Núcleo duro étnico brasileiro e governabilidade. Nenhum
governo será derrubado se tiver pelo menos força e alguns firmes apoios neste
estratégico grupo etno-histórico brasileiro: Homens brasileiros
"brancos" de origem miscigenada, famílias e clãs com sobrenomes
brasileiros de origem portuguesa ou aqui identificados desde o período
colonial, criadores da língua denominada de português brasileiro juntos com
todos os outros grupos, genealogizáveis nas genealogias regionais, Católicos
(praticantes ou não e mesmo ateus) e parentes de padres, descendentes de
"homens bons" das sesmarias escravistas, descendentes e parentes da
nobreza da terra colonial, da nobreza titulada imperial e da elite política
republicana, descendentes de formados em Coimbra e com várias gerações
escolarizadas nas escolas de elite e nos cursos superiores nacionais,
descendentes e parentes de homens armados e integrantes das Forças Armadas,
como Oficiais Superiores e Generais. Em 500 anos de Brasil e nos 300 anos do
Sul do Brasil (PR, SC, RS) sempre houve um centro de gravidade e sustentação
aos poderes e governos existentes, bem como seus membros também foram os atores
que proporcionaram as mudanças nas continuidades e rupturas políticas ao longo
das várias gerações. Lula, Dilma e o PT se sustentam enquanto tiverem pelo
menos algum apoio neste setor social crucial e eles têm bastante apoio neste
núcleo duro étnico brasileiro. Este grupo étnico brasileiro geralmente ocupa muitas
das posições sociais mais elevadas na burocracia, empresariado, letras, artes,
educação, cultura e Forças Armadas pela sua própria principalidade e
antiguidade. Segmentos de elites da antiga classe dominante tradicional,
Mazombos, Quatrocentões, Trezentões, hoje apoiadores da causa da modernização
da crítica social e do seu lastro de governabilidade e de apoio. Nossa gente
sempre acolhedora.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Havia ainda naquela época outra circunstância que me
torturava: precisamente o fato de que ninguém se parecia comigo e eu não era
parecido com ninguém. “Eu sou único e eles são todos”, pensava eu.
Daí se vê que eu ainda era inteiramente criança.
— Fiódor Dostoiévski, in Memórias do Subsolo – trecho do
texto 01, da segunda parte, pág 58.
Política I
Um dos campos onde a inteligência nacional mais desabou foi
o debate político. Em clima de Fla-Flu é difícil formular ideias. Queria fazer
uma reflexão básica sem coloração partidária.
Premissa inicial: somos uma sociedade marcada pela
desigualdade de renda, de educação e de acesso a serviços como saúde. A
desigualdade é um fato objetivo, logo, não cabe discussão. Não interessa aqui
se há sociedades mais ou menos desiguais, pensarei apenas a nossa, a sociedade
brasileira.
Diante da desigualdade, existem duas (entre centenas) de
atitudes básicas. Destacarei apenas estas duas (há mais sim)
01) A desigualdade é provocada pelas diferentes energias
aplicadas ao trabalho, pelo empreendedorismo de cada um, pela capacidade de
crescer quanto à renda e quanto ao conhecimento. Logo, a desigualdade registra
pessoas mais ou menos aptas e é, de certa forma, a recompensa pela
inteligência, pelo trabalho, pela estratégia e pelo esforço. A desigualdade
será resolvida pela energia das próprias pessoas quando estas pararam de
esperar coisas, pararem com sua dependência do Estado e começarem a produzir e
trabalhar mais. A ambição individual e o trabalho são a chave. Esta seria,
grosso modo, a postura liberal (com muitas variações ) e a defesa Adam Smith do
trabalho.
02) A desigualdade é dada estruturalmente pelo capitalismo e
suas formas de dominação. Ela não é um acidente e nem pode ser eliminada porque
o capitalismo precisa de massas desiguais. Mesmo que alguns cresçam, a grande
maioria nunca poderá sair de onde está, porque há demanda de mão de obra barata
e de controle político. A saída é quebrar o sistema por uma ação organizada
contendo em maior ou menor grau a noção de revolução. Esta seria a postura, em
geral, do pensamento de Marx e de muitos grupos marxistas.
A partir destes dois pólos generalizantes (com muitas
diferenças, eu sei) as pessoas se posicionam sobre bolsa família, cotas
raciais, reforma agrária , incentivos fiscais para áreas pobres etc. A noção
básica é: quem é o responsável pela desigualdade e quem pode resolvê-la? Os
exemplos históricos e dados levantados pelos debatedores não são a base para
sua posição política. São, em geral, a posteriori, ou seja, cada grupo
seleciona da história e de outros países o que acha relevante para embasar sua
posição. A posição é anterior aos fatos, quase sempre. Voltaremos a este fato.
messianismos políticos
Ricardo Costa de Oliveira
Até que ponto observamos os resultados dos muitos
messianismos políticos existentes por aí ? Os inimigos e desafetos de Lula
devem saber que quanto mais o perseguirem, mais o injustiçarem e mais o
caluniarem com todas as suas perfídias - Só farão o Mito Lula crescer e se
agigantar mais ainda. Sempre foi assim desde 1978 e Lula já entrou na História
do Brasil como um dos Grandes. As seguidas derrotas eleitorais que Lula
infligiu à direita e à extrema esquerda só consolidaram o nome de Lula nestes
últimos 14 anos vitoriosos do PT. O PT antes de ser um partido político foi uma
ideia e a sua vasta base social e política sempre estará disposta a resolver as
diferenças pelos votos democráticos. Lula da Silva veio do fundo do povo
brasileiro como o grande chefe civilista contemporâneo. Lula se confunde com
mitos muito profundos e arcaicos da sociedade brasileira. O messianismo da
Bandeira Vermelha do Divino e o estandarte de que ele voltará de novo e nascerá
do povo ! Nunca houve momento tão especial e tão importante como na criação do
nosso Estado há quase mil anos. O Estado do Brasil é o prolongamento guerreiro
messiânico do Estado de Portugal. O messianismo sempre acompanhou a política na
língua portuguesa e foi o que nos assegurou um território gigantesco nestes
últimos séculos, com muito mais vitórias do que derrotas. Um Lula da Silva,
cabra nordestino, da classe trabalhadora dos anos 1970, um Brasileiro renascido
nas lutas políticas em quarenta anos de duros embates, com erros e acertos !
