domingo, 27 de fevereiro de 2011

Madeleine, sinapses e neurônios

Já o tínhamos em quadrinhos, aqui editados pela Zahar, e na prateleira de autoajuda (Como Proust Pode Mudar Sua Vida, de Alain de Botton, traduzido pela Rocco); agora o temos até entre os livros de ciência: Proust Foi um Neurocientista, que a Best Seller acaba de lançar, com um subtítulo (Como a Arte Antecipa a Ciência) inexistente no original.



Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.



Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.



Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.



“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.



“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.



Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.



Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.



Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.

SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br
Fonte : O Estado de S.Paulo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Orlando Furioso

"Tão puro brilha o aço em cada torre
Que de nódoa ou ferrugem sempre é isento.
Noite e dia o ladrão as plagas corre
E depois acha ali forte aposento.
Debalde ao que ele preia alguém socorre
Com brados de blasfêmia ou de lamento.
Minha amada, meu próprio coração
Desespero livrar de tal prisão. "

Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto,
Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
Ateliê Editorial.

Lazy Eye

TERRITÓRIOS DA MÚSICA II

Canta-me um dos Lieder de Schubert,

um dos mais tristes,

Tränenregen, ou Der Lindenbaum,

pleno de florestas desamparadas,

inchado de rios transparentes,

transbordando de amores impossíveis.



Toca ao piano suavemente

e canta-me o mais triste Lied.

Abre espaço para o pobre Franz

junto ao fogo.



E se te acontecer cantares a palavra Herz,

certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,

pensa que somos Românticos

circa mil oitocentos e vinte e sete

e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.

Porque ninguém vai compreender nunca

a nossa coragem, a nossa beleza.

RIKARDO ARREGI

Poesia & Ltda.


http://www.poesiailimitada.blogspot.com

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tempo

Em 6 anos você se olha

E não tem mais

a mesma cara



Em 6 meses você cura

Uma ferida

seja ela qual for



Em 6 dias você acumula

Mais tarefas

do que na semana passada



Em 6 horas

Você pode viver

um grande amor



60 minutos por hora

essa é a velocidade

que a sua vida acaba



6 segundos é o que vai te restar

Pra perdoar

aquilo que você nem lembra mais.

Estrela Leminski – Escritoras Suicidas
Até quando terás, minha alma, esta doçura


Cecília Meireles

Até quando terás, minha alma, esta doçura,

este dom de sofrer, este poder de amar,

a força de estar sempre – insegura – segura

como a flecha que segue a trajetória obscura,

fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?

Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Eco depois de um mês em 68

Nós cansamos do velho

da intrépida múmia

com mofo aromático

E desespero tétrico.

Mas nunca do clássico

Pois esse não envelhece

Ganha a voz com o vento

E no tempo permanece.

Nós cansamos do que se basta

O que se rende à casta

Temem o que vem e se temem

Nunca se olham nem se desentendem

Nunca se afirmam e nem surpreendem.

Nós inventamos o futuro

E engolimos o modernismo

Nós devoramos a vanguarda

E transcendemos o partidarismo

mas isso,

é só

porque nascemos depois

que nasceu o pluralismo.

Eunice Boreal – Cronópios

Dois

Dossiê

Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.

Daniela Dias – Escritoras Suicidas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

IMERECIMENTO

Adormeço



na



luz



dos



teus



olhos



vejo



Veneza



que



não



conheço





Ondulo



num



círculo



de



ondas



de



levitação







Confesso:



não



mereço



a



ternura



da



gôndola



acariciando



as



águas



onda



a



onda

Tony Tcheka

NOSTALGIA

Cinzento nicotina



serpenteia o meu quarto



argola o tempo que não passa





Tu não apareces



nada acontece….





O som sobe em 33 rotações



a voz sofrida de Ottis Reding



sustenta o calor de um canto soul





Emerges de uma nota de piano



por momentos bailas



na circunferência de uma bola de fumo



que se esquiva pela persiana





Fica o som dilatado do sax



a dar passagem a Ottis



a sentenciar “time is over”





Nada acontece…



Nicotino o espaço que se fecha



sobre mim sem ti



Tony Tcheka

E NÃO TE CHAMAS CRISTO

Tens o crucifixo de muitas chuvas



cravado na palma da mão



com que matizas a terra



em tempos de kebur





Tempo finado



tempo fincado no peito da dor



disputando a sobra do cuntango



Tempo enlutado



tempo anoitecido



no entardecer da esperança





Na curvatura



do tambor onde expias o desespero



fizeram do teu corpo sepultura do medo





Negam-te o pedaço da tua tabanca



dão-te uma vida assalariada



taxam-te uns tantos por cento



para a sobrevivência autorizada





E não te chamas Cristo



e só pregas com o arado



Tony Tcheka

BATUCADA NA NOITE

Bissau cresce



quando o sol desce



vem com o fio da noite



e só adormece



quando amanhece





O álcool



e o week-end



inflamam corpos



cheios de adornos





Na noite



há insónias



e sónias de muitos nomes



não é só o mote



aqui há funky



há merengada



e antilhesas na madrugada



Lufadas de amor



moldam corpos



suarentos de ardor



há um saracoteio



permanente



na passarelle da noite



sedas flutuantes



coxas remexendo



num sincopado



que dá síncope





O odor



mastiga o ar



sem pudor mistura-se



confunde-se



catinga



chanel



paco rabane



água cheiro



suor



e dior



ça va comme ça…



O old scotch



dá o toque final



É fatal



afinal porque não…





A batucada cresce



abre o espaço



a cidade não dorme



Tony Tcheka

SILABAR A PAZ

RISCO



na folha



do teu corpo



azul



pergaminho



desta vida



cerzida



com fios



de tulipa



negra



espelho



que o mago



tingiu





GRITO



com a voz



de pedra



e sinto



os ventos



irromperem



das vértebras



da noite





ASSIM



tacteando



com as minhas



mãos



presas



ao umbigo



da vida



trespasso



a acidez



da loucura



em ponto final







SOLTO



todas



as vozes



silabando



a paz



com acentos



de liberdade



Tony Tcheka

TECTO DE SILÊNCIO

Ergo a minha voz



e firo o tecto de silêncio



nego a morte de crianças



porque há míngua de medicamentos





Na angústia



liberto o verbo



mordo o pólen da desgraça



que grassa



nesta África desventurada



em obra



e graça



Subdesenvolvendo-se





Coloco andaimes



nos alicerces do tempo



Perscruto os ventos



Circunciso as ondas



Nego a convivência da paciência



que amordaça a fala



e cala o sentimento





Exorcizo o paludismo



Apeio a poliomielite



Amputo a desgraça



e eis a graça da criança



florescendo a vida



Tony Tcheka

TERRA TÍSICA

terra sahel



vento



cinzento



esboçando



voos amargos



movediços



esperança a esvaiar



das alturas do futa djalon





-o bombolom



lamina ventos



anuncia eventos



repica forte



e geme



no corpo



do vento saheliano





dores saheis



em contravento





a seca



é um gemido ululante



sublimado



nas cordas adelgaçadas



do nhanhero griot





a chuva



que o vento



levou



mora no imaginário



sumido



de um choro



sem tambores



sem cana sem



lágrimas





o vento



deixou-nos



a ânsia gotejando



no pulmão da terra tísica



Tony Tcheka



(in “Os rumos de vento”- Fundão Portugal)

Globalizado excluído

A

Carta

de

alforria

que

floriu

no templo

das proclamações

decretos

e

convênios

libertadores

murchou

desandou

como

a

flor

sahel



amnésica

ficou

sem

os

pergaminhos



globalizada



nos

grilhões

dos

novos

navios

negreiros

ressurge

sob formas

manhetas

manietada pelas

fronteiras farpadas

impostas por patriarcas ilusionistas

batutadores da escrita família

do comércio proteccionista de exclu$ão &

companhia Lda

Tony Tcheka.Guiné Bissau

Canção de amor de uma negra[Black Woman's Love Song]

Eu te cantei canções de amor

enquanto eles nos jogaram

juntos

entre as baratas e os ratos

no porão do navio negreiro.



Eu te cantei canções de amor

quando naquele buraco fétido

eu te ajudei a ficar vivo

para enfrentar a luta no novo mundo.



Eu te cantei canções de amor

quando eles nos colocaram

à venda no leilão

e te levaram para o leste

me arrastando para o norte.



