sábado, 27 de junho de 2015

Não nos peças a palavra


Não nos peças a palavra que esquadre por todo o lado
a alma nossa informe e com letras de fogo
a declare e resplandeça como um croco
perdido no meio de um poeirento prado.
Ah o homem que anda seguro
aos outros e a si mesmo amigo
e da sombra sua não cuida que a canícula
imprime num muro arruinado!
Não nos peças a fórmula que mundos possa abrir-te
sim alguma torta sílaba e seca como ramo.
Só isso hoje podemos dizer-te:
o que não somos, o que não queremos.

Eugenio Montale


Breve balanço das greves da educação do Paraná


por Hermes Silva Leão

Foram 73 dias de greve na rede estadual de educação do Paraná. Em apenas um  quadrimestre letivo duas grandes greves de Professores/as e Funcionários/as das escolas públicas movimentaram o conjunto da população paranaense. Em mais uma assembleia histórica da categoria, 12 mil educadores/as definiram no dia 09 de junho no Estádio da Vila Capanema em Curitiba encerrar esta segunda greve no ano letivo 2015.

Num curto espaço de tempo a movimentação dos/as educadores/as em conjunto com os/as demais servidores/as do estado efetuou uma forte modificação na conjuntura política, mudando os rumos de um governo que tinha uma avaliação positiva e passou a ter um nível de rejeição altíssimo em virtude dos ataques aos direitos dos/as trabalhadores/as do serviço público e das inúmeras denúncias de corrupção.

Além de todo esse processo, durante as duas greves houve uma reorganização dos secretariados do Governo com a queda dos seguintes membros do governo, em função do nosso movimento:

– Chefe de Recursos Humanos da SEED, Cyrce Bernadete da Silva;
– Secretário de Educação, Fernando Xavier Ferreira;
– Renuncia ao cargo do Comando Geral da Polícia Militar do Paraná, Coronel Cesar Kogut;
– Secretário de Segurança Pública, Fernando Francischini.

A sociedade paranaense igualmente atingida com as políticas de austeridade do governo Beto Richa (PSDB), apoiou intensamente toda a mobilização, participando de atos, contribuindo com doações para os acampamentos, publicando opiniões nas redes sociais. Também foi muito forte o apoio vindo dos/as estudantes e familiares, que compreenderam a pauta da greve, que foi para além dos direitos dos/as educadores/as e da defesa da escola pública.

Numa breve avaliação das duas greves, que foram de resistência a intensos ataques aos direitos, elas garantiram:

– Impedimento da desestruturação das carreiras, tanto na greve de fevereiro quando derrotamos o pacotaço, através das ocupações na ALEP, como a mensagem de lei nº 26/2015 que em seu artigo 6º retomava o achatamento da tabela salarial;

– O compromisso do governo de implementação e pagamentos de promoções e progressões de professores e funcionários;

– Garantia dos acertos de direitos trabalhistas dos PSS (Contratos Temporários), bem como a retomada do pagamento mensal juntamente com os demais servidores no ultimo dia útil de cada mês;

– Retomada de programas e projetos educacionais que estavam suspensos pelo governo, com isso os/as estudantes tiveram de volta o acesso a cultura, esporte e língua estrangeira, bem como trouxe de volta ao interior das escolas mais de 5 mil professores/as e funcionários/as PSS;

– Impedimento da superlotação de estudantes nas salas de aula, limitando o número máximo de alunos por turma;

– Posse de 1478 novos/as professores/as concursados/as, que haviam sido convocados/as e posteriormente dispensados com suas vagas consideradas excessivas;

– Retomada do programa de desenvolvimento educacional (PDE) e das licenças especiais para o segundo semestre de 2015;

– Regularização do repasse dos recursos do fundo rotativo para as administrações escolares;

PREVIDÊNCIA DOS/AS SERVIDORES/AS – Nossa luta não impediu que o governo avançasse no ataque aos direitos previdenciários, descumprindo compromisso do encerramento da primeira greve. O FES – Fórum das entidades Sindicais continuará pela via judicial toda luta pela derrubada desta Lei, considerando avaliações de especialistas quanto da ilegalidade do texto aprovado. O tema acaba se ser enviado ao STF.