Lula da Silva representa as raízes profundas dos Cristãos X Mouros pós-modernos
! Como canta a música: Que o homem seja livre e que a justiça sobreviva ! Que
seguiram a estrela guia, a bandeira segue em frente atrás de melhores dias !
Venganza moruna
Vicente Blasco Ibáñez
Casi todos los que ocupaban aquel vagón de tercera conocían
a Marieta, una buena moza vestida de luto, que, con un niño de pechos en el
regazo, estaba junto a una ventanilla, rehuyendo las miradas y la conversación
de sus vecinas.
Las viejas labradoras la miraban, unas con curiosidad y
otras con odio, a través de las asas de sus enormes cestas y de los fardos que
descansaban sobre sus rodillas, con todas las compras hechas en Valencia. Los
hombres, mascullando la tagarnina, lanzábanle ojeadas de ardoroso deseo.
En todos los extremos del vagón hablábase de ella relatando
su historia.
Era la primera vez que Marieta se atrevía a salir de casa
después de la muerte de su marido. Tres meses habían pasado desde entonces. Sin
duda sentía miedo a Teulaí, el hermano menor de su marido, un sujeto que a los
veinticinco años era el terror del distrito; un amante loco de la escopeta y la
valentía que, naciendo rico, había abandonado los campos para vivir unas veces
en los pueblos, por la tolerancia de los alcaldes, y otras en la montaña,
cuando se atrevían a acusarle los que le querían mal.
Marieta parecía satisfecha y tranquila. ¡Oh, la mala piel!
Con un alma tan negra, y miradla qué guapetona, qué majestuosa; parecía una
reina.
Los que nunca la habían visto se extasiaban ante su
hermosura. Era como las vírgenes patronas de los pueblos: la tez, con pálida
transparencia de cera, bañada a veces por un oleaje de rosa; los ojos negros,
rasgados, de largas pestañas; el cuello soberbio, con dos líneas horizontales
que marcaban la tersura de la blanca carnosidad; alta, majestuosa, con firmes
redondeces, que al menor movimiento poníanse de relieve bajo el negro vestido.
Sí, era muy guapa. Así se comprendía la locura de su pobre
marido.
En vano se había opuesto al matrimonio la familia de Pepet.
Casarse con una pobre, siendo él rico, resultaba un absurdo; y aún lo parecía
más al saberse que la novia era hija de una bruja, y por tanto, heredera de
todas sus malas artes.
Pero él firme que firme. La madre de Pepet murió del
disgusto; según decían las vecinas, prefirió irse del mundo antes que ver en su
casa a la hija de la Bruixa; y Teulaí, con ser un perdido que no respetaba gran
cosa el honor de la familia, casi riñó con su hermano. No podía resignarse a
tener por cuñada una buena moza que, según afirmaban en la taberna testigos
presenciales (y allí la reunión era de lo más respetable), preparaba malas
bebidas, ayudaba a sacar a su madre las mantecas a los niños vagabundos para
confeccionar misteriosos ungüentos, y la untaba los sábados a media noche,
antes de salir volando por la chimenea.
Pepet, que se reía de todo, acabó casándose con Marieta, y
con esto fueron de la hija de la bruja sus viñas, sus algarrobos, la gran casa
de la calle Mayor y las onzas que su madre guardaba en los arcones del estudi.
Estaba loco. Aquel par de lobas le habían dado alguna mala
bebida, tal vez polvos seguidores, que, según afirmaban las vecinas más
experimentadas, ligan para siempre con una fuerza infernal.
La bruja, arrugada, de ojillos malignos, que no podía
atravesar la plaza del pueblo sin que los muchachos la persiguieran a pedradas,
se quedó sola en su casucha de las afueras, ante la cual no pasaba nadie por la
noche sin hacer la señal de la cruz. Pepet sacó a Marieta de aquel antro,
satisfecho de tener como suya la mujer más hermosa del distrito.
¡Qué manera de vivir! Las buenas mujeres lo recordaban con
escándalo. Bien se veía que el tal casamiento era por arte del Malo. Apenas si
Pepet salía de su casa: olvidaba los campos, dejaba en libertad a los
jornaleros, no quería apartarse ni un momento de su mujer; y las gentes, a
través de la puerta entornada o por las ventanas siempre abiertas, sorprendían
los abrazos; los veían persiguiéndose entre risotadas y caricias, en plena
borrachera de felicidad, insultando con su hartura a todo el mundo. Aquello no
era vivir como cristianos. Eran perros furiosos persiguiéndose, con la sed de
la pasión nunca extinguida. ¡Ah, la grandísima perdida! Ella y la madre le
abrasaban las entrañas con sus bebidas.
Bien se veía en Pepet, cada vez más flaco, más amarillo, más
pequeño, como un cirio que se derretía.
El médico del pueblo, único que se burlaba de brujas,
bebedizos y de la credulidad de la gente, hablaba de separarles como único
remedio. Pero los dos siguieron unidos; él cada vez más decaído y miserable;
ella engordando, rozagante y soberbia, insultando a la murmuración con sus
aires de soberana. Tuvieron un hijo, y dos meses después murió Pepet
lentamente, como luz que se extingue, llamando a su mujer hasta el último
momento, extendiendo hacia ella sus manos ansiosas.
¡La que se armó en el pueblo! Ya estaba allí el efecto de
las malas bebidas. La vieja se encerró en su casucha temiendo a la gente; la
hija no salió a la calle en algunas semanas y los vecinos oían sus lamentos.
Por fin, algunas tardes, desafiando las miradas hostiles, fue con su niño al
cementerio.
