terça-feira, 6 de dezembro de 2016

poloneses discriminados
Penso que também os poloneses são estigmatizados, são alvo de intolerância e preconceito.
Aqui(Brasil ,Curitiba ) havia mais ,hj não .Expressões como;" Polaco da Barreirinha que só come farinha "(dizendo que são pobres, camponeses e ignorantes ,colonos daquele hoje bairro) ou na europa quando chamavam de "negros virados do avesso "
Mesmo entre os poloneses havia certo senão. expressões como polonaise  (polonês culto, da "slachta") era distinto do campônio "polaco " e as polonesas distintas das "polacas"(judias prostituídas )vindas das aldeias da Rússia, enganadas por falsos casamenteiros(as).atualmente isso saiu de cena.O imigrante é bem visto embora algumas vezes ainda confundam com alemães, lituanos ou "pior" russos. rzz.
Gostaria que a grande família eslava esquecesse o sangue derramado e exercesse o perdão, queimasse numa grande fogueira o ódio e a mágoa.
minha família materna é de origem russa e polonesa.(Incrível)
Vieram do lugar onde é Pererub na Belarus. Meu avô Valentin Kolodycz serviu na cavalaria polonesa e minha avó Evgenia ,nascida , Pleshtshko camponesa.
russos e poloneses se detestam. fruto do cisma do cristianismo, das convulsões políticas de ambos e muito além...mas a alma é a terra, o céu, os campos isso os aproximam embora o russo seja assim...meio sem noção ,o que alegra o diabo ao invadir de quando em vez sua alma distraída de camponês.
Os russos tbm são discriminados também.


1994/ 12/04
Wilson Roberto Nogueira

Kronos devora suas Próprias Sementes



                   Piraí do Sul,Paraná,21052005.

    Resgatando lembranças nas brasas acesas,
    ocultas em cada pranto um lamento de lava,
    lavando a alma,
    marejando marés,
    lacrimejando ácido ondulante em ondas de fogo,
    liquido remorso morrendo em replay na memória.
    Oração de murmúrios,
    algaravia de dores,
    cristais de pontas adamantinas no olhar vítreo.
    Morto de tão vivo.
    Saltando na nuvem o pensamento ,
    vivendo éter eterno na mente,
    eternamente na moldura de mármore da lembrança.

    Sonhos pesando olhos carregados,
    filmes mudos em slowmotion
    que a argamassa desfaz,
    a cada golpe ,
    uma estocada no tijolo da finitude
    A flor plantada na carne inerte ,
    A carne des-mobiliada da alma.
    Cada quadro ou livro,
    baú ou arquivo
    morto.
    Pó etéreo vagando diluído em dezenas de páginas,
    que a memória da vida escreveu.
    Em cada palavra a imagem em carne e sonho.

    Pesadelos são ausências lacunas,
    des-conexão sem a eletricidade de músicas do passado,
    sem explosões ou maremotos,
    calor ou frio,
    a dor da perda a morte real
    acompanha a ausência do não compartilhado.
    A memória é a fonte da vida eterna,
    alma imorredoura,
     argamassa vedando os tijolos sepulta

    Na solidão apenas o esquecimento.
    Esquecimento é suicídio,
    É assassinato.
    Quem lembra sempre não estará só de quem foi,
    Sem jamais ter ido,
    Lavando o rosto da memória  na Lagoa.
    Água do tempo que afoga  no passado para fazer nascer
    O presente.
    Afoga no ventre o fogo de um novo renascer.


Wilson  Roberto  Nogueira.
  Sentimentos vertidos em lágrimas de cada letra, compondo uma melodia de desenganos.
  Amava ele  uma mulher que ,era Mulher de verdade ,ela não tinha  nenhum medo do calor de um abraço,
  E, entregava-se a um cafuné sem perder a segurança de estar entregue aos carinhos de quem gosta e quer
  Caricias .O coração numa dança de corações solitários ,e independentes.
  Desacorrentados da vida vindima de vinagres e beaujolais.
  Escolheu ele a rota rota do desengano,
  Amando em doloroso silencio um monte de gelo esculpido na forma de mulher.
  Mulher com medo do calor de um olhar ,muito mais do que de um contato,
  Sempre fujidia e oculta em si sem jamais se expor.
  Numa palavra o sentimento  ,para que, numa  palavra
  A lava da vida a queime e a soterre.


Wilson Roberto Nogueira

Um para cá; três para lá



De versos, estou vazia. Tão vazia de dar espaço para que eu dance e gire pelo oco de tudo o que sou, de tudo o que me sobrou. Vazio manso de solidão devagar, hoje mesmo sou e talvez eu vá além, para o mundo atrás das grandes e intocáveis coisas. Tudo aqui gira numa plenitude singular e removente; como se assim eu fosse. E dum desses removentes prazeres nasço. Antes de mim mesma e o ar já não me dói.

E as explicações eu já não quero como se suficiente eu fosse, pelos próprios sacrifícios humanos, eu me tivesse tornado suficiente nesse silêncio que está à me dominar. Peço em todos os momentos: deixa-me ser. Assim soturnamente imantada por uma fuga constante que insiste em me deflorar como parte indivisível dessas coisas todas tão maiores que meu corpo. Deixa-me ser assim como deixo-te onde queres, nessa partezinha minúscula de sensatez que lhe basta, como se não me bastasse - e não basta!

Vago pelos jardins flamejantes, estou prestes a saltar num golpe contra o universo e isso também não me dói ou segura meu corpo, como se o fim para coisas sensíveis não existisse e como se assim fosse. Se talvez te basta, você se mantêm como gota do que se é. E minha dor submerge nos segundos mais profundos da alma, nada me basta e aqui no fim, sei que também não mata.

                                     Juliana Vallim


contato: mme.valentina@gmail.com

domingo, 4 de dezembro de 2016



Até prova em contrário, considero primária a posição dos que veem nas ruas uma "invasão" das classes médias situadas à direita. É simplificar algo muito mais complexo e abrangente. É deixar de reconhecer que a democracia atual assume formatos inusitados e demandas de novo tipo, e que as ruas também refletem expectativas sociais ampliadas, muitas das quais abertas à esquerda.

Marco Aurélio Nogueira
Salvo engano, parece haver uma diferença rombuda entre as manifestações de amanhã e aquelas pelo impeachment, que só o observador vitimado pelo efeito bolha não percebe. No impedimento de Dilma, as associações do empresariado caboclo se engajaram pesadamente nas manifestações, postura essa que foi repercutida imediatamente por seus aliados (segmentos da mídia, PMDB, políticos fisiológicos etc.). Agora, não. Só a burguesia cosmopolita (e seus aliados, especialmente na mídia globeleza), ex-esquerdistas ressentidos com o PT, burocratas sem brilho em busca de seus 15 segundos de glória, a cúpula judiciária, e a direita mais desparametrada estão participando das convocatórias, enquanto as classes produtoras estão mais preocupadas com a Chape e com a recuperação da economia brasileira, geração de empregos etc., enfim, com o futuro do Brasil e de sua população e não com seu Passado Assombroso. Vamos ver a força relativa desse povo todo amanhã já que a prova do Pudim está em come-lo, já dizia Bacon. Mas não pense que a arenga vai parar aí. Se não for gente suficiente, a expectativa é de mais vazamentos a jato e prisões espetaculares para estimular a ira pública justiceira, o que evidenciará mais uma vez que os custos da ausência de limites temporais e normativos, bem como do descontrole e da irresponsabilização suspeitas da operação, já estão sendo bem maiores do que seus eventuais benefícios para o Brasil...A ver.


