terça-feira, 22 de novembro de 2011

YO NUNCA ESTUVE EN CRETA

EU NUNCA ESTIVE EM CRETA




Mas quando despertei

tinha os pés molhados

de uma luz

que atravessa

a persiana

________zarpa

e, a estas horas banha

teu rosto que flutua

- esqueceste do Nivea -

sobre as listras verdes

do Egeu



Carmen Camacho/ tradução Ricardo Pozzo



YO NUNCA ESTUVE EN CRETA



Pero cuando desperté

tenía los pies mojados

de una luz

que atraviesa

la persiana

________zarpa

y a estas horas baña

tu cara que flota

—olvidaste la Nivea—

sobre el verde a vetas

del Egeu



Carmen Camacho

sábado, 19 de novembro de 2011

Divórcio

A gente se abraçava o tempo inteiro também porque precisava conservar a pele. Abraçava meus amigos e minha pele se prendia ao resto do corpo



por Ricardo Lísias

Dor e solidão são muito diferentes. Para me sentir realmente sozinho, preciso estar longe do meu país e não compreender nem uma palavra do que dizem. Nas poucas vezes em que senti uma dor muito intensa, estava perto das pessoas com quem convivo. A solidão pode não ser ruim. Uma vez, em uma ruazinha de Bonn, me senti muito sozinho, mas a vontade de chorar veio, estranhamente, da sensação de vitalidade que me invadiu. Estou longe de todos, não entendo nada do que dizem, mas daqui a alguns dias volto para casa. Sinto-me vivo e protegido.

Na última vez em que senti dor, fui descarnado. Se fosse uma tortura física, teria sido mais fácil. Minha pele se separou do resto do corpo. Eu andava lentamente em uma avenida bastante movimentada de São Paulo e estava sem pele. Também compreendia todas as palavras. Ninguém tentou conversar comigo, outra característica da dor violenta. Entrei no metrô e, em um vagão quase cheio, comecei a chorar. Tinha perdido a pele. Todo mundo ali, no vagão do metrô em que entrei descarnado, falava português. Ninguém me olhou, outra característica da dor profunda.

Também me senti sozinho na Polônia e aniquilado quando recebi uma ligação avisando que meu grande amigo André tinha se enforcado. Mas dessa vez a dor não me descarnou porque todos nós conversamos. A gente se abraçou muito no enterro do André.

Agora, nessa dor sem fim, ninguém me olha. Também não posso pedir ajuda porque a dor é tão grande que meus amigos e minha mãe não suportariam. Só poderei abraçá-los quando a dor for menor e tiver recuperado ao menos uma parte da minha pele.

Estou chorando em um vagão quase cheio do metrô de São Paulo e ninguém me olha. Não estou sozinho: fui abandonado. Minha ex-mulher roubou-me a pele depois de um mês de casamento, cheia de indiferença pelo resto do meu corpo e orgulhosa por falar um pouco de francês.

Descobri a crueldade onde eu esperava o amor.



Em Bonn me senti sozinho. Mas aqui está outra diferença da solidão para a dor: eu sabia que, de um jeito ou de outro, encontraria o caminho de volta. Agora, sem pele no metrô quase cheio de São Paulo (devem ser quatro da tarde), estou certo de que vou morrer.

Da Alemanha, arranjei uma passagem para Paris. Comprei um jornal local, sentei no trem e tive vontade de rir. Não sei nada de alemão, o que vou fazer com esse jornal? No entanto, rir de verdade, gargalhar feito um louco foi o que fiz em Paris.

Entrei no Louvre e fui direto à sala da Monalisa. Olhei aquele quadrinho e achei a mulher feia. Fiquei com vontade de rir. Mas quando vi que três ou quatro pessoas filmavam o quadro, aquela gente filmava a Monalisa, eles estavam parados e perplexos filmando um quadro!, morri de rir. Cruzei os corredores do Louvre gargalhando sem controle. Logo eu que não gosto quando as pessoas se descontrolam. Piores são os tipos bem-sucedidos que viajam para o exterior para ir a todos os museus de Paris, Nova York e Londres. Pessoas que viajam para aprender nunca vão saber nada.

Mas isso não é transcendência. Nem museu em Paris é arte. A fila na frente da Notre Dame muito menos. O esplendor não é um clichê. Transcendência é o que o Dusão, um cara que detesto, fez no funeral do meu amigo André.



Quando meu amigo se enforcou, senti de tudo. Dor, solidão, medo, culpa e arrependimento. Três dias antes bati o telefone para não ouvir mais as loucuras dele. Nessas situações, começam a voltar aqueles filminhos das coisas que fizemos juntos. Estou falando de amor.

Foi um funeral com gente nova. Muitos de nós estávamos no primeiro emprego. A gente sabia que a vida tinha acabado de mudar e, por isso, não parávamos de nos abraçar.

A gente se abraçava o tempo inteiro também porque precisava conservar a pele. Abraçava meus amigos e minha pele se prendia ao resto do corpo.

Agora, não. Estou descarnado no metrô, ninguém me abraça e a dor é grande. Queria muito estar sozinho em Bonn, ou em uma pracinha na Cracóvia, olhando o letreiro de um ônibus naquele alfabeto estranho e me perguntando: Onde estou?

Aceito ficar sozinho, mas quero minha pele de volta. Solidão é um sentimento que suporto, mas não posso ser descarnado.

Eu e os amigos do André nos abraçávamos para manter a pele. A 1 metro da gente o corpo enforcado do André parecia me dizer: a sua pele está aí. Já não lembro se o abracei, mas até hoje sinto o momento em que segurei, no funeral, as mãos mornas do meu grande amigo enforcado.