Eu te cantei canções de amor

entre os meus gritos

de dor

te implorando

Por favor nunca te esqueças de mim.



Eu te cantei canções de amor

quando eles me levaram

para ser sua concubina

e te levaram

para ser seu garanhão.



Eu te cantei canções de amor

até quando eu deixei

de ser a concubina deles

mas não pudeste deixar de ser

seu garanhão.



Eu te cantei canções de amor

quando a backra-massa ¹

nos jogou pra fora de nossas terras

pagas com nosso suor e sangue.



Eu te cantei canções de amor

quando tu disseste

“Se não podemos vencê-los

vamos nos unir a eles”

e ficaste com a backra-missus ².



Eu te cantei canções de amor

quando tivemos nossas cabeças

quebradas

juntos

nas demonstrações pelo direito

de falar, de fazer greve

de politizar

de organizar.



Eu te cantei canções de amor

quando tu choraste no meu peito

e eu esfreguei ervas medicinais

nos teus ferimentos

ambos

esquecendo

que os meus próprios intestinos estavam rasgados

e rasgados de feridas.



Eu te cantei canções de amor

quando pegamos em armas

contra o inimigo

para resgatar nossa dignidade.



Eu te cantei canções de amor

mesmo quando tu renegaste

o nosso filho

concebido com a tua semente apressada

disparada no meu útero

num dia de folga.



Eu te cantei canções de amor

depois da guerra

quando trabalhamos juntos

para reconstruir um povo inteiro

e um país livre.



Eu te cantei canções de amor

quando tu me disseste

que eu já não era esperta o suficiente

para freqüentar os jantares de Estado

para os quais tu já eras convidado.



Eu continuo te cantando

canções de amor

mesmo quando canções de ódio

ameaçam sufocar até a minha alma.



Eu te canto canções de amor

homem-negro

para que tu possas entender

que eu te quero

forte

do meu lado

me cantando canções de amor também.


Elean Thomas (1947-2007); Jamaica.





In: BARON, Dan. Alfabetização cultural. São Paulo: Alfarrábio, 2004. (Tradução do autor)



Notas:

¹ O latifundiário na Jamaica.

² A esposa do latifundiário

Carta de um Contratado

Eu queria escrever-te uma carta

amor

uma carta que dissesse

deste anseio

de te ver

deste receio de te perder

deste mais que bem querer que sinto

deste mal indefinido que me persegue

desta saudade a que vivo todo entregue…



Eu queria escrever-te uma cara

amor

uma carta de confidências íntimas

uma carta de lembranças de ti

de ti

dos teus lábios vermelhos como tacula

dos teus cabelos negros como dilôa

dos teus olhos doces como macongue

dos teus seios duros como maboque

do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por aí…



Eu queria escrever-te uma carta

amor

que recordasse nossos dias na capôpa

nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

o luar que se coava das palmeiras sem fim

que recordasse a loucura

da nossa paixão

e a amargura nossa separação…



Eu queria escrever-te uma carta

amor

que a não lesses sem suspirar

que a escondesses de papai Bombo

que a sonegasses a mamãe Kieza

que a relesses sem a frieza

do esquecimento

uma carta que em todo Kilombo

outra a ela não tivesse merecimento…



Eu queria escrever-te uma carta

amor

uma carta que te levasse o vento que passa

uma carta que os cajus e cafeeiros

que as hienas e palancas

que os jacarés e bagres

pudessem entender

para que se o vento a perdesse no caminho

os bichos e plantas

compadecidos de nosso pungente sofrer

de canto em canto

de lamento em lamento

de farfalhar em farfalhar

te levasse puras e quentes

as palavras ardentes

as palavras magoadas da minha carta

que eu queria escrever-te amor…



Eu queria escrever-te uma carta…

Mas ah meu amor, eu não sei compreender

por que é, por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes ler

e eu – Oh! Desespero – não sei escrever também!

António Jacinto (1924-1991); Angola.
AMOR, SUEGRAS Y VOZKA




El amor es como un virus metafísico que ansiamos que se nos meta en el cuerpo de una u otra manera. El amor es una hermosa diablura condimentada con miel y labios ansiosos. Resulta tan primoroso que cuesta encontrarlo y, a veces, en busca del mismo, nos conformamos con cuentos de hadas relatados por personas que aseguran que sienten amor por nosotros, y al final, sólo era un sentimiento mal entendido que acabó en la cama de un motel de todo a cien, incluidos los preservativos. Será por esto que Giovanni Casanova sentenciaba que el amor no es más que una curiosidad, la misma que mató al gato. Yo me quedo con la cita de don Jacinto Benavente: “El amor es como Don Quijote: cuando recobra el juicio es que está para morir”. Serena y cabal cita la de don Jacinto, de hecho, algunos se han quedado con las neuronas cercenadas a causa del amor veraz. Y es que la verdad, pese a que suene poco paradisíaco, el amor en inicio es como un trago deleitable de vodka, mas, con el tiempo y la realidad, puedes llegar a desear quedarte con la botella del susodicho licor, y envenenarte las venas al verificar que no sólo estás amando a ese hombre o a esa mujer, sino también a su entorno. Es aquí, cuando el entorno ya está presente y te califica, cuando asoma un ser singular, clarividente y molesto para algunos: la suegra. Este ser portentoso, tan antiguo como un catarro primaveral, es quien puede dar colmada legitimidad a la relación de pareja. La suegra, estremecimiento de toda una tarde en familia, suele gozar de una sonrisa inicua matizada con rayos y centellas. Ella es una mujer prudente, de experiencia supina; también es, aunque su marido diga lo contrario, la que lleva los pantalones, la que te observa y evalúa como buena o mala pareja para su hijo o hija. En Galicia, aparece como matriarca incuestionable y a su vez es, aunque haya columnistas que no lo digan por miedo a represalias, el punto exacto de ir o no ir hacia adelante con la relación de noviazgo, y se les ha llegado a temer más que a una aparición de la Santa Compaña a medianoche, con luna llena y sicofonía de fondo. Esta mujer frenética te ofrece un lacón con grelos cocinado con pericia, mientras te acecha osadamente, estudiando el masticado de tus dientes ambarinos, el hilado de tu camisa made in la feria y las contestaciones que le das a una serie de preguntas que debes responder con educación imperiosa, pero nunca con sinceridad plena. La suegra puede llegar a ser algo así como la otra locura que Jacinto Benavente no se atreve a citar. Es una daga de doble filo que no entiende de frases como: “Yo amo a su hija y estoy dispuesto a estar con ella hasta el final de mis días”. No, no se engañen, existen suegras que ya huelen el bienestar de sus hijos inclusive antes de que entren por la puerta de su casa. Ellas ven tu billetera antes de que tú mismo sepas la cantidad exacta de amor que llevas dentro de ella. Cosas del querer que en ocasiones se transmuta en un titánico lingotazo de turbación y vodka.



Alexander Vórtice

http://www.lacoctelera.com/alexandervortice

http://www.opinionvortice.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Brigitte Bardot. Espanha, 1971.

Imponderáveis Decifráveis ?

*A vida é um roteiro traçado pelo mistério;

A felicidade, o orgasmo sutil da existência.



A amizade é o combustível da humanidade;

O amor, a face de Deus ofertada desde cedo.



A informação é o tijolo bruto da consciência;

O saber, a construção portadora de atitude.



A mudança é a dança estonteante da rotina;

O sonho, o fruto antecipado como semente.



A dor é o atalho que ressuscita a nossa essência;

A preocupação, a miragem impotente do medo.



A arte é a senha que destranca a alma pequenina;

A poesia, a música cujo refrão depende da gente.