Al principio le tenía cierto miedo a Teulaí, el terrible
cuñado, para el cual matar era ocupación de hombres, y que, indignado por la
muerte del hermano, hablaba en la taberna de hacer pedazos a la mujer y a la
bruja de la suegra. Pero hacía un mes que había desaparecido. Estaría con los
roders en la montaña, o los negocios le habrían llevado al otro extremo de la
provincia. Marieta se atrevió, por fin, a salir del pueblo; a ir a Valencia
para sus compras... ¡Ah, la señora! ¡Qué importancia se daba con el dinero de
su pobre marido! Tal vez buscaba que los señoritos le dijesen algo, viéndola
tan guapetona...
Y zumbaba en todo el vagón el cuchicheo hostil; las miradas
afluían a ella, pero Marieta abría sus ojazos imperiosos, sorbía aire
ruidosamente con gesto de desprecio, y volvía a mirar los campos de algarrobos,
los empolvados olivares, las blancas casas, que huían trazando un círculo en
torno del tren en marcha, mientras el horizonte inflamábase al contacto del
sol, que se hundía entre espesos vellones de oro.
Detúvose el tren en una pequeña estación, y las mujeres que
más habían hablado de Marieta se apresuraron a bajar, echando por delante sus
cestas y capazos.
Unas se quedaban en aquel pueblo y se despedían de las
otras, de las vecinas de Marieta, que aún tenían que andar una hora para llegar
a sus casas.
La hermosa viuda, con el niño en brazos y apoyando en la
fuerte cadera la cesta de las compras, salió de la estación con paso lento.
Quería que la adelantasen en el camino aquellas comadres hostiles; que la
dejasen marchar sola, sin tener que sufrir el tormento de sus murmuraciones.
En las calles del pueblo, estrechas, tortuosas y de
avanzados aleros, había poca luz. Las últimas casas extendíanse en dos filas a
lo largo de la carretera. Más allá veíanse los campos, que azuleaban con la
llegada del crepúsculo, y a lo lejos, sobre la ancha y polvorienta faja del
camino, marcábanse como un rosario de hormigas las mujeres que, con los fardos
en la cabeza, marchaban hacia el inmediato pueblo, cuya torre asomaba tras una
loma su montera de tejas barnizadas, brillantes con el último reflejo de sol.
Marieta, brava moza, sintió repentinamente cierta inquietud
al verse sola en el camino. Este era muy largo, y cerraría la noche antes que
llegase a su casa.
Sobre una puerta balanceábase el ramo de olivo, empolvado y
seco, indicador de una taberna. Bajo de él, y de espaldas al pueblo, estaba un
hombre pequeño, apoyado en el quicio y con las manos en la faja.
Marieta se fijó en él... Si al volver la cabeza resultase
que era su cuñado, ¡Dios mío, qué susto! Pero segura de que estaba muy lejos,
siguió adelante, saboreando la cruel idea del encuentro, por lo mismo que lo
creía imposible, temblando al pensar que fuese Teulaí el que estaba a la puerta
de la taberna.
Pasó junto a él sin levantar los ojos.
-Buenas tardes, Marieta.
Era él... Y la viuda, ante la realidad, no experimentó la
emoción de momentos antes. No podía dudar. Era Teulaí, el bárbaro de sonrisa traidora,
que la miraba con aquellos ojos más molestos y crueles que sus palabras.
Contestó con un ¡hola! desmayado, y ella, tan grande, tan
fuerte, sintió que las piernas le flaqueaban y hasta hizo un esfuerzo para que
el niño no cayera de sus brazos.
Teulaí sonreía socarronamente. No había por qué asustarse.
¿No eran parientes? Se alegraba del encuentro; la acompañaría al pueblo, y por
el camino hablarían de algunos asuntos.
-Avant,
avant -decía el hombrecillo.
Y la mocetona siguió tras él, sumisa como una oveja,
formando rudo contraste aquella mujer grande, poderosa, de fuertes músculos,
que parecía arrastrada por Teulaí, enteco, miserable y ruin, en el cual
únicamente delataban el carácter los alfilerazos de extraña luz que despedían
sus ojos. Marieta sabía de lo que era capaz. Hombres fuertes y valerosos habían
caído vencidos por aquel mal bicho.
En la última casa del pueblo una vieja barría canturreando
su portal.
-¡Bòna dòna, bòna dòna! -gritó Teulaí.
La buena mujer acudió, tirando la escoba. Era demasiado
célebre el cuñado de Marieta en muchas leguas a la redonda para no ser
obedecido inmediatamente.
Cogió al niño de brazos de su cuñada, y sin mirarlo, como si
quisiera evitar un enternecimiento indigno de él, lo pasó a los brazos de la
vieja, encargándole su cuidado... Era asunto de media hora: volverían pronto
por él, en cuanto terminasen cierto encargo.
Marieta rompió en sollozos y se abalanzó al niño para
besarle. Pero su cuñado tiró de ella.
-Avant, avant.
Se hacía tarde.
Subyugada por el terror que inspiraba aquel hombrecillo
venenoso a cuantos le rodeaban, siguió adelante, sin el niño y sin la cesta,
mientras la vieja, santiguándose, se apresuraba a meterse en casa.
Apenas si se distinguían como puntos indecisos en el blanco
camino las mujeres que marchaban al pueblo. Los pardos vapores del anochecer
extendíanse a ras de los campos, la arboleda tomaba un tono de oscuro azul, y
arriba, en el cielo, de color violeta, palpitaban las primeras estrellas.
Continuaron en silencio algunos minutos, hasta que Marieta
se detuvo con una decisión inspirada por el miedo... Lo que tuviera que
decirle, lo mismo podía ser allí que en otra parte. Y la temblaban las piernas,
balbuceaba y no se atrevía a alzar los ojos por no ver a su cuñado.
A lo lejos sonaban chirridos de ruedas; voces prolongadas se
llamaban a través de los campos, rasgando el silencioso ambiente del
crepúsculo.
Marieta miraba con ansiedad el camino. Nadie. Estaban solos
ella y su cuñado.
Este, siempre con su sonrisa infernal, hablaba con
lentitud... Lo que tenía que decirle era que rezase; y si sentía miedo, podía
echarse el delantal por la cara. A un hombre como él no le mataban un hermano
impunemente.
