Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
- Fernando Pessoa
terça-feira, 10 de julho de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
Gabriela
O que fizeste, sultão, de minha alegre menina ?
Só desejava a campina, colher as flores do mato.
Só desejava um espelho de vidro para se mirar.
Só desejava do sol calor para bem viver.
Só desejava o luar de prata para repousar.
Só desejava o amor dos homens para bem amar.
Jorge Amado
Só desejava a campina, colher as flores do mato.
Só desejava um espelho de vidro para se mirar.
Só desejava do sol calor para bem viver.
Só desejava o luar de prata para repousar.
Só desejava o amor dos homens para bem amar.
Jorge Amado
Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.
Johann W. Goethe (1749-1832)
Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.
Comentários de Georg Lukács.
“A realização dos ideais humanistas neste romance comprova reiteradamente a necessidade de, ‘na medida em que se trate de algo puramente humano, rejeitar nascimento e classe social, em sua completa nulidade, e na verdade, como é razoável, sem gastar sequer uma palavra sobre isso’ (Schiller). A exposição e a crítica às diversas classes e aos tipos que a representavam procedem sempre, em Os Anos de Aprendizado, desse ponto de vista à central. Por isso, a crítica à burguesia não é aqui apenas crítica a uma pequenez e estreiteza especificamente alemãs, mas também e ao mesmo tempo uma crítica à divisão capitalista do trabalho, à excessiva especialização do ser humano, ao aniquilamento do homem por essa divisão do trabalho.
O burguês, diz Wilhelm Meister, não pode ser uma pessoa pública: ‘Um burguês pode adquirir méritos e desenvolver seu espírito a não mais poder, mas sua personalidade se perde, apresente-se ele como quiser/.../. Não lhe cabe perguntar: ‘Que és tu? , e sim ‘Que tens tu? Que juízo, que conhecimento, que aptidão, que fortuna?’ /.../ ele deve desenvolver suas diversa faculdades para tornar-se útil, e já presume que não há em sua natureza nenhuma harmonia, nem poderia haver, porque ele, para se fazer útil de determinado modo, deve descuidar de todo o resto’”.
“A realização dos ideais humanistas é neste romance não só o parâmetro para julgar as diversas classes e seus representantes, como também a força propulsora e o critério da ação de todo o romance. Em Wilhelm Meister e em muitas outras personagens desta obra, a realização dos ideais humanistas em suas vidas é a mola propulsora mais ou menos consciente de suas ações. /.../ Assim, coloca no centro deste romance o ser humano, a realização e o desenvolvimento de sua personalidade, com uma clareza e concisão que dificilmente um outro escritor haverá conseguido em alguma outra obra da literatura universal. É claro que essa visão de mundo não é propriedade particular de Goethe. Ela domina antes toda a literatura européia desde o Renascimento; constitui o ponto central de toda a literatura do Iluminismo.
O traço peculiar do romance goethiano mostra-se contudo no fato de que, por um lado, essa visão do mundo se põe no centro de tudo com uma elevada consciência, acentuada permanente de modo filosófico, ou pelo estado de ânimo, ou relacionada com a ação a ponto de se transformar na força motriz consciente de todo o mundo configurado; e, por outro lado, essa peculiaridade consiste em que Goethe nos apresente como um devir real de seres humanos concretos em circunstâncias concretas essa realização da personalidade plenamente desenvolvida com que o Renascimento e o Iluminismo sonharam, e que na sociedade burguesa tem sempre permanecido como utopia. /.../ Schiller caracterizou repetidamente em suas cartas, com extrema sutileza, a peculiaridade estilística deste livro único. Chama-o uma vez de ‘calmo e profundo, claro e no entanto inconcebível, como a natureza’. E não se trata absolutamente de uma pretensa ‘maestria’ técnica do escrever.
A superior cultura do modo de configuração de Goethe baseia-se antes numa superior cultura da vida mesma, do modo de viver, das relações entre os homens. É por isso que representação pode ser tão terna e sutil, tão plástica e clara, porque a concepção do homem e das relações humanas na vida mesma têm em Goethe uma cultura dos sentimentos autêntica e profundamente consciente. Goethe não precisa lançar mão de meios analíticos grosseiros nem pseudo-sutis para configurar conflitos humanos, transformações dos sentimentos, das relações humanas etc./.../ A maestria de Goethe é um captar profundo de todos os traços mais essenciais dos homens, um elaborar dos traços típicos comuns e dos traços individuais distintivos dos homens, uma sistematização cuidadosamente pensada e conseqüente dessas afinidades, desses contrastes e matizes, uma capacidade de converter todos esses traços humanos em ação viva e caracterizadora. Os seres humanos desse romance estão agrupados de um modo praticamente exclusivo em torno da luta pelo ideal do humanismo, em torno da questão dos dois extremos falsos: o sentimentalismo e o praticismo. /... Neste tipo de representação, cujos píncaros o romance moderno nunca voltou a atingir, ainda que seus grandes representantes posteriores tenham superado Goethe em muitos outros aspectos, há para nós um legado irrenunciável.
In: GOTHE, Johann W. Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. São Paulo, Ensaio, 1995.
Heinrich Mann (1871-1950)
A Juventude do Rei Henrique IV
Comentários de Georg Lukács.
“A concepção de Heinrich Mann a respeito de uma humanidade real e vitoriosa – manifesta em Henrich IV – patê também em seu caso, como em qualquer escritor realista de verdadeira importância, da convicção de que na própria vida, no homem, na realidade objetiva da sociedade, estão presentes os traços verdadeiramente grandes da humanidade, e que o escritor não tem senão que os reproduzir de forma concentrada com os meios próprios à arte.
Os terríveis acontecimentos posteriores à tomada de poder por Hitler abriram seus olhos para esta realidade heróica, que não se reduz ao ser contemplada de perto, nem pode ser engrandecida pela monumentalização. Heinrich Mann descreveu repetidamente em seus artigos, de modo comovedoramente simples e acertado, essas aparições de uma nova humanidade heróica. E muitos elementos de Henrique IV revelam esse novo espírito.
Henrique IV – de extraordinária importância histórica e literária – é, na obra de seu autor, continuação de sua publicística pela popularização da democracia francesa entre a intelectualidade alemã; na história da democracia revolucionária alemã, esse romance é uma renovação das grandes lutas ideológicas dos anos trinta e quarenta do século passado”.
In: MANN, Heinrich. A Juventude do rei Henrique IV. São Paulo, Ensaio, 1993.
Tomas Mann (1875-1955)
Carlota em Weimar
Mann maduro ilumina obra do jovem Goethe
Escrita dois séculos depois e num estilo diferente, `Carlota em Weimar' cria laços com `Werther' e estabelece uma simbiose que reúne o melhor das letras alemãs.
Comentários de José Castello.
ASSUNTO: THOMAS MANN * Carlota em Weimar, de Thomas Mann. Editora Nova Fronteira.
Um grande livro, Carlota em Weimar (Editora Nova Fronteira, 384 págs.), de Thomas Mann, que retoma, amplia, põe em questão, lança luzes inesperadas sobre outro livro ainda maior, o Werther, de Goethe. A atmosfera se altera, do ambiente asfixiante que vigora no livro de Johann Goethe (1749-1832), para a respiração de equilibrista, com fôlego controlado, exercitada por Thomas Mann (1875-1955). A escrita, na novela de Goethe enroscada e nervosa, no livro de Mann se torna geométrica e meditativa. Há não apenas um salto de dois séculos entre as datas de publicação dos dois livros; existe também um intervalo temporal mais subjetivo já que, enquanto o Werther é uma novela de juventude, que Goethe escreveu aos 24 anos, Carlota em Weimar é um romance de maturidade, que Mann escreveu quando já estava com 63. Dois livros absolutamente diversos, portanto, que, no entanto, ligados por uma conexão tardia, lançada pelo gênio de Mann, se entrelaçam na longa cadeia que forma a melhor literatura alemã.
No Werther, romance que se transformou numa das mais célebres narrativas do século 18, Goethe relata a história de um rapaz que vive a desgraça de se apaixonar pela noiva de seu maior amigo. Carlota, mulher que embriaga Werther, representa - contra o sentimentalismo exacerbado e onipotente do Eu apaixonado, que ele encarna - a lei, a nobreza da amizade, a civilização. O relato, com um dos desfechos mais célebres da história literária, o suicídio de Werther, dificilmente se lê (ou relê) sem algum abalo interior. Em Carlota em Weimar, ao contrário, a leitura transcorre com a placidez de um grande rio que avança, inexorável, para o fim. Mann reencontra Carlota, já sexagenária, no momento em que ela faz uma viagem sentimental a Weimar. O principal objetivo é, reencontrar Goethe, agora velho e um tanto isolado do mundo - o homem que nela se inspirou para compor um personagem fabuloso e que, com isso, a imortalizou.
Werther é um livro embriagante, que tem como tema um dos aspectos mais fortes da juventude: os fracassos diante do solavanco das paixões e a luta, quase desumana, que os jovens travam para a ele sobreviver. É uma novela sobre a fraqueza, sobre o fracasso, sobre o homem devastado nas costas de quem a paixão galopa e tripudia; e por isso, por tratar de estados extremos, vendeu tanto, mereceu tantas traduções e, copiando o drama do personagem central, estimulou tantos suicídios. Já Mann escreveu Carlota em Weimar em sua fase de ouro, que começou com a publicação de A Montanha Mágica, estendeu-se por José e seus Irmãos (livro caudaloso contemporâneo a Carlota, que foi escrito entre o terceiro e o quarto volume do outro) e, por fim, o Doutor Fausto. Mais que nunca, Mann trabalha com as questões cruciais do ser humano - e foi por isso, mais que por qualquer outro aspecto, que, em 29, recebeu o Nobel de Literatura. Apesar disso, em 33, Mann foi obrigado a exilar-se para fugir da expansão do nazismo - que, de certa forma, está anunciado em sua obra. Thomas Mann é, como definiu Otto Maria Carpeaux, um escritor clássico - da mesma linhagem de um Balzac, um Flaubert, um Conrad, e não um triturador de espíritos e de expectativas como Kafka. Um autor que, desde cedo, tem como grande referência o estilo sóbrio da velhice de Goethe (época em que na obra de Goethe predomina um estilo extratemporal, que muitos comparam ao Beethoven maduro; e não o estilo embriagado que rege o Werther), sendo curioso que, apesar disso, resolva dialogar com um romance que o autor do Doutor Fausto escreveu quando ainda estava com seus 20 anos.
Carlota em Weimar é um romance escrito num momento em que Mann estava interessado em discutir as relações entre a civilização (com suas regras, cânones, proibições) e o domínio da cultura (lugar da invenção, da liberdade, do irracional). Mann, leitor e admirador de Sigmund Freud, deixou-se pautar pelas teses freudianas - em particular, por aquelas mais pessimistas que têm seu momento de síntese numa obra-prima como Mal-estar na Civilização, livro que o fundador da psicanálise publicou em 1930, nove anos antes do lançamento de Carlota em Weimar. Desde A Montanha Mágica, de 1924, Mann quebrara em definitivo as fronteiras que separam a ficção do ensaio; e é este gênero híbrido, lento, cheio de divagações e reminiscências, cheio de pensamentos, que ele, maduro e sereno, exercita magistralmente em Carlota.
O tema de Carlota em Weimar é a ambigüidade inerente a toda criação humana - em particular, os efeitos que a arte provoca no real, a falsificação que nele opera, que tanto pode ser vista como mentira perigosa, como criação genial. Instalada, em 1816, na hospedaria O Elefante, em Weimar, Carlota Kestner, acompanhada da filha e de uma empregada, reencontra-se com seu passado - ou, ao menos, com aquele passado que Goethe, inspirando-se nela para um livro e transformando-a na Lotte, de Werther, lhe emprestou. O motivo aparente é uma visita à irmã, a Conselheira Ridel, que não vê há muito tempo; mas o que a interessa, de fato, é a chance de rever Goethe. Já em suas Memórias, Goethe se queixa da curiosidade das pessoas que desejavam saber quem era e onde vivia a autêntica Lotte; a curiosidade dos leitores foi mais forte que seu desejo de preservá-la. Agora, tantos anos depois, Carlota Kestner lhe escreve um bilhete, anunciando sua chegada a Weimar e falando de seu desejo de revê-lo - situação de susto, como se uma mulher saísse de dentro de um livro.
Thomas Mann escreveu Carlota em Weimar num estilo lento, pontuado por digressões, meditações e ponderações, um estilo trançado em diálogos minuciosos em que as lembranças pessoais dos personagens se mesclam com os acontecimentos recentes da história alemã, as lutas pelo poder e pelo prestígio, mas também derrotas e decepções. Vitórias e decepções contidas igualmente na arte - fato que o percurso pessoal de Carlota vem atestar. "É sabido, todos nós sabemos, e toda a humanidade o compreende bem, que a senhora e seu esposo, que descanse em paz, sofreram muito com a indiscrição do gênio", lhe diz, em dado momento do livro, o Dr. Riemer, ele próprio um figurante no Werther. E que naquele momento trabalha com as Obras Completas, de Goethe. Ao se transformar em personagem, Carlota ficou marcada para o bem e para o mal, bem e mal que a arte carrega consigo, tanto para o criador, como para aqueles que se deixam tocar pela obra criada. Apesar desse peso, ela defende Goethe e seu poder de apoderar-se e de manipular o real a seu favor. "Werther é uma roda, na qual tomo parte", Carlota diz, resignada, "uma roda imortal, na qual o destino me fez tomar parte. Não quero queixar-me dele". Apesar disso, admite, sempre que relê o Werther enche-se de vergonha.
Personagem destacado no romance de Mann, August, filho de Goethe, resigna-se também, limitando-se a servir ao pai velho nas coisas do mundo prático, sabendo-se muito aquém daquele que o gerou. Goethe está doente, cheio de mazelas físicas (tosses compulsivas, fraqueza nervosa, dores incuráveis, convulsões), que algumas vezes quase o levaram à sepultura e às quais vai sobrevivendo. Sobrevive inclusive a seu grande amigo, o poeta e dramaturgo Johann Christoph Schiller, falecido em 1805 (sete anos antes da visita de Carlota a Weimar), de quem sente agora uma grande falta. Carlota encontra-se com August, o filho de Goethe, e tem com ele uma longa e dolorosa conversa, pontuada de citações paternas. O rapaz recorda, por exemplo, que para o velho Goethe, mais que os cuidados médicos ou uma vida saudável, o grande apoio é a poesia. "O instrumento mais indicado para vencer por si mesmo as dificuldades, e dissolvê-las, é sem dúvida alguma o talento poético, a confissão poética", diz, repetindo as reflexões do pai.
Carlota em Weimar é também uma delicada meditação sobre o destino do artista, tema que preocupará Mann até o fim de sua vida. Já velha, Carlota medita sobre as seqüelas que a arte (no caso o Werther, de Goethe) nela produziu; inspirando-se nela para compor sua personagem, Goethe a imortalizou mas, de certa forma, também a matou, já que existe um abismo entre ambas. Interessante pensar em Weimar, uma vez que Mann, antes defensor da mística alemã, agora se converte ao humanismo e ao espírito libertário que caracterizaram a República de Weimar - que dominou importante período da história alemã. Mann começou a escrever Carlota em Weimar em seu exílio suíço, e concluiu-o quando já estava nos Estados Unidos, como professor em Princeton, já envolvido também, e furiosamente, com a propaganda anti-nazista. Mann já era, nesse momento, um escritor totalmente ciente de seu papel na vida pública. Desde 22, em célebre discurso, já tomara posição pela República de Weimar, preocupações que sintetizaria, dois anos depois, em seu famoso romance A Montanha Mágica.
As idéias de Mann sobre a arte estão contidas, sobretudo, no capítulo 7, com o magnífico monólogo do velho Goethe, ainda deitado em seu leito, logo depois de acordar de uma noite cheia de provações físicas. Goethe - que está enterrado em Weimar - é o herói oculto de Carlota em Weimar. "Esta é a colcha de seda de minha cama em Weimar", Goethe começa seu monólogo, "a tapeçaria da parede de minha casa, o puxador da campainha..." Vai apalpando o real que o cerca, e que parece tão sobrecarregado de mistérios, e com ele repuxa a memória e assim, nesse estado fronteiriço do sonho com o real, inicia uma inesquecível reflexão sobre as ambigüidades que cercam a condição do artista; tema que levaria ao extremo no Fausto. "O homem não pode permanecer consciente por muito tempo; às vezes tem de se refugiar na inconsciência, pois nela vive sua raiz", medita. Massacrado pelos tormentos da velhice, o poeta reflete que, uma vez transformado em ruína, ao homem cabe fazer dela uma coisa "grande e maravilhosa", que deve ser saudada, e não recusada. "O pardal escreveu Werther com uma leveza ridícula, mas já era alguma coisa, para a idade", Mann reflete, pela boca de Goethe, sobre o grande livro. "Mas viver e envelhecer! Isso é que é".
Conformado, descobrindo as vantagens da decadência física que alarga o espírito, separando-se das circunstâncias, afastando-as como névoa que só deforma, Goethe (que já não tem forças para escrever um grande livro, que se chamaria Cosmos, título sugerido por Schiller) lamenta que a arte esteja amarrada e limitada por considerações mesquinhas em sua audácia natural. "A vida precisa de reforço, o vivo é fraco; é necessário que o façamos reviver robustecido pelo espírito", diz, refletindo ainda sobre a identidade desse espírito para um homem que, como ele, se declara pagão. A origem dessa força, já que não existe ser superior algum, deve ser buscada, ele diz, na natureza, reflete. "Natureza! Entretanto, você me foi dada em mim mesmo - percebo-a no mais profundo através de mim mesmo", reflete, chegando a esse nó em que a arte, outra vez para o bem ou para o mal, não pode ser separada do narcisismo. É nessa viagem interior que Mann retrata Goethe - fazendo assim, quando a velhice também começa a atormentá-lo, sua própria depuração existencial. O resultado é um romance denso, de leitura não muito fácil, enroscado e minucioso como toda a literatura de Mann, solene em geral, mas sereno, que exige um leitor disposto a rever-se e a meditar. Além de ser um encontro, que só a literatura poderia promover, entre dois escritores fabulosos.
Disponível em < http://vbookstore.uol.com.br/ensaios/index.shtml
Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.
Comentários de Georg Lukács.
“A realização dos ideais humanistas neste romance comprova reiteradamente a necessidade de, ‘na medida em que se trate de algo puramente humano, rejeitar nascimento e classe social, em sua completa nulidade, e na verdade, como é razoável, sem gastar sequer uma palavra sobre isso’ (Schiller). A exposição e a crítica às diversas classes e aos tipos que a representavam procedem sempre, em Os Anos de Aprendizado, desse ponto de vista à central. Por isso, a crítica à burguesia não é aqui apenas crítica a uma pequenez e estreiteza especificamente alemãs, mas também e ao mesmo tempo uma crítica à divisão capitalista do trabalho, à excessiva especialização do ser humano, ao aniquilamento do homem por essa divisão do trabalho.
O burguês, diz Wilhelm Meister, não pode ser uma pessoa pública: ‘Um burguês pode adquirir méritos e desenvolver seu espírito a não mais poder, mas sua personalidade se perde, apresente-se ele como quiser/.../. Não lhe cabe perguntar: ‘Que és tu? , e sim ‘Que tens tu? Que juízo, que conhecimento, que aptidão, que fortuna?’ /.../ ele deve desenvolver suas diversa faculdades para tornar-se útil, e já presume que não há em sua natureza nenhuma harmonia, nem poderia haver, porque ele, para se fazer útil de determinado modo, deve descuidar de todo o resto’”.
“A realização dos ideais humanistas é neste romance não só o parâmetro para julgar as diversas classes e seus representantes, como também a força propulsora e o critério da ação de todo o romance. Em Wilhelm Meister e em muitas outras personagens desta obra, a realização dos ideais humanistas em suas vidas é a mola propulsora mais ou menos consciente de suas ações. /.../ Assim, coloca no centro deste romance o ser humano, a realização e o desenvolvimento de sua personalidade, com uma clareza e concisão que dificilmente um outro escritor haverá conseguido em alguma outra obra da literatura universal. É claro que essa visão de mundo não é propriedade particular de Goethe. Ela domina antes toda a literatura européia desde o Renascimento; constitui o ponto central de toda a literatura do Iluminismo.