Um pouco depois, o Dusão transcendeu. A gente estava se abraçando, ele olhou para o alto e começou a berrar: Senhor Papa, senhor Deus, senhor Buda e todos vocês, Senhores Sagrados, o André se enforcou sim, ele se matou mesmo, mas ele vai para o Céu. O André se matou, mas ele vai para o Céu.

Todos concordamos.

Não me sinto sozinho. A minha pele me abandonou. Perdi o controle da minha vida. Por isso, gosto quando estou comedido: o mundo se fecha e a minha pele não foge. A verdadeira arte é silenciosa, como a literatura. Não há nada de artístico no que estou fazendo no vagão quase cheio do metrô de São Paulo. Estou descontrolado, chorando sem parar.

Pessoas controladas gostam de se fechar em um quarto. Depois que se trancam, a pele perde a tensão. Eu a abraço. Aos poucos vamos nos soltando. Demora, mas contemplo quem me controla. Nós dois nos olhamos e aos poucos o controle diminui. Então por fim a pele explode e nos descontrolamos. Ejaculo.

Agora, porém, estou na rua chorando com o corpo inteiramente descarnado.



Tenho que sair do metrô. Não estou sozinho: minha ex-mulher me descarnou. Nada disso tem ligação com o André. Tem sim: se estivesse vivo, eu telefonaria e, depois de duas frases, meu amigo me interromperia: Ricardo, fica onde você está, vou pegar um táxi para te encontrar. O meu amigo André nunca me abandonou, mas o deixei sozinho no pior momento da vida dele.

Na rua, procurando minha pele e sem ninguém para olhar para mim, começo a me lembrar do André. A lembrança mais forte é a de como ele era bonito. O André era um homem lindo. Eu não me importava de andar ao lado dele: tinha orgulho. Ele é meu grande amigo. As meninas olhavam doidas para ele. Esse cara é meu amigão.

Minha pele está mais perto. Penso em como o André era bonito e finalmente sinto algum calor. Antes de ficar medonho por causa dos remédios, o André era um homem lindo. Minha pele talvez volte.

A gente às vezes ia a uma casa de massagem. O André sempre escolhia a mesma garota. Aline, digamos assim. Para respeitá-lo, nunca quis que ela me massageasse. Minha pele está voltando.

Na terceira ou quarta vez, quando chegamos, a moça da portaria, mal conseguindo disfarçar, pegou o interfone e avisou: Meninas, aquele cara voltou. Aquele cara era o meu amigo André. Acho que elas se ouriçaram. Quem será que o homem lindo vai escolher? Ele escolheu a Aline.

Estou imaginando onde deve estar hoje essa Aline, cinco anos depois, quando perdi a minha pele e o André morreu.



Na rua, sinto-me um pouco melhor. O metrô de São Paulo é limpo, mas nivela todo mundo. Museus fazem isso com a arte. Eu amei o metrô de Paris. Estava apaixonado. Estou sem pele.

Se encontrasse a Aline do André, talvez ela pudesse me falar dele. Faz cinco anos, mas ele era bonito o suficiente para que uma mulher jamais o esquecesse. Qualquer mulher. Concentro-me para segurar os soluços e lembrar o endereço da casa de massagens. Meia década apaga muita coisa, mas não tudo. Tenho medo de que nem uma vida apague tudo.

Na recepção, pergunto se a Aline ainda trabalha aqui. Temos uma Aline. Meu coração dispara. Vou para o quarto e, como ela demora, pego essa folha para escrever. Estou sem chorar há quase uma hora.

A porta se abriu. A Aline me olha através do espelho. Escrevendo aqui? Tenho medo de responder. Como todas, ela aparece com uma roupinha vulgar, mas tem um sorriso ingênuo. Está se aproximando aos poucos. Não me viro e sinto seus dedos e os seios arranhando levemente minhas costas. Como estou sem pele, dói um pouco. Ela percebe e para.

Você trabalha aqui há muito tempo? Uns seis meses, responde. Então não é a Aline do André… Fico com vontade de chorar. Paguei, posso fazer tudo com você? Nem tudo. Ela se deita e me olha. Deito-me ao lado e ela curva o corpo, deixando as costas para mim. Abraço-a e ela ensaia um movimento erótico que, na mesma hora, interrompo.

Fica em silêncio e tenta dormir, peço. Ela me olha espantada através do espelho, e fecha os olhos. Cubro-a com um lençol que tinham deixado ali. Não estou chorando, minha pele não voltou, mas sinto afeto por uma mulher de novo. É uma puta. A mortalha está bem colocada, mas protejo um pouco mais o pescoço da Aline. Ela sorri como minha ex-mulher fazia. Fico olhando-a fingir o sono.


Fonte: Revista Píaui

Emma Zunz

EMMA ZUNZ


JORGE LUIS BORGES (1899-1986 )

No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fábrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestíbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido. Enganaram-na, à primeira vista, o selo e o envelope; depois, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas mal traçadas quase enchiam a folha; Emma leu que o senhor Maier tinha ingerido por engano uma forte dose de Veronal e tinha falecido a 3 do corrente no hospital de Bagé. Um companheiro de pensão de seu pai assinava a notícia, um tal Fein ou Fain, de Rio Grande, que não podia saber que se dirigia à filha do morto.

Emma deixou cair o papel. A primeira sensação foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; depois, de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; depois, quis já estar no dia seguinte. Imediatamente, compreendeu que essa vontade era inútil, porque a morte de seu pai era a única coisa que tinha sucedido no mundo e que continuaria sucedendo para sempre. Pegou o papel e foi para o quarto. Furtivamente, guardou-o na gaveta, como se, de alguma forma, já conhecesse os fatos ulteriores. Talvez já começasse a vislumbrá-los; já era a que seria.

