segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
O ano de 2017 foi marcado culturalmente e existencialmente pelo “vão malandros”
O ano de 2017 foi marcado culturalmente e existencialmente
pelo “vão malandros”. Os mais corruptos instalados no poder roubado e com a
contribuição do judiciário, da mídia e da bolsa de valores, a corrupção
reabilitada na República do Nepotismo ! A má malandragem, uma consciência ruim
e infeliz de viver a vida aplicando golpes e rasteiras nos outros, caracteriza
aspectos do comportamento nacional, não os tradicionais malandros e malandras
da música, mas a turma da arte de furtar do ganho fácil, público e privado, do
governo, do legislativo, do judiciário e de ex-militares no Brasil. Nenhuma
sociedade sobrevive sem princípios éticos, sem o domínio da lei para todos e
sem a legitimidade proporcionada somente pela hegemonia do voto democrático da
maioria. O Brasil se converteu em uma caricata republiqueta golpista dirigida
por figuras sombrias e nefastas como Temer, Aécio, Eduardo Cunha, Jucá, Moreira
Franco, Rodriguinho Maia, Padilha, Marun e seus quadrilheiros fisiológicos,
desnacionalizadores, entreguistas nos envergonhados MDB, PSDB e DEM, votófobos,
os que têm medo do voto popular direto. Parte do judiciário golpista
autoritário e lavajateiro está completamente podre e somente uma reformulação
constituinte poderá regenerá-lo, tamanha a podridão na magistratura golpista,
mamando acima dos tetos, advogando para causas plutocráticas e politiqueiras a
serviço das oligarquias golpistas. A crise mental é tão grave que um candidato
presidencial deficiente, que praticamente foi expulso das Forças Armadas, quer
substituir o tradicional Patrono Duque de Caxias por outro patrono, o da
masmorra e da tortura contra mulheres presas, deslustrando e emporcalhando
completamente a missão dos militares na formação brasileira, outro sintoma da
malandragem nepotista institucionalizada por verdadeiros inúteis e que nunca
trabalharam, estudaram ou beneficiaram a maioria com suas míseras existências
nas mordomias do legislativo. O Brasil termina 2017 com essa sofrida ressaca
golpista, aumento do desemprego depois de reforma trabalhista malandra para
beneficiar os mais ricos, reformas de Estado para garantirem os privilégios de
poucos e a exclusão da maioria na educação e saúde. Aumentos dos preços do gás,
combustíveis, energia, passagens, perdas salariais, tudo revela a farsa da
malandragem, desde as fracassadas jornadas de junho de 2013 abrindo as portas
para o golpismo. A mídia desqualificada é outro paraíso para malandros tipo
golpe news, um pego em flagrante de racismo elitizado, como todos seus asseclas
serão desmascarados na arte de manipularem e enganarem os Homer Simpsons
paneleiros e coxinhas dos estratos médios incultos. 2017 fecha com a realização
da meta de malandragem e de falência social dos golpistas cumprida. Não podem
enganar todos o tempo todo. 2018 será um ano da verdade para os destinos do
Brasil. Somente a democracia, eleições livres e com todos candidatos populares,
principalmente Lula, o candidato na frente e crescendo nas pesquisas. Somente o
consenso eleitoral do legítimo voto direto presidencial poderá garantir um
futuro de estabilidade e progresso para todos. Sem democracia resta o caos.
RCO
Um acordo e seis verdades
Autor: José Luís Fiori
Valor Econômico - 26/05/2010
"A mediação bem sucedida de Lula com o Irã alçaria o
Brasil no cenário mundial." O Globo, 16 de maio de 2010, p. 38.
Na terça feira, 18 de maio de 2010, foi assinado o Acordo
Nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã, que dispensa maiores apresentações.
E como é sabido, quarenta e oito horas depois da assinatura do Acordo, os
Estados Unidos propuseram ao Conselho de Segurança da ONU, uma nova rodada de
sanções ao Irã, junto com a Inglaterra, França e Alemanha, e com o apoio
discreto da China e da Rússia.