O traço peculiar do romance goethiano mostra-se contudo no fato de que, por um lado, essa visão do mundo se põe no centro de tudo com uma elevada consciência, acentuada permanente de modo filosófico, ou pelo estado de ânimo, ou relacionada com a ação a ponto de se transformar na força motriz consciente de todo o mundo configurado; e, por outro lado, essa peculiaridade consiste em que Goethe nos apresente como um devir real de seres humanos concretos em circunstâncias concretas essa realização da personalidade plenamente desenvolvida com que o Renascimento e o Iluminismo sonharam, e que na sociedade burguesa tem sempre permanecido como utopia. /.../ Schiller caracterizou repetidamente em suas cartas, com extrema sutileza, a peculiaridade estilística deste livro único. Chama-o uma vez de ‘calmo e profundo, claro e no entanto inconcebível, como a natureza’. E não se trata absolutamente de uma pretensa ‘maestria’ técnica do escrever.
A superior cultura do modo de configuração de Goethe baseia-se antes numa superior cultura da vida mesma, do modo de viver, das relações entre os homens. É por isso que representação pode ser tão terna e sutil, tão plástica e clara, porque a concepção do homem e das relações humanas na vida mesma têm em Goethe uma cultura dos sentimentos autêntica e profundamente consciente. Goethe não precisa lançar mão de meios analíticos grosseiros nem pseudo-sutis para configurar conflitos humanos, transformações dos sentimentos, das relações humanas etc./.../ A maestria de Goethe é um captar profundo de todos os traços mais essenciais dos homens, um elaborar dos traços típicos comuns e dos traços individuais distintivos dos homens, uma sistematização cuidadosamente pensada e conseqüente dessas afinidades, desses contrastes e matizes, uma capacidade de converter todos esses traços humanos em ação viva e caracterizadora. Os seres humanos desse romance estão agrupados de um modo praticamente exclusivo em torno da luta pelo ideal do humanismo, em torno da questão dos dois extremos falsos: o sentimentalismo e o praticismo. /... Neste tipo de representação, cujos píncaros o romance moderno nunca voltou a atingir, ainda que seus grandes representantes posteriores tenham superado Goethe em muitos outros aspectos, há para nós um legado irrenunciável.
In: GOTHE, Johann W. Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. São Paulo, Ensaio, 1995.
Heinrich Mann (1871-1950)
A Juventude do Rei Henrique IV
Comentários de Georg Lukács.
“A concepção de Heinrich Mann a respeito de uma humanidade real e vitoriosa – manifesta em Henrich IV – patê também em seu caso, como em qualquer escritor realista de verdadeira importância, da convicção de que na própria vida, no homem, na realidade objetiva da sociedade, estão presentes os traços verdadeiramente grandes da humanidade, e que o escritor não tem senão que os reproduzir de forma concentrada com os meios próprios à arte.
Os terríveis acontecimentos posteriores à tomada de poder por Hitler abriram seus olhos para esta realidade heróica, que não se reduz ao ser contemplada de perto, nem pode ser engrandecida pela monumentalização. Heinrich Mann descreveu repetidamente em seus artigos, de modo comovedoramente simples e acertado, essas aparições de uma nova humanidade heróica. E muitos elementos de Henrique IV revelam esse novo espírito.
Henrique IV – de extraordinária importância histórica e literária – é, na obra de seu autor, continuação de sua publicística pela popularização da democracia francesa entre a intelectualidade alemã; na história da democracia revolucionária alemã, esse romance é uma renovação das grandes lutas ideológicas dos anos trinta e quarenta do século passado”.
In: MANN, Heinrich. A Juventude do rei Henrique IV. São Paulo, Ensaio, 1993.
Tomas Mann (1875-1955)
Carlota em Weimar
Mann maduro ilumina obra do jovem Goethe
Escrita dois séculos depois e num estilo diferente, `Carlota em Weimar' cria laços com `Werther' e estabelece uma simbiose que reúne o melhor das letras alemãs.
Comentários de José Castello.
ASSUNTO: THOMAS MANN * Carlota em Weimar, de Thomas Mann. Editora Nova Fronteira.
Um grande livro, Carlota em Weimar (Editora Nova Fronteira, 384 págs.), de Thomas Mann, que retoma, amplia, põe em questão, lança luzes inesperadas sobre outro livro ainda maior, o Werther, de Goethe. A atmosfera se altera, do ambiente asfixiante que vigora no livro de Johann Goethe (1749-1832), para a respiração de equilibrista, com fôlego controlado, exercitada por Thomas Mann (1875-1955). A escrita, na novela de Goethe enroscada e nervosa, no livro de Mann se torna geométrica e meditativa. Há não apenas um salto de dois séculos entre as datas de publicação dos dois livros; existe também um intervalo temporal mais subjetivo já que, enquanto o Werther é uma novela de juventude, que Goethe escreveu aos 24 anos, Carlota em Weimar é um romance de maturidade, que Mann escreveu quando já estava com 63. Dois livros absolutamente diversos, portanto, que, no entanto, ligados por uma conexão tardia, lançada pelo gênio de Mann, se entrelaçam na longa cadeia que forma a melhor literatura alemã.
No Werther, romance que se transformou numa das mais célebres narrativas do século 18, Goethe relata a história de um rapaz que vive a desgraça de se apaixonar pela noiva de seu maior amigo. Carlota, mulher que embriaga Werther, representa - contra o sentimentalismo exacerbado e onipotente do Eu apaixonado, que ele encarna - a lei, a nobreza da amizade, a civilização. O relato, com um dos desfechos mais célebres da história literária, o suicídio de Werther, dificilmente se lê (ou relê) sem algum abalo interior. Em Carlota em Weimar, ao contrário, a leitura transcorre com a placidez de um grande rio que avança, inexorável, para o fim. Mann reencontra Carlota, já sexagenária, no momento em que ela faz uma viagem sentimental a Weimar. O principal objetivo é, reencontrar Goethe, agora velho e um tanto isolado do mundo - o homem que nela se inspirou para compor um personagem fabuloso e que, com isso, a imortalizou.
Werther é um livro embriagante, que tem como tema um dos aspectos mais fortes da juventude: os fracassos diante do solavanco das paixões e a luta, quase desumana, que os jovens travam para a ele sobreviver. É uma novela sobre a fraqueza, sobre o fracasso, sobre o homem devastado nas costas de quem a paixão galopa e tripudia; e por isso, por tratar de estados extremos, vendeu tanto, mereceu tantas traduções e, copiando o drama do personagem central, estimulou tantos suicídios. Já Mann escreveu Carlota em Weimar em sua fase de ouro, que começou com a publicação de A Montanha Mágica, estendeu-se por José e seus Irmãos (livro caudaloso contemporâneo a Carlota, que foi escrito entre o terceiro e o quarto volume do outro) e, por fim, o Doutor Fausto. Mais que nunca, Mann trabalha com as questões cruciais do ser humano - e foi por isso, mais que por qualquer outro aspecto, que, em 29, recebeu o Nobel de Literatura. Apesar disso, em 33, Mann foi obrigado a exilar-se para fugir da expansão do nazismo - que, de certa forma, está anunciado em sua obra. Thomas Mann é, como definiu Otto Maria Carpeaux, um escritor clássico - da mesma linhagem de um Balzac, um Flaubert, um Conrad, e não um triturador de espíritos e de expectativas como Kafka. Um autor que, desde cedo, tem como grande referência o estilo sóbrio da velhice de Goethe (época em que na obra de Goethe predomina um estilo extratemporal, que muitos comparam ao Beethoven maduro; e não o estilo embriagado que rege o Werther), sendo curioso que, apesar disso, resolva dialogar com um romance que o autor do Doutor Fausto escreveu quando ainda estava com seus 20 anos.
Carlota em Weimar é um romance escrito num momento em que Mann estava interessado em discutir as relações entre a civilização (com suas regras, cânones, proibições) e o domínio da cultura (lugar da invenção, da liberdade, do irracional). Mann, leitor e admirador de Sigmund Freud, deixou-se pautar pelas teses freudianas - em particular, por aquelas mais pessimistas que têm seu momento de síntese numa obra-prima como Mal-estar na Civilização, livro que o fundador da psicanálise publicou em 1930, nove anos antes do lançamento de Carlota em Weimar. Desde A Montanha Mágica, de 1924, Mann quebrara em definitivo as fronteiras que separam a ficção do ensaio; e é este gênero híbrido, lento, cheio de divagações e reminiscências, cheio de pensamentos, que ele, maduro e sereno, exercita magistralmente em Carlota.
O tema de Carlota em Weimar é a ambigüidade inerente a toda criação humana - em particular, os efeitos que a arte provoca no real, a falsificação que nele opera, que tanto pode ser vista como mentira perigosa, como criação genial. Instalada, em 1816, na hospedaria O Elefante, em Weimar, Carlota Kestner, acompanhada da filha e de uma empregada, reencontra-se com seu passado - ou, ao menos, com aquele passado que Goethe, inspirando-se nela para um livro e transformando-a na Lotte, de Werther, lhe emprestou. O motivo aparente é uma visita à irmã, a Conselheira Ridel, que não vê há muito tempo; mas o que a interessa, de fato, é a chance de rever Goethe. Já em suas Memórias, Goethe se queixa da curiosidade das pessoas que desejavam saber quem era e onde vivia a autêntica Lotte; a curiosidade dos leitores foi mais forte que seu desejo de preservá-la. Agora, tantos anos depois, Carlota Kestner lhe escreve um bilhete, anunciando sua chegada a Weimar e falando de seu desejo de revê-lo - situação de susto, como se uma mulher saísse de dentro de um livro.
Thomas Mann escreveu Carlota em Weimar num estilo lento, pontuado por digressões, meditações e ponderações, um estilo trançado em diálogos minuciosos em que as lembranças pessoais dos personagens se mesclam com os acontecimentos recentes da história alemã, as lutas pelo poder e pelo prestígio, mas também derrotas e decepções. Vitórias e decepções contidas igualmente na arte - fato que o percurso pessoal de Carlota vem atestar. "É sabido, todos nós sabemos, e toda a humanidade o compreende bem, que a senhora e seu esposo, que descanse em paz, sofreram muito com a indiscrição do gênio", lhe diz, em dado momento do livro, o Dr. Riemer, ele próprio um figurante no Werther. E que naquele momento trabalha com as Obras Completas, de Goethe. Ao se transformar em personagem, Carlota ficou marcada para o bem e para o mal, bem e mal que a arte carrega consigo, tanto para o criador, como para aqueles que se deixam tocar pela obra criada. Apesar desse peso, ela defende Goethe e seu poder de apoderar-se e de manipular o real a seu favor. "Werther é uma roda, na qual tomo parte", Carlota diz, resignada, "uma roda imortal, na qual o destino me fez tomar parte. Não quero queixar-me dele". Apesar disso, admite, sempre que relê o Werther enche-se de vergonha.
Personagem destacado no romance de Mann, August, filho de Goethe, resigna-se também, limitando-se a servir ao pai velho nas coisas do mundo prático, sabendo-se muito aquém daquele que o gerou. Goethe está doente, cheio de mazelas físicas (tosses compulsivas, fraqueza nervosa, dores incuráveis, convulsões), que algumas vezes quase o levaram à sepultura e às quais vai sobrevivendo. Sobrevive inclusive a seu grande amigo, o poeta e dramaturgo Johann Christoph Schiller, falecido em 1805 (sete anos antes da visita de Carlota a Weimar), de quem sente agora uma grande falta. Carlota encontra-se com August, o filho de Goethe, e tem com ele uma longa e dolorosa conversa, pontuada de citações paternas. O rapaz recorda, por exemplo, que para o velho Goethe, mais que os cuidados médicos ou uma vida saudável, o grande apoio é a poesia. "O instrumento mais indicado para vencer por si mesmo as dificuldades, e dissolvê-las, é sem dúvida alguma o talento poético, a confissão poética", diz, repetindo as reflexões do pai.
Carlota em Weimar é também uma delicada meditação sobre o destino do artista, tema que preocupará Mann até o fim de sua vida. Já velha, Carlota medita sobre as seqüelas que a arte (no caso o Werther, de Goethe) nela produziu; inspirando-se nela para compor sua personagem, Goethe a imortalizou mas, de certa forma, também a matou, já que existe um abismo entre ambas. Interessante pensar em Weimar, uma vez que Mann, antes defensor da mística alemã, agora se converte ao humanismo e ao espírito libertário que caracterizaram a República de Weimar - que dominou importante período da história alemã. Mann começou a escrever Carlota em Weimar em seu exílio suíço, e concluiu-o quando já estava nos Estados Unidos, como professor em Princeton, já envolvido também, e furiosamente, com a propaganda anti-nazista. Mann já era, nesse momento, um escritor totalmente ciente de seu papel na vida pública. Desde 22, em célebre discurso, já tomara posição pela República de Weimar, preocupações que sintetizaria, dois anos depois, em seu famoso romance A Montanha Mágica.
As idéias de Mann sobre a arte estão contidas, sobretudo, no capítulo 7, com o magnífico monólogo do velho Goethe, ainda deitado em seu leito, logo depois de acordar de uma noite cheia de provações físicas. Goethe - que está enterrado em Weimar - é o herói oculto de Carlota em Weimar. "Esta é a colcha de seda de minha cama em Weimar", Goethe começa seu monólogo, "a tapeçaria da parede de minha casa, o puxador da campainha..." Vai apalpando o real que o cerca, e que parece tão sobrecarregado de mistérios, e com ele repuxa a memória e assim, nesse estado fronteiriço do sonho com o real, inicia uma inesquecível reflexão sobre as ambigüidades que cercam a condição do artista; tema que levaria ao extremo no Fausto. "O homem não pode permanecer consciente por muito tempo; às vezes tem de se refugiar na inconsciência, pois nela vive sua raiz", medita. Massacrado pelos tormentos da velhice, o poeta reflete que, uma vez transformado em ruína, ao homem cabe fazer dela uma coisa "grande e maravilhosa", que deve ser saudada, e não recusada. "O pardal escreveu Werther com uma leveza ridícula, mas já era alguma coisa, para a idade", Mann reflete, pela boca de Goethe, sobre o grande livro. "Mas viver e envelhecer! Isso é que é".
Conformado, descobrindo as vantagens da decadência física que alarga o espírito, separando-se das circunstâncias, afastando-as como névoa que só deforma, Goethe (que já não tem forças para escrever um grande livro, que se chamaria Cosmos, título sugerido por Schiller) lamenta que a arte esteja amarrada e limitada por considerações mesquinhas em sua audácia natural. "A vida precisa de reforço, o vivo é fraco; é necessário que o façamos reviver robustecido pelo espírito", diz, refletindo ainda sobre a identidade desse espírito para um homem que, como ele, se declara pagão. A origem dessa força, já que não existe ser superior algum, deve ser buscada, ele diz, na natureza, reflete. "Natureza! Entretanto, você me foi dada em mim mesmo - percebo-a no mais profundo através de mim mesmo", reflete, chegando a esse nó em que a arte, outra vez para o bem ou para o mal, não pode ser separada do narcisismo. É nessa viagem interior que Mann retrata Goethe - fazendo assim, quando a velhice também começa a atormentá-lo, sua própria depuração existencial. O resultado é um romance denso, de leitura não muito fácil, enroscado e minucioso como toda a literatura de Mann, solene em geral, mas sereno, que exige um leitor disposto a rever-se e a meditar. Além de ser um encontro, que só a literatura poderia promover, entre dois escritores fabulosos.
Disponível em < http://vbookstore.uol.com.br/ensaios/index.shtml
sábado, 7 de julho de 2012
VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
O Guardador de Rebanhos
Alberto Caeiro
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
O Guardador de Rebanhos
Alberto Caeiro
Canção
Allen Ginsberg
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
(Tradução de Cláudio Willer. Porto Alegre: Lp&M, 1984.)
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
(Tradução de Cláudio Willer. Porto Alegre: Lp&M, 1984.)
El Lobo bondadoso y la Caperucita Roja malvada (Leila y el Lobo)
La historia del lobo y la caperucita roja contada por el nieto del lobo.
Por Mustafá Kaoud. Beirut – Líbano.
(En Idioma árabe se llama Leila y el Lobo).
Traducción de Yassin Kaoud.
Mi abuelo era un lobo bueno y agradable, él detestaba la depredación y comer carne, por lo que decidió ser vegetariano. Solamente se alimentaba de vegetales, dejando de lado las carnes, sólo comía hierbas y hojas.
Había una vez una niña malvada, llamada Leila, que vivía con su abuela en un bosque.
Leila solía salir todos los días rumbo al bosque, destrozaba las flores, las hierbas, los vegetales que eran el alimento de mi abuelo y arruinaba el hermoso paisaje.
En vano fueron los esfuerzos de mi abuelo tratando de hablarle, una y otra vez con el fin de evitar que la niña cometiera estos actos, pero ella no le prestaba oído a sus peticiones y hacía todo lo contrario, siguió maltratando las hierbas y las rosas a diario.
Ante la desesperación de mi abuelo, al no poder convencerla, decidió visitar a la abuela de Leila en su casa, para informarle de las maldades que hacía su nieta.
Mi abuelo, el lobo, tocó la puerta y la abuela de Leila le abrió, pero al verlo tomó un garrote y atacó sorpresivamente a mi pobre abuelo, antes de que él pudiera hacer algo o pronunciara alguna palabra. La agresión de la vieja abuela continuó contra mi pobre e inocente abuelo, quien por el miedo, el terror y la impotencia que sentía, quiso defenderse y empujó a la abuela apartándola, pero en eso cayó al suelo golpeándose la cabeza contra el borde de la cama y murió.
Cuando mi abuelo, el lobo bondadoso, se dio cuenta se puso muy triste y quedó afectado profundamente por lo sucedido. Lloró muy afligido de dolor, preocupado por la niña y de cómo ésta iba a vivir sin su abuelita y de cuanta tristeza y lágrimas le iba a causar. Se le partía el corazón al pensar en la niña.
Finalmente considerando sus sentimientos, se le ocurrió ocultar el cuerpo de la abuela, vestirse con su ropa, disfrazarse y tomar su lugar. Así podría ilusionar a la niña compensándole el cariño por la pérdida y fallecimiento de su abuela.
Cuando Leila volvía del bosque a la casa, mi abuelo inmediatamente se acostó en la cama disfrazándose con la ropa de la abuela.
Pero la malvada Leila se dio cuenta que la nariz y las orejas de su abuela estaban inusualmente muy grandes y pensó que sus ojos se parecían a los ojos de mi abuelo el lobo. Entonces descubrió el disfraz de mi abuelo.
La malvada Leila abrió la puerta y salió corriendo hacia el bosque, difundiendo desde aquel entonces entre la gente, que mi pobre abuelo era malvado y que comió a su abuela y también trató de comerla a ella.
Este es el otro punto de vista que nunca habíamos escuchado sobre la historia de Leila y el lobo.
Por Mustafá Kaoud. Beirut – Líbano.
(En Idioma árabe se llama Leila y el Lobo).
Traducción de Yassin Kaoud.
Mi abuelo era un lobo bueno y agradable, él detestaba la depredación y comer carne, por lo que decidió ser vegetariano. Solamente se alimentaba de vegetales, dejando de lado las carnes, sólo comía hierbas y hojas.
Había una vez una niña malvada, llamada Leila, que vivía con su abuela en un bosque.
Leila solía salir todos los días rumbo al bosque, destrozaba las flores, las hierbas, los vegetales que eran el alimento de mi abuelo y arruinaba el hermoso paisaje.
En vano fueron los esfuerzos de mi abuelo tratando de hablarle, una y otra vez con el fin de evitar que la niña cometiera estos actos, pero ella no le prestaba oído a sus peticiones y hacía todo lo contrario, siguió maltratando las hierbas y las rosas a diario.
Ante la desesperación de mi abuelo, al no poder convencerla, decidió visitar a la abuela de Leila en su casa, para informarle de las maldades que hacía su nieta.
Mi abuelo, el lobo, tocó la puerta y la abuela de Leila le abrió, pero al verlo tomó un garrote y atacó sorpresivamente a mi pobre abuelo, antes de que él pudiera hacer algo o pronunciara alguna palabra. La agresión de la vieja abuela continuó contra mi pobre e inocente abuelo, quien por el miedo, el terror y la impotencia que sentía, quiso defenderse y empujó a la abuela apartándola, pero en eso cayó al suelo golpeándose la cabeza contra el borde de la cama y murió.
Cuando mi abuelo, el lobo bondadoso, se dio cuenta se puso muy triste y quedó afectado profundamente por lo sucedido. Lloró muy afligido de dolor, preocupado por la niña y de cómo ésta iba a vivir sin su abuelita y de cuanta tristeza y lágrimas le iba a causar. Se le partía el corazón al pensar en la niña.