Na crescente escuridão, Emma chorou até o fim daquele dia o suicídio de Manuel Maier, que nos velhos dias felizes fora Emanuel Zunz. Recordou veraneios numa chácara, perto de Gualeguay, recordou (procurou recordar) sua mãe, recordou a casinha de Lanus que lhes arremataram, recordou os amarelos losangos de uma janela, recordou o auto de prisão, o opróbrio, recordou as cartas anônimas com o comentário sobre “o desfalque do caixa”, recordou (mas isso ela nunca esquecia) que seu pai, na última noite, jurara que o ladrão era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fábrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ninguém o revelara, nem sequer a sua melhor amiga, Eisa Urstein. Talvez evitasse a profana incredulidade; talvez acredi¬tasse que o segredo fosse um vínculo entre ela e o ausente. Loewenthal não sabia que ela sabia; Emma Zunz tirava desse fato ínfimo um sentimento de poder.

Não dormiu aquela noite, e, quando a primeira luz definiu o retângulo da janela, já estava perfeito seu plano. Procurou fazer com que esse dia, que lhe pareceu interminável, fosse como os outros. Havia na fábrica rumores de greve; Emma, como sempre, declarou-¬se contra qualquer violência. Às seis, concluído o trabalho, foi com Eisa a um clube para mulheres, com ginásio e piscina. Inscreveram-se; teve de repetir e soletrar seu nome e sobrenome, teve de achar graça das brincadeiras vulgares com que é comentado o exame médico. Com Eisa e com a mais moça das Kronfuss discutiu a que cinema iriam no domin¬go à tarde. Depois, falou-se de namorados e ninguém esperou que Emma falasse. Comple¬taria dezenove anos em abril, mas os homens lhe inspiravam ainda um temor quase patológico… Na volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-¬se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira, dia 15, a véspera.

No sábado, a impaciência despertou-a. A impaciência, não a inquietude, e o singu¬lar alívio de estar finalmente naquele dia. Já não tinha que tramar e imaginar; dentro de algumas horas, atingiria a simplicidade dos fatos. Leu em La Prensa que o navio Nordstjarnan, de Malmo, zarparia nessa noite do cais 3; telefonou para Loewenthal, insinuou que dese¬java comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritório, ao anoitecer. Tremia-lhe a voz; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorável ocorreu nessa manhã. Emma trabalhou até as doze e marcou com Eisa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio de domingo. Deitou-se depois de almoçar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que tramara. Pensou que a etapa final seria menos horrível que a primeira e que lhe proporcionaria, sem dúvida, o sabor da vitória e da justiça. De repente, alarmada, levantou-se e correu à gaveta da cômoda. Abriu-a; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a deixara na noite anterior, estava a carta de Fain. Ninguém podia tê-la visto; começou a ler e rasgou-a.

Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difícil e talvez improceden¬te. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que nessa tarde foi ao porto. Talvez no infame Paseo de Julio se tenha visto multiplicada em espelhos, anunciada por luzes e despida pelos olhos famintos, porém mais razoável é conjeturar que a princípio errou, inadvertida, pela indiferente galeria… Entrou em dois ou três bares, viu a rotina ou os modos de outras mulheres. Por fim, deu com homens do Nordstjéirnan. Temeu que um deles, muito jovem, lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, a fim de que a pureza do horror não fosse diminuída. O homem conduziu-¬a a uma porta e depois a um turvo saguão e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestíbulo (em que havia uma vidraça com losangos idênticos aos da casa em Lanus) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves estão fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica como que separado do futuro, seja porque não parecem consecutivas as partes que os formam.

Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem caótica de sensações inconexas e atrozes, Emma Zunz pensou uma única vez no morto que motivava o sacrifício? Tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento correu perigo seu desesperado propósito. Pensou (não pôde deixar de pensar) que seu pai tinha feito à sua mãe a coisa horrível que lhe faziam agora. Pensou com débil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlandês, não falava espanhol; foi um instrumento para Emma como esta o foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justiça.

Quando ficou sozinha, Emma não abriu em seguida os olhos. Na mesa de cabecei¬ra estava o dinheiro deixado pelo homem. Emma sentou-se e o rasgou como antes rasga¬ra a carta. Rasgar dinheiro é uma impiedade, como jogar fora o pão; Emma arrependeu¬-se, tão logo o fez. Um ato de soberba, e naquele dia… O medo perdeu-se na tristeza de seu corpo, no asco. O asco e a tristeza prendiam-na, mas Emma lentamente se levantou e começou a vestir-se. No quarto não restavam cores vivas; o último crepúsculo se adensava. Ela pôde sair sem que a percebessem; na esquina, pegou um Lacroze que ia para o oeste. Escolheu, conforme seu plano, o banco mais da frente para que não lhe vissem o rosto. Talvez a tenha consolado verificar, no insípido movimento das ruas, que o acontecido não contaminara as coisas. Passou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e esquecen¬do-os no ato, e desceu numa das esquinas de Warnes. Paradoxalmente, seu cansaço vinha a ser uma força, pois a obrigava a concentrar-se nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim.

Aaron Loewenthal era, para todos, um homem sério; para seus poucos íntimos, um avarento. Vivia nos altos da fábrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado arrabalde, temia os ladrões; no pátio da fábrica havia um grande cachorro e na gaveta do escritório, ninguém o ignorava, um revólver. Chorara com decoro, no ano anterior, a inesperada morte da mulher – uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! –, mas o dinheiro era sua verdadeira paixão. Com íntima vergonha, sabia ser menos apto para ganhá-lo que para conservá-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções. Calvo, corpulento, enlutado, de óculos escuros e barba ruiva, esperava de pé, junto à janela, a informação confidencial da operá¬ria Zunz.