Sergio Soares Braga

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

La jarra de plata


Saliendo del colegio me iba a trabajar a la farmacia Valhalla. El dueño era mi tío, el señor Ed Marshall. Lo llamaba «Señor Marshall» porque todo el mundo, incluida su esposa, lo llamaba así. Con todo, era un hombre simpático.

Tal vez la farmacia fuera un poco anticuada, pero era amplia, oscura y fresca: en los meses de verano no había en el pueblo un lugar más agradable. A la izquierda, según entrabas, había un mostrador con cigarrillos y revistas donde generalmente se encontraba el señor Marshall, un hombre regordete, de cara cuadrada, piel color de rosa y bigotes blancos, viriles, retorcidos en las puntas. Más allá del mostrador estaba la hermosa fuente de soda. Era muy antigua y estaba hecha de mármol fino, color amarillo claro, suave al tacto, sin el menor brillo barato. El señor Marshall la compró en una subasta en Nueva Orleáns, allá por 1910, y estaba sencillamente orgulloso de ella. Cuando te sentabas en aquellos taburetes altos y gráciles te veías reflejado de un modo tenue, como a la luz de las velas, en una serie de espejos antiguos enmarcados en caoba. Todas las mercancías eran exhibidas en cajitas de cristal que parecían vitrinas de anticuario y se abrían con llaves de bronce. En el aire siempre flotaba un aroma a almíbar, nuez moscada y otras delicias.

Valhalla fue el lugar de reunión del condado de Wachata hasta que un tal Rufus McPherson llegó al pueblo y abrió una segunda farmacia, justo en el lado opuesto de la plaza del juzgado. El viejo Rufus McPherson era un villano, es decir, le ganó el negocio a mi tío. Hizo instalar un equipo muy moderno: ventiladores eléctricos, luces de colores, autoservicio y emparedados de queso fundido para llevar. Aunque obviamente hubo quienes se mantuvieron fieles al señor Marshall, la mayoría no pudo resistirse a Rufus McPherson.

Durante un tiempo, el señor Marshall decidió ignorarlo: si mencionabas a McPherson emitía una especie de ronquido, se llevaba los dedos al bigote y desviaba la vista. Pero era evidente que estaba furioso. Y cada vez más. Un día, a mediados de octubre, entré en Valhalla y lo encontré en la fuente de soda jugando al dominó y bebiendo vino con Hamurabi.

Hamurabi era egipcio y más o menos dentista; no tenía muchos clientes porque, gracias a un elemento del agua de aquí, los de estos alrededores tienen unos dientes excepcionalmente fuertes. Pasaba gran parte del tiempo en Valhalla y era el mejor amigo de mi tío. Tenía muy buena pinta: piel morena y sobre dos metros de estatura. Las matronas del pueblo encerraban a sus hijas bajo llave y aprovechaban para mirarlo ellas. No tenía el menor acento extranjero; siempre pensé que era tan egipcio como un marciano.

El caso es que allí estaban, dando cuenta de una enorme jarra de vino tinto italiano; una escena inquietante, pues el señor Marshall era un abstemio consumado. Obviamente pensé: al fin Rufus McPherson le ha hecho perder los estribos. Sin embargo, no era así.

-Ven, hijo -me llamó-, toma una copa de vino.

-Claro -dijo Hamurabi-, ayúdanos a acabarlo. Es comprado; no podemos desperdiciarlo.

Mucho más tarde, cuando la jarra se secó, el señor Marshall dijo, poniéndola en alto:

-¡Ahora veremos! -y así desapareció en la tarde.

-¿Adonde va? -pregunté.

-Ah -fue todo lo que Hamurabi pudo decir. Le gustaba fastidiarme.

Pasó media hora antes de que mi tío regresara. Traía una carga que lo hacía encorvarse entre gemidos. Colocó la jarra sobre la fuente y retrocedió, frotándose las manos, sonriente.

-Y bien, ¿qué les parece?

-Ah -musitó Hamurabi.

-¡Caramba! -dije.

Era la misma jarra de vino, pero maravillosamente distinta, pues ahora estaba repleta de monedas de diez y de cinco centavos que lanzaban un brillo opaco a través del grueso vidrio.

-Es bonita, ¿no? -dijo mi tío-. Me la han llenado en el banco. Las monedas más grandes que han entrado son las de cinco centavos; pero bueno, ahí hay mucho dinero.

-Pero… ¿para qué, señor Marshall? -pregunté-, quiero decir, ¿de qué se trata?

La sonrisa del señor Marshall se transformó en una mueca.

-Es una jarra de plata…

-El tesoro al final del arco iris -interrumpió Hamurabi.

-…se trata, como tú dices, de que la gente adivine cuánto dinero hay ahí. Pongamos que compras por valor de veinticinco centavos; pues ya tienes una oportunidad de adivinar. Cuanto más compras, más oportunidades tienes. De aquí a Navidad voy a llevar todas las apuestas en un libro de cuentas, y el que se acerque más a la cifra se llevará el montón.

Hamurabi asintió con solemnidad.

-Se ha convertido en un Santa Claus astuto -me dijo-. Voy a casa a escribir un libro: El ingenioso asesinato de Rufus McPherson.

A decir verdad, Hamurabi escribía relatos de vez en cuando y los enviaba a revistas. Siempre se los devolvían.

Fue casi milagrosa la forma en que el condado de Wachata se aficionó a la jarra de plata. Valhalla no había dado tanto dinero desde que el pobre Tully, el jefe de estación, se volvió loco y dijo que había encontrado petróleo detrás de la estación, y el pueblo se llenó de perforadores de pozos. Hasta los haraganes del billar, que jamás gastaban un céntimo en algo no relacionado con el whisky o las mujeres, invirtieron sus ahorros en leches batidas. Algunas damas ya entradas en años condenaron públicamente la iniciativa del señor Marshall por considerarla un juego de azar, pero no causaron mayor problema y algunas incluso encontraron un rato libre para visitarnos y aventurar una apuesta. Los de mi clase enloquecieron con el asunto, y yo me hice muy popular entre ellos, pues creían que sabía la respuesta.

-Te diré lo que pasa -me dijo Hamurabi, encendiendo uno de los cigarrillos egipcios que compraba por correo a un estanco de Nueva York-. No es lo que te imaginas, no se trata de codicia. No. Lo que fascina es el misterio. Si ves todas esas monedas no piensas «¡Qué dineral!» sino «¿Cuánto debe haber?». Es una pregunta profunda de verdad; puede significar cosas distintas para gente distinta. ¿Entiendes?

En lo que respecta a Rufus McPherson, ¡vaya si estaba enfurecido! Cuando se hacen negocios se cuenta con la Navidad para obtener buena parte de las ganancias anuales. Ahora estaba más que obligado a encontrar clientes, así que trató de imitar lo de la jarra, pero era tan tacaño que la llenó con monedas de un centavo. También escribió una carta al director de The Banner, el semanario del pueblo, diciendo que el señor Marshall merecía ser «embarrado de brea, emplumado y ahorcado por convertir a niñitos inocentes en apostadores empedernidos y conducirlos al camino del averno». Obviamente fue el hazmerreír del pueblo; no suscitó otra cosa que desprecio. Así, para mediados de noviembre, se limitaba a sentarse en la acera, frente a su farmacia, y mirar con amargura la algarabía al otro lado de la plaza.

