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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Havia ainda naquela época outra circunstância que me torturava: precisamente o fato de que ninguém se parecia comigo e eu não era parecido com ninguém. “Eu sou único e eles são todos”, pensava eu.
Daí se vê que eu ainda era inteiramente criança.

— Fiódor Dostoiévski, in Memórias do Subsolo – trecho do texto 01, da segunda parte, pág 58.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

".... E de repente pareceu-lhe que a mãe lhe cantava uma canção. 'Mamãe, vou dormir; ah! Como é bom dormir aqui!'
- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas. só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe a lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! Mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclamava a criança. De novo abraça seus companheiros e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça...
- Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não o tiveram na terra...
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com as mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus" - Dostoievski (A Árvore de Natal na Casa de Cristo)
"Se tudo no mundo fosse sensato, nada aconteceria. Sem ti não haveria quaisquer acontecimentos, e é preciso que haja acontecimentos. E então trabalho a contragosto para que haja acontecimentos e crio o insensato cumprindo ordem. Os homens, a despeito de toda a sua indiscutível inteligência, tomam toda essa comédia por alguma coisa séria. Nisto reside sua tragédia. E então sofre, é claro, mas … em compensação, vivem apesar de tudo, vivem na realidade, não na fantasia; porque o sofrimento é que é vida. Sem sofrimento, que prazer poderia haver em viver? – tudo se transformaria num infinito 'Te Deum': é preciso uma coisa sagrada, porém meio chata. Bem, e eu? Sofro, e no entanto não vivo. Sou o x de uma equação indefinida. Sou uma espécie de espectro da vida, que perdeu todos os fins e princípios e acabou esquecendo até como se chama."

Dostoiévski, O Diabo: O Pesadelo de Ivan Fiodorovitch em Os Irmãos Karamazov.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Idiota

"Matar por um assassinato é uma punição incomparavelmente pior do que o crime em si. O assassinato por uma sentença legal é incomensuravelmente mais terrível do que o assassinato por bandidos. Alguém que é assassinado por bandidos, cuja garganta é cortada à noite numa floresta, ou algo do tipo, deve com certeza esperar escapar até o último minuto. Houve ocasiões em que o homem ainda teve esperança de escapar, correndo ou implorando por piedade depois que sua garganta foi cortada. Mas no outro caso toda essa última esperança, que torna o morrer dez vezes mais fácil, é certamente tirado. Há a sentença, e a completa e horrível tortura reside no fato de que certamente não há escape, e não há tortura mais terrível no mundo."
- Fiodor Dostoiévski, O Idiota


“To kill for murder is a punishment incomparably worse than the crime itself. Murder by legal sentence is immeasurably more terrible than murder by brigands. Anyone murdered by brigands, whose throat is cut at night in a wood, or something of that sort, must surely hope to escape till the very last minute. There have been instances when a man has still hoped for escape, running or begging for mercy after his throat was cut. But in the other case all that last hope, which makes dying ten times as easy, is taken away for certain. There is the sentence, and the whole awful torture lies in the fact that there is certainly no escape, and there is no torture in the world more terrible.”

― Fyodor Dostoyevsky, The Idiot
"Acima de tudo, não minta para si mesmo. O homem que mente para si mesmo e escuta sua própria mentira chega a um ponto em que não pode distinguir a verdade dentro dele, ou em volta dele, e então perde todo o respeito por si mesmo e pelos outros. E não tendo respeito, cessa de amar."
~Fiodor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazóvi

“Above all, don’t lie to yourself. The man who lies to himself and listens to his own lie comes to a point that he cannot distinguish the truth within him, or around him, and so loses all respect for himself and for others. And having no respect he ceases to love.”

— Fyodor Dostoevsky, The Brothers Karamazov

Fonte : literatura russa para brasileiros

sábado, 29 de março de 2014

O Idiota

"Matar por um assassinato é uma punição incomparavelmente pior do que o crime em si. O assassinato por uma sentença legal é incomensuravelmente mais terrível do que o assassinato por bandidos. Alguém que é assassinado por bandidos, cuja garganta é cortada à noite numa floresta, ou algo do tipo, deve com certeza esperar escapar até o último minuto. Houve ocasiões em que o homem ainda teve esperança de escapar, correndo ou implorando por piedade depois que sua garganta foi cortada. Mas no outro caso toda essa última esperança, que torna o morrer dez vezes mais fácil, é certamente tirado. Há a sentença, e a completa e horrível tortura reside no fato de que certamente não há escape, e não há tortura mais terrível no mundo."

- Fiodor Dostoiévski