Apesar da rapidez dos acontecimentos, já é possível decantar
algumas verdades no meio da confusão: 1) A iniciativa diplomática do Brasil e
da Turquia não foi uma "rebelião da periferia", nem foi um desafio
aberto ao poder americano. Neste momento, os dois países são membros não permanentes
do Conselho de Segurança da ONU, e desde o início contaram com o apoio e o
estímulo de todos os cinco membros permanentes. Além disso, as diplomacias
brasileira e turca estiveram em contato permanente com os governos desses
países durante a negociação. A Turquia pertence à OTAN, e abriga em seu
território armas atômicas norte-americanas. E o presidente Lula recebeu carta
de estímulo do presidente Barack Obama, duas semanas antes da assinatura da
visita de Lula, e a secretária de Estado norte-americana declarou - na véspera
do Acordo - que se tratava da "última esperança" de solucionar de
forma diplomática a "questão nuclear iraniana".
2) O que provocou surpresa e irritação em alguns setores,
portanto, não foram as negociações, nem os termos do acordo final, que já eram
conhecidos. Foi o sucesso do presidente brasileiro que todos consideravam
impossível ou muito improvável. Sua mediação viabilizou o acordo, e ao mesmo
tempo descalçou a proposta de sanções articulada pela secretária de Estado
americana depois de sucessivas concessões à Rússia e à China. E, além disso,
criou uma nova realidade que já escapou ao controle dos Estados Unidos e seus
aliados, e do Brasil e Turquia.
3) A reação americana contra o Acordo foi rápida e ágil, mas
o preço que os Estados Unidos pagarão pela sua posição contra esta iniciativa
pacifista será muito alto. Perdem autoridade moral dentro das Nações Unidas e
perdem credibilidade entre seus aliados do Oriente Médio, com a exceção de
Israel, por razões óbvias. E já agora, passe o que passe, o Brasil e a Turquia
serão uma referência ética e pacifista, em todos os desdobramentos futuros
deste contencioso.
4) Existe consenso que a estrutura de governança mundial
estabelecida depois da II Guerra Mundial, e reformulada depois do fim da Guerra
Fria, já não corresponde à configuração do poder mundial. Está em curso uma
mudança na distribuição dos recursos do poder global, mas não se trata de um
processo automático, e dependerá muito da capacidade estratégica e da ousadia
dos governos envolvidos nesse processo de transformação. O Oriente Médio faz
parte da zona de segurança e interesse imediato da Turquia, mas no caso do
Brasil, foi a primeira vez que interveio numa negociação longe de sua zona
imediata de interesse regional, envolvendo uma agenda nuclear, e todas as
grandes potências do mundo. A mensagem foi clara: o Brasil quer ser uma
potência global e usará sua influência para ajudar a moldar o mundo, além de
suas fronteiras. E o sucesso do Acordo já consagrou uma nova posição de
autonomia do Brasil, com relação aos Estados Unidos, Inglaterra e França e,
também, com relação aos países do Bric.
5) O acordo seguirá sendo a melhor chance para prevenir um
conflito militar em todo o Oriente Médio. As sanções em discussão são fracas,
já foram diluídas, não são totalmente obrigatórias, e não atingirão a
capacidade de resistência iraniana. Pelo contrário, se foram aprovadas e
aplicadas, liberarão automaticamente o governo do Irã de qualquer controle ou
restrição, diminuirão o controle norte-americano e da AIEA, acelerarão o
programa nuclear iraniano e aumentarão a probabilidade de um ataque israelense.
Porque os Estados Unidos já estão envolvidos em duas guerras, e não é provável
que a OTAN assuma diretamente esta nova frente de batalha, a despeito do anti-islamismo
militante, dos atuais governos de direita, da Alemanha, França e Itália.
6) Por fim, o jornal "O Globo" foi quem acertou em
cheio, ao prever - com perfeita lucidez - na véspera do Acordo, que o sucesso
da mediação do presidente Lula com o Irã projetaria o Brasil, definitivamente,
no cenário mundial. O que de fato aconteceu, estabelecendo uma descontinuidade
definitiva com relação à política externa do governo FHC, que foi, ao mesmo
tempo, provinciana e deslumbrada, e submissa aos juízos e decisões estratégicas
das grandes potências.
REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA
A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também
como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura
ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura
têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil
futura
peça de museu
o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?
(do livro: "Em alguma parte alguma". autor:
Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
LAPA VERMELHA, LAGOA SANTA
os ossos
varridos
pelas águas
da enxurrada
quietos
no amparo da pedra
esperaram
onze mil e quinhentos anos
até saltarem
em cacos
à luz do dia
— e agora, Luzia,
ainda te lembras
da dor?
(do livro: "Em trânsito". autor: Alberto Martins.
editora: Cia. das Letras.)
SEGUNDA ELEGIA
(Fabrício Carpinejar)
Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência há uma reserva de indigência,
a volúpia dos restos.
Parto em expedição para provar que já morri.
E escavo boletins, cartas e álbuns
— o retrocesso da minha letra ao garrancho.
O passado tem sentido se permanecer desorganizado.
A verdade ordenada é uma mentira.
O musgo envaidece as relíquias. Os dedos retiram as teias,
assisto à revoada de insetos das ciladas.
Fujo da claridade, refulge a poeira.
O par de joelhos na imobilidade de um rochedo.
Reviso o testamento alisando a textura,
como um gramático da seda.
Desvendo o que presta pelo som do corte.
O que ansiava achar não acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.
O que fiz cabe numa caixa de sapatos.
Colecionava talhos de madeira, bonecos
adornados com a ponta miúda do canivete.
Lá estava um dos sobreviventes, desfocado,
vizinho das medalhas escolares
e dos parafusos condoídos de ferrugem.
Um autorretrato não seria tão fidedigno.
Eu era aquela frincha de chão florido, casca e húmus.
Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?
E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.
Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.
O porão tem vida própria e respira
o que jogamos fora.
O que refugamos na ceia volta a nos mastigar.
Tudo pode fermentar: o forro, os passos, o odor do braço.
Tudo pode nascer sem o mérito do grito,
no murmúrio ou estalar do abraço.
Tudo pode nascer, ainda que abafado.
Daqui ninguém sai vivo
Rimbaud, em carta a Paul Demeny:
um poeta torna-se um sonhador através de um longo, ilimitado
e
sistemático desregramento de todos os sentidos. Todas as
formas de
amor, de sofrimento, de loucura; investiga-se a si próprio,
consome
dentro de si todos os venenos e preserva as suas
quintessências. Um
tormento indescritível, onde irá encontrar a maior fé, uma
força sobrehumana,
com que se torna, de entre todos os homens, o grande
inválido, o grande maldito – e o Supremo Cientista! Pois
alcança o
desconhecido! E que interessa se for destruído no seu vôo
extático por
coisas inauditas e inomináveis...*
* HOPKINS, Jerry. & SUGERMAN, Daniel. Daqui ninguém sai
vivo. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p.
29.
O caráter destrutivo
1931
É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida,
verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou,
tenham partido de indivíduos sobre cujo "caráter destrutivo" todo o
mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e
quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de
representar o caráter destrutivo.
O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar
espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro
e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.
O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir
rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda
eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da
raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor
é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica
terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o
grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que
proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A
natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve
adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.
O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem
poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o
lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço
vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai
aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.
O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas
trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o
destruidor precisa cercar-se continuamente de pessoas, de testemunhas de sua
eficácia.
O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal
trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está
exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra
isso.
O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser
compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato
de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos,
assim como o faziam os oráculos - essas instituições políticas destrutivas. O
fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não
querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal
entendido; ele não fomenta o falatório.
O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O
homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da
caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter
destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.
O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos
tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis
e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam
palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.
O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo
histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento
das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma
conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a
confiabilidade em pessoa.
O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso
mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou
montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também
tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes,
com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra
sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo.
Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que
passa através delas.
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida
vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.