Por esa época llegó Appleseed, en compañía de su hermana. Era un desconocido, al menos nadie recordaba haberlo visto antes. Después le oiríamos decir que vivía en una granja a un kilómetro y medio de Indian Branches, que su madre apenas pesaba treinta kilos y que tenía un hermano dispuesto a tocar el violín en cualquier boda a cambio de cincuenta centavos; aseguró que solamente se llamaba Appleseed y que había cumplido doce años (pero Middy, su hermana, dijo que ocho). Tenía el pelo lacio y rubio, un rostro enjuto, curtido por el clima, con ansiosos ojos verdes que miraban de un modo sagaz y penetrante; era pequeño, frágil, y siempre iba vestido del mismo modo: suéter rojo, pantalones de dril azul y botas de adulto que hacían clop clop a cada paso.

Aquel primer día en que entró en Valhalla estaba lloviendo; el pelo se le había aplastado como una gorra sobre la cabeza y sus botas estaban embadurnadas del barro rojizo de los caminos del condado. Fue contoneándose hasta la fuente como un vaquero y Middy le siguió. Yo estaba secando vasos.

-Oí lo de la jarra esa llena de dinero que regalan -dijo, mirándome directamente a los ojos-. Ya que la regalan, nos la pueden dar a nosotros. Me llamo Appleseed; mi hermana Middy.

Middy era una niña triste, muy triste, de rostro pálido y lastimero, bastante más alta que su hermano: un verdadero espárrago. Le habían dejado el pelo color de estopa cortado como un casquete, llevaba un vestido de algodón deshilachado que ni siquiera le cubría sus huesudas rodillas y tenía algún defecto en los dientes que trataba de ocultar presionando los labios como una señora vieja.

-Lo siento -dije-, tienes que hablar con el señor Marshall.

Y así lo hizo. Pude oír cómo mi tío le explicaba lo que había que hacer para ganar la jarra. Appleseed escuchaba con atención, asintiendo de vez en cuando. Finalmente regresó, se puso frente a la botella, la tocó apenas y dijo:

-¿Verdad que es bonita, Middy?

Middy dijo:

-¿Nos la darán?

-Hay que adivinar cuánto dinero hay dentro. Hay que gastarse veinticinco centavos para poder apostar.

-Uy, ¿de dónde vas a sacar veinticinco centavos?

Appleseed encogió los hombros y se rascó la barbilla.

-Eso es muy fácil, déjamelo a mí. Pero no puedo correr riesgos, tengo que saberlo.

Regresaron a los pocos días. Appleseed trepó a un taburete y pidió atrevidamente dos vasos de agua, uno para él, otro para Middy. Entonces fue cuando habló de su familia:

-…y luego está Papi Pa, el padre de mi mamá. Es un francés cajún porque no habla bien inglés. Mi hermano, el del violín, lleva tres veces en la cárcel… por su culpa tuvimos que irnos de Luisiana. Le dio un mal pinchazo a un tío en una pelea a navajazos por una mujer diez años mayor que él. Ella era rubia.

Middy, que estaba a sus espaldas, dijo nerviosa:

-No deberías andar contando nuestros asuntos personales de ese modo, Appleseed.

-Tú te callas -y se calló-. Es muy buena -añadió, volviéndose para darle una palmada en la cabeza-, pero hay que controlarla. Deja de hacer rechinar los dientes y ve a ver los libros de dibujitos. Appleseed tiene que hacer cálculos.

«Hacer cálculos» significó contemplar la jarra fijamente, como si quisiera devorarla con los ojos. La examinó un buen rato, la barbilla apoyada en su mano, sin parpadear una sola vez.

-Una señora de Luisiana me dijo que yo podía ver más cosas que otros porque nací con una vuelta de cordón.

-A que no ves cuánto hay ahí -le dije-. ¿Por qué no dejas que te venga un número a la cabeza? Tal vez sea el bueno.

-No, no -dijo-, es arriesgadísimo. No puedo arriesgarme; solo hay una manera, contar las monedas.

-¡Contar!

-¿Contar qué? -preguntó Hamurabi, que acababa de entrar y se estaba acomodando junto a la fuente.

-Este chico dice que va a contar cuánto hay en la jarra -expliqué.

Hamurabi miró a Appleseed con interés.

-¿Cómo piensas hacerlo, hijo?

-Pues contando -aclaró como algo obvio.

Hamurabi rió.

-Deberías tener rayos X en los ojos, chico. Es todo lo que puedo decirte.

-Qué va. Solo has de nacer con una vuelta de cordón. Me lo dijo una señora de Luisiana. Era una bruja y me quería tanto que cuando mi mamá no quiso dejarme con ella le echó una maldición y ahora solo pesa treinta kilos.

-Qué in-te-re-san-te -comentó Hamurabi, mirándolo con desconfianza.

Entonces intervino Middy mostrando un ejemplar de Secretos de la Pantalla. Le señaló una determinada fotografía a Appleseed y dijo:

-A que es la mujer más guapa del mundo. Mira, Appleseed, mira qué dientes tan bonitos. Ni uno fuera de sitio.

-Ten quietos los tuyos.

Cuando se fueron Hamurabi pidió una naranjada y se la bebió lentamente mientras fumaba un cigarrillo.

-¿Crees que ese chico está bien de la azotea? -preguntó finalmente, con voz intrigada.

Los pueblos son lo mejor para pasar la Navidad; enseguida se crea el ambiente y su influjo los hace revivir. Para la primera semana de diciembre, las puertas de las casas estaban decoradas con guirnaldas y los escaparates relumbraban con campanas de papel rojo y copos de nieve de gelatina centelleante; los chicos iban de excursión al bosque y regresaban arrastrando fragantes árboles de hoja perenne; las mujeres se encargaban de hornear pasteles de fruta, destapar frascos de compota de manzana y pasas, abrir botellas de licor de uva y de zarzamora; en la plaza habían adornado un enorme árbol con celofanes plateados y focos de colores que se encendían de noche; ya entrada la tarde se podía oír el coro de la iglesia presbiteriana ensayando los villancicos para la función anual; en todo el pueblo florecían las camelias japonesas.

La única persona que parecía al margen de esa atmósfera cordial era Appleseed. Insistía en su tarea declarada: contaba el dinero de la botella con sumo cuidado. Iba todos los días a Valhalla a concentrarse en la jarra, frunciendo el entrecejo y farfullando para sí. En un principio esto fue causa de asombro, pero después de un tiempo nos aburría y ya nadie hacía el menor caso. Appleseed no compraba nunca nada, parecía incapaz de reunir los veinticinco centavos.

A veces hablaba con Hamurabi, que le había cobrado afecto y de vez en cuando le invitaba a un caramelo, a una barrita de regaliz.

-¿Todavía cree que está loco? -le pregunté.

-No estoy seguro -dijo Hamurabi-, pero te diré una cosa: no come lo suficiente. Le voy a pagar un plato de carne asada en el Rainbow.

-Seguramente él le agradecería más que le diera veinticinco centavos.

-No. Lo que necesita es un plato de carne. Sería mejor que no se hubiera propuesto adivinar nada. Un chico tan excitable, tan raro… No me gustaría ser el responsable de que pierda. Sería de verdad una lástima.

Debo admitir que en aquel tiempo Appleseed solo me parecía extravagante. El señor Marshall le tenía compasión y los chavales habían tratado de burlarse de él, pero se dieron por vencidos al ver que no reaccionaba.

