governo tornam insustentável a manutenção de um regime autoritário. “Mais e mais pessoas estão dispostas a manifestar suas opiniões e não é possível controlar todas elas.”

A censura também afetou de maneira oblíqua Viver, a obra que projetou Yu Hua internacionalmente e que o autor considera como o trabalho que lhe trouxe sorte. “Quase 20 anos depois de sua publicação, o livro ainda vende 100 mil cópias ao ano na China, o que é extraordinário”, ressaltou.

Parte do sucesso se deve à adaptação para o cinema realizada pelo mais célebre diretor chinês, Zhang Yimou. Mesmo com uma série de mudanças no roteiro, o filme até hoje é proibido na China, mas pode ser encontrado em qualquer das inúmeras lojas de DVDs piratas do país.


Cláudia Trevisan – O Estado de S.Paulo. 21 de janeiro de 2012