Finalmente considerando sus sentimientos, se le ocurrió ocultar el cuerpo de la abuela, vestirse con su ropa, disfrazarse y tomar su lugar. Así podría ilusionar a la niña compensándole el cariño por la pérdida y fallecimiento de su abuela.
Cuando Leila volvía del bosque a la casa, mi abuelo inmediatamente se acostó en la cama disfrazándose con la ropa de la abuela.
Pero la malvada Leila se dio cuenta que la nariz y las orejas de su abuela estaban inusualmente muy grandes y pensó que sus ojos se parecían a los ojos de mi abuelo el lobo. Entonces descubrió el disfraz de mi abuelo.
La malvada Leila abrió la puerta y salió corriendo hacia el bosque, difundiendo desde aquel entonces entre la gente, que mi pobre abuelo era malvado y que comió a su abuela y también trató de comerla a ella.
Este es el otro punto de vista que nunca habíamos escuchado sobre la historia de Leila y el lobo.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Lições de Adonis, canções para a morte
Um dos grandes inovadores da poesia árabe, o sírio de 82 anos é destaque da Flip, festa literária que começa amanhã
03 de julho de 2012
UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / RIO – O Estado de S.Paulo
Vestido com elegância discreta, o poeta sírio Adonis, de 82 anos, chega exibindo um cabelo grisalho ligeiramente desgrenhado, sorriso aberto, voz baixa e tranquila. Mas os olhos parecem sempre estar buscando o seu alvo e, quando começa a falar, o senhor de gestos cavalheiros revela sua força. “Quero sempre questionar, não buscar respostas”, diz ele, um dos principais nomes da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, cuja 10ª edição começa amanhã, na cidade fluminense.
Adonis, cujo verdadeiro nome é Ali Ahmad Said Esber, é um dos principais críticos dos atuais acontecimentos políticos que chacoalham diversos países árabes, a começar pelo seu. Inicialmente empolgado com a eclosão da Primavera Árabe no ano passado (chegou a compor pequenos poemas para exprimir sua satisfação), ele logo retomou seu ceticismo. “Quando as revoluções começaram, eram lideradas por jovens e revelavam algo inédito: pela primeira vez, nós, muçulmanos, não estávamos copiando algo do Ocidente”, disse o poeta, que conversou com o Estado ontem pela manhã, em um hotel de luxo do Rio. “Logo, porém, os islamitas, os comerciantes e, especialmente, os americanos mostraram que estávamos apenas trocando de ditaduras.”
Autoexilado em Paris desde 1985, depois de uma passagem pelo Líbano, Adonis realmente veio para confundir, não para explicar. Autor de uma poesia estranha, “que evoca ao mesmo tempo a origem da própria poesia e o que nela há de mais moderno”, no entender do escritor Milton Hatoum (ele assina o prefácio do livro Poemas, lançado agora pela Companhia das Letras, com cuidadosa tradução de Michel Sleiman), ele se destaca como uma das vozes fundamentais da cultura árabe, na qual ecoa sua insubmissão à dominância religiosa.
“A poesia não pode mudar a sociedade”, argumenta, “mas só pode alterar a noção de relações entre as coisas. A cultura não pode ser melhorada sem uma mudança nas instituições. A poesia é como o amor, que constantemente renova os sentimentos do povo, revigora e abre horizontes para a beleza da vida. E isso não acontece apenas no nível individual, pois um poema torna-se essencial quando a ciência ou a filosofia não oferece respostas para o mistério da vida.”
Fiel a esse pensamento, Adonis surpreendeu no ano passado quando declarou que a cultura árabe tinha se extinguido. Na verdade, depois do impacto provocado pela afirmação, ele foi mais sucinto, dizendo que ainda havia talentos em diversas áreas criativas, mas eram figuras isoladas. “A civilização árabe como um todo tornou-se consumidora dos outros e deixou de ser criadora – desapareceu nossa presença criativa. Isso é extremamente alarmante.”
Falando especificamente de sua área, Adonis defende que a poesia criada hoje entre seus pares é essencialmente superficial. “A poesia requer um esforço real porque exige que o leitor se transforme, como o poeta, em um criador.”
Apesar de criticado, seu discurso não foi contestado. Afinal, Adonis é um dos principais renovadores da poesia árabe atual, promovendo uma revolução poética que, no Ocidente, só aconteceu depois de uma sucessão de trabalhos de autores de diversas procedências.
Adepto do multiculturalismo, Adonis não apenas cultivou suas raízes como estabeleceu íntima relação com a poesia ocidental, especialmente com Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Nerval e Breton. “Adonis assimilou as vozes desses e outros poetas até encontrar um modo próprio e inovador para expressar seu lirismo”, afirma Hatoum, ainda no prefácio do livro. O brasileiro, aliás, almoça hoje com o colega sírio, no Rio de Janeiro.
A pluralidade explica a adoção do pseudônimo: um deus pagão no qual a presença da cultura pré-islâmica e pan-mediterrânea é muito forte. Trata-se, portanto, não apenas de uma postura poética mas principalmente política, sem que isso implique em uma ligação com o partidarismo. Adonis observa, por exemplo, uma forte tendência, entre os artistas árabes, de serem politicamente engajados.
“Não sou contra esse engajamento, ou mesmo contra os artistas – mas não sou como eles”, acredita. “Um criador precisa sempre estar próximo do que é revolucionário, mas nunca agir como um revolucionário. Ele não pode falar a mesma língua e tampouco trabalhar no mesmo ambiente político.”
Pouco conhecedor da poesia brasileira (”Lamento dizer que li apenas alguns versos de Haroldo de Campos e, mesmo assim, traduzidos para o francês, o que tira sua essência”), Adonis é figura constante na lista de apostas quando se aproxima o anúncio do vencedor do Nobel de literatura. E, se a cada ano acaba preterido, a vitória do sueco Tomas Tranströmer no ano passado praticamente jogou sua chance para um futuro incerto – não se acredita que a Academia Sueca vá premiar dois poetas seguidamente.
Isso parece sinceramente não o importunar. Adonis não avalia o próprio trabalho, preferindo que isso seja tarefa de seu interlocutor, seja com quem esteja conversando naquele momento, seja um leitor distante. Essa troca é seu combustível vital. “Vivo em eterna criação”, conta. “Enquanto converso com você, algo vai acontecendo no lado criativo da minha mente, que não para, trabalha incessantemente. O mesmo aconteceu enquanto tomava meu café da manhã e deverá se repetir quando encontrar meus leitores em Paraty. A vida é uma constante troca de ideias.”
“A morte quando passa por mim é como se
o silêncio a abafasse…
…é como se dormisse quando eu dormisse.
Ó mãos da morte, alonguem meu caminho
meu coração é presa do desconhecido,
alonguem meu caminho
quem sabe descubro a essência do impossível
e vejo o mundo ao meu redor”
03 de julho de 2012
UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / RIO – O Estado de S.Paulo
Vestido com elegância discreta, o poeta sírio Adonis, de 82 anos, chega exibindo um cabelo grisalho ligeiramente desgrenhado, sorriso aberto, voz baixa e tranquila. Mas os olhos parecem sempre estar buscando o seu alvo e, quando começa a falar, o senhor de gestos cavalheiros revela sua força. “Quero sempre questionar, não buscar respostas”, diz ele, um dos principais nomes da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, cuja 10ª edição começa amanhã, na cidade fluminense.
Adonis, cujo verdadeiro nome é Ali Ahmad Said Esber, é um dos principais críticos dos atuais acontecimentos políticos que chacoalham diversos países árabes, a começar pelo seu. Inicialmente empolgado com a eclosão da Primavera Árabe no ano passado (chegou a compor pequenos poemas para exprimir sua satisfação), ele logo retomou seu ceticismo. “Quando as revoluções começaram, eram lideradas por jovens e revelavam algo inédito: pela primeira vez, nós, muçulmanos, não estávamos copiando algo do Ocidente”, disse o poeta, que conversou com o Estado ontem pela manhã, em um hotel de luxo do Rio. “Logo, porém, os islamitas, os comerciantes e, especialmente, os americanos mostraram que estávamos apenas trocando de ditaduras.”
Autoexilado em Paris desde 1985, depois de uma passagem pelo Líbano, Adonis realmente veio para confundir, não para explicar. Autor de uma poesia estranha, “que evoca ao mesmo tempo a origem da própria poesia e o que nela há de mais moderno”, no entender do escritor Milton Hatoum (ele assina o prefácio do livro Poemas, lançado agora pela Companhia das Letras, com cuidadosa tradução de Michel Sleiman), ele se destaca como uma das vozes fundamentais da cultura árabe, na qual ecoa sua insubmissão à dominância religiosa.
“A poesia não pode mudar a sociedade”, argumenta, “mas só pode alterar a noção de relações entre as coisas. A cultura não pode ser melhorada sem uma mudança nas instituições. A poesia é como o amor, que constantemente renova os sentimentos do povo, revigora e abre horizontes para a beleza da vida. E isso não acontece apenas no nível individual, pois um poema torna-se essencial quando a ciência ou a filosofia não oferece respostas para o mistério da vida.”
Fiel a esse pensamento, Adonis surpreendeu no ano passado quando declarou que a cultura árabe tinha se extinguido. Na verdade, depois do impacto provocado pela afirmação, ele foi mais sucinto, dizendo que ainda havia talentos em diversas áreas criativas, mas eram figuras isoladas. “A civilização árabe como um todo tornou-se consumidora dos outros e deixou de ser criadora – desapareceu nossa presença criativa. Isso é extremamente alarmante.”
Falando especificamente de sua área, Adonis defende que a poesia criada hoje entre seus pares é essencialmente superficial. “A poesia requer um esforço real porque exige que o leitor se transforme, como o poeta, em um criador.”
Apesar de criticado, seu discurso não foi contestado. Afinal, Adonis é um dos principais renovadores da poesia árabe atual, promovendo uma revolução poética que, no Ocidente, só aconteceu depois de uma sucessão de trabalhos de autores de diversas procedências.
Adepto do multiculturalismo, Adonis não apenas cultivou suas raízes como estabeleceu íntima relação com a poesia ocidental, especialmente com Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Nerval e Breton. “Adonis assimilou as vozes desses e outros poetas até encontrar um modo próprio e inovador para expressar seu lirismo”, afirma Hatoum, ainda no prefácio do livro. O brasileiro, aliás, almoça hoje com o colega sírio, no Rio de Janeiro.
A pluralidade explica a adoção do pseudônimo: um deus pagão no qual a presença da cultura pré-islâmica e pan-mediterrânea é muito forte. Trata-se, portanto, não apenas de uma postura poética mas principalmente política, sem que isso implique em uma ligação com o partidarismo. Adonis observa, por exemplo, uma forte tendência, entre os artistas árabes, de serem politicamente engajados.
“Não sou contra esse engajamento, ou mesmo contra os artistas – mas não sou como eles”, acredita. “Um criador precisa sempre estar próximo do que é revolucionário, mas nunca agir como um revolucionário. Ele não pode falar a mesma língua e tampouco trabalhar no mesmo ambiente político.”
Pouco conhecedor da poesia brasileira (”Lamento dizer que li apenas alguns versos de Haroldo de Campos e, mesmo assim, traduzidos para o francês, o que tira sua essência”), Adonis é figura constante na lista de apostas quando se aproxima o anúncio do vencedor do Nobel de literatura. E, se a cada ano acaba preterido, a vitória do sueco Tomas Tranströmer no ano passado praticamente jogou sua chance para um futuro incerto – não se acredita que a Academia Sueca vá premiar dois poetas seguidamente.
Isso parece sinceramente não o importunar. Adonis não avalia o próprio trabalho, preferindo que isso seja tarefa de seu interlocutor, seja com quem esteja conversando naquele momento, seja um leitor distante. Essa troca é seu combustível vital. “Vivo em eterna criação”, conta. “Enquanto converso com você, algo vai acontecendo no lado criativo da minha mente, que não para, trabalha incessantemente. O mesmo aconteceu enquanto tomava meu café da manhã e deverá se repetir quando encontrar meus leitores em Paraty. A vida é uma constante troca de ideias.”
“A morte quando passa por mim é como se
o silêncio a abafasse…
…é como se dormisse quando eu dormisse.
Ó mãos da morte, alonguem meu caminho
meu coração é presa do desconhecido,
alonguem meu caminho
quem sabe descubro a essência do impossível
e vejo o mundo ao meu redor”
Cara de luna
Jack London
La cara de Juan Claverhouse era un fiel trasunto de la luna llena; ya conocen ustedes el tipo: los pómulos muy separados, la barbilla y la frente redondas, hasta confundirse con los rubicundos mofletes, y la nariz ancha y corta, como una pelota de pan aplastada en la pared, ocupando el centro de la circunferencia.
Quizá fuera ésta la razón del odio que sentía por él; su presencia me resultaba insoportable, y lo conceptuaba como una especie de mancha sobre la tierra. He llegado a creer que mi madre, durante el embarazo, tuvo algún antojo, algún motivo de resentimiento con la luna; qué sé yo...
Sea por lo que fuere, lo cierto es que yo lo odiaba, y no debe creerse que él, por su parte, me había dado motivo alguno, por lo menos a los ojos del mundo; pero la razón existía, no cabe duda, aunque tan oculta, tan sutil, que no encuentro palabras con que poder expresarla. Todos conocemos esta clase de antipatías instintivas; vemos por primera vez a un desconocido, a una persona cuya existencia ignorábamos y, sin embargo, en el momento de verla decimos: “No me gusta ese hombre o esa mujer”. ¿Por qué no nos gusta? ¡Ah! Lo ignoramos; no sabemos sino que es así, que nos cae antipático; eso es todo. Tal fue mi caso con Juan Claverhouse.
¿Con qué derecho era dichoso un hombre semejante? Nunca vi optimismo como el suyo; siempre risueño, siempre contento y siempre encontrándolo todo bien, ¡maldita sea!...
No me importaba nada la alegría de los demás; todo el mundo puede reír, hasta yo... antes de conocer a Claverhouse; pero la risa de éste, aquella risa, me irritaba, me enloquecía, me ponía furioso, fuera de mí... Era una pesadilla constante, a la que no podía sustraerme, un demonio maldito, cuyo abrazo infernal me ahogaba. ¡Qué risa! Estentórea, homérica, gargantuana; despierto o dormido, su vibrante sonar me arañaba el corazón como con las púas de un peine gigantesco. La oía al despuntar el alba, a través de los campos, y sus ecos me robaban las delicias de un plácido despertar; la oía bajo el cielo clarísimo del mediodía, cuando la Naturaleza entera parecía dormir borracha de luz y de calor, y sus “¡ja! ¡ja!” se elevaban sonoros en el silencio de los valles; y la oía en medio de la noche, en que me despertaba el irritante chasquido de aquella risa diabólica, haciéndome dar vueltas en la cama y clavarme las uñas en las palmas de las manos, en un paroxismo de rabia impotente.
Más de una madrugada me levanté con el único objeto de desparramar sus rebaños por las campiñas sembradas, y sólo conseguí escuchar otra vez, por la mañana, su eterna risa, mientras los congregaba de nuevo en sus rediles.
-Pobres bestezuelas -decía-. ¡No tienen culpa, al ir donde su instinto las lleva, buscando mejores pastos!...
Tenía Claverhouse un perro que atendía por Marte, un hermoso animal, mezcla de mastín y galgo, con rasgos característicos de ambas especies. Marte, más que su perro favorito, era casi un amigo para él, y siempre se les veía juntos.
Después de una paciente espera, llegó el día y la hora de poner en práctica mi maquinación. Con halagos atraje al animal, y un pedazo de carne con estricnina hizo el resto, aunque perdí mi tiempo y mi habilidad de una manera lastimosa, pues la risa de Juan siguió siendo tan frecuente como antes y su cara se parecía cada vez más a la luna llena.
Entonces prendí fuego a sus trojes y a sus graneros, y a la mañana del día siguiente, que era domingo, lo encontré tan alegre como de costumbre.
-¿Adónde va? -le pregunté cuando nos cruzamos.
-A pescar truchas -me dijo contentísimo-; me entusiasma la pesca.
¿Ha existido jamás un hombre semejante? Sus trojes y sus hórreos no estaban asegurados -lo sabía-, y el incendio había convertido en humo su fortuna; pero allá iba, lleno de regocijo, en busca de una cesta de truchas, simplemente porque “le entusiasmaba la pesca”.
Si en aquel momento hubiera visto en su cara la expresión de la pena, por poca, por ligera que ésta hubiera sido; si la cara se le hubiese alargado, perdiendo aquel aspecto de luna llena, quizá le habría perdonado el crimen de existir; pero, por el contrario, la desgracia parecía aumentar su alegría.
Lo insulté a propio intento, y no vi en su cara signo alguno de despecho; todo lo más, un gesto de sorpresa bondadosa.
-¿Pelearnos?... ¿Y por qué? -me preguntó con lentitud, y añadió, echándose a reír-. ¡Ja,ja! ¡Qué gracioso es usted! ¡Ja, ja!... De verdad, me hace usted muchísima gracia.
¿Qué hacer? La cosa era horrible, inverosímil, inaguantable... ¡Cómo lo odiaba, Dios poderoso!...
Luego, aquel nombre: Claverhouse. ¿Por qué Claverhouse? Me hacía la pregunta mil veces. No me hubiera importado que se llamara Smith, Brown, Jones; pero... ¡Claverhouse!... ¿Es posible que exista alguien con semejante nombre? “No”, me responderán ustedes, y “no", me respondía yo mismo.
Pensé en su hipoteca y en la imposibilidad de que la pagara, cuando sus cosechas se encontraban destruidas. Bien pronto encontré un prestamista astuto e inhumano que se quedó con todos los créditos, y aunque yo no figuré para nada en la transacción, pude, por medio de este agente, forzar el vencimiento, para tener el gusto de avisar a Claverhouse de los pocos días (ni uno más de los que marca la ley) que le restaban para abandonar la casa y la finca donde había vivido durante veinte años.
Después fui a verlo, esperando leer, al fin, la desesperación en sus ojos; pero ¡ca!; lo encontré sonriente, con su eterna cara de contento y... ¡más parecida que nunca a la luna llena!
Me recibió riendo a carcajadas.
-¡Ja, ja, ja!... ¡Pero qué gracioso es este chiquillo mío! Figúrese usted que estaba jugando en la orilla del río, cuando un trozo del ribazo cayó al agua y lo salpicó, y me dice: “¡Oye, papá! ¡Un charco se ha levantado y me ha dado en la cabeza!..."
Y se detuvo, aguardando, sin duda, a que yo me echara a reír.
-Pues no veo la gracia -le contesté con brusquedad y sintiendo que la cara se me agriaba por momentos.
Me miró con asombro, y luego empezó a extenderse por la suya el resplandor suave de que les he hablado, y que la tornaba casi luminosa:
De nuevo empezó a reír:
-¡Ja, ja!... ¡Esto sí que está bueno!... ¡Que no le ve la gracia!... ¡Ja, ja, ja!... ¡Que no se la ve!... Pero, venga usted acá, venga usted acá; usted ya sabe que los charcos...
No lo dejé terminar; di media vuelta y me marché. ¡Era el colmo! ¡Ya no podía resistirlo! Se hacía indispensable acabar de una vez; era preciso libertar al mundo de semejante monstruo...
Y mientras subía lentamente la colina, su risa maldita me perseguía, resonante siempre, siempre...
*
Me precio de hacer las cosas bien, y cuando resolví matar a Claverhouse estaba dispuesto a hacerlo en forma tal y con tal habilidad, que el recuerdo de mi acción no pudiera avergonzarme nunca. Declaro que aborrezco la torpeza y que siempre me inspiró antipatía la violencia y la fuerza bruta. Matar a un hombre a puñetazos, por ejemplo, tiene todos los caracteres del vandalismo, y me repugna hasta pensar en ello; de modo que la idea de disparar un tiro, clavar un puñal o asestar un golpe ni siquiera entró en mis cálculos; además, no sólo era cuestión de hacerlo bien, científicamente: quedaba por resolver la indispensable forma de evitar que pudieran recaer sospechas sobre mí.
Pensé mucho en ello, y por fin, tras una semana de trabajo mental, encontré lo que buscaba, y me dispuse a poner en obra mi pensamiento.
Empecé por comprar una perra de aguas de cinco meses, y me dediqué en cuerpo y alma a inculcarle la educación necesaria. Si alguien me hubiera observado con atención, pronto se hubiera dado cuenta de que sólo la adiestraba en devolverme las cosas que yo arrojaba lejos de mí.
