domingo, 14 de outubro de 2012

A dama que atravessou três séculos




Alice nasceu escrava, em 1886, e escrava viveu cento e dezesseis anos.
Quando morreu, em 1802, morreu com ela uma parte da memória dos africanos na América. Alice não sabia nem ler nem escrever, mas estava toda cheia de vozes que contavam e cantavam lendas vindas de longe e também histórias vividas de perto. Algumas dessas histórias vinham dos escravos que ela ajudava a fugir.
Aos noventa anos, ficou cega.
Aos cento e dois, recuperou a visão:
- Foi Deus - disse. - Ele não podia me falhar.
Era chamada de Alice do Ferry Dunks. Ao serviço de seu dono, trabalhava no ferry que levava e trazia passageiros pelo rio Delaware.
Quando os passageiros, sempre brancos, debochavam daquela velha velhíssima, ela os deixava abandonados na outra margem do rio. Eles a chamavam aos gritos, mas não tinha jeito. Era surda a que havia sido cega.


Galeano - 11 de outubro 

estilo



estilo é a resposta para tudo –
um novo jeito de encarar algo estúpido ou
perigoso.
é preferível fazer algo estúpido com estilo
do que fazer algo perigoso
sem estilo.

Joana d’Arc tinha estilo
João Batista
Cristo
Sócrates
César,
García Lorca.

estilo é o que faz a diferença,
um jeito de realizar,
um jeito de estar realizado.

6 garças paradas numa lagoa
ou você saindo nua do banheiro
sem me
ver.

 Charles Bukowski/ tradução: Fernando Koproski
 AMOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA (7 Letras, 2012)

sábado, 13 de outubro de 2012

Química



Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago

Alcoólicas (I)




É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.

in HILST, Hilda. Do desejo. São Paulo: Globo, 2004

ENTRE OS MORTOS NUM BOMBARDEIO AO AMANHECER




HAVIA UM HOMEM DE CEM ANOS

Quando a manhã despertava sobre a guerra

Ele vestiu as calças e caminhou para a morte,

Suas madeixas bocejaram soltas e uma rajada de vento as dispersou,

Tombou onde amava, sobre as pedras arrancadas à calçada

E as fúnebres sementes do solo massacrado.

Dizei à sua rua lá no fundo que ele deteve um sol

E que da cratera de seus olhos brotaram fogos e balaços

Quando todas as chaves saltaram das fechaduras e retiram.

E não mais escaveis em defesa das algemas de seu grisalho coração.

A ambulância celeste arrancada por uma constelação de chagas

Aguarda o tinir da espada na gaiola.

Oh retirai seus ossos desse veículo banal,

a manhã está voando com as asas de sua idade

E uma centena de cegonhas pousa na mão direita do sol.

(Dylan Thomas)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Descobrimento



Em 1492, os nativos descobriram que eram índios, descobriram que viviam na América,descobriram que estavam nus,descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo e a um deus de outro céu,e que esse deus havia inventado a culpa e o vestidoe que havia mandado que fosse queimado vivo quem adorasse o Sol e a Lua e a terra e a chuva que molha essa terra.

 Galeano - 12 de outubro