Walter Benjamin
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Vomitado
Vomitado de um profundo coma, um
homem acorda. Anos se passaram, constata. E ao olhar o falso calendário, a
medida em que o sentimento de desorientação pesava com maior intensidade, ele
resolveu abandonar sua gaiola sofregamente. Aprontou a máscara e a fantasia,
para poder se proteger do frio dolorosamente real que rondava lá fora. Um
coração apressado regia seus passos intermitentes, ecoando na imensidão daquele
cômodo. Porque escapar já não era mais uma indagação, e sim um imperativo.
Feito isto, ele rodou a chave e abriu a pesada porta enferrujada.
A neblina
cerrava o horizonte, dissuadindo a todos para que permanecessem em suas tocas.
Fora assim por muito tempo. Não se recordava ao certo quando essa imposição
começara; ela transcendia sua vida. Visualizando em cacos o que deveria ser um
lago congelado, ele não hesitou em abandonar o asfalto e pisar na terra, abaixo
do gelo. Onde estão as estrelas. Logo lá. Os homens daqui já não as enxergam, e
aqueles que dispõem do tesouro de observá-las já não dão a mínima. Os olhos não
vêem, e o coração não sente. Vagando por um tempo indeterminado, os pés
conspiravam em doer. Há
quanto tempo não andava no mundo real? Andara antes. Não, retire isso. Você não
andava – se deixava levar. Um galho na relva prenunciava o bosque à frente,
convidativo, porém inexplorado.
Escondido
nos grotões da mata interior, ele compreendeu que toda sua vida tinha sido um
erro. Desprovida de qualquer um propósito. Não havia fé, nem amor capazes de
salvá-la. O mundo muito menos. Uma quietude extrema o apossou, como se todos
seus átomos clamassem por aquela constatação. E de maneira inusitada, o
reconhecimento de não se ter um propósito virou um propósito. Uma lúcida
filosofia, dessas que se agarram a uma vida como um filho à mãe, recompensando
serenidade.
Depois de
demasiado sofrimento, ele enfim se tornara homem. Um homem banal, aquele ao
qual ele tanto relutara ser? E a paz ele alcançara, algo inexistente até então.
Mas quem sabe sofrer fosse a fatalidade do pensar? Quem sabe viver como animal
é a maior dádiva de Deus. Somente a Ele cabe a permanência, ao homem resta
apenas conformar. Dar forma ao presente, como homem e apenas homem. Cabia a ele
escolher entre o sofrimento da não-verdade ou a resignação da verdade. Eis a
questão. E sim, era essa consciência que caracterizava o homem.
Viver é
experimentar o que não se gosta, satisfazer com o insensato. É dirigir sem
pensar. Movimento, velocidade constante, incessante. Chama que se apaga.
Efeméride efêmera. Angústia sem fim, ingratidão para quem vive.
E-X-P-L-O-D-I-R
- ele tinha convicção de que despedaçaria em incontáveis recortes do cotidiano,
fadados à repetição aleatória.
Desculpem,
mas a verdade foi feita para ser dita. E a verdade os salvará.
Gustavo Delaqua
O velho homem e o jovem cão
O cão puxa para a frente e o homem para trás
É uma luta tenaz
O cão re-intenta
O homem agüenta
O cão repuxa
O homem quer matar o cão
Mas não pode
Há sempre uma testemunha de cão na proximidade
O cão ladra uma ordem
O homem não ouve
O cão re-ladra
O homem pragueja por entre os bigodes cozidos
O cão enrabicha os pés do ancião
E com ar de quem não quer a coisa
Olhando para um lado que não é lado algum
Mija-lhe nos sapatos abertos e sem meia
O homem re-pragueja e o cão re-ladra
O homem quer re-matar o cão
Mas há sempre uma testemunha de cão que espreita
O homem continua com o cão na ponta da corda
Sem ter tempo de tirar uma fumaça dum três-vintes moderno
O cão puxa pelo homem e o homem puxa pelo cão
Entre os dois só uma distância, uma corda que era pequena
quando saíram de casa
Uma corda que se esticou, esticou; e tanto esticou e re-esticou
Que o homem não viu mais cão no fim da corda
O cão tinha virado á esquerda e o homem à direita
Um carro tinha cortado a agulha magnética
Ouvia-se ao longe um cão chorar com saudades do dono
Via-se de perto o velhote finalmente tirar uma fumaceira do
cigarro diário; e rir-se dos estragos do seu estranho cão
Entretanto uma moto com alguém em cima matou o cão
Os bombeiros levaram o ex-cão para o cemitério dos cães.