Marieta se hizo atrás, con la expresión aterrada del que
despierta en pleno peligro. Su imaginación, ofuscada por el miedo, había
concebido antes de llegar allí las mayores brutalidades; palizas horrorosas, el
cuerpo magullado, la cabellera arrancada, pero... ¡rezar y taparse la cara!
¡Morir! ¡Y tal enormidad dicha tan fríamente!...
Con palabra atropellada, temblando y suplicante, intentó
enternecer a Teulaí. Todo eran mentiras de la gente. Había querido con el alma
a su pobre hermano, le quería aún; si había muerto fue por no creerle a ella, a
ella que no había tenido valor para ser esquiva y fría con un hombre tan
enamorado.
Pero el valentón la escuchaba acentuando cada vez más su
sonrisa, que era ya una mueca.
-¡Calla, filla de la Bruixa!
Ella y su madre habían muerto al pobre Pepet. Todo el mundo
lo sabía; le habían consumido con malas bebidas... Y si él la escuchaba ahora
sería capaz de embrujarlo también. Pero no; él no caería como el tonto de su
hermano.
Y para probar su firmeza de hiena, sin otro amor que el de
la sangre, cogió con sus manos huesosas la cara de Marieta, la levantó para
verla más de cerca, contemplando sin emoción las pálidas mejillas, los ojos
negros y ardientes que brillaban tras las lágrimas.
-¡Bruixa... envenenaora!
Pequeñín y miserable en apariencia, abatió de un empujón a
la buena moza; hizo caer de rodillas aquella soberbia máquina de dura carne, y
retrocediendo buscó algo en su faja.
Marieta estaba anonadada. Nadie en el camino. A lo lejos los
mismos gritos, el mismo chirriar de ruedas: cantaban las ranas en una charca
inmediata; en los ribazos alborotaban los grillos, y un perro aullaba
lúgubremente allá en las últimas casas del pueblo. Los campos hundíanse en los
vapores de la noche.
Al verse sola, al convencerse de que iba a morir,
desapareció toda su arrogancia de buena moza; se sintió débil como cuando era
niña y le pegaba su madre, y rompió en sollozos.
-¡Mátam, mátam! -gimió echándose a la cara el negro
delantal, enrollándolo en torno de su cabeza.
Teulaí se acercó a ella impasible, con una pistola en la
mano. Aún oyó la voz de su cuñada gimiendo a través de la negra tela con
lamentos de niña, rogándole que la rematase pronto, que no la hiciera sufrir
intercalando sus súplicas entre fragmentos de oraciones que recitaba
atropelladamente. Y como hombre experimentado, buscó con la boca de la pistola
en aquel envoltorio negro, disparando los dos cañones a la vez.
Entre el humo y los fogonazos viose a Marieta erguirse como
impulsada por un resorte y desplomarse con un pataleo de agonía que desordenó
sus ropas.
En la masa negra e inerte quedaron al descubierto las
blancas medias de seductora redondez, estremeciéndose con el último estertor.
Teulaí, tranquilo como hombre que a nadie teme y cuenta en
último término con un refugio en la montaña, volvió al inmediato pueblo en
busca de su sobrino, satisfecho de su hazaña.
Al tomar al pequeñuelo de manos de la aterrada vieja, casi
lloró.
-¡Pobret! ¡pobret meu! -dijo besándole.
Y su conciencia de tío inundábase de satisfacción, seguro de
haber hecho por el pequeño una gran cosa.
FIN
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
El barrio - Cuando el rio suena
Que extraño silencio en mi alma,
Que oscura la luz de mis ojos,
Me asusta tener esta calma,
Me da que el destino me ha puesto un cerrojo.
Te miro y no te conozco, presiento que no eres la misma,
Te analizo y te veo de reojo rotundamente distinta.
Que pena de ver mi persona, como se ha enraizao a tu cama,
Y pa tu pelo una hermosa corona y pa mi cabeza manojos de
canas.
El sol entra por mi ventana, el día corrige la aurora,
El sudor empapa mi cama y mi almohada se siente muy sola.
Como el novio de la muerte, he defendio lo indefendible,
Siempre con miedo a perderte, siempre hablandote sensible,
He jugado con mi suerte de manera incomprensible.
Siempre midiendo las palabras, siempre con buenas maneras,
Siempre con abracadabra pa tus pintas de embustera.
Y pa tus crueles miradas, dueñas de toas mis cegueras.
Te vas, soy una sombra de tristeza arrumbaito en el olvio,
Ya no te vale siquiera lo mucho que te he querio,
Se respira en el ambiente que tu cariño ha adormecio.
Te vas, y me quedo tan solo con mi soledad,
Hablo con mi almohada, nadie sabe contestar
Que los desengaños siempre son pa el que más da.
Es tanto lo que te quiero,
Que me conformo con ser una orquillita pa tu pelo.
Y mira si yo a tí te quiero...
Pero hoy está pa mí, no señalo a nadie, no me gusta señalar,
Pienso que el destino me ha elegido al azar
Hoy esta pa mí (tris)
Tal vez con el mañana me tenga yo que alegrar ,
De haber pasao por alto las locuras del sufrir,
Hoy está pa mi (tris)
Me voy con paso firme , sin volver la cara atrás ,
Dicen que si te vuelves solo haces recordar
Cuando eras muy feliz .
Hoy está pa mí (bis)
Haré que tu egoísmo nunca me vea llorar
Veras que en mis facciones solo ves el sonreír
Hoy esta pa mi (bis)
Obrajes e mensus
Quando a expedição comandada pelo tenente engenheiro José
Joaquim Firmino chegou em 22 de novembro de 1889 na foz do rio Iguaçu encontrou
uma terra dominada por empresas concessionárias da exploração de erva-mate e
madeira de lei. Nos obrajes, o trabalho era escravo e os trabalhadores, suas
mulheres e filhos eram tratados com violência.
Os mensus, uma derivação do espanhol mensualista, eram a
mão-de-obra quase absoluta empregada nos trabalhos de extração. Sua
arregimentação era feita pela força e eles deviam obediência irrestrita aos
obrajeros e seus capatazes, verdadeiros monarcas, com poder de vida e morte
sobre os trabalhadores.