Viu-a empurrar a grade (que ele deixara entreaberta, de propósito) e cruzar o pátio sombrio. Viu-a dar uma pequena volta quando o cachorro amarrado latiu. Os lábios de Ernma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentença que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer.

As coisas não ocorreram como previra Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, sonhara, muitas vezes, apontando o firme revólver, forçando o miserável a confessar a miserável culpa e expondo o corajoso estratagema que permitiria à Justiça de Deus triun¬far sobre a justiça humana. (Não por medo, mas por ser um instrumento da justiça, ela não queria ser castigada.) Depois, um só balaço no meio do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas não ocorreram assim.

Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje sofrido por isso. Não podia deixar de matá-lo, depois dessa minuciosa desonra. Tampouco tinha tempo a perder com teatralidades. Sentada, tímida, pediu des¬culpas a Loewenthal, invocou (à maneira de delatora) as obrigações da lealdade, pronun¬ciou alguns nomes, deu a entender outros e calou-se como se o medo a vencesse. Conse¬guiu que Loewenthal saísse para buscar um copo d’água. Quando ele, incrédulo de tal agitação, mas indulgente, voltou da sala de jantar, Emma já tinha tirado da gaveta o pesado revólver. Apertou o gatilho duas vezes. O considerável corpo caiu como se os es¬tampidos e a fumaça o tivessem rompido, o copo se partiu, o rosto olhou-a com assombro e cólera, a boca injuriou-a em espanhol e em iídiche. Os palavrões não cessavam; Emma teve de fazer fogo outra vez. No pátio, o cachorro acorrentado pôs-se a ladrar, e uma efusão de sangue repentino brotou dos lábios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusação que tinha preparada (”Vinguei meu pai e não me poderão castigar…”), mas não a concluiu, porque o senhor Loewenthal já estava morto. Não soube nunca se ele chegou a compreender.

Os tensos latidos lembraram que ela não podia, ainda, descansar. Desordenou o divã, desabotoou o paletó do cadáver, tirou-lhe os óculos salpicados e deixou-os sobre o fichário. Em seguida, pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: “Aconteceu uma coisa inacreditável. O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve… Abusou de mim, eu o matei”

A história era inacreditável, de fato, mas se impôs a todos, pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que padecera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.





Tradução de Flávio José Cardozo

ESTADO DE ACEPCIÓN Gaza.

(de origen y fin incierto).





uno. femenino.

Nudo en llanto, desatado

en el extremo. Obligado a doblarse,

a des-ser, mordaza en sangre.

Sirve para enganchar o ceñir

el cebo de Occidente,

una carnada de rabia,

la espada de Israel



y suspenderlas luego desde ninguna parte.





dos. femenino.

Circundar el alambre,

abrirse las manos, caminar

el polvo hasta alcanzar

el templo o despacho



o como se llame

el lugar donde el Hombre del Lobby

aventa cenizas

de la Zarza Ardiente.

Enmarcar el albarán de su misil.





tres. femenino.

Pájaro negro que al surcar

la Franja esta noche

y me despierta

y me dice su graznido



que ha llovido metralla,

que a tanto el kilo de paloma blanca,

que mi silencio mata.





Quise llegar hasta tu puerta, Palestina.

A devolverte mi calma vengo.



Carmen Camacho

sábado, 22 de outubro de 2011

Amanheço

O sol visto da janela do meu quarto. Esplêndido. Mesmo na condição patética dos primeiros dias, pude admirar a luminosidade indescritível das tardes de verão. A cidade parece tomada por uma onda de calmaria e as pessoas se esforçam para que eu sinta vontade de ficar; de ser. A cidade se abre para mim, macia. Receptiva. Coberta por um véu de suave devoção. Sento no café. Venço a minha impaciência com o barulho e as pessoas. As pessoas que fazem menos barulho para ouvir o piano. O piano. Lamento não saber tocar nenhum instrumento. Adormeço no colo da música. Viva. Consigo olhar esse Deus sátiro nos olhos. Aqui, sou mais cínica diante de tudo aquilo que é falho; da vida. Termino de comer. E sou atingida por um raio. Meu passo se atrasa e se apressa. Um calafrio que atravessa o meu corpo e traz inquietude para cada músculo. É o abismo da felicidade. É o amor cavalgando o meu dorso. Um quê de divindade nas nossas entranhas. Tu és um Deus e nunca houve nada mais divino. Amor fati. A fortuna da minha existência está nas fatalidades. A mulher que olha dentro dos meus olhos e promete o melhor café que já fez. Dia perfeito em que tudo amadurece. Um raio. Eu, como você, morri. Eu, como você, estou viva. E envelheço nas minhas decisões. Envelheço tentando domar cada elemento vital do meu corpo. Renasço. Danço. Trago o encantamento e a felicidade, que deixaram o berço dilacerado pela dor. Tu te tornas obra de arte. Tu dizes sim ao mundo. E a cidade se alegra por estarmos aqui. E a cidade se alegra por suportarmos tanta verdade sem sucumbir.

Por Daniela Lima
Fonte : Cronópios

Amo estes gregos pagãos

Amo estes gregos pagãos

que amavam a vida

a partir de um céu azul

e um mar violeta.

Amo estas montanhas cabritas

onde Safo e companhia

a de belos tornozelos

galgavam o dia.