Alguém seguiu a corda que estava no pescoço do cão; e
encontraram o velho que se extasiava com a mínima nuvem de nicotina
Um policia levou o ancião para o asilo dos velhotes
Ele seguiu a autoridade mas pediu que deixa-se levar a corda
na mão
O policia perguntou o porquê!
O velho retorquiu um, porque não!
Mesmo assim foi para o asilo-prisão
No dia seguinte foi encontrado pendurado na corda
E na ponta estava o cão silenciosamente olhando para o dono
Era um jovem cão que amou um velho dono
Que partiu para a eternidade com ele
Como se fosse um porta-chaves.
Antanho Esteve Calado
CARTA DE UM FETO DROGADO
ABORTA-ME
JA IMPLORA O FETO
QUE FUMA,
QUE JA BEBE,
QUE JA E DROGADO!
DA MÃE?
NÃO OUVI SUA VOZ
APENAS DELIRIOS
APENAS,
LOUCAS SENSAÇÕES
JA SABE OQUE É SOLIDÃO
JA LUTA,
CONTRA UMA CRONICA DEPRESSÃO
TENTA O SUIÇIDIO
JA QUE O ABORTO
NÃO LHE FOI ATENDIDO
TENTA SE AFOGAR NA BOLSA, É NADA!
TENTA ENTÃO,
SE INFORCAR,
NO PROPRIO CORDÃO UMBILICAL, SEM SUCESSO.
AGONIZANTE NOVE MESES!
E NASCE A CRIANÇA
QUE A MÃE NÃO CONHECE
JA SEM ESPERANÇA
TENTA ENTÃO! SOBREVIVER...
E JA CRESCE
JA NÃO QUER FUMAR
JA NÃO QUER BEBER
MUITO MENOS SE DROGAR
QUER APENAS VIVER
SEM A SOLIDÃO, DOS NOVE MESES.
SEM A DEPRESSÃO, QUE O ATORMENTAVA.
AGORA ELE QUER PAZ!
NO BERÇO,
ERGUE OS BRAÇINHOS PRA DEUS
E FAZ SUA PRIMEIRA ORAÇÃO
PAI,
OLHAI-ME
MANDAI TEUS QUERUBINS, SERAFINS
ANJOS E ARCANJOS
E QUE ELES POSSAM,
CUIDAR DE MIM.
OBRIGADO PAI, AMÉM. AH!
A NOSSA SENHORA
MÃE DAS MÃES
PROTEGEI-A,
ESSA QUE E MINHA MÃE
E QUE ELA TAMBÉM POSSA VE-LA.
NA LUZ,
QUE EU ENCONTREI, AMÉM.
Carlos Alberto da Silva
através da vidraça
chove... a vida
embaça a
vidraça: nem mesmo a
sensação de que
tudo passa
calha... ai, agora
é uma lágrima!
Adriano Nunes
Desalento
Caminha pela rua,
Calçada, de pedras frias
Como frios
São os seus sentimentos.
Vai em busca do impossível,
Encontra o vazio da esperança.
Nada!
Desalento
Numa vida triste
Sem sentido.
Até o sol
Lhe nega o brilho
Da sua luz,
Neste dia pálido,
Mas continua,
Inexorável.
É envolvido por flores
Da alegria.
Sorri,
Sorriso tímido,
Descrente.
As folhas das árvores
Roçam-lhe o rosto,
Querendo estimulá-lo
Para a vida
Caminha...
Cansado, pára
Pensa,
Reflecte
E volta a ter fé
Para continuar a lutar,
Pela felicidade.
José Carlos Moutinho In “Cais da Alma”
Se os Tubarões Fossem Homens
Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os
peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir
resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de
alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as
caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências
sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana,
imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa
aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas,
nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guelra dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes
tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a
formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso
e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam
acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro
dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido
se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se
antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E
denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas
inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra
entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos .As guerras seriam
conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que,
entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles
anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais
diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada
peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua
silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o
título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles
naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos
tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelras seriam representadas
como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam
entusiasmados para as guelras dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela,
que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa
para as guelras dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis
pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião.