COMPROMISSOS PÚBLICOS DO GOVERNO NO ENCERRAMENTO DA SEGUNDA GREVE:

– Não consignação de faltas e não desconto dos dias de greve;

– Abrir mesa de negociação específica para discutir todos os temas relativos a educação básica;

– Nenhum processo administrativo sobre os/as diretores/as de escola;

– Retirada das ações judiciais contra a APP-Sindicato;

O MASSACRE DO DIA 29 DE ABRIL

A violência decorrida durante a votação da previdência expôs ao mundo a face autoritária e antidemocrática do governo Beto Richa (PSDB). Historiadores/as paranaenses avaliam que desde os episódios de conflito de luta pela terra nos anos de 1950, passando inclusive pelos confrontos da ditadura civil militar, não se viu ação tão violenta quanto essa ocorrida no Centro Cívico de Curitiba. Posterior a tudo isso se desencadeou debates, seminários e conferências em sindicatos, universidades e movimentos sociais sobre o ocorrido  no dia 29 de abril, como forma de se produzir um memorial e resgatar as memórias daquele dia para não se perder nenhum detalhe.

O Ministério Público do Paraná instalou um inquérito que visa apurar todas as responsabilidades ocorridas neste episódio, com mais de 180 depoimentos colhidos, matérias, registros que constam como subsídio para os devidos encaminhamentos jurídicos.

No dia 8 de maio ocorreu no Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná um Julgamento Moral sobre o Massacre do Centro Cívico de Curitiba. O evento contou com a participação de mais de mil pessoas entre estudantes, juristas, professores/as e servidores/as e foi realizado pela Faculdade de Direito e pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da UFPR.

Numa banca composta por juristas de renome nacional, o Governador Beto Richa foi condenado, diante do debate do Jurista Celso Antônio Bandeira de Mello que disse: “quem responde pelo governo, pelo Estado, é a autoridade, é o governador, se o Estado fez o que fez, é ele que tem que responder a sanção natural para o que aconteceu é o Impeachment do governador Beto Richa”

O Congresso Nacional promoveu uma audiência pública onde, para além da denúncia nacional do episódio, várias ações foram deliberadas, inclusive uma audiência pública conjunta do poder público federal e estadual em Curitiba.

DATA-BASE – Como mais uma medida de ataque aos direitos dos/as servidores/as a proposta inicial do governo era reajuste zero em 2015. A greve da educação e demais servidores/as fez o governo e a base parlamentar produzir uma proposta de parcelamento que não encontrou apoio dos/as servidores/as públicos/as e dos/as deputados/as de oposição. Esse tema está em debate na Assembleia Legislativa do Paraná (PL 421/2015) e a assembleia estadual da categoria que encerrou a greve da educação  não condicionou o retorno das aulas a esse projeto.

CENÁRIOS PARA O FUTURO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PARANÁ

Levando em consideração que temos neste período histórico do Paraná, um governo identificado fortemente com o ideário das políticas neoliberais que incidem sobre os/as trabalhadores/as retirando-lhes direitos e, neste caso, sobre os/as servidores/as públicos do Paraná.

Teremos o desafio de resistir e persistir na luta, como forma de barrar o avanço dessas políticas sobre os serviços básicos de atendimento a população paranaense, com destaque para a saúde e educação. Sendo assim, reafirmamos nosso compromisso com a democracia, com a defesa dos direitos dos/as professores/as e funcionários/as e a defesa histórica da APP sobre a escola pública, gratuita, laica e de qualidade para todos e todas.

Fonte : APP Sindicato

Instruções da vida

Otto Leopoldo WinckComo não vem manual de instruções da vida, a gente tem que aprender vivendo. O problema é que, quando a gente aprende uma lição, sua fase de aplicação já passou. Assim, a experiência é como uma casaco de pele num dia de verão ou como uma sunga no Himalaia. Não serve pra nada. Talvez pra escrever livros de memórias ou romances de autoficção -- falando da vida que poderia ter sido e que não foi.

Mitiko Ynoue 'Viver é uma peça de teatro que não permite ensaios'. - Chaplin. - Mas bem que eu queria dar uma ensaiadinha de vez em quando.

Angelina Fibonacci Depois dessa preciso de vinho!

Willy Bortolini Mas aí você termina de escrever e percebe que poderoa ter escrito coisas melhores e que o tal livro não passa de simulacro daquilo que foi e já não eh mais. Kkkk

Sissi Catharina as vezes a gente repete o erro e não aprende a lição.