La perra, a la que di el nombre de Belona, me traía los palos que le tiraba al agua, y no solamente me los traía, sino que lo efectuaba en seguida, sin vacilar, morderlos ni jugar con ellos. Le enseñé a correr detrás de mí con un objeto en la boca, hasta alcanzarme, y como se trataba de un animal listo y despierto, pronto tuve el gusto de ver que mis lecciones fueron bien aprovechadas.
En la primera ocasión favorable regalé el animal a mi enemigo, y al hacerlo, como se comprenderá, llevaba mi idea, pues de antiguo conocía su flaqueza y su hábito inveterado de infringir cierta ley de pesca.
-No -me dijo cuando le puse la traílla en la mano-, no, esto no es en serio, ¿verdad? -y se reía, con su risa ridícula, que le retozaba por toda la cara mofletuda y reluciente-. Yo... yo... pensaba... Vamos, creía, creía que... no le era a usted muy simpático -continuó el imbécil-. ¿Verdad que tiene gracia que haya vivido equivocado, eh?
Y reía, reía hasta desternillarse. ¡Canalla!
-¿Cómo se llama? -me preguntó.
-Belona.
-¿Belona? ¡Ja, ja! ¡Qué nombre más raro!
Rechinando los dientes, que su estúpida alegría me ponía de punta, le contesté:
-Belona era la esposa de Marte.
-¡Ah, ya comprendo, comprendo! Sí, claro, Marte se llamaba mi perro. Bueno, pues... ¡se ha quedado viuda esta Belona!
Ya estaba bien lejos de la cuesta, y todavía llegaban a mí sus carcajadas.
Pasó la semana, y el sábado le dije:
-Se marcha usted el lunes, ¿no?
-Sí -respondió, sin dejar de sonreír.
-Entonces, no podrá meter mano a las truchas antes de irse...
-No sé... no sé -me replicó, sin reparar en el tono agrio de mi pregunta-. De todas maneras, mañana pienso probar... ¡Ja, ja!...
Su respuesta me tranquilizó, y me marché a casa satisfecho.
Al día siguiente, muy temprano, lo vi salir con saco y red, acompañado de Belona, y como tenía la certeza del sitio adonde se dirigían, tomé un atajo y pronto llegué a la cima de la montaña, que bordeé ocultándome, hasta avistar el valle en el cual el riachuelo formaba una pequeña cascada y más allá una laguna límpida y tranquila que reposaba entre las breñas.
Era el sitio, y sentándome en el suelo entre la maleza, desde donde dominaría el espectáculo, encendí mi pipa y esperé tranquilo el desenlace.
Bien pronto, Claverhouse apareció vadeando la corriente del riachuelo, seguido de Belona, que correteaba a su alrededor. Ambos, hombre y animal, llegaban contentos, y los ladridos cortos y vibrantes del uno se confundían con los gritos guturales del otro. Ya junto al remanso, vi que Claverhouse arrojaba la red y el morral al suelo y sacaba del bolsillo algo parecido a una vela gorda y grande. Yo sabía lo que era: un cartucho de los gigantes, pues en eso consistía su sistema para pescar truchas: atontarlas o matarlas con dinamita. Le puso la mecha, envolvió el cartucho en un pedazo de tela, le prendió fuego y lo tiró con fuerza al charco.
Como un relámpago, Belona se precipitó tras él, mientras yo hubiera gritado, de puro gozo, al verlo. En vano Claverhouse llamaba a la perra a gritos; en vano la tiroteaba con piedras y ramas: el animal nadaba rápidamente, y al poco tuvo el cartucho en la boca se dirigió con él hacia la orilla. Entonces, por primera vez, pareció darse cuenta del peligro a que estaba expuesto, y echó a correr por entre la maleza. Mis planes se realizaban a la perfección; la perra, al llegar a la orilla, emprendió sin vacilar su persecución, tal y como yo le había enseñado a hacer conmigo.
¡Oh! El espectáculo era grandioso, y bien merecía el trabajo que me costó prepararlo.
Como ya he dicho, el pequeño remanso formaba el fondo de una especie de anfiteatro natural, y el arroyo tenía pasaderas de piedra a la entrada y a la salida. Claverhouse, seguido de Belona, corría dando vueltas y más vueltas de un lado a otro; ambos, pasando y repasando la corriente, como dos bolas dentro de un plato, persiguiéndose, en un divertido e interesante juego. Nunca hubiera creído que un hombre de su aspecto poseyese tal ligereza, pues Claverhouse corría con una velocidad asombrosa, mientras la perra lo seguía de cerca, ganando terreno a cada paso, a punto de alcanzarlo... Y en el momento en que se tocaban, él a toda carrera, ella con el hocico casi junto a su rodilla, se produjo la explosión: un relámpago, una nube de humo blanquecino y una detonación formidable que retumbó en la montaña... Donde habían estado el hombre y el perro no quedaba sino una hondonada en el suelo de la planicie...
*
El juez calificó el suceso de “muerte accidental en la circunstancia de hallarse pescando por medios prohibidos”.
He aquí por qué me precio de la forma delicada y artística que empleé para acabar con Juan Claverhouse. No hubo brutalidad, no hubo torpeza; nada de qué tener que avergonzarme, convendrán ustedes conmigo.
Y ya su risa infernal no repercute sus ecos entre mis queridas montañas ni me irrita la aparición de su estúpida cara de luna.
Mis días transcurren plácidos y por las noches duermo tranquilamente como un niño...
FIN
Fonte :Noticuento.Biblioteca Digital Ciudad Seva
La cara de Juan Claverhouse era un fiel trasunto de la luna llena; ya conocen ustedes el tipo: los pómulos muy separados, la barbilla y la frente redondas, hasta confundirse con los rubicundos mofletes, y la nariz ancha y corta, como una pelota de pan aplastada en la pared, ocupando el centro de la circunferencia.
Quizá fuera ésta la razón del odio que sentía por él; su presencia me resultaba insoportable, y lo conceptuaba como una especie de mancha sobre la tierra. He llegado a creer que mi madre, durante el embarazo, tuvo algún antojo, algún motivo de resentimiento con la luna; qué sé yo...
Sea por lo que fuere, lo cierto es que yo lo odiaba, y no debe creerse que él, por su parte, me había dado motivo alguno, por lo menos a los ojos del mundo; pero la razón existía, no cabe duda, aunque tan oculta, tan sutil, que no encuentro palabras con que poder expresarla. Todos conocemos esta clase de antipatías instintivas; vemos por primera vez a un desconocido, a una persona cuya existencia ignorábamos y, sin embargo, en el momento de verla decimos: “No me gusta ese hombre o esa mujer”. ¿Por qué no nos gusta? ¡Ah! Lo ignoramos; no sabemos sino que es así, que nos cae antipático; eso es todo. Tal fue mi caso con Juan Claverhouse.
¿Con qué derecho era dichoso un hombre semejante? Nunca vi optimismo como el suyo; siempre risueño, siempre contento y siempre encontrándolo todo bien, ¡maldita sea!...
No me importaba nada la alegría de los demás; todo el mundo puede reír, hasta yo... antes de conocer a Claverhouse; pero la risa de éste, aquella risa, me irritaba, me enloquecía, me ponía furioso, fuera de mí... Era una pesadilla constante, a la que no podía sustraerme, un demonio maldito, cuyo abrazo infernal me ahogaba. ¡Qué risa! Estentórea, homérica, gargantuana; despierto o dormido, su vibrante sonar me arañaba el corazón como con las púas de un peine gigantesco. La oía al despuntar el alba, a través de los campos, y sus ecos me robaban las delicias de un plácido despertar; la oía bajo el cielo clarísimo del mediodía, cuando la Naturaleza entera parecía dormir borracha de luz y de calor, y sus “¡ja! ¡ja!” se elevaban sonoros en el silencio de los valles; y la oía en medio de la noche, en que me despertaba el irritante chasquido de aquella risa diabólica, haciéndome dar vueltas en la cama y clavarme las uñas en las palmas de las manos, en un paroxismo de rabia impotente.
Más de una madrugada me levanté con el único objeto de desparramar sus rebaños por las campiñas sembradas, y sólo conseguí escuchar otra vez, por la mañana, su eterna risa, mientras los congregaba de nuevo en sus rediles.
-Pobres bestezuelas -decía-. ¡No tienen culpa, al ir donde su instinto las lleva, buscando mejores pastos!...
Tenía Claverhouse un perro que atendía por Marte, un hermoso animal, mezcla de mastín y galgo, con rasgos característicos de ambas especies. Marte, más que su perro favorito, era casi un amigo para él, y siempre se les veía juntos.
Después de una paciente espera, llegó el día y la hora de poner en práctica mi maquinación. Con halagos atraje al animal, y un pedazo de carne con estricnina hizo el resto, aunque perdí mi tiempo y mi habilidad de una manera lastimosa, pues la risa de Juan siguió siendo tan frecuente como antes y su cara se parecía cada vez más a la luna llena.
Entonces prendí fuego a sus trojes y a sus graneros, y a la mañana del día siguiente, que era domingo, lo encontré tan alegre como de costumbre.
-¿Adónde va? -le pregunté cuando nos cruzamos.
-A pescar truchas -me dijo contentísimo-; me entusiasma la pesca.
¿Ha existido jamás un hombre semejante? Sus trojes y sus hórreos no estaban asegurados -lo sabía-, y el incendio había convertido en humo su fortuna; pero allá iba, lleno de regocijo, en busca de una cesta de truchas, simplemente porque “le entusiasmaba la pesca”.
Si en aquel momento hubiera visto en su cara la expresión de la pena, por poca, por ligera que ésta hubiera sido; si la cara se le hubiese alargado, perdiendo aquel aspecto de luna llena, quizá le habría perdonado el crimen de existir; pero, por el contrario, la desgracia parecía aumentar su alegría.
Lo insulté a propio intento, y no vi en su cara signo alguno de despecho; todo lo más, un gesto de sorpresa bondadosa.
-¿Pelearnos?... ¿Y por qué? -me preguntó con lentitud, y añadió, echándose a reír-. ¡Ja,ja! ¡Qué gracioso es usted! ¡Ja, ja!... De verdad, me hace usted muchísima gracia.
¿Qué hacer? La cosa era horrible, inverosímil, inaguantable... ¡Cómo lo odiaba, Dios poderoso!...
Luego, aquel nombre: Claverhouse. ¿Por qué Claverhouse? Me hacía la pregunta mil veces. No me hubiera importado que se llamara Smith, Brown, Jones; pero... ¡Claverhouse!... ¿Es posible que exista alguien con semejante nombre? “No”, me responderán ustedes, y “no", me respondía yo mismo.
Pensé en su hipoteca y en la imposibilidad de que la pagara, cuando sus cosechas se encontraban destruidas. Bien pronto encontré un prestamista astuto e inhumano que se quedó con todos los créditos, y aunque yo no figuré para nada en la transacción, pude, por medio de este agente, forzar el vencimiento, para tener el gusto de avisar a Claverhouse de los pocos días (ni uno más de los que marca la ley) que le restaban para abandonar la casa y la finca donde había vivido durante veinte años.
Después fui a verlo, esperando leer, al fin, la desesperación en sus ojos; pero ¡ca!; lo encontré sonriente, con su eterna cara de contento y... ¡más parecida que nunca a la luna llena!
Me recibió riendo a carcajadas.
-¡Ja, ja, ja!... ¡Pero qué gracioso es este chiquillo mío! Figúrese usted que estaba jugando en la orilla del río, cuando un trozo del ribazo cayó al agua y lo salpicó, y me dice: “¡Oye, papá! ¡Un charco se ha levantado y me ha dado en la cabeza!..."
Y se detuvo, aguardando, sin duda, a que yo me echara a reír.
-Pues no veo la gracia -le contesté con brusquedad y sintiendo que la cara se me agriaba por momentos.
Me miró con asombro, y luego empezó a extenderse por la suya el resplandor suave de que les he hablado, y que la tornaba casi luminosa:
De nuevo empezó a reír:
-¡Ja, ja!... ¡Esto sí que está bueno!... ¡Que no le ve la gracia!... ¡Ja, ja, ja!... ¡Que no se la ve!... Pero, venga usted acá, venga usted acá; usted ya sabe que los charcos...
No lo dejé terminar; di media vuelta y me marché. ¡Era el colmo! ¡Ya no podía resistirlo! Se hacía indispensable acabar de una vez; era preciso libertar al mundo de semejante monstruo...
Y mientras subía lentamente la colina, su risa maldita me perseguía, resonante siempre, siempre...
*
Me precio de hacer las cosas bien, y cuando resolví matar a Claverhouse estaba dispuesto a hacerlo en forma tal y con tal habilidad, que el recuerdo de mi acción no pudiera avergonzarme nunca. Declaro que aborrezco la torpeza y que siempre me inspiró antipatía la violencia y la fuerza bruta. Matar a un hombre a puñetazos, por ejemplo, tiene todos los caracteres del vandalismo, y me repugna hasta pensar en ello; de modo que la idea de disparar un tiro, clavar un puñal o asestar un golpe ni siquiera entró en mis cálculos; además, no sólo era cuestión de hacerlo bien, científicamente: quedaba por resolver la indispensable forma de evitar que pudieran recaer sospechas sobre mí.
Pensé mucho en ello, y por fin, tras una semana de trabajo mental, encontré lo que buscaba, y me dispuse a poner en obra mi pensamiento.
Empecé por comprar una perra de aguas de cinco meses, y me dediqué en cuerpo y alma a inculcarle la educación necesaria. Si alguien me hubiera observado con atención, pronto se hubiera dado cuenta de que sólo la adiestraba en devolverme las cosas que yo arrojaba lejos de mí.
La perra, a la que di el nombre de Belona, me traía los palos que le tiraba al agua, y no solamente me los traía, sino que lo efectuaba en seguida, sin vacilar, morderlos ni jugar con ellos. Le enseñé a correr detrás de mí con un objeto en la boca, hasta alcanzarme, y como se trataba de un animal listo y despierto, pronto tuve el gusto de ver que mis lecciones fueron bien aprovechadas.
En la primera ocasión favorable regalé el animal a mi enemigo, y al hacerlo, como se comprenderá, llevaba mi idea, pues de antiguo conocía su flaqueza y su hábito inveterado de infringir cierta ley de pesca.
-No -me dijo cuando le puse la traílla en la mano-, no, esto no es en serio, ¿verdad? -y se reía, con su risa ridícula, que le retozaba por toda la cara mofletuda y reluciente-. Yo... yo... pensaba... Vamos, creía, creía que... no le era a usted muy simpático -continuó el imbécil-. ¿Verdad que tiene gracia que haya vivido equivocado, eh?
Y reía, reía hasta desternillarse. ¡Canalla!
-¿Cómo se llama? -me preguntó.
-Belona.
-¿Belona? ¡Ja, ja! ¡Qué nombre más raro!
Rechinando los dientes, que su estúpida alegría me ponía de punta, le contesté:
-Belona era la esposa de Marte.
-¡Ah, ya comprendo, comprendo! Sí, claro, Marte se llamaba mi perro. Bueno, pues... ¡se ha quedado viuda esta Belona!
Ya estaba bien lejos de la cuesta, y todavía llegaban a mí sus carcajadas.
Pasó la semana, y el sábado le dije:
-Se marcha usted el lunes, ¿no?
-Sí -respondió, sin dejar de sonreír.
-Entonces, no podrá meter mano a las truchas antes de irse...
-No sé... no sé -me replicó, sin reparar en el tono agrio de mi pregunta-. De todas maneras, mañana pienso probar... ¡Ja, ja!...
Su respuesta me tranquilizó, y me marché a casa satisfecho.
Al día siguiente, muy temprano, lo vi salir con saco y red, acompañado de Belona, y como tenía la certeza del sitio adonde se dirigían, tomé un atajo y pronto llegué a la cima de la montaña, que bordeé ocultándome, hasta avistar el valle en el cual el riachuelo formaba una pequeña cascada y más allá una laguna límpida y tranquila que reposaba entre las breñas.
Era el sitio, y sentándome en el suelo entre la maleza, desde donde dominaría el espectáculo, encendí mi pipa y esperé tranquilo el desenlace.
Bien pronto, Claverhouse apareció vadeando la corriente del riachuelo, seguido de Belona, que correteaba a su alrededor. Ambos, hombre y animal, llegaban contentos, y los ladridos cortos y vibrantes del uno se confundían con los gritos guturales del otro. Ya junto al remanso, vi que Claverhouse arrojaba la red y el morral al suelo y sacaba del bolsillo algo parecido a una vela gorda y grande. Yo sabía lo que era: un cartucho de los gigantes, pues en eso consistía su sistema para pescar truchas: atontarlas o matarlas con dinamita. Le puso la mecha, envolvió el cartucho en un pedazo de tela, le prendió fuego y lo tiró con fuerza al charco.
Como un relámpago, Belona se precipitó tras él, mientras yo hubiera gritado, de puro gozo, al verlo. En vano Claverhouse llamaba a la perra a gritos; en vano la tiroteaba con piedras y ramas: el animal nadaba rápidamente, y al poco tuvo el cartucho en la boca se dirigió con él hacia la orilla. Entonces, por primera vez, pareció darse cuenta del peligro a que estaba expuesto, y echó a correr por entre la maleza. Mis planes se realizaban a la perfección; la perra, al llegar a la orilla, emprendió sin vacilar su persecución, tal y como yo le había enseñado a hacer conmigo.
¡Oh! El espectáculo era grandioso, y bien merecía el trabajo que me costó prepararlo.
Como ya he dicho, el pequeño remanso formaba el fondo de una especie de anfiteatro natural, y el arroyo tenía pasaderas de piedra a la entrada y a la salida. Claverhouse, seguido de Belona, corría dando vueltas y más vueltas de un lado a otro; ambos, pasando y repasando la corriente, como dos bolas dentro de un plato, persiguiéndose, en un divertido e interesante juego. Nunca hubiera creído que un hombre de su aspecto poseyese tal ligereza, pues Claverhouse corría con una velocidad asombrosa, mientras la perra lo seguía de cerca, ganando terreno a cada paso, a punto de alcanzarlo... Y en el momento en que se tocaban, él a toda carrera, ella con el hocico casi junto a su rodilla, se produjo la explosión: un relámpago, una nube de humo blanquecino y una detonación formidable que retumbó en la montaña... Donde habían estado el hombre y el perro no quedaba sino una hondonada en el suelo de la planicie...
*
El juez calificó el suceso de “muerte accidental en la circunstancia de hallarse pescando por medios prohibidos”.
He aquí por qué me precio de la forma delicada y artística que empleé para acabar con Juan Claverhouse. No hubo brutalidad, no hubo torpeza; nada de qué tener que avergonzarme, convendrán ustedes conmigo.
Y ya su risa infernal no repercute sus ecos entre mis queridas montañas ni me irrita la aparición de su estúpida cara de luna.
Mis días transcurren plácidos y por las noches duermo tranquilamente como un niño...
FIN
Fonte :Noticuento.Biblioteca Digital Ciudad Seva
Roteiro de cinema
BRUNA TIUSSU – O Estado de S.Paulo
“Gostaria de fazer um filme aqui? Vamos pagar por isso.” O convite-patrocínio, sem papas na língua, foi suficiente para que, lá em 2005, Woody Allen transformasse a família originalmente nova-iorquina de sua história em uma típica inglesa, e assim rumasse a Londres para gravar Match Point, seu primeiro longa rodado na Europa. Os rechonchudos incentivos em libras levaram os belos cenários londrinos às telonas em outras três de suas produções. E a mágica receita se espalhou pelo continente. Com a mesma artimanha de ganhá-lo pelo bolso, também entraram no foco das câmeras do cineasta as belezas de Barcelona, Paris e, agora, Roma, onde se passa sua última comédia lançada sexta-feira nos cinemas brasileiros.
Para Roma com Amor começa com uma sequência de cartões-postais clichês, como Allen já mostrou que gosta de fazer: a Piazza del Popolo, o trânsito caótico característico da cidade, a Piazza di Spagna e a Fontana di Trevi. Composto por quatro histórias e um elenco com estrelas como Roberto Benigni, Penélope Cruz, Alec Baldwin e o próprio Woody Allen, segue explorando mais da sempre ensolarada Roma turística, presente em todo e qualquer guia de viagem.
A trama, porém, também abre espaço para a atmosfera descolada de bairros pouco conhecidos da capital, como San Angelo e Garbatella, que ganham cenas em suas ruelas pitorescas e cafés (leia na página ao lado). O suficiente para despertar a curiosidade do espectador e futuro viajante.