Eliane Pantoja Vaidya

“Les tentations, ou Eros, Plutus et la gloire”,

par Charles Baudelaire



Deux superbes Satans et une Diablesse, non moins extraordinaire, ont la nuit dernière monté l’escalier mystérieux par où l’Enfer donne assaut à la faiblesse de l’homme qui dort, et communique en secret avec lui. Et ils sont venus se poser glorieusement devant moi, debout comme sur une estrade. Une splendeur sulfureuse émanait de ces trois personnages, qui se détachaient ainsi du fond opaque de la nuit. Ils avaient l’air si fier et si plein de domination, que je les pris d’abord tous les trois pour de vrais Dieux.

Le visage du premier Satan était d’un sexe ambigu, et il avait aussi, dans les lignes de son corps, la mollesse des anciens Bacchus. Ses beaux yeux languissants, d’une couleur ténébreuse et indécise, ressemblaient à des violettes chargées encore des lourds pleurs de l’orage, et ses lèvres entr’ouvertes à des cassolettes chaudes, d’où s’exhalait la bonne odeur d’une parfumerie ; et à chaque fois qu’il soupirait, des insectes musqués s’illuminaient, en voletant, aux ardeurs de son souffle.

Autour de sa tunique de pourpre était roulé, en manière de ceinture, un serpent chatoyant qui, la tête relevée, tournait langoureusement vers lui ses yeux de braise. A cette ceinture vivante étaient suspendus, alternant avec des fioles pleines de liqueurs sinistres, de brillants couteaux et des instruments de chirurgie. Dans sa main droite il tenait une autre fiole dont le contenu était d’un rouge lumineux, et qui portait pour étiquette ces mots bizarres : « Buvez, ceci est mon sang, un parfait cordial… » dans la gauche, un violon qui lui servait sans doute à chanter ses plaisirs et ses douleurs, et à répandre la contagion de sa folie dans les nuits de sabbat.

A ses chevilles délicates traînaient quelques anneaux d’une chaîne d’or rompue, et quand la gêne qui en résultait le forçait à baisser les yeux vers la terre, il contemplait vaniteusement les ongles de ses pieds, brillants et polis comme des pierres bien travaillées.

Il me regarda avec ses yeux inconsolablement navrés, d’où s’écoulait une insidieuse ivresse, et il me dit d’une voix chantante : « Si tu veux, si tu veux, je te ferai le seigneur des âmes, et tu seras le maître de la matière vivante, plus encore que le sculpteur peut l’être de l’argile ; et tu connaîtras le plaisir, sans cesse renaissant, de sortir de toi-même pour t’oublier dans autrui, et d’attirer les autres âmes jusqu’à les confondre avec la tienne. »

Et je lui répondis : « Grand merci ! je n’ai que faire de cette pacotille d’êtres qui, sans doute, ne valent pas mieux que mon pauvre moi. Bien que j’aie quelque honte à me souvenir, je ne veux rien oublier ; et quand même je ne connaîtrais pas, vieux monstre, ta mystérieuse coutellerie, tes fioles équivoques, les chaînes dont tes pieds sont empêtrés, sont des symboles qui expliquent assez clairement les inconvénients de ton amitié. Garde tes présents. »

Le second Satan n’avait ni cet air à la fois tragique et souriant, ni ces belles manières insinuantes, ni cette beauté délicate et parfumée. C’était un homme vaste, à gros visage sans yeux, dont la lourde bedaine surplombait les cuisses, et dont toute la peau était dorée et illustrée, comme d’un tatouage, d’une foule de petites figures mouvantes représentant les formes nombreuses de la misère universelle. Il y avait de petits hommes efflanqués qui se suspendaient volontairement à un clou ; il y avait de petits gnomes difformes, maigres, dont les yeux suppliants réclamaient l’aumône mieux encore que leurs mains tremblantes ; et puis de vieilles mères portant des avortons accrochés à leurs mamelles exténuées. Il y en avait encore bien d’autres.

Le gros Satan tapait avec son poing sur son immense ventre, d’où sortait alors un long et retentissant cliquetis de métal qui se terminait en un vague gémissement fait de nombreuses voix humaines. Et il riait, en montrant impudemment ses dents gâtées, d’un énorme rire imbécile, comme certains hommes de tous les pays quand ils ont trop bien dîné.

Et celui-là me dit : « Je puis te donner ce qui obtient tout, ce qui vaut tout, ce qui remplace tout ! » Et il tapa sur son ventre monstrueux, dont l’écho sonore fit le commentaire de sa grossière parole.

Je me détournai avec dégoût, et je répondis : « Je n’ai besoin, pour ma jouissance, de la misère de personne ; et je ne veux pas d’une richesse attristée, comme un papier de tenture, de tous les malheurs représentés sur ta peau. »

Quant à la Diablesse, je mentirais si je n’avouais pas qu’à première vue je lui trouvai un bizarre charme. Pour définir ce charme, je ne saurais le comparer à rien de mieux qu’à celui des très-belles femmes sur le retour, qui cependant ne vieillissent plus, et dont la beauté garde la magie pénétrante des ruines. Elle avait l’air à la fois impérieux et dégingandé, et ses yeux, quoique battus, contenaient une force fascinatrice. Ce qui me frappa le plus, ce fut le mystère de sa voix, dans laquelle je retrouvais le souvenir des contralti les plus délicieux et aussi un peu de l’enrouement des gosiers incessamment lavés par l’eau-de-vie.

« Veux-tu connaître ma puissance ? » dit la fausse déesse avec sa voix charmante et paradoxale. « Ecoute. »

Et elle emboucha alors une gigantesque trompette, enrubannée, comme un mirliton, des titres de tous les journaux de l’univers, et à travers cette trompette elle cria mon nom, qui roula ainsi à travers l’espace avec le bruit de cent mille tonnerres, et me revint répercuté par l’écho de la plus lointaine planète.