Elizabete Alves Geraldo Sanches Viver é uma grande arte e não tem rascunho, não há tempo para passar a limpo .

Mayra Coelho O bom dessa presepada que os deuses fizeram quando nos inventaram (e terão feito mesmo?) é que ao viver escrevemos uma narrativa que jamais poderá ser plagiada. E quem haveria de querer?A vida é um livro aberto diante de um analfabeto. Mas nem por isso aumento o volume de minhas queixas, que mesmo que sejam de cair o queixo, nada vão acrescentar. "Antonio Thadeu Wojciechowski"

Jorge Luiz Fonseca Alguém já disse, não me lembro quem, que a experiência é como um carro que tem os seus faróis virados para trás, na frente só escuridão. Mas esses seus exemplos são ótimos: casaco de pele no verão e sunga no Himalaia.


Gustavo Pereira Nos basta esperar as próximas oportunidades para aplicar aquilo que aprendemos ou próximo verão quente do himalaia.

Ódio


Sentimento está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for a sigla

Não vi a entrevista do Jô com a Dilma, mas, conhecendo o Jô, sei que ele não foi diferente do que é no seu programa: um homem civilizado, sintonizado com seu tempo, que tem suas convicções — muitas vezes críticas ao governo — mas respeita a diversidade de opiniões e o direito dos outros de expressá-las. Que Jô fez uma matéria jornalística importante e correta, não é surpresa. Como não é surpresa, com todo esse vitríolo no ar, a reação furiosa que causou pelo simples fato de ter sido feita.

A deterioração do debate político no Brasil é consequência direta de um antipetismo justificável, dado os desmandos do próprio PT no governo, e de um ódio ao PT que ultrapassa a razão. O antipetismo decorre, em partes iguais, da frustração sincera com as promessas irrealizadas do PT e do oportunismo político de quem ataca o adversário enfraquecido. Já o ódio ao PT existiria mesmo que o PT tivesse sido um grande sucesso e o Brasil fosse hoje, depois de 12 anos de pseudossocialismo no poder, uma Suécia tropical. O antipetismo é consequência, o ódio ao PT é inato. O antipetismo começou com o PT, o ódio ao PT nasceu antes do PT. Está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla.

É inútil tentar debater com o ódio exemplificado pela reação à entrevista do Jô e argumentar que, em alguns aspectos, o PT justificou-se no poder. Distribuiu renda, tirou gente da miséria e diminuiu um pouco a desigualdade social — feito que, pelo menos pra mim, entra como crédito na contabilidade moral de qualquer governo. O argumento seria inútil porque são justamente estas conquistas que revoltam o conservadorismo raivoso, para o qual “justiça social” virou uma senha do inimigo.

Tudo isto é lamentável mas irrelevante, já que o próprio Lula parece ter desesperado do PT. Se é verdade que o PT morreu, uma tarefa para investigadores do futuro será descobrir se foi suicídio ou assassinato. Ele se embrenhou nas suas próprias contradições e nunca mais foi visto ou pensou que poderia ser a primeira alternativa bem-sucedida ao domínio dos donos do poder e acordou um dia com um tiro na testa?
De qualquer maneira, será uma história triste.


(Fernando Verissimo )

domingo, 21 de junho de 2015




Nostalgia


Na casa não é ainda madrugada
E deitada a meu lado a nostalgia
Dorme e recupera suas forças.
Fatiga muito a companhia
De um negro rebelde e romântico.
Tem ela quinze anos ou mil anos
Ou apenas acaba de nascer
E é o seu primeiro sono
Sob o mesmo teto que meu coração.
Há quinze anos ou há muitos séculos
Levanto-me sem poder falar
O idioma do meu povo,
Sem o bom-dia de seus deuses pagãos
Sem o sabor de seu pão de mandioca
Sem o cheiro do seu café da manhã.
Acordo distante de minhas raízes,
Longe da infância,
Longe da minha própria vida.
Há quinze anos ou desde que meu sangue
Atravessou, chorando, o mar
A primeira vida que saúdo ao despertar
É esta desconhecida de fronte tão pura
Que um dia será cega
À força de usar seus olhos verdes
A contar os tesouros que perdi.
Nostalgia