Que Appleseed estaba allí, sentado en la fuente de soda con el rostro arrugado y los ojos siempre fijos en la jarra, era algo tan claro como el agua, pero se abstraía tanto que en ocasiones causaba la macabra impresión de, bueno, de no estar allí. Y apenas sentías esto, despertaba para decir algo como «¿Sabes?, ojalá ahí dentro haya una moneda con búfalo, de las de 1913; un tipo me dijo que sabe un sitio donde las monedas con búfalo valen cincuenta dólares», o «Middy será toda una estrella de cine; las estrellas de cine ganan mucho dinero, nunca más volveremos a comer col verde. Pero Middy dice que mientras sus dientes no sean bonitos no podrá hacer películas».

Middy no siempre lo acompañaba. En esas ocasiones en que iba solo, Appleseed no era el mismo; se comportaba con timidez y se marchaba pronto.

Hamurabi mantuvo su promesa y le invitó a un plato de carne asada en el café.

-Mr. Hamurabi es muy bueno -diría Appleseed-, pero tiene unas ideas raras; se cree que si viviera en ese sitio, Egipto, sería rey o algo así.

Y Hamurabi dijo:

-El chico tiene la fe más conmovedora del mundo, es una maravilla verlo, pero todo este asunto empieza a hartarme -hizo un gesto señalando la jarra-. Es cruel despertar esa clase de esperanza en cualquier persona, y me arrepiento de haber tenido que ver en ello.

El pasatiempo más popular relacionado con Valhalla consistía en decidir lo que uno haría si ganaba la botella. Entre los involucrados en esto se encontraban Solomon Katz, Phoebe Jones, Carl Kuhnhardt, Puly Simmons, Addie Foxcroft, Marvin Finkle, Trudy Edwards y un hombre de color llamado Erskine Washington. Algunas de las respuestas: un viaje a Birmingham para hacerse la permanente, un piano de segunda mano, un pony Shetlan, un brazalete de oro, una colección de libros Rover Boys y un seguro de vida.

En una ocasión, el señor Marshall le preguntó a Appleseed qué compraría.

-Es un secreto -contestó. No había súplicas suficientes para hacerle hablar, pero fuera lo que fuese, era obvio que lo necesitaba muchísimo.

En esta parte del país el verdadero invierno no llega hasta fines de enero, y suele ser bastante moderado y corto. Pero en el año del que escribo, recibimos las bendiciones de una ola de frío una semana antes de Navidad. Hay quienes todavía hablan de eso, tan terrible fue: las tuberías se congelaron; muchos tuvieron que pasar días enteros acurrucados bajo sus edredones por no haber recogido leña a tiempo; el cielo cobró ese extraño tono gris opaco que precede a las tormentas y el sol era más pálido que una luna evanescente; un viento afilado hacía que las ramas, secas desde el último otoño, cayeran a pedazos en el suelo helado, y en dos ocasiones el pino de la plaza del juzgado perdió sus adornos navideños; respirabas y el vaho formaba nubes humeantes.

En las afueras donde vivía la gente pobre, cerca de la hilandería, las familias se apretujaban por las noches y contaban cuentos para olvidarse del frío. En el campo los granjeros cubrían sus plantas delicadas con sacos de yute y luego rezaban. Algunos aprovecharon el clima para sacrificar sus cerdos y llevar al pueblo salchichas frescas. El señor R. C. Judkins, nuestro borracho local, se disfrazó con un traje rojo e hizo de Santa Claus en un almacén. Judkins era padre de una familia numerosa, de modo que todos se alegraron al verlo suficientemente sobrio para ganarse un dólar. Hubo muchos actos en la parroquia, y en uno de ellos el señor Marshall se encontró frente a frente con Rufus McPherson. Hubo intercambio de palabras pero no de golpes.

Como ya dije, Appleseed vivía en una granja, a kilómetro y medio de Indian Branches, es decir, estaba a unos cinco kilómetros del pueblo. Sin embargo, a pesar del frío, iba a Valhalla todos los días y se quedaba hasta la hora de cerrar, cuando ya era de noche, pues los días se habían vuelto más cortos. En ocasiones se iba con el capataz de la hilandería, pero eso sucedía rara vez. Se le veía cansado, tenía arrugas de preocupación en las comisuras de la boca; siempre tenía frío y temblaba mucho; no creo que usara ropa de abrigo bajo el suéter rojo y el pantalón azul.

Tres días antes de Navidad anunció de improviso:

-Bien, ya he terminado. Sé cuánto hay en la botella.

Lo dijo de forma tan absolutamente segura y solemne que era difícil ponerlo en duda.

-¡Cómo! ¿A ver? No, espera un momento, hijo -Hamurabi estaba presente-. Es imposible que lo sepas, te equivocas si lo crees: solo tendrás un disgusto.

-No me sermonee, Mr. Hamurabi. Sé lo que me hago. Una señora de Luisiana me dijo…

-Sí, sí, sí, pero debes olvidarlo. Yo que tú me iría a casa, me estaría tranquilo y me olvidaría de la maldita jarra.

-Esta noche mi hermano va a tocar el violín en una boda en Ciudad Cherokee y me va a dar el dinero -dijo con terquedad Appleseed-. Mañana apostaré.

Cuando Appleseed y Middy llegaron al día siguiente, me sentí emocionado. Tenía, en efecto, la moneda de veinticinco centavos cosida al pañuelo rojo que llevaba en la cabeza. Deambularon ante las vitrinas, tomados de la mano, intercambiando murmullos para ver qué adquirían. Finalmente se decidieron por una botella de loción de gardenia del tamaño de un dedal. Middy la abrió de inmediato y vació en su pelo casi todo el contenido.

-Huelo como… ¡Virgen María, no había olido nada tan dulce! Appleseed, déjame ponerte un poco en el pelo.

Pero él no se dejó.

El señor Marshall sacó la libreta donde llevaba las apuestas; mientras tanto, Appleseed trepó a la fuente y acarició la jarra. Sus ojos brillaban y sus mejillas estaban rojas de excitación. Casi todos los que estaban en Valhalla se le acercaron. Middy se quedó al fondo, en silencio, rascándose una pierna y oliendo la loción. Hamurabi no estaba.

El señor Marshall lamió la punta de su lápiz y sonrió:

-Bueno, hijo, ¿qué dices?

Appleseed respiró hondo.

-Setenta y siete dólares y treinta y cinco centavos -exclamó.

Era original escoger una cifra tan irregular; normalmente las apuestas eran cifras redondas. El señor Marshall repitió la cifra solemnemente mientras la anotaba.

-¿Cuándo sabré si he ganado?

-En Nochebuena -dijo alguien.

-Es mañana, ¿no?

-Sí, claro que sí -dijo el señor Marshall, en tono neutro-. Ven a las cuatro.

Por la noche el termómetro descendió aún más, y hacia la madrugada hubo una de esas lluvias rápidas que parecen tormentas de verano; así, el día siguiente amaneció despejado y muy frío. El pueblo parecía la tarjeta postal de un escenario nórdico, con carámbanos que brillaban blanquísimos en los árboles y flores de escarcha que cubrían todas las ventanas. El señor R. C. Judkins se levantó temprano, sin motivo aparente, y recorrió las calles haciendo sonar una campana para la cena; de vez en cuando se detenía a tomar un trago de la pinta de whisky que llevaba en el bolsillo. Como no hacía viento, el humo se alzaba perezoso en las chimeneas hacia un cielo todavía congelado, quieto. A media mañana el coro presbiteriano estaba en pleno apogeo y los chicos del pueblo (con máscaras terroríficas, como en Halloween) se perseguían incansablemente alrededor de la plaza con tremendo alboroto.