« Diable ! » fis-je, à moitié subjugué, « voilà qui est précieux ! » Mais en examinant plus attentivement la séduisante virago, il me sembla vaguement que je la reconnaissais pour l’avoir vue trinquant avec quelques drôles de ma connaissance ; et le son rauque du cuivre apporta à mes oreilles je ne sais quel souvenir d’une trompette prostituée.

Aussi je répondis, avec tout mon dédain : « Va-t’en ! Je ne suis pas fait pour épouser la maîtresse de certains que je ne veux pas nommer. »

Certes, d’une si courageuse abnégation j’avais le droit d’être fier Mais malheureusement je me réveillai, et toute ma force m’abandonna. « En vérité, me dis-je, il fallait que je fusse bien lourdement assoupi pour montrer de tels scrupules. Ah ! s’ils pouvaient revenir pendant que je suis éveillé, je ne ferais pas tant le délicat ! »

Et je les invoquai à haute voix, les suppliant de me pardonner, leur offrant de me déshonorer aussi souvent qu’il le faudrait pour mériter leurs faveurs ; mais je les avais sans doute fortement offensés, car ils ne sont jamais revenus

Alguém…

Alguém desfecha a flecha do vôo:

reflexo no vidro onde a chuva

penteia os cabelos.

Cantiva de muitas lágrimas

dos suspiros do vento

nesta casa pousada na montanha

aguardo criança flor anjo ou passaro.

Pensamentos alígeros – andorinhas

nos aguaceiros de verão

traçam oblíquas, desaparecem

no céu que escurece.

Abraçada à minha alma

não sinto o tempo latejar por perto.

O incerto longe é a minha vocação.

O longe do longe onde talvez

estás sempre em despedida

do invólucro que não te retém. E eu

sempre atrás do aceno teu

do aroma que te esquece e se esvai.

Se um lenço de fino linho

se desprendesse de teus dedos (sonho meu)

o caçaria como a um pássaro

que longe vivia

e me pertencia.

Dora Ferreira da Silva

sábado, 15 de outubro de 2011

POEMA AO NORDESTE

Quase tudo no nordeste é seco:



Os rios, os açudes, as vidas...



São secas também as árvores.



E as mesas dos que produzem o pão.



E como é seca a vontade dos governantes!



Até as cercas são feitas de madeira seca.



Mas, nem tudo é totalmente seco, como:



O bolso e as mesas dos donos das cercas.



Mesmo o grito seco na garganta do sertanejo,



Traz algo que não é seco:



A esperança de vencer as cercas e dominar a seca.



- Será que o Nordeste é seco?



Ou quantos foram os que o secaram?



João Freire Rodrigues
Apodi - RN

sábado, 8 de outubro de 2011

1. Tsunami

Wave after wave, wave upon wave.

The dead are not seen and their screams not heard.



Listen! Don’t listen! Listening without end.

No one can hear what the dead shriek.

Only the dead are able to hear their own screams.



.. .. .. ..



Come on! Come on! Run!

The earth is stuffed with its own ruin

And mankind is in need of a sanctuary.



2. Description of death



There is no one left on Earth who says:

“Oh you black poets!

You thrive by mocking hope and manufacturing despair all around you.”

No one remains who says:

“How can one describe death?”



.. .. .. ..



Must the scream of despair cause pain to the stone and the pillars of the temple to tremble

Before philosophers and scientists acknowledge the sound

Of one who suffers?



3. The Lord’s “six days”



The wicked say:

“The errors of the clever are always the worst.”

Maybe they are right.



.. .. ..



God forbid

I question the Lord’s intelligence

Or His good intentions

But I think Him somewhat careless,

Somewhat confused,

Romantic, reckless, incessantly emotional

And, of course, like all his poet friends,

Both highly inspired and incapable of self-belief.



.. .. .. ..



It seems to me that six days were not enough to build a dream.

A million years, a million ages, a million judgement days . . .

And He has altered nothing.

It is as if God is still endlessly

Practising on the product of His labour.

The Earth is still not suitable for life to this day

And nor are its people.



When will that momentous day come when God will stand and say:

“At last, We have found a solution

And humanity can

Begin living”?



4. Prayer to the god of the 21st century



Take the herd.

Take the herders.

Take the philosophers, militias and army leaders.

But don’t lay your hand on a child.



Take the fortresses, the monasteries, the brothels and the pillars of the temple.

Take everything on Earth.

Take everything which devalues the Earth.

Take the Earth.

And let the children dream.



If they go up into the mountains

Don’t send earthquakes beneath them.

If they go into the valleys

Don’t let floods loose upon them.

The children are our children and Yours:

Give them solid ground.







Poet's Note: Read by Asad Jaber at the Poetry International Festival, Rotterdam, June 2011



© 2011, Nazih Abou Afach

From: Chaos & Order

Publisher: Poetry International, Rotterdam, 2011


1. Tsunami




Onda após onda, onda após onda.

Os mortos não são vistos e seus gritos não ouviu.



Ouça! Não dê ouvidos! Ouvindo sem fim.

Ninguém pode ouvir o grito dos mortos.

Só os mortos são capazes de ouvir seus próprios gritos.



.. .. .. ..



Vamos lá! Vamos lá! Corra!

A terra é recheado com a sua própria ruína

E a humanidade está precisando de um santuário.



2. Descrição da morte



Não há ninguém à esquerda na Terra que diz:

"Oh, você poetas negros!

Você prosperar pela esperança e desespero zombando fabricação de todos ao seu redor. "

Ninguém permanece que diz:

"Como se pode descrever a morte?"



.. .. .. ..