Pablo Robles

http://www.gritopacifico.blogspot.com/2011/02/poesia-imponderaveis-decifraveis.html

Medersa para mulheres . Rússia, 2008

Diadorim

houve um tempo em que ela pensava ser homem. não sabia ainda das diferenças naturais entre os sexos — apesar dos abusos que sofrera, cria ser a sexualidade uma orientação. e o fato de a mãe vesti-la com aqueles babados e frufrus ridículos, era tão somente para deliciar-se com a humilhação que impunha à filha.

ela vestia uma roupa andrógina por baixo dos vestidos. depois de caminhar os treze quilômetros que separavam a casa da escola, num lugar onde havia um rio — seu divisor metafísico, e a ponte era um largo tronco de baobá — retirava essas máscaras como num ritual, acessórios de cabeça, corpo e membros. então podia contemplar n’água seu verdadeiro eu. sem artifícios.

as outras crianças a rodeavam entre gritos “maria sapatão, sapatão, sapatão, de dia é maria, de noite é joão”. apesar de não compreender as bazófias, não gostava. recolhia-se no fundo da sala, na biblioteca — quase vazia, no banheiro. às vezes se deixava ter com uma ou outra garota que lhe pedia carícias nesses recônditos silenciosos e em penumbra; para em seguida, às luzes da ribalta, ouvir das mesmas garotas, um tanto envergonhadas em gestalt, a repetida música, seu melô.

a mais freqüente delas, fernandè, levava-a até sua casa após às aulas. nadavam juntas a se encharcar lá no fundo. piscina ou chuveiro. olha, é melhor a gente enganar aquela patota lá do colégio, vamos fingir que somos inimigas. ela aceitou. não fazia muita diferença mesmo. fernandè achava que sabia das coisas, e era melhor que continuasse assim. na hora devida, compreenderia que não pode haver segredos de amizade.

*

raspou a cabeça. comeu suas unhas até sangrar. rasgou os vestidos e jogou no rio os acessórios tão inúteis. levou uma boa sova da mãe, mas há muito que não se importava com essas mãos tão rudes.

chamou fernandè para um corredor da escola e a beijou. essa não podia esquivar-se. quando enlaçada, era como um afogamento, um desfalecer de asas. a beleza e a delícia da morte.

o diretor da escola separou-as. fernandè foi pra sala de aula e a outra pra diretoria. pela última vez. estava expulsa. e outra sova.

*

ela iria se curar. foi o bispo em pessoa que recomendou a psiquiatra.

os exames em sua cabeça não identificaram qualquer desvio.

sylvie deitou-a. então pensa que é homem? mas não somos todos? li que o homem é universal; quando querem se referir a todas as pessoas falam homem; falam em humanidade, cujo radical é homem.

sylvie se deixou emocionar e ofereceu à paciente o seu sobrenome: champagne.

*

agora a garota era uma mulher. entendia que palavras sempre serviram de artifícios ao paternalismo para subjulgar o feminino, de que, afinal, tinham medo. como de todo desconhecido.

compreendeu a única diferença natural entre os sexos. questão de anatomia, e todas demais são construções culturais.

entendeu, inclusive, a música gracejadora. nunca se passou por homem porque em suas entranhas gritavam as vozes de todas as mulheres que eram todas e ela também.

quanto ao “desvio sexual” de sua filha, não se trata de anomalia ou opção, dona lucie. então é o quê?

homoternurismo.

Nina Rizzi – Escritoras Suicidas


Nina Rizzi (1983). Formada em História pela UNESP, em Franca/SP. Mãe da Lavínia. “Sou a catalisação, a junção de todos meus pseudônimos, pseudo-eus, eus perdidos, alter ego… o que chamo de ELLO. ELLO é também uma nova fase. Uma reconceituação de poesia, música e teatro, tudo um elo, ou ello”.

Vidas Secas

foto compõem a exposição “Narrativas Brasileiras”, exibida na cidade do Porto em Portugal

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Endecha

Estábamos perdidos

cuando nos encontramos

en aquel retraso de aeropuerto.

Yo estaba lleno de noche y de frío,

aunque había pasado tres días

en el “San Francisco”,

con una muchacha de nalgas redondas.

Tu creíste que yo era un camionero.

Admiraste la vulgaridad de mi estilo

y me amaste por ello.

-No lo era.-

Yo creí que tú eras una princesa,

que arrastraba hasta mí su aburrimiento.

-Y es verdad.-

Como es verdad que seguimos estando perdidos.

Yo, por no poder soportar la realeza,

tú, por no saber nunca lo que estás haciendo.

Mário Rivero

Señor K

Franz Kafka

novelista checo

vendedor de seguros de vida

—Compañía de Accidentes de Trabajo

del Reino de Bohemia—

al cruzar los pasillos

de una notaría

y ver legajos empolvados

pensé en usted

Sentí que los días trabajan

discreta y taciturnamente

sobre nosotros

imaginé un espejo

y vi una arruga en mi frente

y una mosca

en la nariz del notario

 Mario Rivero (1935 - 2009)Colômbia
Me retracto de todo lo dicho


Antes de despedirme

Tengo derecho a un último deseo:

Generoso lector

quema este libro

No representa 1o que quise decir

A pesar de que fue escrito con sangre

No representa lo que quise decir.



Mi situación no puede ser más triste

Fui derrotado por mi propia sombra:

Las palabras se vengaron de mí.



Perdóname lector

Amistoso lector

Que no me pueda despedir de ti

Con un abrazo fiel:

Me despido de ti

con una triste sonrisa forzada.



Puede que yo no sea más que eso

pero oye mi última palabra:

Me retracto de todo lo dicho.

Con la mayor amargura del mundo

Me retracto de todo lo que he dicho.



Ultranza es una bonita palabra que significa “a todo trance, resueltamente”. Es como decir “a muerte”. O sea, Nicanor Parra es y será mamagallista a muerte.


Nicanor Parra.Chile

Quédate con tu Borges

él te ofrece el recuerdo de una flor amarilla

vista al anochecer

años antes que tú nacieras

interesante puchas que interesante

en cambio yo no te prometo nada

ni dinero ni sexo ni poesía

un yogur es lo + que podría ofrecerte

Nicanor Parra.Chile

Amantes

Somos como son los que se aman.

Al desnudarnos descubrimos dos monstruosos

Desconocidos que se estrechan a tientas,

Cicatrices con que el rencoroso deseo

Señala a los que sin descanso se aman;

El tedio, la sospecha invenncible nos ata

En su red, como en la falta dos dioses adúlteros.

Enamorados como dos locos,

Dos astros sanguinarios, dos dinastías

Que hambrientas se disputan un reino,

Queremos ser justicia, nos acechamos feroces,

Nos engañamos, nos inferimos las viles injurias

Con que el cielo afrenta a los que se aman.

Sólo para que mil veces nos incendie

El abrazo que en el mundo son los que se aman

Mil veces morimos cada día.



Jorge Gaitán Durán (1925 - 1962)

Gaitán Durán nació en Pamplona, Norte de Santander, Colombia, en 1925. Murió en un accidente de aviación en Pointe-á-Pitre, en 1962.

Poeta, ensayista, dramaturgo, cuentista y periodista, fue fundador de la mítica revista Mito, en 1955, junto con Hernando Valencia Goelkel.

Publicó El libertino (1954), Amantes (1958), Si mañana despierto (1961).

Octavio Paz dijo que era “uno de los espíritus más despiertos y originales de la nueva literatura latinoamericana”.
 
Fonte:El Blog de Lalito Grafía
El vicio de releer


Domingo, Mayo 31st, 2009

Si leer es un placer sensual, releer es un exquisito vicio solitario.

Hoy en día poca gente se atreve a volver sobre los libros que ha leído. Es como si al hacerlo traicionaran un supuesto pacto con lo contemporáneo, con lo que está de moda o al día. Y, tal vez, por ese miedo a darle la espalda a “lo politícamente correcto”, ciertas personas le huyen o le tienen pereza a la relectura.

A mí, en cambio, releer me está gustando cada vez más y más y más. Sin abandonar el goce por las lecturas nuevas, siempre insólitas e imprevistas, releer se me ha vuelto una costumbre renovadora, mero renacentismo a principios del siglo 21.
Jorge Gaitán Durán (1925 - 1962).Colômbia



Fonte: El Blog de Lalito Grafía
http://www.ecbloguer.com/lalitografia/

O México profundo nas imagens de um autor, Juan Rulfo

As paisagens áridas sugeridas por Pedro Páramo, monumento literário da América espanhola, são traduzidas pelo escritor mexicano num belo livro que reúne suas 100 melhores fotografias


Ao escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986) se deve a mais completa série de estudos etnográficos sobre as populações indígenas do México. E também algumas das mais belas fotografias que retrataram essas culturas, lado menos conhecido do autor do livro Pedro Páramo, o grande monumento literário moderno mexicano do século 20. Parte da enorme coleção de negativos deixados por Rulfo, construída durante os vários anos em que, entre outras lutas, militou pela causa indigenista no México, foi selecionada para o livro 100 Fotografias: Juan Rulfo, que a Cosac Naify lança em parceria com a Editorial RM do México, com ensaios do diretor da fundação que leva o nome do escritor, o arquiteto e historiador Víctor Jiménez, do curador independente Andrew Dempsey e do jovem historiador e curador italiano Daniele de Luigi, os dois últimos responsáveis pela seleção das 100 fotos que aparecem no livro.