A comédia vem para afirmar mais uma vez que a incursão pelo Velho Mundo é uma maratona de inegável sucesso para ambos os lados. Em sete anos de viagens pela Europa, Allen abocanhou US$ 17 milhões em incentivos fiscais e produziu sete longas – voltou à sua Nova York apenas para filmar a comédia Tudo Pode Dar Certo, lançada em 2010, digamos que um período sabático em meio à temporada europeia. É um dos poucos capazes de manter tal ritmo de produção, com liberdade total para conceber suas ideias.
Em contrapartida, a capital italiana e os outros destinos que lhe serviram de set ganharam mais que o importuno movimento causado pelas gravações – durante as filmagens de Vicky Cristina Barcelona, não era raro ver a população enfurecida com as regalias concedidas ao diretor. Com ruas, monumentos, paisagens e sotaques exibidos nas telonas do mundo todo, saíram no lucro com uma incalculável visibilidade turística. Roteiros inteiros enquadrados e selados com a assinatura do gênio nova-iorquino. Que viajante não quer testá-los in loco?
Seguindo passos. Basta conferir na internet o número de referências de buscas pela ‘escadaria de Meia-noite em Paris’. Depois que Gil (Owen Wilson), protagonista da trama de Allen, pegou carona com Scott e Zelda Fitzgerald diante dos degraus da Igreja de Saint Etienne, no 5.º arrondissement, o lugar se tornou parada obrigatória de quem está de passagem pela Cidade Luz – sobretudo à meia-noite, quando os mais crentes vão tentar a sorte de encontrar o tal carro que os levará para a Paris dos anos 1920.
Um crescente interesse por Oviedo e Avilés, cidades das Astúrias, na Espanha, também pode ser percebido depois que Vicky Cristina Barcelona alcançou os cinemas. Viajantes não resistiram às panorâmicas exibidas pelo longa e trataram de incluir os vilarejos em seus roteiros pelo país.
Com Roma, não será diferente. O empurrãozinho de Allen, a favor de seus clichês ou de novas regiões da cidade, virá a calhar em época de crise europeia. E a corrida para próximo candidato à destino cenográfico do diretor já começou. Este ano, ele gravará em São Francisco e Nova York – e, ao que parece, Berlim, Rio de Janeiro e Buenos Aires estão no páreo para ser a sede do roteiro seguinte. Falta saber quem vai abrir a carteira e ganhar o coração do disputado cineasta.
‘Match Point’, o princípio de tudo
Match Point não só iniciou a experiência europeia de Woody Allen como usou bem a vertente aristocrática e sofisticada da cidade como personagem de um jogo de poder e sedução. A história da relação explosiva entre a aspirante a atriz Nola Rice (Scarlett Johansson) e o professor de tênis Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) começa quando ele passa a dar aulas do esporte ao namorado dela, Tom Hewett (Matthew Goode).
O diretor não fugiu de seu estilo ao filmar em lugares que podem ser visitados na vida real. O elegante Queens Club (queensclub.co.uk) é o ponto de partida para que Chris conheça a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), com quem se casa de olho na fortuna da família. As quadras são só para sócios, mas você pode assistir a um dos torneios.
A relação de Chris e Nola se estreita durante uma ópera na Royal Opera House (www.roh.org.uk). Se você não pertence à aristocracia como os personagens, pode tentar comprar tíquetes quatro horas antes do espetáculo pela metade do preço.
Outra passagem curiosa é o jantar do quarteto amoroso na Brasserie Max, restaurante localizado no hobby do luxuoso Covent Garden Hotel (firmdalehotels.com). E repare bem na cena em que Chris joga provas que o incriminam no Rio Tâmisa, no final da Hopton Street, debaixo da Blackfriars Bridge: você verá um grafite do famoso Banksy. / F.M.
Elegantes cafés na capital do chá
ANA , GASSTON – O Estado de S.Paulo
No século 17, antes do chá virar mania nacional na Inglaterra, o café era a bebida mais popular. Nas coffee houses espalhadas pelo centro de Londres, comerciantes e banqueiros se reuniam para tratar de negócios. A primeira da cidade, Pasqua Rosee’s, surgiu em 1652, mas foi destruída no Grande Incêndio e substituída pela Jamaica Coffee House que, hoje, é um bar chamado Jamaica Wine House, em Cornhill, na London City.
Atualmente, café está de novo na moda, para a felicidade dos brasileiros que não passam um dia sem. Nos últimos anos, fantásticas lojas independentes surgiram vendendo o próprio café fabricado com grãos importados de vários países, inclusive do Brasil.
Uma de minhas lojas favoritas é a Monmouth Coffee (monmouthcoffee.co.uk), com três endereços: Covent Garden, Bermondsey e London Bridge. A última, ao lado do Borough Market, é a mais concorrida: quando o mercado está aberto, a fila dobra a esquina. Para comprar um pacote de café, basta pedir instruções para os atendentes no balcão. Ainda no mercado, encontra-se o carrinho do Flat Cap, cujo dono brasileiro fez tanto sucesso que abriu duas lojas, uma delas a elegante Notes Music & Coffee (notesmusiccoffee.com), perto da Trafalgar Square.
Já no Broadway Market, o café do vietnamita Ca Phe VN (caphevn.co.uk) é um dos mais populares. Além de café com leite condensado, quente ou gelado, em sua loja, em Clerkenwell Road, há o caríssimo Weasel coffee, feito com grãos digeridos por doninhas.
Na mesma rua, o moderno Workshop Coffee (workshopcoffee.com) tem um bar no centro e, no fundo, uma máquina onde o café é torrado. Além de café, servem outras bebidas e pratos durante o dia e a noite.
Na movimentada Berwick Street, em Soho, está o Flat White (flatwhitecafe.com), cujo nome foi derivado da bebida trazida para o país pelos donos australianos e que agora faz parte do menu de vários cafés da cidade. Trata-se de um latte mais cremoso com uma dose extra de café.
Perto dali, o pub The Old Coffee Shop, pequeno e escuro, já vendeu muito café e, hoje, serve cervejas independentes fabricadas em Londres, a bebida que nunca saiu da moda.
*É jornalista, paulistana e vive em Londres há 10 anos
Vicky Cristina Barcelona
Woody Allen tomou o cuidado de incluir o nome dos três personagens principais no título: Vicky Cristina Barcelona. Assim como no aclamado Meia-noite em Paris, no filme de 2008 – que rendeu um Oscar de melhor atriz coadjuvante a Penelope Cruz pelo papel da intempestiva Maria Elena – a cidade representa mais que uma mera locação.
É como se o espectador acompanhasse Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlet Johansson) em sua viagem de férias pela capital catalã. Ele desembarca com elas na primeira cena, no aeroporto, e as acompanha pelo city tour que é a película.
Primeira parada, Sagrada Família (sagradafamilia.cat), onde os guindastes fazem tão parte do cenário quanto as torres da catedral projetada por Gaudí (1852-1926)- em construção há mais de 130 anos. Gaudí, aliás, é a razão pela qual Vicky, que está de casamento marcado, escolhe Barcelona. Apaixonada pelo trabalho do artista, ela quer reunir material para seu mestrado em identidade catalã. Sem compromisso amoroso ou emprego fixo, Cristina acompanha a amiga.
O city tour segue por La Pedrera (lapedrera.com), outra maravilha de Gaudí erguida de 1906 a 1912. Depois, vão à galeria de arte onde veem pela primeira vez o sedutor pintor Juan Antonio (Javier Bardem). O local em questão é a Fundação Antoni Tàpies (fundaciotapies.org), cujo objetivo é promover a conexão das artes.
A essa altura, a fome já deve bater – que tal jantar no 4Gats (4gats.com), como fazia Picasso? Vicky e Cristina foram para lá e encontraram outro pintor: Juan Antonio, claro. Que propõe uma viagem a Oviedo, a cerca de 900 quilômetros dali. Mas que em um jatinho particular vira uma escapada de fim de semana.
Apesar de deixar claro suas intenções (comer, beber e fazer sexo), Juan Antonio diz querer ir a Oviedo para ver uma escultura que gosta muito – a imagem de Cristo crucificado da igreja San Julián de los Prados, patrimônio da Unesco erguido entre os anos 812 e 842. De lá, saem para comer doces na Camilo de Blas (camilodeblas.com), em funcionamento desde 1914.
De volta a Barcelona, Vicky se concentra em seu mestrado para esquecer a tórrida noite com Juan Antonio. Cristina, que havia ficado doente em Oviedo, sai para fotografar o Bairro Gótico. Afinal, não faltam pontos atraentes por ali.
Quando ela e o pintor engatam um romance, Vicky encontra Juan Antonio no Parque Guell (parkguell.es), outra obra de Gaudí. E é aí que ocorre o improvável: os dois conversam demoradamente em frente à icônica salamandra. Normalmente, a fila para tirar foto ali desafia a paciência.
Depois que o noivo de Vicky chega a Barcelona, eles combinam um passeio com Cristina e Juan Antonio no Parque de Tibidabo (www.tibidabo.cat), de onde se vê toda a capital catalã. O verão favorece as cenas externas – e Woody Allen não economiza nas panorâmicas. Como quando Judy e Vicky conversam na saída do Museu Nacional d’Art da Catalunha (mnac.cat). No verão, das 21 às 23 horas, a fonte abaixo do museu ganha música e iluminação especial.
O filme está quase acabando. Ainda há tempo para ver as Ramblas, cafés com mesa na calçada… A atmosfera de Barcelona está toda ali. E, quando sobem os créditos, é como se você também desse adeus à cidade. /ADRIANA MOREIRA
Meia-noite em Paris
O Rio Sena e seus indefectíveis bateaux mouches. Champs-Elysées e Arco do Triunfo. Moulin Rouge, Notre Dame, cafés e bistrôs, e, claro, a Torre Eiffel. Meia-noite em Paris (2011) começa com um passeio pelos cartões-postais da cidade, com chuva e sol, de noite e de dia, sem apresentar nenhum personagem. Ou melhor, apresentando, sim, seu principal personagem: Paris.
A capital francesa, afinal, é o objeto de desejo de Gil (Owen Wilson), escritor americano que sonha em conhecer a Paris nos anos 20. Para ele, andar pela metrópole é inspirador – especialmente na chuva, quando, afirma, a cidade fica ainda mais linda. “Eu me vejo caminhando pela margem esquerda do Sena com uma baguete debaixo do braço, indo para o Café de Flore (cafedeflore.fr) para escrever meu livro”, diz.
E é numa dessas caminhadas que, sem querer, vai parar em frente aos degraus da Igreja de Saint Etienne. Quando os sinos tocam meia-noite, um carro antigo o leva até a Paris dos anos 20, onde conhece Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Picasso e outros gênios da efervescente cultura da época.
A trama se desenrola enquanto são apresentados pontos turísticos. Gil e a noiva, Inez (Rachel McAdams) são convidados por um amigo (o pedante Paul, interpretado por Michael Sheen) a conhecer Versalhes. Paul discorre sobre a história do palácio, encantando Inez e entediando Gil. Em outra ocasião, o grupo se reúne em frente à estátua O Pensador, no Musée Rodin (musee-rodin.fr). Alguns pontos são facilmente reconhecíveis, mesmo por quem nunca pisou em Paris. Outros não são nada óbvios, como o restaurante Relais&Châteaux Le Grand Véfour (legrand-vefour.com), onde Gil e Inez jantam com os pais dela – e encontram Paul.
Quando o grupo vai a uma degustação de vinhos, está no alto do refinado Hotel Le Meurice (lemeurice.com), em frente aos Jardins das Tulherias – um dos lugares favoritos de Woody Allen na cidade, segundo ele contou ao Estado no lançamento do filme. O diretor, assim como Gil, adora caminhar pelas ruas da capital francesa. “A Champs-Elysées é ótima, mas está sempre cheia de turistas. Gosto dos parques.”
Gil e Inez estão hospedados no Le Bristol (lebristolparis.com), um cinco-estrelas aclamado. Allen, contudo, tem como hotel favorito em suas visitas à cidade o Ritz (hoje, fechado para restauração até 2014). E é bem ali, pela Place Vendôme, que Inez e sua mãe caminham, admirando na vitrine um anel de diamantes. A região, afinal, concentra as lojas mais sofisticadas, como Tiffany’s e Dior.
Gil, contudo, prefere o mercado de pulgas de Saint-Ouen, onde compra um disco de Cole Porter (1891-1964) e, mais tarde, brincos para Adriana, uma das musas de Picasso por quem o escritor americano se encanta.
Mesmo pontos retratados no passado durante o filme podem ser visitados no presente. Como o Polidor (polidor.com), onde Gil encontra Hemingway (Corey Stoll) pela primeira vez . De fato, o restaurante, aberto em 1845, era frequentado pelo escritor, assim como por Victor Hugo e outras personalidades. No filme, Gil tenta retornar ao local, que deu lugar a uma lavanderia. Mas não se preocupe: é só licença poética. O Polidor segue no mesmo lugar.
Quando Gil e Adriana voltam a 1890, jantam no Maxim’s (maxims-de-paris.com). Depois, assistem a um espetáculo de cancã no Moulin Rouge (moulinrouge.fr). Tudo funcionando até hoje.
O filme, enfim, é um passeio interminável por Paris. E você nem precisa voltar no tempo para conhecer os lugares onde Gil esteve. Pena mesmo é não poder encontrar os gênios do passado… /ADRIANA MOREIRA
Para Roma com amor
Ao som dos versos de Volare, de Domenico Modugno, cobrindo cenas da Piazza del Popolo, Woody Allen dá início ao filme Para Roma com Amor, sua homenagem à cidade e à tradição cinematográfica da Itália. Para retratar o modo de vida romano, se utilizou de quatro histórias desconexas. “É um lugar muito vasto para caber em um único enredo. Uma cidade artística, que acontece a céu aberto”, explicou no lançamento do filme.
Marcando o retorno do diretor à frente das câmeras – sua última atuação foi em Scoop, há seis anos – Woody vive Jerry, um aposentado produtor musical americano que foi a Roma conhecer seu genro. Turistando pela cidade, sua filha Hayley (Alison Pill) cai de amores pelo mais provável galã italiano, que lhe acompanha em ícones clássicos como Piazza di Spagna e Fontana di Trevi, deslumbrante em cena, sem o aglomerado que a cerca diariamente. Coisa de cinema.
Recém-chegada do interior, a italianinha Milly (Alessandra Mastronardi) é peça-chave da segunda trama. Ela se perde pela capital e acaba percorrendo, em uma ensolarada e sempre alegre Roma, outros pontos que compõem os tradicionais passeios turísticos (turismoroma.it). Caminha pela praça Campo dei Fiori, famosa pelo mercado gastronômico, com barracas de ingredientes típicos (funciona todos os dias, exceto aos domingos). Passa pelo Largo di Argentina, onde estão as ruínas do Teatro Pompeu. E ainda se depara com a pequena Piazza Mattei, decorada com uma fonte construída em 1584.
Áreas menos conhecidas entram em cena com o personagem mais colorido do filme, o italiano Leopoldo (Roberto Benigni), protagonista da terceira história. Tendo de lidar com uma fama repentina, foge dos paparazzi e apresenta ao espectador ruelas, casas baixas e a atmosfera popular de Garbatella e Rione Monte. Bairros que, na vida real, exalam história e convidam a circular sem roteiro, reparando em suas fachadas medievais. O primeiro vale ser visitado ao entardecer para conferir o jogo de luzes e sombras no arco do Palazzo Borgia, coberto por trepadeiras.
Os americanos Monica (Ellen Page) e Jack (Jesse Eisenberg) compõem o quarto núcleo ao lado de John (Alec Baldwin). Do jovem casal, vale ressaltar uma cena de dar inveja aos convictos viajantes: eles exploram as nostálgicas ruínas del Palatino, sob chuva e à noite, quando o local já está fechado para visitas.
Já o arquiteto John está apenas visitando a cidade e relembrando a época em que viveu no simpático bairro de Trastevere. Apesar de Woody Allen ter deixado de fora importantes monumentos dali – como a Basílica Santa Maria, com seus impressionantes mosaicos dourados, e a Colina de Gianicolo, que oferece uma panorâmica espetacular da cidade -, as estreitas ruas de paralelepípedos, com casas medievais caracterizadas pelo amarelo descascado das paredes são fundamentais para compor o retrato de Roma.
De antigo reduto de trabalhadores e artesãos, onde o turismo não tinha vez, se converteu na atual região da moda, destino de quem busca diversão à noite, em descolados bares e casas noturnas que circundam a praça.
Com este mosaico de personagens que vivem cenas de romance, aventura e humor em cenários ora familiar, ora surpreendente, Woody Allen mostra toda sua maestria. E entrega uma tentativa bem-sucedida de representar no cinema as variadas situações que compõem, cotidianamente, a sempre atraente Cidade Eterna. / BRUNA TIUSSU
Entre uma cena e outra, a hora de ‘mangiare’
Woody Allen fez sua parte escolhendo cenários que fogem do centro tradicional para compor o seu Para Roma com Amor. Cabe a nós ajudá-lo, portanto, com sugestões gastronômicas localizadas em tais bairros, essenciais para que seu roteiro de férias fique redondinho.
Endereços saborosos ocupam as ruelas históricas de Trastevere. Aberto em 1860, o Piperno (ristorantepiperno.com) oferece massas tipicamente italianas – invista nelas. Mas somente depois de provar as flores de abobrinha fritas, um dos destaques da casa. Se estiver por lá durante o verão, abuse da sorte e tente uma mesa no terraço.
Se quiser algo mais informal, tente o Caffe del Cinque, (Vicolo del Cinque 5), bar no cruzamento de cinco ruas. Vale em qualquer hora do dia: café da manhã, aperitivos à tarde e até um drinque à noite.
Para matar a sede em Garbatella, circule perto do histórico Teatro Palladium (romaeuropa.net/palladium), onde encontrará o Foschi, bar que é principal ponto de encontro na região. Se o caso for matar a fome, o italianíssimo Ristoro degli Angeli (ristorodegliangeli.it) está a poucos passos.
Ao visitar Rione Monte, vá com disposição para provar vinhos. Ali fica a concorrida adega Ai Tre Scalini (aitrescalini.org/bottiglieria), aberta desde 1895. Se não conseguir mesa, siga para o Charity Café (charitycafe.it) e prove um aperitivo ao som de uma banda de jazz. /B.T.
“Gostaria de fazer um filme aqui? Vamos pagar por isso.” O convite-patrocínio, sem papas na língua, foi suficiente para que, lá em 2005, Woody Allen transformasse a família originalmente nova-iorquina de sua história em uma típica inglesa, e assim rumasse a Londres para gravar Match Point, seu primeiro longa rodado na Europa. Os rechonchudos incentivos em libras levaram os belos cenários londrinos às telonas em outras três de suas produções. E a mágica receita se espalhou pelo continente. Com a mesma artimanha de ganhá-lo pelo bolso, também entraram no foco das câmeras do cineasta as belezas de Barcelona, Paris e, agora, Roma, onde se passa sua última comédia lançada sexta-feira nos cinemas brasileiros.
Para Roma com Amor começa com uma sequência de cartões-postais clichês, como Allen já mostrou que gosta de fazer: a Piazza del Popolo, o trânsito caótico característico da cidade, a Piazza di Spagna e a Fontana di Trevi. Composto por quatro histórias e um elenco com estrelas como Roberto Benigni, Penélope Cruz, Alec Baldwin e o próprio Woody Allen, segue explorando mais da sempre ensolarada Roma turística, presente em todo e qualquer guia de viagem.
A trama, porém, também abre espaço para a atmosfera descolada de bairros pouco conhecidos da capital, como San Angelo e Garbatella, que ganham cenas em suas ruelas pitorescas e cafés (leia na página ao lado). O suficiente para despertar a curiosidade do espectador e futuro viajante.
A comédia vem para afirmar mais uma vez que a incursão pelo Velho Mundo é uma maratona de inegável sucesso para ambos os lados. Em sete anos de viagens pela Europa, Allen abocanhou US$ 17 milhões em incentivos fiscais e produziu sete longas – voltou à sua Nova York apenas para filmar a comédia Tudo Pode Dar Certo, lançada em 2010, digamos que um período sabático em meio à temporada europeia. É um dos poucos capazes de manter tal ritmo de produção, com liberdade total para conceber suas ideias.
Em contrapartida, a capital italiana e os outros destinos que lhe serviram de set ganharam mais que o importuno movimento causado pelas gravações – durante as filmagens de Vicky Cristina Barcelona, não era raro ver a população enfurecida com as regalias concedidas ao diretor. Com ruas, monumentos, paisagens e sotaques exibidos nas telonas do mundo todo, saíram no lucro com uma incalculável visibilidade turística. Roteiros inteiros enquadrados e selados com a assinatura do gênio nova-iorquino. Que viajante não quer testá-los in loco?