Essa situação perdurou mesmo depois da instalação da Colônia
Militar. As autoridades constituídas da Colônia atuavam sempre em defesa dos
donos dos obrajes.
Arthur Martins de Franco, em suas Recordações de viagem ao
Alto Paraná, conta que o Tenente Pimenta de Araújo, comandante da força
pública, para melhor castigar os peões que caiam em seu desagrado, mandara colocar
dentro de um dos quartos da casa, que servia de cadeia, uma caixa grande onde
cabia uma pessoa de cócoras ou mal sentada e dentro dela mandava prender quem
desejava castigar.
A arbitrariedade e a corrupção não se restringiam unicamente
à força policial.Segundo ainda Martins de Franco muitos oficiais encarregados
de administrar a Colônia Militar agiam de maneira, no mínimo incorreta, fazendo
vistas grossas ao que acontecia nos obrajes.
A violência, corriqueira nos acampamentos madeireiros e de
extração da erva-mate, não era contestada pelos mensus. Fracos, descalços, eles
passavam meses embrenhados no mato. Fugir era impossível. Quem se aventurava
acabava boiando nas águas do rio Paraná ou preso na caixa do Tenente Pimenta. A
vigilância sobre eles era severa e constante.
Os atos de violência mais contundentes ocorriam na hora do
acerto de contas. Os mensus estavam sempre devendo para o patrão. Esse
endividamento constante e progressivo aumentava o grau de dependência, que já
começava na contratação do peão. Ao começar a trabalhar a peonada recebia um
adiantamento, chamado de antecipo. O dinheiro era dado a peonada antes do
embarque para os futuros locais de trabalho. As embarcações atrasavam de
propósito até cinco dias e durante esse tempo os peões gastavam todo o antecipo
com mulheres e bebidas e já chegavam no obraje devendo para o patrão. O
desgraçado do trabalhador nunca mais conseguia pagar o que havia recebido.
* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/
http://aluiziopalmar.blogspot.com.br/2016/01/obrajes-e-mensus.html
A Cidade e as Serras
Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou
repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se
assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra
casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as
ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e
até o que há mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica, e todos a
respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro… A mesmice – eis o
horror das cidades!
- Eça de Queiroz
Carnaval de sucesso na plena normalidade política e
estética. Baile dos mascarados. Escola de Samba Mocidade Independente do
bicheiro Castor de Andrade falar de corrupção é como a grande mídia-PIG, o
japonês bonzinho do contrabando, a justiça demorou e desmoronou enviesada pelo
Banestado, o PSDB do governo Richa nas operações Publicano e Quadro Negro, a
quinta categoria de colunistas, as pesquisas de opinião fajutas direcionadas
pelos mesmos interesses milionários, afinal eles são os milhões de Cunhas
impunes e até a pelada do impeachment foi expulsa do trajeto.
Ricardo Costa de Oliveira
O mundo passou e Carolina não viu...
O verso de Chico Buarque vem à mente quando vc nota certos
atos que eram tolerados até um tempo atrás, e de repente deixam de sê-lo.
O primeiro caso é o do Bar Quitandinha, em SP, no qual
gerente e policiais foram tolerantes com clientes que assediaram duas moças - e
ríspidos com elas. Mais de cem mil protestos depois, o Bar fechou para o
carnaval. Seu prejuízo pode ser enorme. Uma marca pode ser destruída,
simplesmente porque sua gerência ou mesmo seus donos não viram que o mundo
mudou, e que ações que antes eram encobertas agora podem gerar reações fortes
na sociedade.
Este é um alerta importante para quem pensa que pode dizer
qualquer coisa, sem atentar para as consequências.
Ainda há muito machismo, muito desrespeito, mas quem os
pratica ou com eles é conivente pode correr riscos sérios. Inclusive no bolso.
No caso específico, não dá mais para tocar um negócio sem
estar alerta a esses riscos. E, melhor do que depois gastar dinheiro com
advogado, gestor de riscos e publicitário, é antes disso se preparar para este
mundo novo.
Renato Janine Ribeiro
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Um romance de geração
Entrevista | Fernando Bonassi
Um romance de geração
Em novo livro, escritor Fernando Bonassi faz uma radiografia
da ascenção e queda de uma classe social pela via do consumo
Luiz Rebinski e Marcio Renato dos Santos
Há 5 anos, Fernando Bonassi começou a elaborar uma narrativa
a respeito do Brasil, “país que se deitou embriagado, sonhou um pesadelo
previsível, sem graça, e acordou sufocado, endividado até o pescoço”. O
resultado acaba de se materializar no romance Luxúria que, de acordo com o
autor, trata “dessa confusão entre cidadania e consumo e endividamento, típica
do que aconteceu nos últimos anos. Transformamos os desgraçados em consumidores
sem que se tornassem cidadãos.” Luxúria apresenta a ruína de uma família, de um
operário que pretende construir uma piscina no quintal de sua casa. Mas o livro
trata, simultaneamente, de várias questões, entre as quais, o tempo. “O tempo é
a substância básica de Luxúria. O tempo vendido e comprado, o tempo usado, o
tempo jogado fora, mal aproveitado, arremessado na cara de quem não tem por
aquele que é o seu dono, seu feitor, o tempo que eu roubo de você para que
sobre tempo para mim”, diz o autor que, nesta entrevista, também fala sobre a
sua trajetória, que inclui outras obras literárias e roteiros para TV e cinema,
como os longas-metragens Cazuza — O tempo não para (2004) e Carandiru (2003).
“Reconheço que estraguei algumas boas ideias de romance, novela ou conto para
escrever uma sinopse de afogadilho, cenas banais de seriados e de
longas-metragens. Às vezes as necessidades da sobrevivência te obrigam a dispor
de forma leviana de algo muito querido e acalentado. Mas a vida é isso também.
Estou disponível pro jogo. Sem mágoas”, afirma Bonassi, 53 anos.