Rulfo publicou as primeiras fotos em 1949, na revista América, realizando sua primeira exposição apenas em 1960, em Guadalajara. Discreto e criterioso, ele só começou a ficar conhecido como fotógrafo após uma grande exposição realizada no Palácio de Belas Artes da Cidade do México, em 1980, acompanhada de um catálogo, Homenaje Nacional, seis anos antes de sua morte. Este seria transformado num livro, Inframundo, que chegou às mãos da crítica e ensaísta norte-americana Susan Sontag (1933-2004), autora de um livro fundamental sobre fotografia e do prefácio da segunda tradução inglesa de Pedro Páramo. De lá para cá outros livros foram publicados sobre sua obra fotográfica, entre os quais Juan Rulfo, Letras e Imágenes (2002), em que é explorada a relação entre literatura e fotografia na obra do escritor.



Ruínas. No livro que está sendo lançado, esse é um aspecto igualmente lembrado, mas é na tragédia da infância de Rulfo que os curadores vão buscar explicações para o aspecto desolador de suas ruínas, de seus desamparados camponeses e da desértica paisagem mexicana. O curador Andrew Dempsey diz que a chave para decifrar essa terra devastada – tão bem descrita em Pedro Páramo, homem frustrado por um amor impossível, vivendo num território fantasmagórico – é mesmo a tragédia enfrentada por Rulfo quando criança. O pai morreu assassinado quanto ele tinha 6 anos – e esse choque é traduzido, em Pedro Páramo, pela loucura de Susana, a paixão juvenil do narrador onisciente, uma morta-viva quando reaparece em Comala, viúva de Florêncio e enlouquecida pelo assassinato do pai.



Rulfo dizia ser difícil reconhecer no território de Jalisco – que abriga a cidade de San Gabriel, onde o escritor passou a infância – traços dos personagens de seus livros, porque as pessoas de Pedro Páramo “não têm cara e só por suas palavras se adivinha o que foram”. Claro, estão todos mortos. A morte está em toda a parte no livro e é com ela que começa a narrativa, a de um morto contando sua história a outros mortos num tempo congelado na memória de seu protagonista. Olhando as fotos do livro, é a mesma impressão que castiga a retina do leitor com esse tempo circular em que tudo se repete, revelando uma paisagem imutável, silenciosa e árida, o próprio território da morte.



Núcleos. Dividido em quatro núcleos temáticos, o livro 100 Fotografias: Juan Rulfo, começa com a foto de uma pirâmide de Cempoala, em Vera Cruz, tirada na década de 1950, que marca o capítulo inaugural, dedicado à arquitetura. Mais que o registro documental do passado arquitetônico dos primeiros povos do México, há um drama épico sugerido pelas imagens dessas ruínas de civilizações esmagadas pelo estrangeiro, que levou o ouro do México, deixando desamparadas as comunidades indígenas. Rulfo dizia que essas populações vivem fechadas num hermetismo ancestral que repudia a intromissão de estranhos e é justamente o que se vê no segundo núcleo temático, dedicado aos vilarejos rurais, de camponeses paupérrimos que tanto inspiraram Pedro Páramo (1955) como os contos de Chão em Chamas (1953) – ambos traduzidos por Eric Nepomuceno e publicados pela Record na versão mais recente, de 2004.



O terceiro núcleo temático traz as fotos do começo da carreira do fotógrafo Rulfo, nos anos 1940, paisagens que remetem ao gigantismo de Ansel Adams ou, ainda mais, à composição formal de Edward Weston. Por certo, Rulfo já tinha um olhar educado quando comprou sua Rolleiflex seis por seis, que acabou perdendo. Conhecia bem os fotógrafos estrangeiros e os de seu país – e a forma como se aproxima das camponesas com seus trajes tradicionais e da paisagem mexicana deve muito a Manuel Álvarez Bravo.



Finalmente, no último núcleo, o próprio Bravo surge como personagem entre os amigos do escritor-fotógrafo, além de pessoas de sua família, como a mulher Clara Aparício e sua filha Cláudia, nascida em 1951, três anos após seu casamento. São quase todas fotos dessa mesma década, quando as excursões de Rulfo começaram a ficar mais curtas por conta dos compromissos assumidos com a literatura – especialmente por causa das sucessivas bolsas de estudo concedidas pelo Centro Mexicano de Escritores, fundado pela americana Margaret Shedd (fotografada no último núcleo do livro). Foi ela a figura determinante para que Rulfo publicasse tanto O Chão em Chamas como Pedro Páramo, transformando-o no escritor mexicano mais conhecido fora de seu país, admirado por colegas como o argentino Jorge Luis Borges e o colombiano Gabriel García Márquez.



Foi de García Márquez o maior elogio que Juan Rulfo recebeu. A imprensa cobrava muito de Rulfo uma outra novela depois de Pedro Páramo, mas ele não tinha pressa nem perseguia a fama. “Se eu fosse autor de Pedro Páramo, para mim o mais importante e belo dos romances escritos em língua castelhana, não me preocuparia nem voltaria a escrever jamais em minha vida”, disse o Nobel de literatura de 1982, tido como o criador do realismo mágico, do qual Rulfo foi precursor. Rulfo escreveu um pequeno segundo romance, O Galo de Ouro, esboçado em 1956 e filmado por Roberto Gavaldón em 1964, contando a história de um pobre camponês com sorte na briga de galos que é contratado por um ricaço, ambos apaixonados pela mesma mulher. Há uma segunda versão dirigida pelo iconoclasta Arturo Ripstein (El Imperio de la Fortuna, de 1986).



Cinema. Há quem defenda que Rulfo concebeu Pedro Páramo como um filme. A elipse narrativa do romance, que tanto incomodou os críticos na época do lançamento, reproduziria, em termos literários, artifícios da montagem cinematográfica – e ele foi supervisor das salas de cinema de Guadalajara, o que facilitou seu ingresso nesse universo, para o qual contribuiu como roteirista, crítico e consultor histórico (do filme La Escondida, de 1955, dirigido por Roberto Gavaldón, o mesmo da primeira versão de O Galo de Ouro). De qualquer modo, Rulfo não gostava das adaptações de seus textos para o cinema – e Pedro Páramo teve quatro versões, sendo a primeira de 1966, dirigida por Carlos Velo. A última tentativa foi feita há dois anos por outro espanhol, Mateo Gil.



Muitas fotos no livro de Rulfo parecem fragmentos de filmes. A principal delas é a de uma mulher caminhando com uma menina pelas ruas de Mexicaltzingo, Estado do México, em 1960. Lembram – e muito – as imagens que o célebre fotógrafo Gabriel Figueroa (1907-1997) criou para os filmes mexicanos de Buñuel (Os Esquecidos, Nazarín, Simão do Deserto) e também para a primeira versão de Pedro Páramo, que fotografou para Carlos Velo. Figueroa, criado como ele num povoado mexicano, manipulava a luz de forma arquitetônica, enquadrando seus personagens em figuras geométricas projetadas pela sombra, de maneira quase alegórica, como se os “olvidados” mexicanos estivessem confinados, sendo ao mesmo tempo iluminados e destruídos pelo escaldante sol dos áridos povoados mexicanos.



Também nas fotos de Rulfo, a aparição de signos cristãos encontram correspondência nas ruínas zapotecas ou barrocas que emergem com a luz teofânica das imagens (Rulfo teve formação católica e começou a ler na biblioteca de um padre). Como lembra o historiador Víctor Jiménez, “ele fez diversas fotos de portas de igrejas com pessoas que se aproximam ou que delas se afastam”, calculando o “possível efeito simbólico” desses gestos. Afinal, antes de tudo, eles revelam a ambivalente relação dos mexicanos com o cristianismo imposto pelo conquistador.