Seguindo passos. Basta conferir na internet o número de referências de buscas pela ‘escadaria de Meia-noite em Paris’. Depois que Gil (Owen Wilson), protagonista da trama de Allen, pegou carona com Scott e Zelda Fitzgerald diante dos degraus da Igreja de Saint Etienne, no 5.º arrondissement, o lugar se tornou parada obrigatória de quem está de passagem pela Cidade Luz – sobretudo à meia-noite, quando os mais crentes vão tentar a sorte de encontrar o tal carro que os levará para a Paris dos anos 1920.
Um crescente interesse por Oviedo e Avilés, cidades das Astúrias, na Espanha, também pode ser percebido depois que Vicky Cristina Barcelona alcançou os cinemas. Viajantes não resistiram às panorâmicas exibidas pelo longa e trataram de incluir os vilarejos em seus roteiros pelo país.
Com Roma, não será diferente. O empurrãozinho de Allen, a favor de seus clichês ou de novas regiões da cidade, virá a calhar em época de crise europeia. E a corrida para próximo candidato à destino cenográfico do diretor já começou. Este ano, ele gravará em São Francisco e Nova York – e, ao que parece, Berlim, Rio de Janeiro e Buenos Aires estão no páreo para ser a sede do roteiro seguinte. Falta saber quem vai abrir a carteira e ganhar o coração do disputado cineasta.
‘Match Point’, o princípio de tudo
Match Point não só iniciou a experiência europeia de Woody Allen como usou bem a vertente aristocrática e sofisticada da cidade como personagem de um jogo de poder e sedução. A história da relação explosiva entre a aspirante a atriz Nola Rice (Scarlett Johansson) e o professor de tênis Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) começa quando ele passa a dar aulas do esporte ao namorado dela, Tom Hewett (Matthew Goode).
O diretor não fugiu de seu estilo ao filmar em lugares que podem ser visitados na vida real. O elegante Queens Club (queensclub.co.uk) é o ponto de partida para que Chris conheça a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), com quem se casa de olho na fortuna da família. As quadras são só para sócios, mas você pode assistir a um dos torneios.
A relação de Chris e Nola se estreita durante uma ópera na Royal Opera House (www.roh.org.uk). Se você não pertence à aristocracia como os personagens, pode tentar comprar tíquetes quatro horas antes do espetáculo pela metade do preço.
Outra passagem curiosa é o jantar do quarteto amoroso na Brasserie Max, restaurante localizado no hobby do luxuoso Covent Garden Hotel (firmdalehotels.com). E repare bem na cena em que Chris joga provas que o incriminam no Rio Tâmisa, no final da Hopton Street, debaixo da Blackfriars Bridge: você verá um grafite do famoso Banksy. / F.M.
Elegantes cafés na capital do chá
ANA , GASSTON – O Estado de S.Paulo
No século 17, antes do chá virar mania nacional na Inglaterra, o café era a bebida mais popular. Nas coffee houses espalhadas pelo centro de Londres, comerciantes e banqueiros se reuniam para tratar de negócios. A primeira da cidade, Pasqua Rosee’s, surgiu em 1652, mas foi destruída no Grande Incêndio e substituída pela Jamaica Coffee House que, hoje, é um bar chamado Jamaica Wine House, em Cornhill, na London City.
Atualmente, café está de novo na moda, para a felicidade dos brasileiros que não passam um dia sem. Nos últimos anos, fantásticas lojas independentes surgiram vendendo o próprio café fabricado com grãos importados de vários países, inclusive do Brasil.
Uma de minhas lojas favoritas é a Monmouth Coffee (monmouthcoffee.co.uk), com três endereços: Covent Garden, Bermondsey e London Bridge. A última, ao lado do Borough Market, é a mais concorrida: quando o mercado está aberto, a fila dobra a esquina. Para comprar um pacote de café, basta pedir instruções para os atendentes no balcão. Ainda no mercado, encontra-se o carrinho do Flat Cap, cujo dono brasileiro fez tanto sucesso que abriu duas lojas, uma delas a elegante Notes Music & Coffee (notesmusiccoffee.com), perto da Trafalgar Square.
Já no Broadway Market, o café do vietnamita Ca Phe VN (caphevn.co.uk) é um dos mais populares. Além de café com leite condensado, quente ou gelado, em sua loja, em Clerkenwell Road, há o caríssimo Weasel coffee, feito com grãos digeridos por doninhas.
Na mesma rua, o moderno Workshop Coffee (workshopcoffee.com) tem um bar no centro e, no fundo, uma máquina onde o café é torrado. Além de café, servem outras bebidas e pratos durante o dia e a noite.
Na movimentada Berwick Street, em Soho, está o Flat White (flatwhitecafe.com), cujo nome foi derivado da bebida trazida para o país pelos donos australianos e que agora faz parte do menu de vários cafés da cidade. Trata-se de um latte mais cremoso com uma dose extra de café.
Perto dali, o pub The Old Coffee Shop, pequeno e escuro, já vendeu muito café e, hoje, serve cervejas independentes fabricadas em Londres, a bebida que nunca saiu da moda.
*É jornalista, paulistana e vive em Londres há 10 anos
Vicky Cristina Barcelona
Woody Allen tomou o cuidado de incluir o nome dos três personagens principais no título: Vicky Cristina Barcelona. Assim como no aclamado Meia-noite em Paris, no filme de 2008 – que rendeu um Oscar de melhor atriz coadjuvante a Penelope Cruz pelo papel da intempestiva Maria Elena – a cidade representa mais que uma mera locação.
É como se o espectador acompanhasse Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlet Johansson) em sua viagem de férias pela capital catalã. Ele desembarca com elas na primeira cena, no aeroporto, e as acompanha pelo city tour que é a película.
Primeira parada, Sagrada Família (sagradafamilia.cat), onde os guindastes fazem tão parte do cenário quanto as torres da catedral projetada por Gaudí (1852-1926)- em construção há mais de 130 anos. Gaudí, aliás, é a razão pela qual Vicky, que está de casamento marcado, escolhe Barcelona. Apaixonada pelo trabalho do artista, ela quer reunir material para seu mestrado em identidade catalã. Sem compromisso amoroso ou emprego fixo, Cristina acompanha a amiga.
O city tour segue por La Pedrera (lapedrera.com), outra maravilha de Gaudí erguida de 1906 a 1912. Depois, vão à galeria de arte onde veem pela primeira vez o sedutor pintor Juan Antonio (Javier Bardem). O local em questão é a Fundação Antoni Tàpies (fundaciotapies.org), cujo objetivo é promover a conexão das artes.
A essa altura, a fome já deve bater – que tal jantar no 4Gats (4gats.com), como fazia Picasso? Vicky e Cristina foram para lá e encontraram outro pintor: Juan Antonio, claro. Que propõe uma viagem a Oviedo, a cerca de 900 quilômetros dali. Mas que em um jatinho particular vira uma escapada de fim de semana.
Apesar de deixar claro suas intenções (comer, beber e fazer sexo), Juan Antonio diz querer ir a Oviedo para ver uma escultura que gosta muito – a imagem de Cristo crucificado da igreja San Julián de los Prados, patrimônio da Unesco erguido entre os anos 812 e 842. De lá, saem para comer doces na Camilo de Blas (camilodeblas.com), em funcionamento desde 1914.
De volta a Barcelona, Vicky se concentra em seu mestrado para esquecer a tórrida noite com Juan Antonio. Cristina, que havia ficado doente em Oviedo, sai para fotografar o Bairro Gótico. Afinal, não faltam pontos atraentes por ali.
Quando ela e o pintor engatam um romance, Vicky encontra Juan Antonio no Parque Guell (parkguell.es), outra obra de Gaudí. E é aí que ocorre o improvável: os dois conversam demoradamente em frente à icônica salamandra. Normalmente, a fila para tirar foto ali desafia a paciência.
Depois que o noivo de Vicky chega a Barcelona, eles combinam um passeio com Cristina e Juan Antonio no Parque de Tibidabo (www.tibidabo.cat), de onde se vê toda a capital catalã. O verão favorece as cenas externas – e Woody Allen não economiza nas panorâmicas. Como quando Judy e Vicky conversam na saída do Museu Nacional d’Art da Catalunha (mnac.cat). No verão, das 21 às 23 horas, a fonte abaixo do museu ganha música e iluminação especial.
O filme está quase acabando. Ainda há tempo para ver as Ramblas, cafés com mesa na calçada… A atmosfera de Barcelona está toda ali. E, quando sobem os créditos, é como se você também desse adeus à cidade. /ADRIANA MOREIRA
Meia-noite em Paris
O Rio Sena e seus indefectíveis bateaux mouches. Champs-Elysées e Arco do Triunfo. Moulin Rouge, Notre Dame, cafés e bistrôs, e, claro, a Torre Eiffel. Meia-noite em Paris (2011) começa com um passeio pelos cartões-postais da cidade, com chuva e sol, de noite e de dia, sem apresentar nenhum personagem. Ou melhor, apresentando, sim, seu principal personagem: Paris.
A capital francesa, afinal, é o objeto de desejo de Gil (Owen Wilson), escritor americano que sonha em conhecer a Paris nos anos 20. Para ele, andar pela metrópole é inspirador – especialmente na chuva, quando, afirma, a cidade fica ainda mais linda. “Eu me vejo caminhando pela margem esquerda do Sena com uma baguete debaixo do braço, indo para o Café de Flore (cafedeflore.fr) para escrever meu livro”, diz.
E é numa dessas caminhadas que, sem querer, vai parar em frente aos degraus da Igreja de Saint Etienne. Quando os sinos tocam meia-noite, um carro antigo o leva até a Paris dos anos 20, onde conhece Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Picasso e outros gênios da efervescente cultura da época.
A trama se desenrola enquanto são apresentados pontos turísticos. Gil e a noiva, Inez (Rachel McAdams) são convidados por um amigo (o pedante Paul, interpretado por Michael Sheen) a conhecer Versalhes. Paul discorre sobre a história do palácio, encantando Inez e entediando Gil. Em outra ocasião, o grupo se reúne em frente à estátua O Pensador, no Musée Rodin (musee-rodin.fr). Alguns pontos são facilmente reconhecíveis, mesmo por quem nunca pisou em Paris. Outros não são nada óbvios, como o restaurante Relais&Châteaux Le Grand Véfour (legrand-vefour.com), onde Gil e Inez jantam com os pais dela – e encontram Paul.
Quando o grupo vai a uma degustação de vinhos, está no alto do refinado Hotel Le Meurice (lemeurice.com), em frente aos Jardins das Tulherias – um dos lugares favoritos de Woody Allen na cidade, segundo ele contou ao Estado no lançamento do filme. O diretor, assim como Gil, adora caminhar pelas ruas da capital francesa. “A Champs-Elysées é ótima, mas está sempre cheia de turistas. Gosto dos parques.”
Gil e Inez estão hospedados no Le Bristol (lebristolparis.com), um cinco-estrelas aclamado. Allen, contudo, tem como hotel favorito em suas visitas à cidade o Ritz (hoje, fechado para restauração até 2014). E é bem ali, pela Place Vendôme, que Inez e sua mãe caminham, admirando na vitrine um anel de diamantes. A região, afinal, concentra as lojas mais sofisticadas, como Tiffany’s e Dior.
Gil, contudo, prefere o mercado de pulgas de Saint-Ouen, onde compra um disco de Cole Porter (1891-1964) e, mais tarde, brincos para Adriana, uma das musas de Picasso por quem o escritor americano se encanta.
Mesmo pontos retratados no passado durante o filme podem ser visitados no presente. Como o Polidor (polidor.com), onde Gil encontra Hemingway (Corey Stoll) pela primeira vez . De fato, o restaurante, aberto em 1845, era frequentado pelo escritor, assim como por Victor Hugo e outras personalidades. No filme, Gil tenta retornar ao local, que deu lugar a uma lavanderia. Mas não se preocupe: é só licença poética. O Polidor segue no mesmo lugar.
Quando Gil e Adriana voltam a 1890, jantam no Maxim’s (maxims-de-paris.com). Depois, assistem a um espetáculo de cancã no Moulin Rouge (moulinrouge.fr). Tudo funcionando até hoje.
O filme, enfim, é um passeio interminável por Paris. E você nem precisa voltar no tempo para conhecer os lugares onde Gil esteve. Pena mesmo é não poder encontrar os gênios do passado… /ADRIANA MOREIRA
Para Roma com amor
Ao som dos versos de Volare, de Domenico Modugno, cobrindo cenas da Piazza del Popolo, Woody Allen dá início ao filme Para Roma com Amor, sua homenagem à cidade e à tradição cinematográfica da Itália. Para retratar o modo de vida romano, se utilizou de quatro histórias desconexas. “É um lugar muito vasto para caber em um único enredo. Uma cidade artística, que acontece a céu aberto”, explicou no lançamento do filme.
Marcando o retorno do diretor à frente das câmeras – sua última atuação foi em Scoop, há seis anos – Woody vive Jerry, um aposentado produtor musical americano que foi a Roma conhecer seu genro. Turistando pela cidade, sua filha Hayley (Alison Pill) cai de amores pelo mais provável galã italiano, que lhe acompanha em ícones clássicos como Piazza di Spagna e Fontana di Trevi, deslumbrante em cena, sem o aglomerado que a cerca diariamente. Coisa de cinema.
Recém-chegada do interior, a italianinha Milly (Alessandra Mastronardi) é peça-chave da segunda trama. Ela se perde pela capital e acaba percorrendo, em uma ensolarada e sempre alegre Roma, outros pontos que compõem os tradicionais passeios turísticos (turismoroma.it). Caminha pela praça Campo dei Fiori, famosa pelo mercado gastronômico, com barracas de ingredientes típicos (funciona todos os dias, exceto aos domingos). Passa pelo Largo di Argentina, onde estão as ruínas do Teatro Pompeu. E ainda se depara com a pequena Piazza Mattei, decorada com uma fonte construída em 1584.
Áreas menos conhecidas entram em cena com o personagem mais colorido do filme, o italiano Leopoldo (Roberto Benigni), protagonista da terceira história. Tendo de lidar com uma fama repentina, foge dos paparazzi e apresenta ao espectador ruelas, casas baixas e a atmosfera popular de Garbatella e Rione Monte. Bairros que, na vida real, exalam história e convidam a circular sem roteiro, reparando em suas fachadas medievais. O primeiro vale ser visitado ao entardecer para conferir o jogo de luzes e sombras no arco do Palazzo Borgia, coberto por trepadeiras.
Os americanos Monica (Ellen Page) e Jack (Jesse Eisenberg) compõem o quarto núcleo ao lado de John (Alec Baldwin). Do jovem casal, vale ressaltar uma cena de dar inveja aos convictos viajantes: eles exploram as nostálgicas ruínas del Palatino, sob chuva e à noite, quando o local já está fechado para visitas.
Já o arquiteto John está apenas visitando a cidade e relembrando a época em que viveu no simpático bairro de Trastevere. Apesar de Woody Allen ter deixado de fora importantes monumentos dali – como a Basílica Santa Maria, com seus impressionantes mosaicos dourados, e a Colina de Gianicolo, que oferece uma panorâmica espetacular da cidade -, as estreitas ruas de paralelepípedos, com casas medievais caracterizadas pelo amarelo descascado das paredes são fundamentais para compor o retrato de Roma.
De antigo reduto de trabalhadores e artesãos, onde o turismo não tinha vez, se converteu na atual região da moda, destino de quem busca diversão à noite, em descolados bares e casas noturnas que circundam a praça.
Com este mosaico de personagens que vivem cenas de romance, aventura e humor em cenários ora familiar, ora surpreendente, Woody Allen mostra toda sua maestria. E entrega uma tentativa bem-sucedida de representar no cinema as variadas situações que compõem, cotidianamente, a sempre atraente Cidade Eterna. / BRUNA TIUSSU
Entre uma cena e outra, a hora de ‘mangiare’
Woody Allen fez sua parte escolhendo cenários que fogem do centro tradicional para compor o seu Para Roma com Amor. Cabe a nós ajudá-lo, portanto, com sugestões gastronômicas localizadas em tais bairros, essenciais para que seu roteiro de férias fique redondinho.
Endereços saborosos ocupam as ruelas históricas de Trastevere. Aberto em 1860, o Piperno (ristorantepiperno.com) oferece massas tipicamente italianas – invista nelas. Mas somente depois de provar as flores de abobrinha fritas, um dos destaques da casa. Se estiver por lá durante o verão, abuse da sorte e tente uma mesa no terraço.
Se quiser algo mais informal, tente o Caffe del Cinque, (Vicolo del Cinque 5), bar no cruzamento de cinco ruas. Vale em qualquer hora do dia: café da manhã, aperitivos à tarde e até um drinque à noite.
Para matar a sede em Garbatella, circule perto do histórico Teatro Palladium (romaeuropa.net/palladium), onde encontrará o Foschi, bar que é principal ponto de encontro na região. Se o caso for matar a fome, o italianíssimo Ristoro degli Angeli (ristorodegliangeli.it) está a poucos passos.
Ao visitar Rione Monte, vá com disposição para provar vinhos. Ali fica a concorrida adega Ai Tre Scalini (aitrescalini.org/bottiglieria), aberta desde 1895. Se não conseguir mesa, siga para o Charity Café (charitycafe.it) e prove um aperitivo ao som de uma banda de jazz. /B.T.
Elegia
ELEGY
TO HIS MISTRESS GOING TO BED.
John Donne, 1616
COME, madam, come, all rest my powers defy ;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven’s zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th’ eyes of busy fools may be stopp’d there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th’ hill’s shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love’s hallow’d temple, this soft bed.
In such white robes heaven’s angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring’st with thee
A heaven-like Mahomet’s paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite ;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann’d,
My mine of precious stones, my empery ;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee ;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta’s ball cast in men’s views ;
That, when a fool’s eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books’ gay coverings made
For laymen, are all women thus array’d.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify—
Must see reveal’d. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself ; cast all, yea, this white linen hence ;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first ; why then,
What needst thou have more covering than a man?
(John Donne)
_____________________________
ELEGIA: INDO PARA O LEITO
Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
(Tradução: Augusto de Campos)
TO HIS MISTRESS GOING TO BED.
John Donne, 1616
COME, madam, come, all rest my powers defy ;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven’s zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th’ eyes of busy fools may be stopp’d there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th’ hill’s shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love’s hallow’d temple, this soft bed.
In such white robes heaven’s angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring’st with thee
A heaven-like Mahomet’s paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite ;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann’d,
My mine of precious stones, my empery ;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee ;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta’s ball cast in men’s views ;
That, when a fool’s eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books’ gay coverings made
For laymen, are all women thus array’d.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify—
Must see reveal’d. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself ; cast all, yea, this white linen hence ;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first ; why then,
What needst thou have more covering than a man?
(John Donne)
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ELEGIA: INDO PARA O LEITO
Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
(Tradução: Augusto de Campos)
É preciso estar sempre embriagado
Il faut être toujours ivre
Charles Baudelaire
“Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous. Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”
É preciso estar sempre embriagado
Charles Baudelaire
“É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: ‘É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira’.”
Humphrey Boggart traduzindo Baudelaire
“A humanidade está sempre três doses atrasada.”
(Humphrey Boggart)
Alors, “Il faut être toujours ivre”… (Baudelaire)
O corpo e a alma precisam estar bêbados para enfrentar o mundo, seja do que for: virtude, alguma droga legalizada ou não, whisky ou poesia (ou literatura erótica, para os mais arrojados e sexuais ou acelerados). Caso contrário, pedimos água, ops, vinho, ops, whisky.
Embriaguêmo-nos. Amém.
Charles Baudelaire
“Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous. Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”
É preciso estar sempre embriagado
Charles Baudelaire
“É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: ‘É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira’.”
Humphrey Boggart traduzindo Baudelaire
“A humanidade está sempre três doses atrasada.”
(Humphrey Boggart)
Alors, “Il faut être toujours ivre”… (Baudelaire)
O corpo e a alma precisam estar bêbados para enfrentar o mundo, seja do que for: virtude, alguma droga legalizada ou não, whisky ou poesia (ou literatura erótica, para os mais arrojados e sexuais ou acelerados). Caso contrário, pedimos água, ops, vinho, ops, whisky.