Quando, em que momento, você teve o insight, o ponto de
partida, para elaborar Luxúria? Desse primeiro momento até entregar o arquivo
para a editora, quanto tempo se passou? Reescreveu quantas vezes? Colegas
leram, deram algumas sugestões? Como foi, enfim, o processo de idealizar e
escrever o romance?
Eu andava com vontade de escrever algo sobre a profunda
frustração que viveu a minha geração. Eu me refiro àquelas pessoas que nasceram
na primeira metade dos anos 1960 e que assistiram às várias promessas de
civilização que foram sendo feitas e traídas pela venalidade cotidiana do nosso
violento, autodestrutivo e autodepreciativo, fazer político: tentamos eleger um
presidente de maneira direta, mas a ditadura só nos permitiu o colégio
eleitoral; o menos ruim daqueles que concorreram ao colégio eleitoral venceu,
mas teve o mal gosto de morrer antes de assumir, vivemos a era Sarney, as
funestas e cosméticas presenças de Collor e de Itamar Franco, depois assistimos
a cinco mandatos de governos eleitos pelo povo alienarem os seus mais caros
ideais democráticos e de igualdade social e governarem reféns dos partidos
derrotados, em alianças de bandidos num congresso de criminosos retroalimentado
pelo tesão de permanecer no Estado... É um paisinho de merda, não é, parceiro?
Também queria tratar dessa confusão entre cidadania e consumo e endividamento,
típica do que aconteceu nos últimos anos. Transformamos os desgraçados em
consumidores sem que se tornassem cidadãos. Também fui operário, minha antiga
atividade (ajustagem mecânica), por exemplo, entrou em extinção faz tempo: as
máquinas realizam melhor o serviço do que o melhor dos operários. Os homens são
desnecessários, e nunca houve tanto conforto disponível. Fácil, falso, mas
disponível, e todos acreditaram. Queria tratar de um país que se deitou
embriagado, sonhou um pesadelo previsível, sem graça, e acordou sufocado,
endividado até o pescoço. A desgraça de um operário que tenta construir uma
piscina em sua casa e é vencido pela insurreição dos elementos de seu mundo, me
pareceu um maravilhoso microcosmo, grotesco, do que fizemos de nós próprios. É
uma literatura do que está acontecendo, embora o romance tenha começado a ser
escrito faz 5 anos. A história tornou-se tristemente atual, isso é
indiscutível. Luiz Ruffato foi o único leitor do original e deu sugestões importantes,
que eu usei nas várias vezes em que reescrevi a narrativa. O livro teve umas
boas cinco versões, com mudanças substantivas em cada uma delas, até chegar a
esta última.
Há quem diga que a primeira frase deve definir, sintetizar o
romance e, em Luxúria, a narração começa da seguinte maneira: “É um momento
histórico de prosperidade num país acostumado a viver na merda.” Para quem
ainda não leu e mesmo para quem já conhece, considera que a primeira frase faz
uma apresentação da proposta de Luxúria?
Acho que sim. Neste sentido a frase é uma ótima síntese. O
romance trata justamente da construção desse imaginário que nos envolveu e
embriagou nos últimos tempos. Vivemos a falsa ilusão de que tínhamos resolvido
tudo porque os miseráveis estavam comprando carro popular e viajando de avião.
É claro que é maravilhoso que todos os cidadãos brasileiros disponham de bens e
vivam os prazeres e lazeres de uma viagem. No entanto, não conseguimos superar
esta fase infantil de nosso pseudodesenvolvimento. Os governos de esquerda não
realizaram a promessa de redução das diferenças em níveis consideráveis.
Governaram como governou desde sempre a direita, apresentando resultados
práticos, mantendo a injustiça social perto do intolerável, jogando no lixo os
valores que os levaram ao poder. Na hora em que sobrevém a crise e o
desemprego, sobram dívidas, quando deveria ter havido educação integral e de
qualidade e compreensão cultural das coisas do mundo em que vivemos, antes.
Ademais a imprensa e o governo estão cagando para os livros. Luxúria também
trata disso.
Luxúria apresenta uma família que, a partir das
possibilidades do crédito fácil, vai flertar com a sugestão de paraíso, via
consumo, e, em seguida, pagar a conta. Como foi criar esses personagens, o pai
operário, a esposa dependente de antidepressivos e o filho adolescente?
Elaborou a partir de pesquisa e observação?
Digo que o livro é lamentavelmente sobre pessoas e
acontecimentos reais e não minto. Percebi cedo que vinha de uma cepa de vermes
preguiçosos, estelionatários e puxa-sacos que sempre preferiram encostar-se num
sofá, de preferência com um copo de cachaça, a ler um livro, gente que sempre
olhou a ousadia e o progresso, com desconfiança e medo. Observo estas péssimas
qualidades por onde ando, também, especialmente entre os paulistanos à minha
volta, na violência de nossa polícia e do trânsito da cidade de São Paulo, nas
cadeias administradas pelo crime organizado na cidade mais rica do país, na
cegueira cultural, histórica e política do cidadão comum. O desleixo de alunos
e professores com o verdadeiro ensino. Livre, em tempo integral, laico...
Estamos um traste. E não é preciso pesquisar muito para notar estes
personagens: basta abrir os olhos e os ouvidos. Nossa degradação é progressiva,
insistente, inexorável até a burrice final.
Ao comprar uma piscina, a vida do operário ferramenteiro, o
super- -herói do relato, vai mudar, para sempre. A tentativa de instalação da
piscina no quintal da casa vai ocupar parte significativa deLuxúria. O livro
traz informações detalhadas, por exemplo, o que se lê na página 273: “A malha
de aço, a portuguesa, mas quadrada, ou retangular, num rococó reto e definido
por ângulos recortados. Cada quatro ferros de oito e cada estribo de quatro
milímetros são amarrados quatro vezes entre eles, em cada ângulo reto da
junção. Cada figura se gruda numa outra, gêmea, espelhada. Do mesmo tamanho.”
Você pesquisou sobre o assunto? Consultou manuais? Entrevistou profissionais da
área? A ideia foi provocar um efeito irônico?