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo.05/02/2011

JUAN RULFO Y SU MIRADA FOTOGRAFICA

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Máquina Fotográfica

"É na câmara escura dos teus olhos

que se revela a água



água imagem

água nítida e fixa

água paisagem

boa nariz cabelos e cintura

terra sem nome

rosto sem figura

água móvel nos rios

parada nos retratos

água escorrida e pura

água viagem trânsito hiato.



Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.

Já suei o suor de oito séculos de mar

o tempo de onze meses de ordenado;

por isso, meu amor, viajo a nado

não por ser português mal empregado

mas por sofrer dos pés

e estar desidratado.



Chego. Mudo de fato. Calço a idade

que melhor quadra à minha solidão

e saio a procurar-te na cidade

contrastada violenta negativa

tu única sombra murmurada

única rua mal iluminada

única imagem desfocada e viva.



Moras aonde eu sei.

É na distância

onde chego de táxi.

Sou turista

com trinta e seis hipóteses no rolo;

venho ao teu miradoiro ver a vista

trago a minha tristeza a tiracolo.



Enquadro-te regulo-te disparo-te

revelo-te retoco-te repito-te

compro um frasco de tédio e um aparo

nas tuas costas ponho uma estampilha

e escrevo aos meus amigos que estão longe

charmant pays

the sun is shining

love.



Emendo-te rasuro-te preencho-te

assino-te destino-te comando-te

és o lugar concreto onde procuro

a noite de passagem o abrigo seguro

a hora de acordar que se diz ao porteiro

o tempo que não segue o tempo em que não duro

senão um dia inteiro.



Invento-te desbravo-te desvendo-te

surges letra por letra, película sonora,

do sendo à vogal do tema à consoante

sem presença no espaço sem diferença na hora.

És a rota da Índia o sarcasmo do vento

a cãibra do gajeiro o erro do sextante

o acaso a maré o mapa a descoberta

dum novo continente itinerante."

Ary dos Santos

SOL de SESTA

a gata preta prenha

dorme à sombra da lenha

descansa da fadiga



que é esperar que a prole

um dia venha

negra como ela

sugar-lhe as mamas

na base

da barriga



Platero

(h)ortografias

MUBARAK

Hosni Said Mubarak

não descobriu ainda

que chegou o tempo

de abandonar o fraque?



trocá-lo pelo pijama

pelos chinelos

cuidar mais do conforto na cama

do que da pintura dos cabelos?



não descobriu ainda que o seu povo

cansou de si

- antes que o maltrate

ponha-se a milhas Mubarak



é que

tempo de ser ouro já lá vai

os anos passam sobre nós

sejamos escravos

ou gloriosos Faraós



pechisbeque

Mubarak



Hosni Said Mubarak

eis o que resta

a quem em altiva testa

nascem rugas de basbaque



hoje agora você não vale nada

antes que o povo o pegue

e o enforque

ponha-se a milhas Mubarak



veja-se ao espelho

não há nenhum retoque

que o liberte

da máscara de velho



ponha-se a milhas Mubarak

para milhões e milhões de de ex-escravos seus

hoje você

não vale um traque



pense bem Mubarak

hoje você

não vale um traque



Platero

(h)ortografias

domingo, 30 de janeiro de 2011

Epitalamio

Recuerdas cuando


en invierno

llegamos a la isla?

El mar hacia nosotros levantaba

una copa de frío.

En las paredes las enredaderas

susurraban dejando

caer hojas oscuras

a nuestro paso.

Tú eras también una pequeña hoja

que temblaba en mi pecho.

El viento de la vida allí te puso.

En un principio no te vi: no supe

que ibas andando conmigo,

hasta que tus raíces

horadaron mi pecho,

se unieron a los hilos de mi sangre,

hablaron por mi boca,

florecieron conmigo.

Así fue tu presencia inadvertida,

hoja o rama invisible

y se pobló de pronto

mi corazón de frutos y sonidos.

Habitaste la casa

que te esperaba oscura

y encendiste las lámparas entonces.

Recuerdas, amor mío,

nuestros primeros pasos en la isla:

las piedras grises nos reconocieron,

las rachas de la lluvia,

los gritos del viento en la sombra.

Pero fue el fuego

nuestro único amigo,

junto a él apretamos

el dulce amor de invierno

a cuatro brazos.

El fuego vio crecer nuestro beso desnudo

hasta tocar estrellas escondidas,

y vio nacer y morir el dolor

como una espada rota

contra el amor invencible.

Recuerdas,

oh dormida en mi sombra,

cómo de ti crecía

el sueño,

de tu pecho desnudo

abierto con sus cúpulas gemelas

hacia el mar, hacia el viento de la isla

y cómo yo en tu sueño navegaba

libre, en el mar y en el viento

atado y sumergido sin embargo

al volumen azul de tu dulzura.

Oh dulce, dulce mía,

cambió la primavera

los muros de la isla.

Apareció una flor como una gota

de sangre anaranjada,

y luego descargaron los colores

todo su peso puro.

El mar reconquistó su transparencia,

la noche en el cielo

destacó sus racimos

y ya todas las cosas susurraron

nuestro nombre de amor, piedra por piedra

dijeron nuestro nombre y nuestro beso.

La isla de piedra y musgo

resonó en el secreto de sus grutas

como en tu boca el canto,

y la flor que nacía

entre los intersticios de la piedra

con su secreta sílaba

dijo al pasar tu nombre

de planta abrasadora,

y la escarpada roca levantada

como el muro del mundo

reconoció mi canto, bienamada,

y todas las cosas dijeron

tu amor, mi amor, amada,

porque la tierra, el tiempo, el mar, la isla,

la vida, la marea,

el germen que entreabre

sus labios en la tierra,

la flor devoradora,

el movimiento de la primavera,

todo nos reconoce.

Nuestro amor ha nacido

fuera de las paredes,

en el viento,

en la noche,

en la tierra,

y por eso la arcilla y la corola,

el barro y las raíces

saben cómo te llamas,

y saben que mi boca

se juntó con la tuya

porque en la tierra nos sembraron juntos

sin que sólo nosotros lo supiéramos

y que crecemos juntos

y florecemos juntos

y por eso

cuando pasamos,

tu nombre está en los pétalos

de la rosa que crece en la piedra,

mi nombre está en las grutas.

Ellos todo lo saben,

no tenemos secretos,

hemos crecido juntos

pero no lo sabíamos.

El mar conoce nuestro amor, las piedras

de la altura rocosa

saben que nuestros besos florecieron

con pureza infinita,

como en sus intersticios una boca

escarlata amanece:

así conocen nuestro amor y el beso

que reúnen tu boca y la mía

en una flor eterna.

Amor mío,

la primavera dulce,

flor y mar, nos rodean.

No la cambiamos

por nuestro invierno,

cuando el viento

comenzó a descifrar tu nombre

que hoy en todas las horas repite,

cuando

las hojas no sabían

que tú eras una hoja,

cuando

las raíces

no sabían que tú me buscabas

en mi pecho.

Amor, amor,

la primavera

nos ofrece el cielo,

pero la tierra oscura

es nuestro nombre,

nuestro amor pertenece

a todo el tiempo y la tierra.

Amándonos, mi brazo

bajo tu cuello de arena,

esperaremos

cómo cambia la tierra y el tiempo

en la isla,

cómo caen las hojas

de las enredaderas taciturnas,

cómo se va el otoño

por la ventana rota.

Pero nosotros

vamos a esperar

a nuestro amigo,

a nuestro amigo de ojos rojos,

el fuego,

cuando de nuevo el viento

sacuda las fronteras de la isla

y desconozca el nombre

de todos,

el invierno

nos buscará, amor mío,

siempre,

nos buscará, porque lo conocemos,

porque no lo tememos,

porque tenemos

con nosotros

el fuego

para siempre.

Tenemos

la tierra con nosotros

para siempre,

la primavera con nosotros

para siempre,

y cuando se desprenda

de las enredaderas

una hoja

tú sabes, amor mío,

qué nombre viene escrito

en esa hoja,

un nombre que es el tuyo y es el mío,

nuestro nombre de amor, un solo

ser, la flecha

que atravesó el invierno,

el amor invencible,

el fuego de los días,

una hoja

que me cayó en el pecho,

una hoja del árbol

de la vida

que hizo nido y cantó,

que echó raíces,

que dio flores y frutos.