Hamurabi llegó al mediodía para ayudarnos a arreglar Valhalla. Había comprado en el camino una rolliza bolsa de castañas que comimos entre los dos, arrojando las cáscaras a una estufa barrigona recién instalada en medio de la sala (un regalo que el señor Marshall se había hecho a sí mismo). Entonces mi tío cogió la jarra, la limpió bien y la colocó en una mesa situada en un lugar prominente. Después no fue de gran ayuda, pues se pasó horas atando y desatando una raída cinta verde en torno a la jarra. Hamurabi y yo tuvimos que hacer lo demás: fregamos el suelo, limpiamos los espejos y las vitrinas y colocamos guirnaldas verdes y rojas de papel crepé de pared a pared. Cuando terminamos, el local tenía un aspecto sumamente refinado y elegante, pero Hamurabi contempló nuestra obra con tristeza y dijo:

-Bueno, creo que es mejor que me vaya.

-¿No te quedas? -preguntó el señor Marshall, muy asombrado.

-No, no -dijo Hamurabi, negando con la cabeza-. No quiero ver la cara de ese niño. Estamos en Navidad y tengo intenciones de pasar un rato alegre; no podría con eso en la conciencia. ¡Diablos!, no podría ni dormir.

-Como quieras -dijo el señor Marshall, encogiéndose de hombros, pero era obvio que estaba ofendido-. Así es la vida y, quién sabe, tal vez gane.

Hamurabi suspiró desolado:

-¿Cuánto ha dicho?

-Setenta y siete dólares con treinta y cinco centavos -dije.

-Es fantástico -Hamurabi se sentó en una silla junto al señor Marshall, cruzó las piernas y encendió un cigarrillo-. Si hay chocolates Baby Ruth me comería uno, tengo la boca amarga.

Nos quedamos los tres en la mesa, y a medida que avanzaba la tarde nos fuimos sintiendo cada vez más tristes. Apenas cruzamos palabra. Cuando los chicos se alejaron de la plaza del juzgado el único sonido provino del reloj que tañía las horas en el campanario. Valhalla estaba cerrado, pero la gente no dejaba de pasar ni de asomarse por el ventanal. A las tres el señor Marshall me dijo que abriera la puerta.

En veinte minutos el sitio quedó atestado. Todo el mundo iba endomingado y el aire se impregnó de un aroma dulce, pues las chicas de la hilandería se habían perfumado con vainilla. Había gente apoyada en la pared, subida a la fuente, apretujada como podía; pronto la multitud se extendió a la acera y la calle. La plaza estaba circundada de camionetas y Fords modelo T en los que habían venido los granjeros y sus familias. Menudeaban las risas, los gritos, las bromas (algunas damas se quejaron de las groserías y los burdos modales de los muchachos, pero nadie se fue). En la entrada lateral había un grupo de gente de color; parecían ser los más divertidos.

Todo el mundo trataba de sacarle el mayor provecho al acontecimiento, y es que aquí todo está siempre tan tranquilo: no suelen pasar cosas. No me equivoco si digo que todo el condado de Wachata estaba presente, salvo los inválidos y Rufus McPherson. Entonces busqué a Appleseed y no lo encontré por ningún lado.

El señor Marshall se abrió paso y dio una palmada de atención.

Esperó hasta que se hizo el silencio y el ambiente estuvo apropiadamente tenso, alzó la voz como un subastador y dijo:

-Escuchen todos, en este sobre que ven en mi mano -sostenía un sobre manila sobre su cabeza-, bien, ahí está la respuesta que hasta ahora solo conocen Dios y el First National Bank, ja, ja, ja. Y en este libro -lo alzó con la otra mano- tengo escritas sus apuestas. ¿Alguna pregunta? -un silencio absoluto-. Bien. Veamos, necesitaríamos un voluntario…

No hubo alma que se moviera un centímetro, fue como si una espantosa timidez se apoderara de la multitud, incluso los más fanfarrones del lugar se limitaron a arrastrar los pies, intimidados. Luego una voz aulló. Pertenecía a Appleseed:

-Déjenme pasar… apártese, por favor, señora -Appleseed empujaba desde atrás. A su lado iban Middy y un muchacho larguirucho de ojos soñolientos, el hermano violinista, evidentemente. Appleseed iba vestido igual que siempre, pero se había frotado hasta hacer que su cara cobrara una rosácea pulcritud. Tenía las botas lustradas y el pelo peinado hacia atrás y engominado.

-¿Llegamos a tiempo? -jadeó.

Pero el señor Marshall dijo:

-¿Conque tú deseas ser el voluntario?

Appleseed lo miró perplejo; luego asintió vigorosamente.

-¿Alguien tiene algo en contra de este joven?

Como hubo absoluto silencio, el señor Marshall dio el sobre a Appleseed, quien lo aceptó con tranquilidad. Se mordió el labio interior mientras lo examinaba un momento antes de rasgarlo.

A no ser por una tos ocasional o por el suave tintineo de la campana para la cena del señor R. C. Judkins, ningún sonido perturbaba la congregación. Hamurabi se apoyaba en la fuente, mirando al techo; Middy estaba embobada mirando por encima del hombro de su hermano; cuando este empezó a abrir el sobre dejó escapar un sofocado gritito.

Appleseed sacó una hoja de color rosa, la sostuvo como si fuera muy frágil y murmuró para sí mismo el mensaje escrito.

De repente, su rostro empalideció y las lágrimas brillaron en sus ojos.

-Vamos, muchacho, ¡habla! -exclamó alguien.

Hamurabi se adelantó y casi le arranca la hoja. Carraspeó y comenzó a leer hasta que su expresión cambió de la manera más cómica.

-¡Válgame Dios…! -dijo.

-¡Más fuerte!, ¡más fuerte! -exigió un coro molesto.

-¡Ladrones! -gritó furioso R. C. Judkins, que para entonces ya estaba bien entonado-, él olerá a gloria, pero yo huelo una rata.

Súbitamente el aire se llenó de silbidos y abucheos.

El hermano de Appleseed se volvió con el puño en alto:

-A callar. A callar antes de que les parta la cabeza y les salgan chichones del tamaño de un melón, ¿entendido?

-¡Ciudadanos! -gritó el alcalde Mawes-, ciudadanos, escúchenme, estamos en Navidad…

El señor Marshall subió a una silla y se puso a patear y dar palmadas hasta que se restableció un mínimo de orden. Cabe señalar que después se supo que Rufus McPherson había pagado a R. C. Judkins para que iniciara el revuelo. De cualquier forma, contenido el alboroto, aquel sobre quedó nada menos que en mi poder. Cómo, no lo sé.

Sin pensar, grité:

-Setenta y siete dólares con treinta y cinco centavos.

Naturalmente, la emoción hizo que yo mismo tardara en captar el sentido de mis palabras. Al principio solo era un número, pero el hermano de Appleseed lanzó un alarido triunfal y entonces me di cuenta. El nombre del ganador se propagó con rapidez, seguido de una llovizna de murmullos de admiración.

Daba lástima ver a Appleseed; lloraba como si estuviera herido de muerte, pero cuando Hamurabi lo alzó en hombros para que lo viera la multitud, se secó los ojos con las mangas del suéter y empezó a reír. R. C. Judkins gritó:

-¡Tramposo! -pero fue ahogado por una ensordecedora ronda de aplausos.

Middy me tomó del brazo.

-Mis dientes -musitó-, ahora sí que voy a tener dientes.