Alegoria dos Cegos – Brueghel
Na casa não é ainda madrugada
E deitada a meu lado a nostalgia
Dorme e recupera suas forças.
Fatiga muito a companhia
De um negro rebelde e romântico.
Tem ela quinze anos ou mil anos
Ou apenas acaba de nascer
E é o seu primeiro sono
Sob o mesmo teto que meu coração.
Há quinze anos ou há muitos séculos
Levanto-me sem poder falar
O idioma do meu povo,
Sem o bom-dia de seus deuses pagãos
Sem o sabor de seu pão de mandioca
Sem o cheiro do seu café da manhã.
Acordo distante de minhas raízes,
Longe da infância,
Longe da minha própria vida.
Há quinze anos ou desde que meu sangue
Atravessou, chorando, o mar
A primeira vida que saúdo ao despertar
É esta desconhecida de fronte tão pura
Que um dia será cega
À força de usar seus olhos verdes
A contar os tesouros que perdi.

René Depestre - Poeta haitiano - Do livro “Jornal de um animal marinho”, 1964 - Poeta haitiano - Do livro “Jornal de um animal marinho”, 1964
Tradução de Idelma Ribeiro de Faria (Editora Hucitec)

En MONCADA


Publicado el 14 Enero 2012 

 Yo tenía doce años cuando el asalto al Moncada, dieciséis cuando el desembarco del Granma, dieciocho cuando los guerrilleros entraron, victoriosos, en La Habana. Los hombres de mi generación hemos tenido la suerte de coincidir, en el tiempo, con la Revolución Cubana. Desde temprano se nos mezcló en la vida y se nos metió en el alma. Junto a muchos millones de hombres, celebro esta revolución como si fuera mía.
Ella me ha transmitido fuerzas cuando me he sentido caer. Me ha contagiado energía, día tras día, año tras año, a lo largo del proceso que la puso a salvo de la derrota o la traición. Cuba rompió en pedazos la estructura de la injusticia y confirmó que la explotación de unas clases sociales por otras y de unos países por otros no es el resultado de una tendencia “natural” de la condición humana ni está implícita en la armonía del universo. Muchas murallas se ha llevado por delante este viento de buena furia popular.
La colonia se hizo patria y los trabajadores, dueños de su destino. La mujer dejó de ser una pasiva ciudadana de segunda clase. Se acabó el desarrollo desigual que en toda América Latina castiga al campo a la par que hincha a unas pocas ciudades babilónicas y parasitarias. Se borró la frontera que separa el trabajo intelectual del trabajo manual, resultado de las tradicionales mutilaciones que nos reducen a una sola dimensión y nos fracturan la conciencia.
No ha resultado ningún paseo esta hazaña, ni ha sido lineal el camino. Cuando son verdaderas, las revoluciones se hacen en las condiciones posibles. En un mundo que no admite arcas de Noé, Cuba ha creado una sociedad solidaria a un paso del centro del sistema enemigo. En todo este tiempo, yo he amado mucho a esta revolución. Y no solo en sus aciertos, lo que resultaría fácil, sino también en sus tropezones y en sus contradicciones.
También en sus errores me reconozco: este proceso ha sido realizado por sencillas gentes de carne y hueso, y no por héroes de bronce ni máquinas infalibles.La Revolución Cubana me ha proporcionado una incesante fuente de esperanza. Ahí están, más poderosas que toda duda o reparo, esas nuevas generaciones educadas para la participación y no para el egoísmo, para la creación y no para el consumo, para la solidaridad y no para la competencia. Y ahí está, más fuerte que cualquier desaliento, la prueba viva de que la lucha por la dignidad del hombre no es una pasión inútil, y la demostración, palpable y cotidiana, de que el mundo nuevo puede ser construido en la realidad y no solo en la imaginación de los profetas.

Eduardo Galeano


Revista Casa de las Américas (No. 111, nov.-dic. de 1978, pp. 104-105)
Песня на стихи Владимира Раменского

Далеко-далеко журавли полетели,
Оставляя поля, где бушуют метели.
Далеко-далеко журавлям полететь нет уж мочи,
И спустились они на поляну в лесу среди ночи.

А наутро снялись и на юг полетели далекий,
Лишь остался один на поляне бродить одинокий.
Он кричал им вослед: "Помогите, пожалуйста, братцы,
Больше сил моих нет, нет уж мочи на воздух подняться!".

