terça-feira, 21 de maio de 2013

O Grande Medo de 1789, de Georges Lefebvre.


Por toda a França, corre o rumor de que os aristocratas vão atacar os pobres. Os pobres atacam preventivamente e queimam os registros de servidão. O tiro sai pela culatra. Mas tinha havido tiro?

Renato Janine Ribeiro

Bertrand Russell escreveu certa vez que a tarefa de uma educação liberal é '' criar um sentido de valor diferente do de dominação, ajudar a criar os cidadãos sábios de uma comunidade livre e, através da combinação de cidadania com liberdade no âmbito da criatividade individual, capacitar as pessoas para dar à vida humana o esplendor que alguns poucos têm se mostrado capazes de atingir''.

-Noam Chomsky, em introdução ao livro ''Problemas do conhecimento e da liberdade''

Magma


Reportagem

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

- João Guimarães Rosa

Velório sem defunto


Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

- Mario Quintana, in: Velório sem defunto, 1990.

“O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda dizem por aí que vivemos em uma civilização científica... O que eu disse dos médicos você pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e assim acontece. Dizem que o álcool será a solução para que nossos automóveis continuem a trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos técnicos se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar?”

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. 6 ª ed. São Paulo: Loyola, 2002

segunda-feira, 20 de maio de 2013

TEMPO





Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa
23-8-1934
Poesias Inéditas (1930-1935).

O PRAZER DO DIFÍCIL



O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats
Tradução: Augusto de Campos


domingo, 19 de maio de 2013


 “Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.”

Pablo Neruda

sábado, 18 de maio de 2013


Renato Janine Ribeiro

A redenção, pelo riso, de homens tristes. Li isso em Nosso homem em Havana, o engraçado livro de Graham Greene que se passa logo antes da vitória de Fidel. Uma moça se apaixona por um sério vendedor inglês de aspiradores de pó, quando vê que ele quer dar um banho de champagne no chefe da polícia política. E lembrei The key to Rebecca, o melhor romance de Ken Follett, em que a moça descobre, no sério e viúvo major que luta contra os nazistas, possibilidades insuspeitas de alegria. Livros bem diferentes, que têm isso em comum. A alegria às vezes está tão escondida que a pessoa nem sabe que a tem.

Serenata



Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles

AOS AMIGOS




Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder 

claro que morrerei




claro que morrerei e hão-de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei-de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão-de pensar-se de novo
na humidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti

Juan Gelman

"Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem, e por conseguinte, ensinando-lhes algo mais sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta. Aquele primeiro pode ter sentimentos que são únicos, mas que não podem ser partilhados, e que por isso são inúteis; o último descobre novas variantes da sensibilidade das quais os outros podem se apropriar. E, ao expressá-las, desenvolve e enriquece a língua que fala."

T. S. Eliot

As noites suburbanas de Moscou




Não se ouvem no jardim nem sussurros
Tudo aqui está parado até a manhã.
Se vocês soubessem como me são queridas
As noites suburbanas de Moscou.

O rio avança... e não avança
Todo prateado de luar
Uma música é... e não é ouvida
Nestas noites silenciosas.

E se você, doçura, olhar atentamente, de soslaio,
A cabeça baixa, inclinada?
Dificilmente adivinharia, e não adivinharia
Tudo o que há no meu coração.

Mas à alva já tudo é visível...
Assim, por favor, seja boazinha.
Não esqueça dessas noites de verão
No subúrbio de Moscou!

*em russo*

~Подмосковные вечера

Не слышны в саду даже шорохи,
Всё здесь замерло до утра.
Eсли б знали вы, как мне дороги
Подмосковные вечера.

Речка движется и не движется,
Вся из лунного серебра.
Песня слышится и не слышится
В эти тихие вечера.
.
Что ж ты, милая, смотришь искоса,
Низко голову наклоня?
Трудно высказать и не высказать
Всё, что на сердце у меня.
.
А рассвет уже всё заметнее.
Так, пожалуйста, будь добра.
Не забудь и ты эти летние
Подмосковные вечера.

Prometeo




Al nacer mi efímera existencia
In a distance covered
Buscaba, mutilada, el estertor,
-and lost in the universe-
mas en la nostalgia moribunda
a full poem exists,
hay sólo un angustioso sufrimiento luego
but dies off due to a perverse dream;
y un hastío sublime e inmortal.

Because a wicked dream never
Podría ser Prometeo en agonía,
could be the imagination
la muda respuesta del viento;
of the wind that rest
en el aburrimiento de la vida y
into the death that leaks;
que nada atrapa por desesperación.

La muerte es sempiterna,
life is a dream,
la resurrección me ha dejado insatisfecho:
dream is death,
sueño que muero ahora,
death means nothing…
pero aún vivo, estoy muerto…

Adán Cabral Sanguino.México
Fonte;Poetas de Sonora

Memórias do Cárcere


Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.
 
[Graciliano Ramos | Memórias do Cárcere]
 
 

Sarça Ardente



5
 
Entrei profundas grutas tenebrosas
Onde os anos e os séculos pararam.
Chão que nunca viu sol nem sonhou rosas,
Os meus lábios gretados o afloraram.
Colado o ouvido às pedras alterosas
E aos terríveis silêncios que pesaram,
Quis ir tentar sentir arfar teu peito,
Mãe Terra!, meu primeiro e último leito.
 
(José Régio, in As Encruzilhadas de Deus)