Y así ves, amor mío,

cómo marcho

por la isla,

por el mundo,

seguro en medio de la primavera,

loco de luz en el frío,

andando tranquilo en el fuego,

levantando tu peso

de pétalo en mis brazos,

como si nunca hubiera caminado

sino contigo, alma mía,

como si no supiera caminar

sino contigo,

como si no supiera cantar

sino cuando tú cantas.



Pablo Neruda

Algún día

Algún día

algún misterioso día húmedo

me volcaré en mí misma para siempre,

y no podrá nadie llamarme

por mi nombre,

porque seré un encierro de paz,

único y eterno.

Algún día húmedo,

con el sello infinito de dos palabras:

no volveré.

Y la vida abierta y dolorosa

bajará rodando por las gradas.

Ana istarú

De "Poesía escogida" 2002

Sueños de gente madura

Maduro no es quien ya estuvo tiempo suficiente en la vida;


es quien tiene vivencias,

que pueden no estar necesariamente asociadas a la edad.

Todo en la vida es encanto cuando ingresamos en la adolecencia.

Todos los sueños son posibles, todo es fiesta

y el paraíso parece estar al alcanze de nuestras manos.

Hallamos que el primero amor va a durar para siempre,

que vamos a evoluir en el trabajo,

que las personas con las cuales convivimos

serán siempre sinceras y gentiles.

Un día, somos puestos delante de los primeros obstáculos:

perdemos nuestro amor,

anochece en el paraiso,

descubrimos que necesitamos competir y trabajar duro

para llegar a algún lugar y que ni todas las personas

quieren nuestro bien.

Nuestros sueños se quiebran y adquirimos experiencias,

nos volvemos adultos, maduramos.

Y duele.

Dolemos nosotros, duele nuestro ser, duele la vida.

Algunas personas desisten, se cansan de los desengaños y déjanse llevar.

Nunca crecen, nunca construyen nada.

Descreen de los sueños e de su poder mágico.

Envejecen prematuramente, vuélvense gruñonas y mal humoradas.

El mundo está lleno de ellas.

Sin embargo, hay personas maduras que todavía sueñan.

Sólo que es un sueño distinto.

Jóvenes sueñan construir, comenzar, conquistar.

Ellas sueñan reconstruir, recomenzar, reconquistar.

Personas maduras sueñan despues de haber vivido,

después de haber quebrado la cara,

de haber tenido decepciones, de haber tenido pesadillas,

aunque ya hayan enfrentado la dura realidad

de que ni todos los sueños se realizan.

Pero ellas saben que vale la pena soñar.

Y aún sueñan... conscientemente!

Aman de nuevo, de nuevo y de nuevo!...

Caen, recomenzan y recomenzan a cada vez que caen.

Creen siempre que en la próxima vez va a ser diferente.

Colocan sus sueños en las manos y no los largan!

Generalmente, esas personas viven más tiempo

y el tiempo que viven es bien más aprovechado.

Son idealistas y benditas!

Las personas maduras que aún sueñan son el sueño de la vida,

son la proyección de los mejores deseos en la tierra.



Letícia Thompson
La generosidad


es el deseo de quien quiere,

siguiendo el dictamen

de su razón, ayudar

a los demás.



Baruch Spinoza

YO DIGO ADENTRO MÍO

adentro hay una boca recibiendo la lluvia


y una mano queriendo penetrar en los trenes

adentro está mi infancia con su mañana blanca

mi pueblo allí colgando de la lengua del día

adentro está tu frente pero nunca los lunes

porque adentro me sobran el reloj y los diarios

adentro está lo bueno lo malo lo que queda

mi corazón adentro un pájaro sin rostro

adentro tengo al viento derramado en tus hombros

es decir este aroma de ausencias y de gritos

adentro estoy yo mismo golpeando para afuera

y hay una almohada tibia donde apoyo tu nombre

adentro está el otoño el café el intestino

las rótulas tus ojos el parque que olvidaste

adentro están doliendo tu septiembre y mis pasos

y hay una piel llorando

ahora adentro mío se oxida una ternura

yo digo adentro mío en esta tarde de otros.



JORGE BOCCANERA ( Argentina, 1952 )

A PIEL DESNUDA

Desgarrar tu pielpenetrartu cuerpo con mi presenciay sentir tus deseos.Revolcar las miradasy tus ojos que se revuelquenalocadosen tus párpados.Escuchar los quejidossuavesde los poros que brotanpor las grietas de los labiosy por hilos de salivaque humedecenal corazón.Tu piel hablael silencio de tus labios.Voy a perseguir tu cuerpoy tocar tu ausenciay el borde de las estrellasla brisael vuelolas puntas de los senostus labiostus piernasy el brinco del ombligo.Tocaré el movimientosu cadenciasus porossus oloresy las húmedasgotas del rocío.Tocaréla alegría de los árboleslas floresy tocaremos los pétaloscon las puntas de las lenguasy ellami loca lenguaque nunca fue diestra para amartejerá y destejerá amoresy palabrastemblorosaspero francasque se quedenpara siempre al oídode esta piel desnudadistanteque trae la brisacon su primorosaforma de caminar¡ Su Majestad !Me desvelasu ausencia.


Gregorio Riveros .´.



Pampanito. Trujillo (Venezuela).




http://pampanito.nireblog.com



http://lapoesiavenezolana.nireblog.com

MIS TRES YO

Me arrancaron de un plácido sueño.

Se comportaron con prepotencia.

En amena tertulia confidencial,

su principal tema a tratar era yo.

Exacerbados se disputaban,

el liderazgo a ejercer en mi vida.



Mi 'yo padre' me reprendía,

por persistir en mi rebeldía.

Mi 'yo adulto' se lamentaba,

por errores que en vino flotaban.

Maniatado en rincón mi 'yo niño',

como siempre, el más ignorado.



Sentada en mi nube dorada,

desconcertada los observaba

y en impulso de cuerda locura:

fugué con mi 'yo niño' adorado.



©SKORPIONA

Inés de la Puente Spiers

http://skorpiona.webcindario.com/mis_tres_yo.htm

http://skorpiona.ifrance.com/mis.tres.yo.htm

CONTRADIÇÕES

Foi na vida que aprendi

a interpretar às avessas

os provérbios, pois na prática

as verdades são inversas:

quem não deve é quem mais teme,

há quem cale e não consinta,

e o diabo é exatamente

tão feio quanto se pinta.



Leila Míccolis

PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO

Há anos os homens ensinam

às mulheres a agradá-lo,

a adulá-lo, a servi-lo,

numa ascendência sem par.

Agora elas retribuem

sempre que fingem gozar.




Leila Míccolis

Coração é terra que ninguém vê

Quis ser um dia, jardineira

de um coração.

Sachei, mondei - nada colhi.

Nasceram espinhos

e nos espinhos me feri.



Quis ser um dia, jardineira

de um coração.

Cavei, plantei.

Na terra ingrata

nada criei.



Semeador da Parábola...

Lancei a boa semente

a gestos largos...

Aves do céu levaram.

Espinhos do chão cobriram.

O resto se perdeu

na terra dura

da ingratidão



Coração é terra que ninguém vê

- diz o ditado.

Plantei, reguei, nada deu, não.

Terra de lagedo, de pedregulho,

- teu coração. Bati na porta de um coração.

Bati. Bati. Nada escutei.

Casa vazia. Porta fechada,

foi que encontrei...



Cora Coralina

Fonfons, Balidos e Cocoricós

Não tenho paciência pra contar carneirinhos, na verdade os acho muito

idiotas e chatos. Ficam berrando noite e madrugada adentro e seus

balidos me incomodam. Será que estarei fadado a conviver com eles? Ou

ainda pior, será que inventarão clonar-lhes aos montes em nome da

ciência? Detesto ciência, prefiro minha Clonagem Perfeita...Sabe como

é né...As pernas da Cláudia Raia e os cabelos de Simone ou os seios

de Camila Pitanga me apetecem muito mais...Carneirinhos idiotas nunca

fizeram minha cabeça. Será que minha ranzinzice está me tornando

mais chato do que de costume? Quantas voltas no universo, minha

imaginação dará até que o sono chegue? Quantos versos poderia eu

fazer antes que uma noite com carneiros idiotas acabe? Será que os

galos também passam a noite na contagem de carneirinhos imbecis? Galos

não berram, nunca os vi berrar, mas seus cantares também me parecem

idiotas. Canto de galo e berro de carneiro é pura monotonia e ouvi-los

dá na gente uma agonia e uma irritação danada. Detesto galos e

carneiros, não necessariamente nesta ordem...E quando a noite e a

madrugada passam, aí começa o dia, então tudo piora: zoeira de

ônibus, carros, motos, detesto fonfons e gente com falação estúpida nesse burburinho medíocre do cotidiano louco.