Опустились они, помогая усталому братцу,
Хоть и знали о том, что до цели труднее добраться.
И опять поднялась журавлей быстрокрылая стая...
Они братца того прихватили с собой, улетая.

Вот и в жизни порой, отставая от стаи крылатой,
Хоть и знаем о том, что законы о дружбе все святы.
Но, бывает, судьба начинает шутить, насмехаться,
И друзья обойдут, и никто не поможет подняться.

Далеко-далеко журавли полетели,
Оставляя поля, где бушуют метели.
Далеко-далеко журавлям полететь нет уж мочи,
И спустились они на поляну в лесу среди ночи!


Аркадий Северный – Журавли
Аркадий Северный концерт с анс. "Чайка" п/у Бориса Циммера, Ленинград,  8 декабря 1977 года



O salão e a selva



Oswald de Andrade

"(...)O advogado é um bicho útil às cavilações das portentades e à vontade dos fortes.Admito que, no Brasil, a função proba do advogado tenha surgido talvez com o movimento de libertação dos escravos negros ou com a propaganda republicana . Mas até hoje conservo a ideia exata de que o advogado, ou melhor, o bacharel é sempre um monstro de pequena e especializada erudição que deixou de servir os interesses do latifundiário porque este deixou de existir, com imoralíssimas excessões .Mas continua a ser a sentinela do negócio, pronto a esmagar a vítima que lhe caí nas unhas , sem nenhuma preocupação de justiça ou de ética.

(...) Guardo ainda hoje a impressão de que o bacharel não passa de um verme. É uma tênia asquerosa do sistema patriarcal.Vivendo com todas as bençãos e enrolamentos do deus dos negócios. "

A ESTA TERRA QUE SOFRE


A esta terra que sofre,
Diminuída, mutilada,
À procura de si própria,
Perdida, abandonada.
Mas ouvi, ó portugueses,
Corruptos ou estrangeiros,
Tontos, traidores, burocratas,
Ingénuos, fanatizados,
E vós também, os fiéis
Da verdade da raiz,
Ouvi o que diz o povo,
Ouvi a voz do país.
Portugal somos ainda,
Porque a semente que outrora
Germinou em terra ingrata,
Há-de reviver agora!
Em cada volta do tempo,
De novo começa o mundo.
Juventude, redescobre
O Portugal mais profundo!
(....)
Transviados, cabisbaixos,
Levantai o vosso olhar!
Pátria antiga, que sofreste
Há mais mar, p'ra além do mar!
(...)

António Quadros

POÉTICA CONTRADITÓRIA


Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.




António Gabriel de Quadros Ferro, conhecido como António Quadros (Lisboa, 14 de Julho de 1923 — Lisboa, 21 de Março de 1993), filósofo, escritor, professor universitário e tradutor português.