Deve ser o grito de dor causar desespero para a pedra e os pilares do templo a tremer

Antes de filósofos e cientistas reconhecem o som

De alguém que sofre?



3. Do Senhor "seis dias"



Os ímpios dizem:

"Os erros dos inteligentes são sempre o pior."

Talvez tenham razão.



.. .. ..



Deus nos livre

Eu questiono a inteligência do Senhor

Suas boas intenções ou

Mas eu acho que ele um pouco descuidado,

Um pouco confuso,

Romântico, imprudente, incessantemente emocional

E, claro, como todos os seus amigos de poeta,

Ambos altamente inspirada e incapaz de auto-crença.



.. .. .. ..



Parece-me que seis dias não foram suficientes para construir um sonho.

Um milhão de anos, um milhão de idades, um milhão de dias julgamento. . .

E Ele alterou nada.

É como se Deus ainda é infinitamente

Praticar sobre o produto do seu trabalho.

A Terra ainda não é adequado para a vida até hoje

E nem são as pessoas.



Quando será esse dia memorável vir quando Deus vai levantar e dizer:

"Enfim, Nós temos encontrado uma solução

E a humanidade pode

Começar a viver "?



4. Oração ao deus do século 21



Leve o rebanho.

Pegue os pastores.

Pegue os filósofos, as milícias e os líderes do exército.

Mas não estendas a tua mão sobre a criança.



Tomar as fortalezas, mosteiros, os bordéis e os pilares do templo.

Leve tudo na Terra.

Pegue tudo o que desvaloriza a Terra.

Levar a Terra.

E deixar que o sonho das crianças.



Se eles vão para as montanhas

Não envie terremotos abaixo deles.

Se eles vão para os vales

Não deixe solto inundações sobre eles.

As crianças são nossos filhos e Yours:

Dar-lhes um terreno sólido.



© 2011, Nazih Abou Afach.
Síria

De: Caos & Ordem

Editora: Poesia Internacional, Rotterdam, 2011

SVENSKA HUS ENSLIGT BELÄGNA

Ett virrvarr av svarta granar

och rykande månstrålar.

Här ligger torpet sänkt

och det tycks utan liv.



Tills morgondaggen sorlar

och en åldring öppnar

– med darrande hand –

fönstret och släpper ut en uv.



Och i ett annat väderstreck

står nybygget och ångar

med lakanstvättens fjäril

fladdrande vid knuten



mitt i en döende skog

där förmultningen läser

genom glasögon av sav

barkborrarnas protokoll.



Sommar med linhåriga regn

eller ett enda åskmoln

över en hund som skäller.

Fröet sparkar i jorden.



Upprörda röster, ansikten

flyger i telefontrådarna

på förkrympta snabba vingar

över myrmarkernas mil.



Huset på en ö i älven

ruvande sina grundstenar.

En ständig rök – man bränner

skogens hemliga papper.



Regnet vänder i himlen.

Ljuset slingrar i älven.

Hus på branten övervakar

vattenfallets vita oxar.



Höst med en liga av starar

som håller gryningen i schack.

Människorna rör sig stelt

på lampskenets teater.



Låt dem känna utan ängslan

de kamouflerade vingarna

och Guds energi

hoprullad i mörkret.


SOLITARY SWEDISH HOUSES

A mix-max of black spruce

and smoking moonbeams.

Here’s the croft lying low

and not a sign of life.



Till the morning dew murmurs

and an old man opens

– with a shaky hand – his window

and lets out an owl.



Further off, the new building

stands steaming

with the laundry butterfly

fluttering at the corner



in the middle of a dying wood

where the mouldering reads

through spectacles of sap

the proceedings of the bark-drillers.



Summer with flaxen-haired rain

or one solitary thunder-cloud

above a barking dog.

The seed is kicking inside the earth.



Agitated voices, faces

fly in the telephone wires

on stunted rapid wings

across the moorland miles.



The house on an island in the river

brooding on its stony foundations.

Perpetual smoke – they’re burning

the forest’s secret papers.



The rain wheels in the sky.

The light coils in the river.

Houses on the slope supervise

the waterfall’s white oxen.



Autumn with a gang of starlings

holding dawn in check.

The people move stiffly

in the lamplight’s theatre.



Let them feel without alarm

the camouflaged wings

and God’s energy

coiled up in the dark.



© 1995, Tomas Tranströmer

From: Samlade dikter 1954-1996

Publisher: Albert Bonniers Förlag, Stockholm, 2001







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© Translation: 2002, Robin Fulton

nattboksblad

Jag landsteg en majnatt

i ett kyligt månsken

där gräs och blommor var grå

men doften grön.



Jag gled uppför sluttningen

i den färgblinda natten

medan vita stenar

signalerade till månen.



En tidrymd

några minuter lång

femtioåtta år bred.



Och bakom mig

bortom de blyskimrande vattnen

fanns den andra kusten

och de som härskade.



Människor med framtid

i stället för ansikten.



a page of the night-book

I stepped ashore one May night

in the cool moonshine

where grass and flowers were grey

but the scent green.



I glided up the slope

in the colour-blind night

while white stones

signalled to the moon.



A period of time

a few minutes long

fifty-eight years wide.



And behind me

beyond the lead-shimmering waters

was the other shore

and those who ruled.



People with a future

instead of a face.



© Tomas Tranströmer

From: Samlade dikter 1954-1996

Publisher: Albert Bonniers Förlag, Stockholm, 2001







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© Translation: 2002, Robin Fulton

Grafschrift

Ik heb een liefde die zo oud is als ikzelf.

Zij kan niet dood zolang ik zelf geen dode ben.