Marçal Filho


Presença ...

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana

Contradições

Quis pensar que por um tempo

Eu apanharia com as mãos

Os sentidos apurados de minha desventura.

Depois das estocadas em pele viva,

Ainda soube esticar meus lábios

Ressecados de tanto sol

Nos varais de tola sorte.

O meu outro agora se esvai

E descansa,

Descansa

Por sobre a relva invisível

Da minha ingênua alegria.

Fabricio Brandão

Noites Sulferinas

Nem mais um passo,

nem um laço, leve traço,

nem idéias, nem olhares,

nem embaraços.

Cansaço terminal.

Nem dúvida, nem remorso,

nem saudade, nem lembrança.

Uma borracha e um rastro.

Nem encanto, nem desencanto:

bagaço, fruta sem caldo

sem semente..

Somente a fraqueza intermitente.

Somente...


Olga Porto -

O nono mandamento

— Amanhã eu volto.



— Vai com Deus. Levou o casaco?



— Marta, é verão. Deixa eu ir, tá na hora, fica bem.



Foi. Marta ficou na cama mais um pouco. Nunca pensou que se casaria com alguém que sairia em “viagem de negócios”. Pior que ele falava exatamente assim, que nem num filme antigo: “Semana que vem saio numa viagem de negócios”. Só faltava usar um bigodinho e chapéu. Será que se casaria, ou mesmo beijaria, alguém de bigodinho? Na adolescência aqueles buços eram inevitáveis, era isso ou nada, mas depois que os hormônios se aquietaram um bocadinho, nunca mais beijara ninguém de bigodinho ou mesmo bigodão. Barba ou cavanhaque também não gostava, mas bigode nunca mais. Achava — na verdade, começava a achar agora, nunca havia pensado nisso — que bigode era que nem pochete, não queria estar com um homem que usasse. Houve uma época em que achou que queria casar com alguém de barba. Qualquer um, desde que usasse barba. Barbas guardam cheiros, ela saberia se fosse traída. Um relacionamento com um babaca mentiroso gera essas insanidades. Teria que usar barba e gostar de sexo oral, claro, pois sem isso a barba não serviria como evidência do crime. Sexo oral! 40 anos na cara e não conseguia falar nada que não fosse educado ou eufemismo. “Chupar”, mesmo em pensamento, soava como coisa ruim, feia. Pelo menos gostava do ato em si!



— “Ato em si”, que Deus tenha piedade de minha alma, nem pensar livre eu consigo!



Hora de levantar, escovar os dentes, tomar um café, sair não precisava, estava de folga. 24 horas só suas, sem o chato do… epa! “Chato”? Não se lembrava de ter pensado assim, pelo menos não diretamente. Já se havia chateado e enfadado com ele, mas isso é coisa pela qual todo mundo passa. Chamar de chato era tão definitivo quanto chamar de corno e ai meu Deus como foi acontecer essa associação de idéias!!!??? Não, nem pensar. Pior que ele estava de folga hoje, também; certamente sozinho em casa, certamente disponível. A esposa trabalhava em plantões, por que não? Banho, rápido. Frio, de preferência; muito frio. Gelado, se pudesse, que o telefone está perigosamente perto. Pronto, não foi suficientemente rápida ao banho, já está o telefone em uma mão, com cacófato e tudo, e a outra já discando.



— Alô…



— Alô?



Voz de mulher. Desligar, rápido! Mas não, é preciso fazer algo.



— Alô, quem fala?



— Marta, quem é?



Meu Deus, ela se chama Marta também!



— Oi, meu nome também é Marta, trabalho com seu marido…



Meu Deus, meu Deus, meu Deus, o que diabos está fazendo?



— Oi, ele sempre fala de você, como vai?



Pera lá, fala o quê?



— Fala o quê?



— Ah, que você é divertida, inteligente, eu quase fico com ciúmes!



— E não fica por quê? Quer dizer, que bom que não fica, mas normalmente ficaria; quer dizer, eu ficaria, pelo menos!



— Ah, você não o conhece como eu. Ele é o homem mais caseiro do mundo, fiel como um cachorro velho!



— Acho que ele não ia gostar de ser descrito assim…



— E quem liga para o que aquele chato gosta?



Aquilo a espantou: chato? Será que ela estava fadada a atrair chatos? Seria um carma, algum atavismo?



— Chato como? Ele é bem agradável no trabalho…



— Desculpe, não devia ter falado assim, mas a coisa está feia por aqui. Acabamos de brigar, ele saiu meio que batendo a porta, desculpe, ainda não retomei o controle. E por favor, não comente com ele que eu desabafei com você.



— Desabafou? Mas você não disse nada, só que ele é chato!



— Bem, é quase um desabafo.



— Ué, pode falar à vontade. Não trabalho hoje, estou gostando de conversar. Meu marido quase não conversa comigo.



— Ah, o teu também? O meu chega, conta o que aconteceu no escritório como se fosse uma saga nórdica…



— Saga nórdica é ótimo!



— … e quer que eu demonstre interesse. O único nome em que presto alguma atenção é o teu, sabe como é: Marta também. Fora isso, entra por um ouvido e sai pelo outro. Um saco, um tédio mortal!



— Meu Deus, aqui é igualzinho! Ai, meu Deus, preciso parar de falar “Meu Deus”!



— Por quê?



— Eu sempre tive mania de falar “Meu Deus”. No colégio as irmãs viviam me dando castigos pra eu parar de invocar “Seu santo nome em vão”! Acho que eu gostava daqueles castigos, cada vez falava mais!



— Não diz que você estudou em colégio de freiras! Eu também!



— Que coisa, onde?



— Minas.



— Ah, eu estudei aqui mesmo. Mas tinha uma professora mineira que eu adorava. Ela vivia me botando de castigo, um dia me botou no milho.



— Mas isso não era proibido?



— Era, e muito; além de me castigar ela me fazia prometer que não contaria para ninguém.



— Hummm… excitante, isso, hein?



— Pois é. Eu lembro até hoje da voz dela, do sotaque… até que era parecido com o teu.



— Mas eu não tenho sotaque!



— Você que pensa! Ninguém acha que tem. Irmã Anunciação também não achava que tinha.



— Mas que coisa, isso. As freiras me botavam de castigo, também, mas por que eu vivia conversando, não parava nunca. Tinha uma amiga com quem eu passava o dia todo, e elas viviam implicando, separavam a gente, diziam que era pecado falar tanto.



— Eu não tinha amigas, não; a irmã Anunciação implicava com todas, dizia que eu devia me preparar para o noviciado.



— Por que você não passa por aqui pra gente tomar um café?



— Ok, não estou fazendo nada mesmo!



Por via das dúvidas depilou-se, tomou um banho caprichado e colocou uma calcinha nova.



Marisa Toscana – Escritoras Suicidas


Marisa Toscana, nascida Ferrara, em Pistoia, Italia, em 26/9/1942. Veio para o Rio de Janeiro ainda criança, refugiada da guerra. Casou-se em 1959, aos 17 anos, com o adido cultural de Luxemburgo no Brasil, que faleceu durante a lua-de-mel em Cap d’Antibes. Pintora de talento, participou de exposição coletiva no Museu de Belas Artes, em 1963. Deixou apenas textos inéditos, entre os quais este, pois nem seus amigos mais íntimos sabiam de sua literatura. Suicidou-se em 12 de setembro de 2001, ao saber da morte de seu amante em New York, atropelado na véspera.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Decepção

Suave, serenamente,

Eu hoje acordei poesia.

Passei o meu dia versando você,

Olhava em seus olhos,

Distantes dos meus,

E a cada olhar,

Por demais atento,

Brotavam, em pensamento,

Versos que seriam seus.

Então desejei amar você.

Juntar palavras a te definir.