-¿Dientes? -dije, un poco aturdido.

-De los falsos -dijo ella-. Es lo que compraremos con el dinero, una hermosa y blanca dentadura postiza.

Pero en aquel momento solo me interesaba averiguar cómo lo había sabido Appleseed.

-Dime… -le dije a Middy, desesperado-, por Dios bendito, dime cómo sabía que eran setenta y siete dólares con treinta y cinco centavos, exactos.

Middy me dirigió una mirada extraña.

-Vaya. Si ya te lo dijo él -respondió muy seria-. Contó las monedas.

-Sí, pero ¿cómo?, ¿cómo?

-¡Caray!, ¿es que no sabes contar?

-¿Y no hizo nada más?

-Bueno -dijo, después de un momento de reflexión-, también rezó un poquito -se dirigió hacia la puerta, luego se volvió y gritó-: Además, nació con una vuelta de cordón.

Y eso fue lo más cerca que estuvo nadie de resolver el misterio.

A partir de entonces, si uno le preguntaba a Appleseed: «¿Cómo lo hiciste?», sonreía de un modo extraño y cambiaba de tema. Muchos años después se mudó con su familia a algún lugar de Florida, y no se volvió a saber de él.

Pero en nuestro pueblo su leyenda florece todavía. El señor Marshall murió en abril pasado. Cada año, por Navidad, la escuela baptista le invitaba para que contara la historia de Appleseed en la clase de religión. En una ocasión, Hamurabi escribió a máquina una crónica y la envió a varias revistas. No se la publicaron. El director de una de ellas le escribió: «Si la chica se hubiera convertido en estrella de cine, tal vez su historia tendría interés.» Y esto no fue lo que sucedió, así que ¿para qué mentir?

FIN

“Jug of Silver”, 1945

TRUMAN CAPOTE


Biblioteca Digital Ciudad Seva

sábado, 26 de novembro de 2016

AGRONEGÓCIO E A MORTE DA AMAZÔNIA


por Leão Serva

É comum ver nos discursos de empresários e políticos o pensamento ufanista sobre as maravilhas de nosso agronegócio, dizendo que a produção brasileira "alimenta o mundo" e que nosso gado é "verde". É um discurso que lembra a propaganda do Brasil Grande, de triste memória, e tenta pôr uma grande sujeira para baixo do tapete.
Os estrangeiros já sabem: nossa exploração agrícola, soja à frente, já destruiu 4 de cada 10 hectares de cerrado. Nesse ritmo, esse ecossistema estará extinto em 20 anos. Não é à toa, visto que o nosso gado tem a pior produtividade do mundo: uma vaca ocupa, para engordar, um hectare de terra, cada vez mais frequentemente roubado à Amazônia. Com os mesmos metros quadrados, um agricultor europeu produz alimentos nobres e caros, para alimentar e enriquecer seres humanos. Enquanto isso, nossa soja alimenta porcos na China.
Se computarmos o dano irreversível ao meio ambiente, bem público que destrói com a devastação da terra, e o somarmos aos subsídios e às generosas rolagens de dívidas dos grandes produtores, o cálculo revelará um agronegócio insustentável. Em vez de alimentar o mundo e enriquecer os brasileiros, ele se tornou uma destrutiva usina de insumo industrial barato.
É um modelo que ameaça (ao invés de garantir) o objetivo de dobrar a produção mundial de alimentos em 35 anos para receber 2 bilhões de novas bocas. Para fazer sua parte, alimentar os brasileiros e ganhar dinheiro exportando comida de gente, não de suínos, é necessário mudar a escandalosa cultura de desperdício do campo brasileiro.
Quando se trata de plantar para dar de comer a rebanhos, a chamada "taxa de conversão" é muito baixa: uma vaca dá três calorias de carne para cada cem calorias de grãos que come para engordar (sim, 3%); o porco produz dez calorias, e o frango, 12, para cada cem que consome. É melhor o aproveitamento da vaca leiteira (40 calorias no leite) e da galinha poedeira (12 no ovo, para cada cem consumidas). Em outras palavras, gerar proteína animal é sempre um péssimo negócio, e o boi é o pior de todos.
E como funciona o agronegócio brasileiro? Metade de nossa produção agrícola é ração de animais a preços irrisórios. E a estrela de nossa pecuária é exatamente a carne de vaca. Enquanto isso, importamos feijão e outros alimentos pagando mais caro.
O Brasil viveu até hoje com a falsa impressão de que a água e a terra eram bens infinitos. Essa visão está em xeque com a crise hídrica, causada em parte pelo desmatamento da Amazônia e do cerrado. Num país em que a água escasseia, quase 70% de seu consumo é para irrigação de áreas de cultivo. A pecuária é um mata-borrão: suga 11% de nossa água -mesmo consumo dos 200 milhões de humanos do Brasil.
Com o desmatamento para abrir pastos, fontes de água são destruídas e o regime de chuvas muda. O gado não somente consome verdadeiras cachoeiras em seu processo de engorda, como já produz escassez antes mesmo de ocupar os extensos hectares de floresta que destrói.
Gastamos água, que falta a humanos, para matar a sede infinita das vacas e regar a soja que vai ser exportada a preços irrisórios. Enquanto isso, continuamos a nos ufanar de uma opção econômica que está nos consumindo a todos, com a água e a terra fartas que um dia este Brasil ganhou de presente.
Leão Serva - ex-secretário de Redação da Folha, é jornalista, escritor e coautor de “Como Viver em SP sem Carro”.

http://www1.folha.uol.com.br/…/1552073-agronegocio-e-a-mort…
Só o facto de sonhar já é muito importante. Desejo-lhe sonhos a não mais acabar e inveja furiosa de realizar alguns. Desejo-lhe de amar o que é preciso amar, e esquecer o que é preciso esquecer. Desejo-lhe as paixões, desejo-lhe dos silêncios. Desejo-lhe o canto das aves ao acordar e risos de crianças. Desejo-lhe de respeitar as diferenças dos outros, porque o mérito e o valor de cada um são frequentemente a descobrir. Desejo-lhe de resistir à estagnação, a indiferença e às virtudes negativas da nossa época. Desejo-lhe, finalmente, de nunca desistir da busca, à aventura, à vida, ao amor, porque a vida é uma maravilhosa aventura e nulo de razoável não deve renunciar sem entregar uma dura batalha. Desejo-lhe, sobretudo, de ser você, orgulhoso e feliz, porque a felicidade é nosso destino verdadeiro.
 Jacques Brel

fonte : Passion des mots, passion de la vie

Fidel

 por Eduardo Galeano


"Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo. [...] E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta."

Fidel Castro presente


Admirado e odiado. Assim era Fidel Castro. Pode-se concordar ou não com suas posições, mas jamais ignorá-las. Isso porque Fidel não foi apenas o principal líder de uma das mais extraordinárias páginas da história do século XX – a Revolução Cubana. Ele se tornou uma referência mundial de rupturas revolucionárias com intensa participação popular e exemplo de libertação para povos oprimidos do mundo todo. E mostrou com sua longeva liderança que um povo pode resistir às investidas da maior potência bélica durante quase seis décadas sem abrir mão de sua soberania. Fidel tornou-se símbolo de um tempo: aquele em que homens e mulheres enfrentavam corajosamente a morte em busca da liberdade, como fizeram antes dele Martí e Bolívar, como fizeram depois dele milhares de revolucionários em todo o mundo. Mas Fidel é também um homem do nosso tempo. E por isso suas ideias continuaram ecoando. De um lado, com o controle mundial da mídia, os capitalistas e reacionários combatendo com todas as forças a revolução cubana, hostilizando-a e manipulando a realidade. De outro, essa revolução humanista e seu comandante continuaram sensibilizando milhões de lutadores por uma sociedades mais justa e igualitária, erguendo alto a bandeira do socialismo.