E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais,
se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre
os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os
que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só
seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais
constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que
deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes
chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e
assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os
tubarões fossem homens.
Na superfície dialética
Na superfície dialética
inacabadas somem na noite
ou pela porta
cada palavra com sintomas metafóricas
uma metralhadora
surge
abro o coração alvo
e pronto sou o alvo.
Na superfície sou uma arvore de idéias
levanto as mãos e digo tudo bem
sou eu melhor amigo
porém louco
todos em mim concordam
e dizem amém
ou assim seja,
pois que seja,
queres a sombra assim mesmo?
Na superfície ás vezes fico cego
e minha alma nada no rio que
a chuva por si fez ,
guerra em mim
na trégua sou meu melhor amigo
na guerra me desconheço
sou um animal no zoológico.
Na profundeza o leilão
é de um só lance,
segue no mergulho?
Ou
desculpas convincentes
encaixam melhor,
decisões sem fé
é estar sozinho.
Massa vigia a massa
até o pão estiver pronto para o forno.
Para que formulas novas
na dialética vence
a superfície intelectual.
Amoras roxas viram brancas
se cego for o sabor será
semelhante silvestre.
Entro no mar e vou para as profundezas
experimentar fatias de mentiras e verdades
até enjoar e descobrir que não sou eu
a realidade
leis do tempo e de fragrância
um incenso
abraçando
o contrario desperto
imerso.
Momento de dizer adeus ao pensamento
na profundeza sem esforço
abandono
num segundo
as horas
sem destino
distintas emoções
avesso dos excessos.
Volto à superfície sem fôlego.
E dizer o que?
ninguém foi comigo
não tenho provas
mas provei
por isso o sorriso.
Nelson Aharon
Coronelagem
aqui na zona leste
coronelado ficou velho
e nem por isso ficou ultrapassado
escreveu não leu, pau comeu por aqui é praticado
e como tudo que passa...volta maquiado
a rua esta cheia de bandidos
é véspera de eleição
ameaça vislumbrante
vote em mim , que eu vou ser bom
bom para quem?
Bom para poucos
só quem faz parte deste clã
engorda os bolsos
os coronel se uniu com a bandidagem
por aqui só tem coronelagem
visitem meu blog
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Soneto
De Eugénio de Castro
Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.
Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente , sem twe convencer,
Enquanto sinto para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.
Sei que jamais hei de possuir-te, sei
Que outro, ditoso como um rei,
Enlaçará teu corpo em flor.
Meu coração no entanto não de cansa:
Amam metade os que amamcom esp´rança,
Amar sem esp´rança é o verdadeiro amor.
síndrome de Ford
Tentei aprender tudo que me ensinaram
mas do pouco que foi dito
foi difícil demais de engolir
quero ir bem além dos horizontes fechados
das mentiras e propagandas enlatadas
dos modismos massificados
fast food, Ford e Hollywood
não tem nada a ver
seus brinquedos não me iludem
sua venda não me cega não!!!
Nenhum punhado de moedas
irá comprar minha mente
nem as promessas vazias
dos santos fabricados
conseguirão comprar minha alma
ninguém me envenena não!!!
corromperam o i ching
do preto e do branco
formaram matizes de um mundo
mudo e acinzentado
mas eu sei bem de que lado estou
vivo em um mundo paranóico
cercado de exércitos, bombas e fome
misérias, fortunas e favelas
lado a lado a razão e a loucura
como o óleo e a água
agitadas na mesma garrafa
paredes invisíveis separam as massas
em tribos e castas, cores e raças
dentro deste mundo cheio de mundos
eu sou o neurótico, passional e inconstante
Lunático, utópico , insano e sonhador
pode ser que eu seja
mas minha alma não esta a venda
enxergo através da venda
e da cortina de fumaça
das linhas de produção de mentalidade.
Elcyr Carreira da Costa
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beijo do vagabundo
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