Mas antes que eu conseguisse

Definir-te em versos,

Com um simples gesto,

Mero falar,

Conseguiste de súbito

Meus versos quebrar

Cida Villela

Poesia

A vida erótica da cidade

concentra-se nas suas zonas

erógenas

Este é o principio dado pelos deuses

gratuitamente Uma fila da cidade

e uma fila do corpo Desde as pontas

dos dedos desde o interior das mãos

até aos túneis de metro os arcos dos viadutos

e as pedras arrancadas com as unhas

das ruas empedradas

Antigamente – diz-me uma voz – o mistério

vivia nos templos Agora

só nos restam

estações e aeroportos

Nos cruzamentos

acendem-se semáforos

vermelhos

Um amigo

com uma covinha encantadora

no queixo

repara

cada situação

interpessoal

pode converter-se numa situação

erótica

A rua afoga-se

e morre de enfarte


Bohdan Zadura

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

TANGO BAR

(...)



A simpatia dele pelo diabo

é o ninho de minha antipatia.

Assusta-me e aborrece-me

tudo o que está mal

no bom sentido

da palavra. Pecado,

pecado seria então

segui-lo tão longe

quando jura e perjura

que estamos perto.

Mamãe, papai, fui

com este mauzinho crioulo

e na cruz de seu poncho

me dei por perdida.

Será possível que em minha religião

sozinha

atrás de um homem

eu sempre sinta frio?



(...)

Odeio Buenos Aires.

Sua luz débil engrandece

a vagueza

desses versos que sequer são

letras de tango.



Que fique como ódio

toda intenção de dizer

"minha cidade"

no condensado cansaço de sua luz

eu já não escrevo

nem me seduz

a pobre alma de seus bairros

vago sem nenhum tipo

de sentimento

passeio insensível

por esta noite de lápis

por esta umidade que me adormece

a resma de papel.



(Melhor em minha casa

E desligo o rádio.)

Que a música vá silenciosa

e as palavras não consigam

apagar o amargo.

É um dizer.

Durmo melhor

com a gravura na mão

a tenho como um postal na cabeça

toda iluminada

enrugo o obelisco no fundo

e rezo pra mim por você

minha Buenos Aires.

querida.



(...)

Outra vez no bar das mulheres

tomo o cálice do esquecimento.

"O tango é macho"

cantam minhas amigas

mas como o tango

elas são musas tristes

ou vêm

como bonecas murchas.

E a julgar por mim

(tão esquecida de mim!)

não sei se nós agora

formamos uma orquestra

de senhoritas

ou se são eles os rapazes de antes

o que agora tocam de ouvido

nosso repertório

enquanto nós

antes de esgotar o copo

já cantávamos mal.



(...)

Nesta agenda morta

com horas dispensadas

de sua própria obriga

releio o que não escrevi

as linhas de janeiro desertas

a ordem alfabética

1993 em uma filigrana dourada

até as margens da citação

caminho com vocês sentadas

esperando-me.



TAMARA KAMENSZAIN nasceu em Buenos Aires em 1947, onde vive. Publicou De este lado del Mediterráneo (1973), Los no (1977), La casa grande (1986), Vida de living (1991); Tango bar (1998) e El ghetto (2003); e os ensaios El texto silencioso (1976), La edad de la poesia (1996) e Historias de amor (2001).

Poema de Tamara Kamenszain
Tradução: Ronaldo Cagiano


Fonte:Jornal  O Rascunho.Agosto de 2010
Poema 5



Há dezessete meses grito,

chamando-te de volta para casa.

Já me atirei aos pés de teu carrasco.

És meu filho e meu terror.

As coisas se confundem para sempre

e não consigo mais distinguir, agora,

quem a fera, quem o homem,

e quanto terei de esperar até a tua execução.

Só o que me resta são flores empoeiradas

E o tilintar do turíbulo e pegadas

Que levam de lugar nenhum a parte alguma.

E bem nos olhos me olha,

com a ameaça de uma morte próxima,

uma estrela enorme.


Anna Akhmatova,
Lauro Machado Coelho

domingo, 23 de janeiro de 2011

"O Nosso"

devo

chegar com meus lábios

aos seus olhos iluminados



e então hei de me surpreender com as veias pulsando de

leve,

suboculares,

e hei de compreender: é por causa de sua transparência

e de seu incorpóreo

que são assim claros e doentes

esses olhos ligeiramente trêmulos



e eu hei de amá-la com minhas mãos e meus lábios,

com o silêncio, o sono e as ruas dos meus versos

com a mentira - para o Estado

com a verdade - para a vida.

Guenádi Aigui


*tradução Boris Schnaiderman

NUVENS

Nesta

aldeia de ninguém

trapos indigentes nas cercas —

teréns de ninguém.



E sobre elas nuvens de ninguém,



e adiante — anúncios sobre a infância:

crianças esquálidas, bravias;



e música sobre o nu

de mulheres hunas e citas;



e aqui, no leito, ao rés dos olhos,

algures, junto a pestanas úmidas,

alguém morria e chorava,



enquanto eu compreendia

de uma vez por todas — era



minha mãe.



1960



Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

Para falar de poesia

Falar de poesia é falar do nada

ou possivelmente de algumas raias externas

(onde a língua se devora)

discernindo ou determinando um desejo

penetrar este nada, uma lei, um olho

para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada

Impossível !

A morte não pode ser trocada por outra coisa.

Sinceridade – é o processo insaciável

de transição, de flutuação, em sentido oposto,

ou seja, eu-te-amo-não-te-amo

desaparece à beira da consciência



Não há mais tempo para a expressão

Eliminada pela simultaneidade

Onde achar um homem dançando como uma vela?

Escute, como o segundo milênio

a água avança sobre as margens – algas

A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés

seus quadris e ombros expostos



Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene

noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo

O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda

atraía mariposas do escuro.

O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,

revelando os traços honestos da matéria,

pálpebras rasgadas.

Uma tela e letras, esta é a estória,

arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima

de mariposas,

a descrição da noite aparece. Os ramais

do jardim pegam fogo,

campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,

entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!

O que mais dizer?

Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio

abrindo-se, como um arco,

cuja corda está corroída

pelo silêncio.

Arkadii Dragomoshchenko



Tradução: Régis Bonvicino

sábado, 22 de janeiro de 2011

Nós já vivemos a Idade Média.Agora estamos vivendo a "Idade Mídia".Significa que a imprensa ultrapassa sua dimensão informativa para incorporar a analítica, a investigativa e a denunciativa, no que tem o respaldo da constituição.
Juíz Carlos Ayres Brito
A história de uma criança que desenhou uma galinha com três pernas.

"E a professora disse que a galinha não podia voar perto das nuvens, como se fosse um pássaro, e que nenhum tem três pernas. Aí agarota disse: "Eu sei disso .Porém eu coloquei a terceira perna para dar o impulso".O que eu quis dizer é que precisamos de heterodoxia, de criatividade, de não reproduzirmos as coisas mecanicamente.

juíz Carlos Ayres Brito
"Quando eu via o sol batendo
de chapa no telhado de amianto
eu ficava na dúvida se o telhado
estava batendo ou apanhando ."

juíz Carlos Ayres Brito.
FSP.030907

Outro caso / outro poema

foi mais tarde

quando estávamos no chuveiro

que ela disse

“ainda vais escrever um poema sobre isto”

“sobre o quê?” perguntei

ANOTHER LOVE AFFAIR/ANOTHER POEM

it was afterwards

when we were in the shower

that she said

“you’re gonna write a poem about this”

“about what?” I asked

E. ETHELBERT MILLER


 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A secção dos congelados

Truncadas, indefinidas, passam

na memória como filmes mudos

pequenas histórias de amor

carnal. Os grandes caudais da noite

sempre desaguam na tarde salobra

e rasa: Janeiro amolece a tinta

das paredes, levamos à rua uma cara

mais fechada, e depois, na secção

dos congelados, não sabemos distinguir

o que sentimos além do frio que represa

as coisas todas: caminhamos sós



num privado bosque, convocamos

sombras que foram perdendo o nome,

sinais que não transportam já

um sentido automático de desejo

ou sofrimento. E contudo, à revelia

das certezas que não quiséramos ter,

acabamos sempre por tornar

às mesmas ruas, à noite insone

e imensa, onde nos dói descobrir,

na companhia dos outros,

o quanto nos reclama a solidão.

Rui Pires Cabral