O mundo do trabalho não requereu pesquisa nenhuma, pois fiz
o curso de ajustagem mecânica numa unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (SENAI), numa fábrica de engrenagens do ABC paulista (A ZF de São
Caetano) em meados dos anos 1970, além de conviver numa família de operários
metalúrgicos reacionários, brutos e semialfabetizados (sabiam contar dinheiro e
calcular ângulos simples nos tornos, nada mais). Já a construção de piscinas,
seus tipos e seu funcionamento, isso sim me interessou pesquisar e colhi algumas
pastas de dados. Descobri coisas engraçadas e aterradoras. Usei muita coisa.
O capítulo 12 — “Recorde de acessos na semana” — traz
praticamente a descrição de um vídeo, a decupagem de um audiovisual. Neste
caso, você se valeu do seu conhecimento de com TV e cinema para incluir a
linguagem de roteiro dentro do romance?
Sou um escritor que teve a vantagem de viver num momento
histórico em que há diversas mídias que ainda necessitam desta coisa antiga,
mas sofisticadíssima, que é a dramaturgia, a literatura, enfim. Roteiro e livro
tem naturezas diferentes, mas brincar com as conexões entre as suas linguagens
específicas, é parte do meu prazer e interesse estético, desde sempre. Posso
fazer você “visualizar uma cena” num livro; ou fazer o espectador ouvir determinado
texto, viver certa emoção literária num filme. São questões que cada modalidade
de arte impõe aos verdadeiros criadores todos os dias, aliás.
Antes do fim do livro, há uma sequência de capítulos com
linguagens diferentes entre si, mas que, de maneira geral, funcionam — o
efeito, para o leitor, é surpreendente. O capítulo 71 traz a narração presente
em grande parte de Luxúria, o narrador em terceira pessoa apresentando uma
situação dramática. Já o capítulo 72, a exemplo do que foi perguntado na questão
anterior, mostra quase a decupagem de um audiovisual. O capítulo 73 é uma carta
de demissão. A sua estratégia, para conduzir Luxúria, foi, enfim, fazer uma
mistura, uma mescla, de opções narrativas?
Aprecio a ideia de narrar usando documentos (como a carta de
demissão, por exemplo), que substituem, ou melhor, que incluem em si próprios,
uma narrativa. O fato de os capítulos representarem abordagens diferentes, tem
à ver com o meu gosto pelas diversas linguagens que compõem a arte e a vida.
Sempre gostei de cinema, troço cosmopolita em essência, e de cultura pop em
geral. Aprendi filosofia com a Nouvelle Vague, política com Eisenstein e o
Cinema Novo, geografia e história com o Rock´n´Roll e assim por diante.
Em Luxúria há, na falta de palavra/ expressão mais precisa,
alguns núcleos: a casa da família, a empresa, a escola, a rua e a igreja. Esses
são, ou podem ser, os espaços, os cenários, em que personagens da realidade —
em diálogo com os personagens que aparecem no livro — circulam neste Brasil onde
teve crédito fácil em tempos recentes?
Na verdade, meus personagens são, tragicamente, “limitados”
por estes núcleos/ cenários. A vida da maioria dos meus sempre foi um
deslocamento entre o trabalho, lugar de sofrimento, e a casa, lugar de solidão.
A religião é triste e punitiva. O serviço a prestar uma repetição tola e
infinita. Os prazeres sexuais e gastronômicos limitados, a insegurança material
e espiritual constante. Culpa, cobrança, inveja, desprezo pela liberdade,
mesquinhez, desalento. A impressão generalizada é que se recebe pouco por andar
dentro da lei. É um caldo de cultura péssimo este em que estamos submersos, e
que vai nos levar à autodestruição em poucas décadas, é quase certo.
O tempo é uma questão em Luxúria: “Na fábrica o relógio anda
para trás, na escola o relógio não anda e em casa o relógio anda para o lado.”
(Sem mencionar a última, e arrebatadora frase do romance) os personagens de
Luxúria são engolidos pelo tempo?
O tempo é a substância básica de Luxúria. O tempo vendido e
comprado, o tempo usado, o tempo jogado fora, mal aproveitado, arremessado na
cara de quem não tem por aquele que é o seu dono, seu feitor, o tempo que eu
roubo de você para que sobre tempo para mim. As relações de trabalho, em países
pobres, burros e violentos como o nosso, são extremamente danosas para quem não
estudou e ganha pouco. O tempo dessas pessoas é um tempo inferior ao dos
outros, os que acham que podem fazer o que querem... Mas esta destruição do
tempo, essa banalização do tempo, no livro, é uma de suas partes artísticas
mais bem-sucedidas, na minha opinião. Acho verdadeiro aquilo que está lá,
conheço bem a perversidade, vivi e fui vivido por aquilo, fui humilhado e
humilhei dentro daqueles moldes.
A relação entre os personagens de Luxúria é marcada pela
tensão, há hostilidade e violência no convívio, seja entre os membros da
família ou outros personagens. Os brasileiros, os humanos, são violentos? Essa
é a característica que pode nos definir?
Violência é o traço de convivência que define sociedades e
países que desprezam a cultura, o ensino que aproxima o aprendizado das várias
gerações e os valores civilizatórios em geral, como é o caso do Brasil, em que
educação é merda até para os altos burocratas pau-mandados da educação privada
que, em São Paulo, por exemplo, advogam o ensino técnico. Eu pergunto: quem vai
dizer ao jovem: pare de conhecer, de se interessar e ampliar seus horizontes e
vá para a primeira linha de montagem que o aceitar, apertar parafusos?
Ridículos estes homens de poder, são ridículos e jurássicos todos eles...
Thor, o cachorro de estimação da família do operário
ferramenteiro, tem espaço, e destaque, em Luxúria. Um dos mercados que mais
crescem entre as micro e pequenas empresas é o dos pet shops. Há pensatas sobre
a relação entre cachorro e ser humano no romance. A relevância dos cães é cada
vez mais no Brasil contemporâneo?
Fiz a experiência de tentar doar um cão na Internet e quase
fui linchado. Os cães domésticos costumam preencher o vazio moral, sexual e
amoroso dos seus proprietários e este livro apenas esboça um quadro, muito
tênue, disso. Nada demais.