Minha geração aprendeu a admirar Fidel, sem deixar de criticar seus erros. Isso porque ele jamais abandonou seu compromisso com a humanidade e a igualdade social, na lógica de que o homem não pode ser o lobo do próprio homem. Para quem foi forjado na luta contra a Ditadura Militar, isso não era e não é pouca coisa.

Fidel nunca cedeu às tentações do voluntarismo ou da conciliação, como fizeram e fazem muitos outros líderes políticos de seu tempo. Da guerrilha de Sierra Maestra à resistência à invasão da Baía dos Porcos, da ameaça nuclear contra Cuba e o seu povo ao bloqueio imperialista, do internacionalismo socialista ao desaparecimento da União Soviética que tanto sacrificou o povo cubano, Fidel demonstrou coragem e liderança revolucionária. Demonstrou também que os valores da liberdade, da soberania nacional e da igualdade de direitos para ele não tinham preço. Incorruptível, manteve a unidade do povo e da revolução através do seu exemplo de vida e dedicação.

Mesmo sendo Cuba uma pobre ilha que teve que reorganizar completamente seu sistema econômico depois da revolução, Fidel apostou na transformação cultural do povo para construir o que Guevara chamou de “o novo homem e a nova mulher”. Com todas as dificuldades impostas pelo cerco imperialista, construiu um dos melhores sistemas de educação e saúde do planeta e conseguiu mostrar que mesmo sendo um país pobre, Cuba é exemplo de dignidade e altivez para o ser humano. E foi o bloqueio imperialista que acabou por contaminar a florescente democracia cubana, forçou a militarização da sociedade e a formação de uma burocracia forte. Os imperialistas e o capitalismo mundial cercam e oprimem Cuba durante décadas e querem exigir uma democracia liberal semelhante às suas. A pergunta que fica é: como obstinadamente o povo cubano conseguiu construir, na América Latina, a sociedade menos injusta?

Pode-se afirmar desse revolucionário que atravessou o século XX para chegar ao XXI que ele é um homem de seu tempo, mas que esteve vários passos à frente, elevou como ninguém essa condição de humano, portanto imperfeito, mas vocacionado a trazer a esperança de um mundo de iguais.


Por isso, neste dia triste para a esquerda mundial, lembrar da trajetória de Fidel e seu legado é a melhor forma de reafirmar nosso compromisso com a transformação social, a ética e a justiça também no Brasil.

Ivan Valente .



Fidel Castro foi homem do seu tempo e contradições. O vejo mais ou menos como o tardio Pai Fundador de Cuba independente no século XX, tipo Mandela, na África do Sul, Gandhi, na Índia, Nasser no Egito, Sukarno na Indonésia. Comparemos Cuba com o Haiti e sua imensa pobreza, Porto Rico, uma colônia de entreguistas, uma República Dominicana e podemos observar a igualdade social, a mortalidade infantil, a expectativa de vida, o número de centenários em Cuba, dados sociais desenvolvidos em uma ilha pobre, ultrapassando o Japão. Outra característica muito ibérica de Fidel, certo caudillismo, para o bem e para o mal, muitas vezes democrático, outras vezes autoritário, em uma ilha tão cercada, ameaçada e próxima de um buraco como Miami. Por último a lembrança de Maquiavel - Todos os profetas armados venceram, e os desarmados foram destruídos. Com Fidel termina o século XX na América Latina, mas suas contradições prosseguem.

Ricardo Costa de Oliveira
Leonardo Avritzer

A morte de Fidel Castro e as diferentes discussões que ela já está suscitando mostram a continuidade dos problemas da América Latina nos anos 60 e hoje. De um lado, qualquer avaliação das ações do líder cubano não pode deixar de ignorar os elementos não democráticos e as fortes violações dos direitos humanos em Cuba. Cuba não foi capaz de criar um modelo democrático e pluralista de socialismo. Na verdade, ela reproduziu os mesmos dilemas da ex-União Soviética, e Europa Oriental.

Mas a herança de Fidel tem que ser avaliada colocando os dilemas históricos da América Latina em perspectiva. Cuba foi capaz de quase erradicar a pobreza e diminuir a desigualdade, problema esse que a AL continua a enfrentar quase 60 anos depois da revolução cubana. Quando vemos o que o Macri fez nos últimos 12 meses na Argentina e o que o Temer está fazendo no Brasil percebemos o sentido no qual a revolução cubana foi capaz de atrair tantos apoiadores na região. As elites latino-americanas continuam pouco democráticas e absolutamente incapazes de lidar com o problema da desigualdade.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Onde reina o golpe, a democracia não tem lugar. Quem apoiou o golpe que embale ! Anistia ao caixa 2 só atualiza a análise anteriormente feita do legislativo: assembleia de bandidos comandada por bandidos. Estão temerários porque já começam os próprios deputados golpistas e pobres de direita a temer os outros golpistas ! Câmara dos Deputados deu golpe rasteiro para colocar Temer, Geddel, Jucá, Serra, Mendoncinha, Padilha, Moreira Franco e outros sem votos no poder. Falar em combater a corrupção sem tocar na imensa sonegação empresarial, nos marajás do judiciário, os mesmos da farsa a jato, entreguistas que ganham acima do teto, na mídia surgida das concessões, falcatruas e favores do Estado é mais do mesmo para todo esse bando oficializado no poder golpista

RCO

Ainda não rolou greve ?

Ainda não rolou greve ? Professorado da UFPR. A atual geração de professores com uns cinquenta e poucos anos é que realmente tornou a UFPR uma verdadeira universidade de pesquisa. Muitos são contra a greve porque "atrapalha" as férias de verão. Muitos não podem comparecer nas assembleias de greve se não tiverem médico, dentista, portão eletrônico estragado, o encanador que atrasou, ou a família que precisou de ajuda em algum compromisso. Não somos como os jovens de 18, ou 20 e poucos anos, que são muito mais idealistas, livres e descompromissados com o establishment, até porque jovens são os principais críticos do sistema, como deve ser próprio da juventude. Muitos jovens afirmam que não confiam em ninguém com mais de 30 anos e bem mais de 10 mil reais de remuneração ! Hoje esse grupo de professores está avançado na meia idade, a maioria orientou teses, são associados ou já são titulares. O maior benefício coletivo dos últimos anos para esse professorado cinquentenário foi a criação da categoria de professor associado, ainda com Lula e depois as passagens para o topo dentro da carreira como titular, ainda mais nos ataques contra as aposentadorias. No início dos anos 1990 esse grupo ainda era composto por professores "novos", em torno dos trinta anos, a maioria doutorandos e na época assistentes, o que significava um grande arrocho salarial na malfadada época de FHC e do Paulo Renato, sem recomposições salariais e total falta de investimentos. Nos anos Lula e Dilma houve um grande crescimento e expansão das IFES, até mesmo as condições salariais melhoraram muito em relação aos anos 90. Ainda vivemos o final do orçamento 2016 de Dilma e do PT, mas no ano que vem em diante teremos o imenso impacto do corte de recursos e o arrocho salarial típico da era do PSDB, back to the past, anos 90. O problema é que a maioria dos professores contrários à greve ainda não recebeu o impacto da PEC55 na infra-estrutura e da MP746 nas licenciaturas. Ainda há poucos meses atrás estavam juntos o professor trotsquista de ultra esquerda da Conlutas com o professor de direita, apoiador do MBL, no apoio ao golpe e derrubada de Dilma. Os professores têm origens, ideologias e carreiras muito diferentes. Por que enfrentar pequenos poderes, burocracias e relatórios para se ter uma bolsa de iniciação científica, para quem orienta muitos doutorados? Bolsa produtividade, uma bolsa pequena e com valores pobres, se um professor com nome reconhecido academicamente e cientificamente recebe muito mais em uma palestra ? Precisamos aumentar as bolsas e não burocratizá-las para diminuí-las. Muitas são as diferenças entre as áreas. As humanidades precisam de livros e de bibliotecas, outras ciências trabalham com laboratórios e artigos compactos coletivos. Os melhores investimentos sempre devem passar pela boa formação e remuneração institucionalizada dos professores, contra o peg-pag de certos produtivismos. Quem só viveu as "vacas gordas" do PT, com aumentos das bolsas para alunos da pós, infelizmente viverá as "vacas magras" dos golpistas a partir do ano que vem. Será uma má experiência para toda uma nova geração de professores conhecer o que conhecemos nos anos 90. Quando esses professores sentirem os profundos cortes e arrochos a greve será reavaliada.