Zij gaat zo graag gebukt onder mijn naam.

Zij publiceert mijn vlees en bloed tot alles op is.



Zij leurt met heel oud nieuws van mij de wereld rond

En blind sorteert zij regels die ik nooit verstond.



Ik heb een liefde, zij is altijd in gevaar

En kan pas weg als ik hier zelf de weg niet ken.



De weg die wij nu gaan, wij rollen hem langzaam op

Tot een steen. Die leggen wij straks op ons graf.



EPITAPH

I have a love who’s as old as my self.

She cannot die as long as I’m not dead.



She so likes being burdened by my name.

She publishes my flesh and blood till it’s all gone.



She hawks outdated news of me around the world

And blindly sorts the lines I never understood.



I have a love, she’s always in danger

And can only leave when I don’t know the way.



The road that we are on, we roll it slowly up

Into a stone. We’ll lay it one day on our grave.



© 1999, Leonard Nolens

From: Laat alle deuren op een kier. Verzamelde gedichten

Publisher: Querido, Amsterdam, 2004







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© Translation: 2005, Paul Vincent

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Poemas Haikai

Os fios elétricos

estendidos por onde o frio reina

Ao norte de toda música.



O sol branco

treina correndo solitário para

a montanha azul da morte.



Temos que viver

com a relva pequena

e o riso dos porões



Agora o sol se deita.

sombras se levantam gigantescas.

Logo logo tudo é sombra.



As orquídeas.

Petroleiros passam deslizando.

É lua cheia.



Fortalezas medievais,

cidades desconhecidas, esfinges frias,

arenas vazias.



As folhas cochicham:

Um javali está tocando órgão.

E os sinos batem.



E a noite se desloca

de leste para oeste

na velocidade da lua.



Duas libélulas

agarradas uma na outra

passam e se vão



Presença de Deus.

No túnel do canto do pássaro

uma porta fechada se abre.



Carvalhos e a lua.

Luz e imagem de estrelas salientes.

O mar gelado.



Tomas Tranströmer

domingo, 2 de outubro de 2011

a Desadolescência

por REGINALDO DIAS*


Homens de minha geração, nascidos no início da década de 1960 e que estão na fronteira dos cinqüenta anos, um pouco para lá, um pouco para cá, vivem o que poderia ser chamado de desadolescência.

Grosso modo, a adolescência é aquela fase em que nós temos que aprender a domar as rápidas mudanças operadas em nosso corpo. Descobrimos que não somos mais crianças e sabemos que não nos tornamos adultos. Na desadolescência, por razões inversas, somos novamente instados a aprender a conviver com as rápidas mudanças operadas em nosso corpo. Não somos mais jovens e ainda não nos tornamos velhos.



Diferentemente do outro ciclo, as mudanças são operadas para pior, pelo menos no plano físico. Inevitavelmente, mais para uns, menos para outros, surgem limitações no consumo de alimentos, de bebidas e de atividades físicas. Nem falo da virilidade, pois esse é um problema que só atinge pessoas que não conhecemos. Dia desses, naquelas conversas descontraídas que sucedem o futebol de veteranos, um amigo pontificou: “Você sabe que a idade está chegando quando o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho”. Como ninguém ali vivia situações semelhantes, todos riram à farta.



Se vivêssemos em outra época histórica, estaríamos próximos da velhice. Alguns dos livros clássicos de reflexão sobre a velhice foram escritos por homens que haviam acabado de ultrapassar os sessenta anos. Exemplo: Cícero escreveu “De senectute” aos 62 anos. Hoje, graças aos ganhos civilizatórios, a estimativa de vida se elevou e a velhice passou a ser sinônimo de idade mais avançada. O filósofo contemporâneo Norberto Bobbio escreveu o seu texto “De senectute”, veiculado pelo livro “O tempo da memória”, já octogenário.



Qualquer que seja o parâmetro, são perturbadoras as linhas que Bobbio escreveu sobre o caminho sem volta: “A descida em direção a lugar nenhum é longa, mais longa do que eu imaginara, e lenta. A descida é contínua e, o que é pior, irreversível: você desce um pequeno degrau de cada vez, mas ao colocar o pé no degrau mais baixo sabe que nunca mais vai retornar ao degrau mais alto. Quantos ainda existem eu não sei. Mas de uma coisa não tenho dúvida: restam cada vez menos”.



Quem já se convenceu de que é velho é motivado a desenvolver a proverbial sabedoria diante da inevitabilidade do passar do tempo. Situação mais complexa é vivida pelos que se encontram na desadolescência. Minha geração nasceu e cresceu na década de 1960, famosa pelo culto à juventude.



Pode não ter entendido na época, mas ouviu Beatles, Rolling Stones e The Who. Naquele período repleto de maniqueísmos, eram divulgadas máximas como: “Não confie em ninguém com mais de 30”; “Melhor morrer do que ficar velho” etc. Mesmo a ingênua versão brasileira da beatlemania era chamada de “jovem guarda”, com acento no primeiro termo.



Passado o choque da descoberta da desadolescência, a ultrapassagem do que se convencionou chamar de meia idade expõe, de um lado, que é um privilégio não ter ficado pelo caminho e, de outro, que a estrada segue muito além dos 64 anos cantados pelos Beatles no álbum “Sergeant Peppers”. Se, como diz Bobbio, só restam degraus para baixo, melhor que não sejam poucos e que saibamos ultrapassar cada um com resignação, dignidade e prazer, ainda que isso dê algum trabalho.








* REGINALDO DIAS é professor do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM) e Doutor em História Social pela UNESP. Publicado em O Diário do Norte do Paraná, 28.09.2011. Email: diasreginaldo@hotmail.com