Você estreou com o livro de poesia Fibra ótica, ainda nos
anos 1980. Desde então, escreveu coletâneas de contos, romances, histórias
infantojuvenis, peças de teatro e roteiros para o cinema e a TV. Como você
entrou e se adaptou a tantos gêneros, que, apesar de utilizarem a mesma matriz
— a palavra — são idiossincraticamente diferentes?
Como já anotei, faço parte de uma geração em que as mídias
se abriram para o texto. Vindo de um ambiente operário eu sabia que devia fazer
algo que me permitisse pagar as contas. A ideia e a vontade de vender meu
texto, de entrar em embates criativos com a indústria cultural, me levou a me
interessar e praticar diversas linguagens. Estar preparado para enfrentar as
encomendas sem sofrer, mas produzindo o melhor possível.
Em alguns de seus projetos, seja na literatura ou no teatro,
há uma clara tentativa de subverter a linguagem, mas, ao mesmo tempo, sempre
com o objetivo de “contar” uma história. Como você dosa a vontade de
transgredir, inerente a maior parte dos escritores, com o princípio básico da
literatura, que é a narrativa?
A melhor solução de prosa, portanto estamos no campo da
narrativa, para mim, é aquela que contempla a linguagem, que apresenta o que há
para ser expresso sob uma forma que determina seu conteúdo, que o torna muito
específico, e único, e ao mesmo tempo, dotada de beleza e força poética, de
verdade ficcional, em todos os seus detalhes. Parece teórico. E não é muito
simples mesmo. Arte é originalidade. Foda de alcançar.
Você se envolveu com roteiro de cinema e TV, algo que
consome tempo e ideias. E também não é um escritor apenas de livros, trafega em
outras linguagens. Isso, de alguma forma, atrapalhou sua carreira como
ficcionista (contista e romancista)?
Sim, atrapalhou. Hoje, com 53 anos a agilidade mental não é
a mesma, reconheço que estraguei algumas boas ideias de romance, novela ou
conto para escrever uma sinopse de afogadilho, cenas banais de seriados e de
longas-metragens. Às vezes as necessidades da sobrevivência te obrigam a dispor
de forma leviana de algo muito querido e acalentado. Mas a vida é isso também.
Estou disponível pro jogo. Sem mágoas.
Até a década de 1980, o escritor, em geral, se tornava
jornalista, professor ou funcionário público para ganhar a vida. Hoje há muitas
outras possibilidades, como a produção audiovisual, a internet, etc. Para você,
a televisão (e o cinema, em menor medida) é apenas uma forma de ganhar a vida
ou é uma atividade que também te completa como criador?
É uma atividade para ganhar a vida que amoleceu e tornou
muito mais versátil o meu texto literário.
Vários de seus livros falam sobre a periferia. Mas uma
periferia menos miserável, pelo menos economicamente, se comparada aos morros
cariocas. É a classe média baixa, o trabalhador com emprego, mas que ganha pouco.
Praticamente o mesmo tema dos livros do escritor Luiz Ruffato. Vê semelhanças
entre a sua produção e a dele?
Nossas literaturas, com todas as nossas diferenças formais,
políticas, pessoais e estilísticas, abordam este mesmo lugar e tempo, que foi a
transformação do Brasil do século XX, aquele país em que se “amarrava cachorro
com linguiça”, neste em que vivemos agora, de alta tecnologia e alta miséria em
permanente coexistência. O Ruffato leu isto com uma voz e uma poética incomuns.
Eles eram muitos cavalos é grande, é porrada, já tem o seu lugar na História.
Você e Marçal Aquino foram parceiros em diversos projetos,
por exemplo, na série Força tarefa, da TV Globo. Ele é o escritor com quem tem
mais afinidade? Como surgiu essa parceria?
Marçal Aquino e eu formamos uma dupla de criação em que o
respeito mútuo e a prevalência do que é melhor, guia o trabalho. Trabalhamos
ombro a ombro na casa dele (tenho duas filhas pequenas e um tanto barulhentas,
na minha casa, no momento), decidindo a cada passo o que é melhor e mais
original para o que escrevemos, nas condições e para o público que almejamos.
Marçal tem um repertório e memória incríveis. Dá muito conforto trabalhar com
um artista assim. Eu faço o que eu gosto; me divirto fabulando, inventando, e
depois encontrando palavras para descrevê-lo. Não é ruim.
E falando de geração, que avaliação você faz da sua própria
geração e, em geral, do cenário literário brasileiro? Além dos meios de
publicação, o que mudou dos anos 1980 pra cá em termos literários?
Minha geração... Cacete, o que é isso? Quem somos? Bem, há
certa diversidade, pelo menos. E uma impressão de leitor/escritor que fomos um
tanto inúteis, nos rendemos aos prazeres fáceis da indústria cultural, da
conivência com uma política de criminosos, não retratamos o que fizemos de nós
todos e o que todos nós fizemos do país, dos sonhos, dos pesadelos e dos
abortos... Eu gostaria de dizer “fomos considerados indigestos pelos
autoritários e ousados diante dos poderosos”, mas não acho que seja o nosso
caso. Hoje em dia, de todo modo, é bem mais fácil publicar. O livro ficou
barato. E há os incentivos fiscais, os prêmios... Os blogs, que permitem
exercício permanente. A tecnologia foi madrinha disso, felizmente. Os caras
acima de 50, como eu, sabem que era mais complicado antes.
Para finalizar, você tem algum hábito diário, além de ler e
escrever. Por exemplo, caminha? Vai em algum lugar olhar o movimento? Fica
parado pensando? Um hábito que se repete e que você não abre mão? Caso sim, o
que é?
Ando uma hora por dia, leio bons livros, vejo bons filmes e
procuro me manter estimulado, artisticamente, conhecendo ou revisitando a obra
de gente que me toca, me desafia, me incomoda, me tira de minha mesquinhez e do
ramerrão cotidianos. Não é hábito, mas uma certa disciplina criativa: escrever
um punhado de literatura, nem que seja um tiquinho, todos os dias.
(Cândido, Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, dezembro
de 2015)
http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1009
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