RCO

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Quem salvar primeiro?


Considerando as muitas variáveis possíveis, entendo que entre duas pessoas que estiverem com risco de morte iminente, salva-se primeiro aquela que tem mais chances de sobreviver. Se uma estiver em estado "grave" e a outra "leve", salva-se primeiro a grave.
Penso que o profissional da saúde deve julgar suas escolhas por esses critérios ou outros mais adequados, que um leigo como eu desconhece. A resposta à pergunta da Fátima Bernardes ("salva-se antes o traficante em estado grave ou o policial levemente ferido?"), me parece mais que óbvia: salva-se antes o traficante.
Mas não parece racional para aqueles que atacaram com fúria a apresentadora, como se ela estivesse defendendo "bandidos". Aliás, os tais "bandidos" se tornaram uma categoria discursiva interessante no pensamento binário: universais e homogêneos, são seres maus e que precisam ser exterminados sumariamente.
A polêmica, portanto, não foi dar ou não a preferência ao atendimento do policial, mas de se negligenciar ou não o atendimento ao "bandido". Uma parcela da população deseja que o médico julgue seus pacientes e, se for o caso, autorizam que ele execute, a seu critério, a pena de morte. Assim, a pergunta em questão seria se o traficante pobre (ou que assim o for pelo julgamento do médico), que vende a cocaína para as festas dos ricos, deveria ou não ser salvo quando toma um tiro do policial.
Ou melhor, sem tergiversar, o que se pretende por essas pessoas é permitir que os policiais possam entrar em uma favela e eliminar quem quer que seja, em nome do extermínio da "bandidagem", quando os verdadeiros bandidos estão justamente entre aquelas "pessoas de bem" que invariavelmente pregam a chacina dos pobres.

André Castelo Branco Machado
"Então, aproveite que o senhor ainda não tem altos índices de popularidade e faça coisas impopulares que serão necessárias e que vão desenhar este governo para os próximos anos. Aproveite sua impopularidade. Tome medidas amargas. Aliás, este é o grande desafio das democracias do mundo. Como fazer coisas impopulares?”

Nizan Guanaes, ontem, no 'Conselhão', dirigindo-se ao golpista Temer.

Em outras palavras, a democracia é um estorvo.


SOBRE AMIZADES E LUTA POLITICA:


 Valério Arcary:

"Entre aqueles engajados na militância há muita confusão entre o que são as relações de amizade e as relações de camaradagem. Esta confusão gera muitas desilusões quando as diferenças políticas levam à perda das relações de amizade. Relações de amizade são um vínculo emocional poderoso. Lidar com perdas é sempre uma experiência dolorosa. Não é incomum que as decepções pessoais com camaradas se transformem em desalento ideológico no futuro da luta pelo socialismo. E o desânimo, a desesperança, o desengano são maus conselheiros, porque obscurecem a mente e diminuem a lucidez.
Tentar definir o que é a amizade foi sempre difícil. Em uma época em que confiar nos outros é percebido como credulidade ingênua é importante lembrar que uma vida sem amizade é muito triste. A solidão parece ser uma epidemia no mundo contemporâneo. Ela é sempre mencionada como um dos fatores de depressão. A desconfiança generalizada – contra tudo e todos – só pode alimentar, evidentemente, vidas solitárias.
(...)
Lealdade entre amigos não pode repousar somente em acordos políticos. Ela se constrói alicerçada na confiança pessoal, que vai além das ideias políticas. Existindo, inevitavelmente, diferenças de opinião, cultivar amizades exige uma disposição para a tolerância. Ninguém gosta de ser contrariado. Podemos ficar desgostosos ou até aborrecidos quando discordam de nossas opiniões. Mas romper amizades por diferenças de opinião é uma tolice infantil. Estar disposto a acolher ideias diferentes das nossas revela maturidade para aceitar graus de dissenso com que podemos conviver.
O que são camaradas? Camaradas são aqueles que, na tradição socialista, pertencem a uma mesma organização e ou compartilham uma visão do mundo comum, o igualitarismo, ou luta pela igualdade social. Esta visão do mundo socialista se fundamenta, em primeiro lugar, no reconhecimento de que todos os seres humanos têm em comum necessidades, intensamente, sentidas que são iguais. Ser socialista significa uma ruptura ideológica com o capitalismo, uma adesão ao movimento dos trabalhadores e dos oprimidos, uma aposta no projeto de luta pela revolução, e uma aspiração internacionalista por um mundo sem dominação imperialista. Nas sociedades em que vivemos ser socialista exige, portanto, uma escolha de classe. Não importa a classe social na qual nascemos. O que importa é a qual classe unimos nosso destino.
Acontece que nem todos os nossos amigos são camaradas, e nem todos os camaradas são amigos. Porque amigos podem ter visões do mundo diferentes. Amizades não devem ter como condição, necessariamente, uma mesma visão do mundo. Por outro lado e, talvez, mais importante, podemos ser camaradas de militantes que não conhecemos tão bem. Só em pequenas organizações, núcleos de pouco mais do que cem militantes, é que é possível conhecer todos os membros. Se a amizade pessoal for um critério de pertencimento, uma organização revolucionária estará condenada à estagnação, ou a rupturas recorrentes.
(...)
A violência verbal, seja na forma ou no conteúdo, é uma maneira desonesta, intelectualmente, de tentar ganhar um debate a qualquer preço. Acusações ad hominem são aquelas que são dirigidas às pessoas, e não às ideias que elas defendem.
Coloca-se o caráter do adversário em dúvida, através de ataques pessoais, para desqualificar suas ideias. Trata-se de uma tática diversionista porque tenta desviar o tema da polêmica. Aqueles que recorrem a este método retórico confessam, involuntariamente, que não têm confiança nos seus argumentos. Precisam destruir o outro porque não conseguem refutar suas ideias. Violência verbal através de acusações ad hominem é um método inaceitável, porque diminui a importância das ideias, e só serve para a desmoralização dos adversários.

Na esquerda revolucionária para o século XXI que queremos construir devemos saber preservar amizades, apesar das diferenças políticas que nos separam em distintas organizações, e aprender a distinguir os adversários dos inimigos. Isso parece simples e elementar. Mas não é.