Embriaguêmo-nos. Amém.
o pornógrafo alusivo
cli-
vagens voraginosas
o olho-verga do fotógrafo
ver de vergasta contra vergonhas
involucradas consigo mesmas
(maestrinas masturbatórias)
mais saradas do que saradinhas (como
consta na carta de caminha)
pornografemas ronronar e gozo
e logo o malogro do gozo
senos tronchados (octavio
paz dixit)
contra-plongè
o ômega da boca
num delinear de felatio
racimos de velos
arabesco em velossístole de
medusa ruiva mas
o inopinado pente que revem
é mais embaixo
dor cheia de dedos ardil
priápicoapetitoso
tamborilar linguodental
carnação em pasta polpa de nata
(o pescoço de alabastro de leda
enquanto zeus doloso
pescoço grosso de cisne-signo a empala)
bestialógico de musas pálidas
capitosas
vagens voraginosas
o olho-verga do fotógrafo
ver de vergasta contra vergonhas
involucradas consigo mesmas
(maestrinas masturbatórias)
mais saradas do que saradinhas (como
consta na carta de caminha)
pornografemas ronronar e gozo
e logo o malogro do gozo
senos tronchados (octavio
paz dixit)
contra-plongè
o ômega da boca
num delinear de felatio
racimos de velos
arabesco em velossístole de
medusa ruiva mas
o inopinado pente que revem
é mais embaixo
dor cheia de dedos ardil
priápicoapetitoso
tamborilar linguodental
carnação em pasta polpa de nata
(o pescoço de alabastro de leda
enquanto zeus doloso
pescoço grosso de cisne-signo a empala)
bestialógico de musas pálidas
capitosas
poeiras sobre a estante.
Todas as noites ele voltava par a aquele mesmo quarto de pensão para reencontrar os móveis velhos e os livros gastos,os jornais carcomidos por notícias de novas notícias velhas as quais se repetiam nos telejornais -no estuário da ilusão.
Deitava-se na prisão de seus sonhos sem luzes,sua cama de colchão mofado e travesseiro babado de salivas de um idioma de sonhos em pedaços ,exalando o enfado de seus fados oníricos sem poesias só a ilusão do pó de seus dias.
Levantava-se sempre com o coração soterrado por correntes de aço ,as quais não mais sentia acostumara-se a elas ,ao peso do barulho ao caminhar ,ao caminhar molhava a testa enrugada com a água salgada de sua existência ;não clamava pela fragorosa flagrância da derrota dos exércitos de pano diante do fogo de ideais de incêndio ,os quais na batalha dos dias de juventude duraram tantos minutos de poeira soprados com o mau-hálito da escória da memória ,que escorria pegajosa no olho da janela ,tão opaca que a menina morena de seus olhos ,cega não vira o sol que lhe sorria e beijava-lhe com uma piscadela para vê-la uma vez mais dançar.
Wilson Roberto Nogueira
Deitava-se na prisão de seus sonhos sem luzes,sua cama de colchão mofado e travesseiro babado de salivas de um idioma de sonhos em pedaços ,exalando o enfado de seus fados oníricos sem poesias só a ilusão do pó de seus dias.
Levantava-se sempre com o coração soterrado por correntes de aço ,as quais não mais sentia acostumara-se a elas ,ao peso do barulho ao caminhar ,ao caminhar molhava a testa enrugada com a água salgada de sua existência ;não clamava pela fragorosa flagrância da derrota dos exércitos de pano diante do fogo de ideais de incêndio ,os quais na batalha dos dias de juventude duraram tantos minutos de poeira soprados com o mau-hálito da escória da memória ,que escorria pegajosa no olho da janela ,tão opaca que a menina morena de seus olhos ,cega não vira o sol que lhe sorria e beijava-lhe com uma piscadela para vê-la uma vez mais dançar.
Wilson Roberto Nogueira
domingo, 1 de julho de 2012
Mulher e Gata
Paul Verlaine
Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.
Ela escondia – a celerada ! -
Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.
Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia…
E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam
Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.
Ela escondia – a celerada ! -
Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.
Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia…
E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam
As conchas
Paul Verlaine
Cada concha, no interior
dessa gruta onde a gente se ama,
tem o seu especial sabor.
Uma, a púrpura tem da chama
roubada ao nosso coração,
quando o desejo nos inflama.
Finge esta a tua lassidão
se me vês, pálida e irritada,
a olhar-te cheio de intenção.
Nesta, a tua orelha é imitada
com graça; e aquela copiou
tua nuca rósea e torneada.
Uma, porém, me perturbou.
(Tradução de Onestaldo de Pennafort Fragonard)
Cada concha, no interior
dessa gruta onde a gente se ama,
tem o seu especial sabor.
Uma, a púrpura tem da chama
roubada ao nosso coração,
quando o desejo nos inflama.
Finge esta a tua lassidão
se me vês, pálida e irritada,
a olhar-te cheio de intenção.
Nesta, a tua orelha é imitada
com graça; e aquela copiou
tua nuca rósea e torneada.
Uma, porém, me perturbou.
(Tradução de Onestaldo de Pennafort Fragonard)
LE SPLEEN DE PARIS
Une chambre qui ressemble à une rêverie, une chambre véritablement spirituelle, où l’atmosphère stagnante est légèrement teintée de rose et de bleu.
L’âme y prend un bain de paresse, aromatisé par le regret et le désir. – C’est quelque chose de crépusculaire, de bleuâtre et de rosâtre; un rêve de volupté pendant une éclipse.
Les meubles ont des formes allongées, prostrées, alanguies. Les meubles ont l’air de rêver; on les dirait doués d’une vie somnambulique, comme le végétal et le minéral. Les étoffes parlent une langue muette, comme les fleurs, comme les ciels, comme les soleils couchants.
Sur les murs nulle abomination artistique. Relativement au rêve pur, à l’impression non analysée, l’art défini, l’art positif est un blasphème. Ici, tout a la suffisante clarté et la délicieuse obscurité de l’harmonie.
Une senteur infinitésimale du choix le plus exquis, à laquelle se mêle une très légère humidité, nage dans cette atmosphère, où l’esprit sommeillant est bercé par des sensations de serre chaude.
La mousseline pleut abondamment devant les fenêtres et devant le lit; elle s’épanche en cascades neigeuses. Sur ce lit est couchée l’Idole, la souveraine des rêves. Mais comment est-elle ici? Qui l’a amenée? quel pouvoir magique l’a installée sur ce trône de rêverie et de volupté? Qu’importe? la voilà! je la reconnais.
Voilà bien ces yeux dont la flamme traverse le crépuscule; ces subtiles et terribles mirettes, que je reconnais à leur effrayante malice! Elles attirent, elles subjuguent, elles dévorent le regard de l’imprudent qui les contemple. Je les ai souvent étudiées, ces étoiles noires qui commandent la curiosité et l’admiration.
A quel démon bienveillant dois-je d’être ainsi entouré de mystère, de silence, de paix et de parfums? O béatitude! ce que nous nommons généralement la vie, même dans son expansion la plus heureuse, n’a rien de commun avec cette vie suprême dont j’ai maintenant connaissance et que je savoure minute par minute, seconde par seconde!
Non! il n’est plus de minutes, il n’est plus de secondes! Le temps a disparu; c’est l’Eternité qui règne, une éternité de délices!
Mais un coup terrible, lourd, a retenti à la porte, et, comme dans les rêves infernaux, il m’a semblé que je recevais un coup de pioche dans l’estomac.
Et puis un Spectre est entré. C’est un huissier qui vient me torturer au nom de la loi; une infâme concubine qui vient crier misère et ajouter les trivialités de sa vie aux douleurs de la mienne; ou bien le saute-ruisseau d’un directeur de journal qui réclame la suite du manuscrit.
La chambre paradisiaque, l’idole, la souveraine des rêves, la Sylphide, comme disait le grand René, toute cette magie a disparu au coup brutal frappé par le Spectre.
Horreur! je me souviens! je me souviens! Oui! ce taudis, ce séjour de l’éternel ennui, est bien le mien. Voici les meubles sots, poudreux, écornés; la cheminée sans flamme et sans braise, souillée de crachats; les tristes fenêtres où la pluie a tracé des sillons dans la poussière; les manuscrits, raturés ou incomplets; l’almanach où le crayon a marqué les dates sinistres!
Et ce parfum d’un autre monde, dont je m’enivrais avec une sensibilité perfectionnée, hélas! il est remplacé par une fétide odeur de tabac mêlée à je ne sais quelle nauséabonde moisissure. On respire ici maintenant le ranci de la désolation.
Dans ce monde étroit, mais si plein de dégoût, un seul objet connu me sourit: la fiole de laudanum; une vieille et terrible amie; comme toutes les amies, hélas! féconde en caresses et en traîtrises.
Oh! oui! Le Temps a reparu; Le Temps règne en souverain maintenant; et avec le hideux vieillard est revenu tout son démoniaque cortège de Souvenirs, de Regrets, de Spasmes, de Peurs, d’Angoisses, de Cauchemars, de Colères et de Névroses.
Je vous assure que les secondes maintenant sont fortement et solennellement accentuées, et chacune, en jaillissant de la pendule, dit: – “Je suis la Vie, l’insupportable, l’implacable Vie!”
Il n’y a qu’une Seconde dans la vie humaine qui ait mission d’annoncer une bonne nouvelle, la bonne nouvelle qui cause à chacun une inexplicable peur.
Oui! le Temps règne; il a repris sa brutale dictature. Et il me pousse, comme si j’étais un boeuf, avec son double aiguillon. – “Et hue donc! bourrique! Sue donc, esclave! Vis donc, damné!”
Charles Baudelaire
Une chambre qui ressemble à une rêverie, une chambre véritablement spirituelle, où l’atmosphère stagnante est légèrement teintée de rose et de bleu.
L’âme y prend un bain de paresse, aromatisé par le regret et le désir. – C’est quelque chose de crépusculaire, de bleuâtre et de rosâtre; un rêve de volupté pendant une éclipse.
Les meubles ont des formes allongées, prostrées, alanguies. Les meubles ont l’air de rêver; on les dirait doués d’une vie somnambulique, comme le végétal et le minéral. Les étoffes parlent une langue muette, comme les fleurs, comme les ciels, comme les soleils couchants.
Sur les murs nulle abomination artistique. Relativement au rêve pur, à l’impression non analysée, l’art défini, l’art positif est un blasphème. Ici, tout a la suffisante clarté et la délicieuse obscurité de l’harmonie.
Une senteur infinitésimale du choix le plus exquis, à laquelle se mêle une très légère humidité, nage dans cette atmosphère, où l’esprit sommeillant est bercé par des sensations de serre chaude.
La mousseline pleut abondamment devant les fenêtres et devant le lit; elle s’épanche en cascades neigeuses. Sur ce lit est couchée l’Idole, la souveraine des rêves. Mais comment est-elle ici? Qui l’a amenée? quel pouvoir magique l’a installée sur ce trône de rêverie et de volupté? Qu’importe? la voilà! je la reconnais.
Voilà bien ces yeux dont la flamme traverse le crépuscule; ces subtiles et terribles mirettes, que je reconnais à leur effrayante malice! Elles attirent, elles subjuguent, elles dévorent le regard de l’imprudent qui les contemple. Je les ai souvent étudiées, ces étoiles noires qui commandent la curiosité et l’admiration.
A quel démon bienveillant dois-je d’être ainsi entouré de mystère, de silence, de paix et de parfums? O béatitude! ce que nous nommons généralement la vie, même dans son expansion la plus heureuse, n’a rien de commun avec cette vie suprême dont j’ai maintenant connaissance et que je savoure minute par minute, seconde par seconde!
Non! il n’est plus de minutes, il n’est plus de secondes! Le temps a disparu; c’est l’Eternité qui règne, une éternité de délices!
Mais un coup terrible, lourd, a retenti à la porte, et, comme dans les rêves infernaux, il m’a semblé que je recevais un coup de pioche dans l’estomac.
Et puis un Spectre est entré. C’est un huissier qui vient me torturer au nom de la loi; une infâme concubine qui vient crier misère et ajouter les trivialités de sa vie aux douleurs de la mienne; ou bien le saute-ruisseau d’un directeur de journal qui réclame la suite du manuscrit.
La chambre paradisiaque, l’idole, la souveraine des rêves, la Sylphide, comme disait le grand René, toute cette magie a disparu au coup brutal frappé par le Spectre.
Horreur! je me souviens! je me souviens! Oui! ce taudis, ce séjour de l’éternel ennui, est bien le mien. Voici les meubles sots, poudreux, écornés; la cheminée sans flamme et sans braise, souillée de crachats; les tristes fenêtres où la pluie a tracé des sillons dans la poussière; les manuscrits, raturés ou incomplets; l’almanach où le crayon a marqué les dates sinistres!
Et ce parfum d’un autre monde, dont je m’enivrais avec une sensibilité perfectionnée, hélas! il est remplacé par une fétide odeur de tabac mêlée à je ne sais quelle nauséabonde moisissure. On respire ici maintenant le ranci de la désolation.
Dans ce monde étroit, mais si plein de dégoût, un seul objet connu me sourit: la fiole de laudanum; une vieille et terrible amie; comme toutes les amies, hélas! féconde en caresses et en traîtrises.
Oh! oui! Le Temps a reparu; Le Temps règne en souverain maintenant; et avec le hideux vieillard est revenu tout son démoniaque cortège de Souvenirs, de Regrets, de Spasmes, de Peurs, d’Angoisses, de Cauchemars, de Colères et de Névroses.
Je vous assure que les secondes maintenant sont fortement et solennellement accentuées, et chacune, en jaillissant de la pendule, dit: – “Je suis la Vie, l’insupportable, l’implacable Vie!”
Il n’y a qu’une Seconde dans la vie humaine qui ait mission d’annoncer une bonne nouvelle, la bonne nouvelle qui cause à chacun une inexplicable peur.
Oui! le Temps règne; il a repris sa brutale dictature. Et il me pousse, comme si j’étais un boeuf, avec son double aiguillon. – “Et hue donc! bourrique! Sue donc, esclave! Vis donc, damné!”
Charles Baudelaire
O quarto duplo
Um quarto que parece um devaneio, um quarto verdadeiramente espiritual onde a atmosfera estagnante é ligeiramente tingida de rosa e azul.
A alma toma um banho de preguiça, aromatizada pelos pesares e o desejo. É algo de crepuscular, de azulado e de rosado; um sonho de volúpia durante um eclipse.
Os móveis têm as formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis têm o ar de que sonham; diríamos dotados de uma vida sonambúlica como um vegetal ou um mineral. Os tecidos falam uma língua muda como as flores, como os céus, como os sóis poentes.
Nas paredes nenhuma abominação artística. Relativamente ao puro sonho, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia.
Um aroma infinitesimal da mais original escolha, ao qual se mistura uma levíssima umidade, flutua nessa atmosfera, onde o espírito sonolento é embalado por uma sensação de estufas aquecidas.
A musselina chora abundantemente diante das janelas e diante do leito; ela se derrama em cascatas de neve. Sobre esse leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como ela está aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico instalou-se nesse trono de devaneios e volúpia? Que importa! Ei-la! Eu a reconheço.
São esses olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; esses sutis e terríveis olhares que eu reconheço em sua assustadora malícia! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram o olhar do imprudente que os contempla. Já estudei muitas vezes essas estrelas negras que comandam a curiosidade e a admiração.
Por qual demônio benevolente devo eu ter sido envolvido assim de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! Isso que nós chamamos geralmente de vida, mesmo em sua expansão mais feliz, nada tem de comum com essa vida suprema que, agora, eu conheço e saboreio minuto a minuto, segundo a segundo.
Não! Não há mais minutos, não há mais segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias.
Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.
E depois um Espectro entrou. É um oficial de justiça que vem me torturar, em nome da lei; uma infame concubina que vem exibir sua miséria e juntar as trivialidades de sua vida às dores da minha; ou então um jovem secretário de diretor de jornal que vem reclamar a entrega de um manuscrito.
O quarto paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda aquela magia desapareceu com o golpe disparado pelo Espectro.
Horror! Eu me lembro! Eu me lembro! Sim! Este chiqueiro, este ambiente de eterno desgosto está bem dentro de mim. Vejam os móveis burros, empoeirados, capengas, a lareira sem chamas e sem brasas, suja de escarros, as tristes janelas onde a chuva traçou seus sulcos na poeira; os manuscritos rasurados ou incompletos; o almanaque onde o lápis marcou as datas sinistras!
E esse perfume de um outro mundo, com o qual eu me embriagava com uma sensibilidade aperfeiçoada, ei-lo substituído por fétido odor de tabaco misturado a um mofo nauseabundo. Respira-se aqui, agora, o ranço da desolação.
Nesse mundo estreito, mas tão repleto de desgostos, um único objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; uma velha e terrível amiga, como todas as outras. Oh! fecundas em carinho e traições.
Oh! Sim, o Tempo reapareceu, o Tempo reina soberano agora; e com o horroroso velho voltou todo o demoníaco cortejo de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.
Eu vos asseguro que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um saltando do pêndulo diz:
“Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida.”
Só há um Segundo na vida humana com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que causa em cada um de nós um medo inexplicável.
Sim! O Tempo reina, ele retomou sua brutal ditadura. Ele me empurra, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão. “Eia Vamos, então, burrico! Sua então, escravo! vive, então, condenado!
LE SPLEEN DE PARIS de Charles Baudelaire
A alma toma um banho de preguiça, aromatizada pelos pesares e o desejo. É algo de crepuscular, de azulado e de rosado; um sonho de volúpia durante um eclipse.
Os móveis têm as formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis têm o ar de que sonham; diríamos dotados de uma vida sonambúlica como um vegetal ou um mineral. Os tecidos falam uma língua muda como as flores, como os céus, como os sóis poentes.
Nas paredes nenhuma abominação artística. Relativamente ao puro sonho, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia.
Um aroma infinitesimal da mais original escolha, ao qual se mistura uma levíssima umidade, flutua nessa atmosfera, onde o espírito sonolento é embalado por uma sensação de estufas aquecidas.
A musselina chora abundantemente diante das janelas e diante do leito; ela se derrama em cascatas de neve. Sobre esse leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como ela está aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico instalou-se nesse trono de devaneios e volúpia? Que importa! Ei-la! Eu a reconheço.
São esses olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; esses sutis e terríveis olhares que eu reconheço em sua assustadora malícia! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram o olhar do imprudente que os contempla. Já estudei muitas vezes essas estrelas negras que comandam a curiosidade e a admiração.
Por qual demônio benevolente devo eu ter sido envolvido assim de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! Isso que nós chamamos geralmente de vida, mesmo em sua expansão mais feliz, nada tem de comum com essa vida suprema que, agora, eu conheço e saboreio minuto a minuto, segundo a segundo.
Não! Não há mais minutos, não há mais segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias.
Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.
E depois um Espectro entrou. É um oficial de justiça que vem me torturar, em nome da lei; uma infame concubina que vem exibir sua miséria e juntar as trivialidades de sua vida às dores da minha; ou então um jovem secretário de diretor de jornal que vem reclamar a entrega de um manuscrito.
O quarto paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda aquela magia desapareceu com o golpe disparado pelo Espectro.
Horror! Eu me lembro! Eu me lembro! Sim! Este chiqueiro, este ambiente de eterno desgosto está bem dentro de mim. Vejam os móveis burros, empoeirados, capengas, a lareira sem chamas e sem brasas, suja de escarros, as tristes janelas onde a chuva traçou seus sulcos na poeira; os manuscritos rasurados ou incompletos; o almanaque onde o lápis marcou as datas sinistras!
E esse perfume de um outro mundo, com o qual eu me embriagava com uma sensibilidade aperfeiçoada, ei-lo substituído por fétido odor de tabaco misturado a um mofo nauseabundo. Respira-se aqui, agora, o ranço da desolação.
Nesse mundo estreito, mas tão repleto de desgostos, um único objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; uma velha e terrível amiga, como todas as outras. Oh! fecundas em carinho e traições.
Oh! Sim, o Tempo reapareceu, o Tempo reina soberano agora; e com o horroroso velho voltou todo o demoníaco cortejo de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.
Eu vos asseguro que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um saltando do pêndulo diz:
“Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida.”
Só há um Segundo na vida humana com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que causa em cada um de nós um medo inexplicável.
Sim! O Tempo reina, ele retomou sua brutal ditadura. Ele me empurra, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão. “Eia Vamos, então, burrico! Sua então, escravo! vive, então, condenado!
LE SPLEEN DE PARIS de Charles Baudelaire
As tentações, ou Eros, Plutus e a Glória
Charles Baudelaire
Dois soberbos Satanases e uma Diabinha não menos extraordinária, na noite passada, subiram a misteriosa escada por onde o Inferno assalta a fraqueza do homem que dorme e comunica-se em segredo com ele. E eles vieram colocar-se gloriosamente diante de mim, em pé como sobre um estrado. Um esplendor sulfuroso emanava desses três personagens que se destacavam do fundo opaco da noite. Eles tinham um ar tão arrogante, tão pleno de dominação, que eu, primeiramente, os tomei, todos os três, por verdadeiros Deuses.
O rosto do primeiro diabo tinha uma sexualidade ambígua e possuía, também, na linha de seu corpo, a flacidez dos antigos Bacos. Seus belos olhos, lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, pareciam violetas carregadas ainda de pesados choros da tempestade e seus lábios entreabertos como defumadores quentes, de onde exalava o bom cheiro de uma perfumaria; e a cada vez que ele suspirava, insetos almiscarados se iluminavam, esvoaçando aos ardores de sua respiração.
Em volta de sua túnica de púrpura como se fosse um cinto, enlaçava sua cintura uma serpente cintilante que, com a cabeça levantada, virava para ele seus olhos de brasas, langorosamente. Nesse cinto vivo estavam pendurados, alternando com frascos cheios de licores sinistros, facas brilhantes e instrumentos de cirurgia. Em sua mão direita ele tinha um frasco cujo conteúdo era de um vermelho luminoso e que tinha como etiqueta essas palavras bizarras: Bebam, esse é o meu sangue, um perfeito cordial”; na esquerda, um violino que lhe servia, sem dúvida, para cantar seus prazeres, suas dores e para difundir o contágio de sua loucura nas noites de sabá.
Os tornozelos delicados arrastavam alguns anéis de uma corrente de ouro rompida e, quando o incômodo que resultava forçava-o a baixar o olhar para o chão, ele, vaidosamente, contemplava as unhas dos pés, brilhantes e polidas como pedras bem trabalhadas.
Fitou-me com seus olhos inconsolavelmente desolados, de onde escorria insidiosa embriaguez, e me disse com sua voz cantante: “Se quiseres, se quiseres, eu te farei o Senhor das almas e serás o mestre da matéria viva mais ainda que um escultor pode ser do barro, e conhecerás o prazer sempre renascente, incessantemente, e sair de ti mesmo para te esqueceres em outro e atrair outras almas ate se confundirem com a tua.”
Respondi-lhe: “Muito obrigado! Eu não teria o que fazer com esses seres de pacotilha que, sem dúvida, não valem mais do que o meu pobre eu. É verdade que tenho certa vergonha de minhas lembranças, mas não quero esquecer nada. E, mesmo quando eu não te conhecia, velho monstro, tua misteriosa cutelaria, teus equívocos frascos, as correntes que embaraçam teus pés são os símbolos que explicam claramente as inconveniências de tua amizade. Guarda teus presentes.”
O segundo diabo não tinha aquele ar ao mesmo tempo trágico e sorridente, nem aquelas belas maneiras insinuantes, nem a beleza delicada e perfumada. Era um vasto homem de cara grande sem olhos, cujo ventre pesado pendia sobre as coxas e cuja pele do corpo era dourada e ilustrada, como uma tatuagem, com uma multidão de pequenas figuras moventes representando as numerosas formas da miséria universal. Havia pequenos homens emagrecidos que se penduravam, voluntariamente, a um prego; e, ainda, pequenos gnomos, disformes, magros, cujos olhos suplicantes reclamavam esmolas mais bem ainda que suas mãos trêmulas; e depois as velhas mães levando seus abortos pendurados em seus mamilos extenuados. E muitos outros mais.
O grande Satanás batia com seu próprio punho no ventre imenso de onde provinha um tilintar de metais que terminava em um vago gemido feito de numerosas vozes humanas. E ele ria mostrando, sem qualquer pudor, seus dentes estragados em um riso imbecil, como o de certos homens em todos os países, depois de jantarem bem.
E ele me disse: “Posso te dar o que tudo consegue, o que vale tudo, o que tudo substitui!” E bateu em seu monstruoso ventre, cujo eco sonoro fez como que o comentário de sua fala grosseira.
Virei-me, com nojo, e respondi: “Não tenho necessidade, para minha alegria, da miséria de ninguém; e não quero uma riqueza entristecida como um papel pintado com todas as desgraças representadas em tua pele.”
Quanto à Diabinha, eu mentiria se não confessasse que, à primeira vista, encontrei nela um bizarro charme. Para definir esse charme não saberia compará-lo a nada melhor do que ao de certas mulheres muito bonitas que, apesar do tempo vivido, não envelhecem e cuja beleza guarda a magia penetrante das ruínas. Ela tinha um ar imperioso, desajeitado e seus olhos batidos continham uma força fascinante, O que me tocou mais foi o mistério de sua voz, na qual eu reencontrei a lembrança dos mais deliciosos contraiu e, também, um pouco da rouquidão das gargantas incessantemente lavadas pelas aguardentes.
“Queres conhecer meu poder?”, disse a falsa deusa com sua voz charmosa e paradoxal. “Escuta.”
E ela então botou na boca uma gigantesca trombeta, cheia de fitas, como uma flauta antiga, com manchetes de todos os jornais do universo e, através dessa trombeta, gritou meu nome, que se espalhou assim pelo espaço com o barulho de cem mil trovões e voltou para mim repercutido pelo eco do mais longínquo planeta.
“Diabo!”, disse eu, já meio subjugado. “Vejam que precioso.” Mas examinando mais atentamente a sedutora virago, pareceu-me que a reconhecia vagamente por tê-la visto bebendo e comemorando com uns pândegos de minhas relações, e o som rouco do cobre trazia a meus ouvidos não sei que lembranças de uma trombeta prostituída.
Eu respondi, também, com todo o meu desdém: “Vai-te. Eu não fui feito para casar com a amante de certas pessoas cujo nome não quero pronunciar.
Certamente, tinha o direito de ficar orgulhoso da minha corajosa abnegação. Mas, infelizmente, acordei e todas as forças me abandonaram. “Na verdade”, disse-me eu, “era preciso que eu estivesse pesadamente adormecido para mostrar tais escrúpulos. Ah! se eles pudessem voltar quando eu estivesse acordado, eu não seria tão delicado!”
E eu os invoquei em altos brados, suplicando-lhes que me perdoassem, oferecendo-lhes me desonrar tantas vezes quanto necessário para merecer seus favores; mas eu os havia ofendido gravemente, pois nunca mais voltaram.
“Pequenos Poemas em Prosa” (Le Spleen de Paris) de Charles Baudelaire
Dois soberbos Satanases e uma Diabinha não menos extraordinária, na noite passada, subiram a misteriosa escada por onde o Inferno assalta a fraqueza do homem que dorme e comunica-se em segredo com ele. E eles vieram colocar-se gloriosamente diante de mim, em pé como sobre um estrado. Um esplendor sulfuroso emanava desses três personagens que se destacavam do fundo opaco da noite. Eles tinham um ar tão arrogante, tão pleno de dominação, que eu, primeiramente, os tomei, todos os três, por verdadeiros Deuses.
O rosto do primeiro diabo tinha uma sexualidade ambígua e possuía, também, na linha de seu corpo, a flacidez dos antigos Bacos. Seus belos olhos, lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, pareciam violetas carregadas ainda de pesados choros da tempestade e seus lábios entreabertos como defumadores quentes, de onde exalava o bom cheiro de uma perfumaria; e a cada vez que ele suspirava, insetos almiscarados se iluminavam, esvoaçando aos ardores de sua respiração.
Em volta de sua túnica de púrpura como se fosse um cinto, enlaçava sua cintura uma serpente cintilante que, com a cabeça levantada, virava para ele seus olhos de brasas, langorosamente. Nesse cinto vivo estavam pendurados, alternando com frascos cheios de licores sinistros, facas brilhantes e instrumentos de cirurgia. Em sua mão direita ele tinha um frasco cujo conteúdo era de um vermelho luminoso e que tinha como etiqueta essas palavras bizarras: Bebam, esse é o meu sangue, um perfeito cordial”; na esquerda, um violino que lhe servia, sem dúvida, para cantar seus prazeres, suas dores e para difundir o contágio de sua loucura nas noites de sabá.
Os tornozelos delicados arrastavam alguns anéis de uma corrente de ouro rompida e, quando o incômodo que resultava forçava-o a baixar o olhar para o chão, ele, vaidosamente, contemplava as unhas dos pés, brilhantes e polidas como pedras bem trabalhadas.
Fitou-me com seus olhos inconsolavelmente desolados, de onde escorria insidiosa embriaguez, e me disse com sua voz cantante: “Se quiseres, se quiseres, eu te farei o Senhor das almas e serás o mestre da matéria viva mais ainda que um escultor pode ser do barro, e conhecerás o prazer sempre renascente, incessantemente, e sair de ti mesmo para te esqueceres em outro e atrair outras almas ate se confundirem com a tua.”
Respondi-lhe: “Muito obrigado! Eu não teria o que fazer com esses seres de pacotilha que, sem dúvida, não valem mais do que o meu pobre eu. É verdade que tenho certa vergonha de minhas lembranças, mas não quero esquecer nada. E, mesmo quando eu não te conhecia, velho monstro, tua misteriosa cutelaria, teus equívocos frascos, as correntes que embaraçam teus pés são os símbolos que explicam claramente as inconveniências de tua amizade. Guarda teus presentes.”
O segundo diabo não tinha aquele ar ao mesmo tempo trágico e sorridente, nem aquelas belas maneiras insinuantes, nem a beleza delicada e perfumada. Era um vasto homem de cara grande sem olhos, cujo ventre pesado pendia sobre as coxas e cuja pele do corpo era dourada e ilustrada, como uma tatuagem, com uma multidão de pequenas figuras moventes representando as numerosas formas da miséria universal. Havia pequenos homens emagrecidos que se penduravam, voluntariamente, a um prego; e, ainda, pequenos gnomos, disformes, magros, cujos olhos suplicantes reclamavam esmolas mais bem ainda que suas mãos trêmulas; e depois as velhas mães levando seus abortos pendurados em seus mamilos extenuados. E muitos outros mais.
O grande Satanás batia com seu próprio punho no ventre imenso de onde provinha um tilintar de metais que terminava em um vago gemido feito de numerosas vozes humanas. E ele ria mostrando, sem qualquer pudor, seus dentes estragados em um riso imbecil, como o de certos homens em todos os países, depois de jantarem bem.
E ele me disse: “Posso te dar o que tudo consegue, o que vale tudo, o que tudo substitui!” E bateu em seu monstruoso ventre, cujo eco sonoro fez como que o comentário de sua fala grosseira.
Virei-me, com nojo, e respondi: “Não tenho necessidade, para minha alegria, da miséria de ninguém; e não quero uma riqueza entristecida como um papel pintado com todas as desgraças representadas em tua pele.”
Quanto à Diabinha, eu mentiria se não confessasse que, à primeira vista, encontrei nela um bizarro charme. Para definir esse charme não saberia compará-lo a nada melhor do que ao de certas mulheres muito bonitas que, apesar do tempo vivido, não envelhecem e cuja beleza guarda a magia penetrante das ruínas. Ela tinha um ar imperioso, desajeitado e seus olhos batidos continham uma força fascinante, O que me tocou mais foi o mistério de sua voz, na qual eu reencontrei a lembrança dos mais deliciosos contraiu e, também, um pouco da rouquidão das gargantas incessantemente lavadas pelas aguardentes.
“Queres conhecer meu poder?”, disse a falsa deusa com sua voz charmosa e paradoxal. “Escuta.”
E ela então botou na boca uma gigantesca trombeta, cheia de fitas, como uma flauta antiga, com manchetes de todos os jornais do universo e, através dessa trombeta, gritou meu nome, que se espalhou assim pelo espaço com o barulho de cem mil trovões e voltou para mim repercutido pelo eco do mais longínquo planeta.
“Diabo!”, disse eu, já meio subjugado. “Vejam que precioso.” Mas examinando mais atentamente a sedutora virago, pareceu-me que a reconhecia vagamente por tê-la visto bebendo e comemorando com uns pândegos de minhas relações, e o som rouco do cobre trazia a meus ouvidos não sei que lembranças de uma trombeta prostituída.
Eu respondi, também, com todo o meu desdém: “Vai-te. Eu não fui feito para casar com a amante de certas pessoas cujo nome não quero pronunciar.
Certamente, tinha o direito de ficar orgulhoso da minha corajosa abnegação. Mas, infelizmente, acordei e todas as forças me abandonaram. “Na verdade”, disse-me eu, “era preciso que eu estivesse pesadamente adormecido para mostrar tais escrúpulos. Ah! se eles pudessem voltar quando eu estivesse acordado, eu não seria tão delicado!”
E eu os invoquei em altos brados, suplicando-lhes que me perdoassem, oferecendo-lhes me desonrar tantas vezes quanto necessário para merecer seus favores; mas eu os havia ofendido gravemente, pois nunca mais voltaram.
“Pequenos Poemas em Prosa” (Le Spleen de Paris) de Charles Baudelaire
In a silent way
para Miles Davis
Folhas soltas
idéias-folhas
poucas
nessa sala
a fumaça
vaza
embaça
a vidraça
dessa quase manhã
um silêncio
se instala
na casa vazia
na varanda
só a mais solta
idéia de vazio
(concha onde
pérola alguma
se esconde)
ao invés
dias e dias se passam
sem nenhuma
mais completa
idéia de vazio:
um sol pousa
desliza, rebrilha
em cada folha
Rodrigo Garcia Lopes
Folhas soltas
idéias-folhas
poucas
nessa sala
a fumaça
vaza
embaça
a vidraça
dessa quase manhã
um silêncio
se instala
na casa vazia
na varanda
só a mais solta
idéia de vazio
(concha onde
pérola alguma
se esconde)
ao invés
dias e dias se passam
sem nenhuma
mais completa
idéia de vazio:
um sol pousa
desliza, rebrilha
em cada folha
Rodrigo Garcia Lopes
terça-feira, 26 de junho de 2012
Lassidão
Lassitude
Paul Verlaine (1844-1896)
De la douceur, de la douceur, de la douceur!
Calme un peu ces transports fébriles, ma charmante.
Même au fort du déduit parfois, vois-tu, l’amante
Doit avoir l’abandon paisible de la sœur.
Sois langoureuse, fais ta caresse endormante,
Bien égaux tes soupirs et ton regard berceur.
Va, l’étreinte jalouse et le spasme obsesseur
Ne valent pas un long baiser, même qui mente!
Mais dans ton cher coeur d’or, me dis-tu, mon enfant,
La fauve passion va sonnant l’olifant!…
Laisse-la trompeter à son aise, la gueuse!
Mets ton front sur mon front et ta main dans ma main,
Et fais-moi des serments que tu rompras demain,
Et pleurons jusqu’au jour, ô petite fougueuse!
Lasitud
Paul Verlaine
Encantadora mía, ten dulzura, dulzura…
calma un poco, oh fogosa, tu fiebre pasional;
la amante, a veces, debe tener una hora pura
y amarnos con un suave cariño fraternal.
Sé lánguida, acaricia con tu mano mimosa;
yo prefiero al espasmo de la hora violenta
el suspiro y la ingenua mirada luminosa
y una boca que me sepa besar aunque me mienta.
Dices que se desborda tu loco corazón
y que grita en tu sangre la más loca pasión;
deja que clarinee la fiera voluptuosa.
En mi pecho reclina tu cabeza galana;
júrame dulces cosas que olvidarás mañana
Y hasta el alba lloremos, mi pequeña fogosa.
Paul Verlaine (1844-1896)
De la douceur, de la douceur, de la douceur!
Calme un peu ces transports fébriles, ma charmante.
Même au fort du déduit parfois, vois-tu, l’amante
Doit avoir l’abandon paisible de la sœur.
Sois langoureuse, fais ta caresse endormante,
Bien égaux tes soupirs et ton regard berceur.
Va, l’étreinte jalouse et le spasme obsesseur
Ne valent pas un long baiser, même qui mente!
Mais dans ton cher coeur d’or, me dis-tu, mon enfant,
La fauve passion va sonnant l’olifant!…
Laisse-la trompeter à son aise, la gueuse!
Mets ton front sur mon front et ta main dans ma main,
Et fais-moi des serments que tu rompras demain,
Et pleurons jusqu’au jour, ô petite fougueuse!
Lasitud
Paul Verlaine
Encantadora mía, ten dulzura, dulzura…
calma un poco, oh fogosa, tu fiebre pasional;
la amante, a veces, debe tener una hora pura
y amarnos con un suave cariño fraternal.
Sé lánguida, acaricia con tu mano mimosa;
yo prefiero al espasmo de la hora violenta
el suspiro y la ingenua mirada luminosa
y una boca que me sepa besar aunque me mienta.
Dices que se desborda tu loco corazón
y que grita en tu sangre la más loca pasión;
deja que clarinee la fiera voluptuosa.
En mi pecho reclina tu cabeza galana;
júrame dulces cosas que olvidarás mañana
Y hasta el alba lloremos, mi pequeña fogosa.
Serenata
Sérénade
Paul Verlaine
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Ouvre ton âme et ton oreille au son
De ma mandoline:
Pour toi j’ai fait, pour toi, cette chanson
Cruelle et câline.
Je chanterai tes yeux d’or et d’onyx
Purs de toutes ombres,
Puis le Léthé de ton sein, puis le Styx
De tes cheveux sombres.
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Puis je louerai beaucoup, comme il convient,
Cette chair bénie
Dont le parfum opulent me revient
Les nuits d’insomnie.
Et pour finir, je dirai le baiser
De ta lèvre rouge,
Et ta douceur à me martyriser,
- Mon Ange! – Ma Gouge!
Ouvre ton âme et ton oreille au son
De ma mandoline:
Pour toi j’ai fait, pour toi, cette chanson
Cruelle et câline.
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Serenata
Paul Verlaine
Como la voz de un muerto que cantara
desde el fondo de su fosa,
amante, escucha subir hasta tu retiro
mi voz agria y falsa.
Abre tu alma y tu oído al son
de mi mandolina:
para ti he hecho, para ti, esta canción
cruel y zalamera.
Cantaré tus ojos de oro y de onix
puros de toda sombra,
cantaré el Leteo de tu seno, luego el
de tus cabellos oscuros.
Como la voz de un muerto que cantara
desde el fondo de su fosa,
amante, escucha subir hasta tu retiro
mi voz agria y falsa.
Después loare mucho, como conviene,
A esta carne bendita
Cuyo perfume opulento evoco
Las noches de insomnio.
Y para acabar cantaré el beso
de tu labio rojo
y tu dulzura al martirizarme,
¡Mi ángel, mi gubia!
Abre tu alma y tu oído al son
de mi mandolina:
para ti he hecho, para ti, esta canción
cruel y zalamera.
Paul Verlaine
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Ouvre ton âme et ton oreille au son
De ma mandoline:
Pour toi j’ai fait, pour toi, cette chanson
Cruelle et câline.
Je chanterai tes yeux d’or et d’onyx
Purs de toutes ombres,
Puis le Léthé de ton sein, puis le Styx
De tes cheveux sombres.
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Puis je louerai beaucoup, comme il convient,
Cette chair bénie
Dont le parfum opulent me revient
Les nuits d’insomnie.
Et pour finir, je dirai le baiser
De ta lèvre rouge,
Et ta douceur à me martyriser,
- Mon Ange! – Ma Gouge!
Ouvre ton âme et ton oreille au son
De ma mandoline:
Pour toi j’ai fait, pour toi, cette chanson
Cruelle et câline.
Comme la voix d’un mort qui chanterait
Du fond de sa fosse,
Maîtresse, entends monter vers ton retrait
Ma voix aigre et fausse.
Serenata
Paul Verlaine
Como la voz de un muerto que cantara
desde el fondo de su fosa,
amante, escucha subir hasta tu retiro
mi voz agria y falsa.
Abre tu alma y tu oído al son
de mi mandolina:
para ti he hecho, para ti, esta canción
cruel y zalamera.
Cantaré tus ojos de oro y de onix
puros de toda sombra,
cantaré el Leteo de tu seno, luego el
de tus cabellos oscuros.
Como la voz de un muerto que cantara
desde el fondo de su fosa,
amante, escucha subir hasta tu retiro
mi voz agria y falsa.
Después loare mucho, como conviene,
A esta carne bendita
Cuyo perfume opulento evoco
Las noches de insomnio.
Y para acabar cantaré el beso
de tu labio rojo
y tu dulzura al martirizarme,
¡Mi ángel, mi gubia!
Abre tu alma y tu oído al son
de mi mandolina:
para ti he hecho, para ti, esta canción
cruel y zalamera.
sábado, 23 de junho de 2012
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