Escritores russos

Lev Tolstói:
“Quando ouço dizer que em qualquer uma das guerras rebentadas a culpa é exclusivamente de uma das partes, nunca posso aceitá-lo. É possível reconhecermos que uma parte aja pior do que outra, mas uma discussão sobre qual delas age pior nunca será capaz de esclarecer nem a razão mais superficial de estar acontecendo algo tão horroroso, cruel e desumano como a guerra. As respectivas causas, três no total, são evidentes para qualquer pessoa que mantenha os olhos bem abertos: a 1ª  é a distribuição desigual de bens, quando alguns indivíduos roubam os outros; a 2ª  é a existência de militares que são educados e predestinados para matar; a 3ª  é a doutrina religiosa, falsa e, na maior parte das vezes, conscientemente enganosa, que está sendo impingida às novas gerações.”
(De uma carta para G. Volkonski, datada de 4 de dezembro de 1899)
Tolstói foi um dos maiores pacifistas na história russa. Foi a participação na guerra que o mudou. Ele esteve na defesa de Sebastopol, durante a guerra da Crimeia de 1853 e 1856, bem como na campanha militar de subjugação dos povos do Cáucaso. Graças a sua experiência pessoal, chegou à negação absoluta de qualquer assassinato e, como consequência, até da Igreja e do Estado, além de muitos dos institutos sociais existentes naquela altura.
Fiódor Dostoiévski:
“Em certos casos, se não em quase todos, excluindo, talvez, apenas as guerras civis, qualquer guerra é um processo através do qual (precisamente com o mínimo derramamento de sangue, a mínima mágoa e os mínimos esforços) se consegue a paz internacional e são elaborados relacionamentos mais ou menos normais entre as nações. (…) O que mais está enfurecendo e exasperando o homem é a paz, sobretudo quando é prolongada, e não a guerra. (…) Uma guerra provocada por uma causa benévola, pela libertação dos oprimidos, por uma ideia desinteressada ou santa – uma guerra destas apenas está limpando o ar social, poluído pelos miasmas acumulados, e cura as almas, acabando com as vergonhosas covardias e preguiças, dá e esclarece uma ideia, à realização da qual é destinada uma ou outra nação. Uma guerra destas está fortalecendo todas as almas com o espírito de autossacrifício, além de o ânimo de toda a nação ser fortificado através da consciência solidária e a união de todos os cidadãos integrados numa nação.”
(“Diário de um Escritor”, 1876 – Abril, capítulo 1.º, p. III: O Sangue Derramado Salva?)
Em 1877, a Rússia declarou guerra à Turquia. Além das razões políticas, essa guerra tinha uma ideia profunda: na Rússia, foi e é vista como uma ajuda fraternal aos povos búlgaro e sérvio, subjugados pelos turcos. No ano anterior à guerra e no primeiro ano da mesma, Dostoiévski publicou artigos de uma coletânea intitulada “Diário de um Escritor”, em que refletiu muito sobre a guerra, bem como sobre a política europeia em geral.
Estas obras de Dostoiévski como publicista, de um século e meio atrás, têm semelhanças impressionantes com as análises políticas que hoje em dia se encontram na internet: o mesmo ardor, rispidez na apreciação, inclinação para previsões e prognósticos. Ainda antes do início das ações bélicas, Dostoiévski falou sobre a possibilidade de uma guerra surgir sem declaração oficial, com participação de formações voluntárias, o que nos lembra a situação atual no sudeste da Ucrânia.
Aleksandr Blok:
“Não tenho medo de balas. No entanto, a guerra e tudo relacionado com ela é uma brutalidade. Foi o que me tentava apanhar desde o liceu, se manifestando de formas variadas, e, enfim, me apertou a garganta. Ninguém devia sentir o cheiro de um capote de soldado.” 
(O diário, 28 de junho de 1916)
Na fase inicial da Primeira Guerra Mundial, os russos a encaravam com o entusiasmo, os literatos requintados se alistavam no Exército ou estavam escrevendo poemas cheios de patriotismo mais sincero. Aleksandr Blok, representante mais notável do “Século de Prata” da poesia russa, tinha uma posição à parte, sentindo uma repugnância à guerra, por perceber que ela sempre levava a uma explosão social. Após a revolução de 1917, o poeta faz tentativas amarguradas de se adaptar à nova realidade “brutal”, procurando nela uma fonte saudável e purificante. Os tais esforços o levaram ao extremo desespero e à morte prematura.
Boris Paternak:
“Deveríamos enaltecer e espiritualizar nossa atualidade, para darmos mais valor a todos dias que vivemos, para evitarmos desperdiçá-los ou perdê-los em vão, para a vida se tornar tão atraente, espiritual e cheia de inspirada beleza que não reste nenhuma vontade devastadora de assassínio ou suicídio. Não sei nem posso imaginar outro meio de resistirmos à guerra.”
(Cartas, 10º volume)
Durante a época do poder soviético, a propaganda usava o slogan oficioso de “luta pela paz”. Os escritores destacados participavam frequentemente das iniciativas organizadas sob este lema. Um escritor podia exprimir seus pensamentos sobre a guerra, sem ênfase demonstrativa ou floreados ideológicos obrigatórios, apenas mediante o diário ou a correspondência particular.
Na citação acima ouvimos entonações tolstoianas, e não é por acaso. Seu romance “Doutor Jivago”, que contribuiu para Boris Pasternak ganhar Prêmio Nobel de Literatura, às vezes faz eco a “Guerra e Paz” de Tolstói. Numa outra carta, encontramos a opinião oposta de Pasternak:
“A guerra exerceu uma ação infinitamente libertadora sobre meu estado geral, saúde, capacidade de trabalho e percepção de destino”. Em prol da verdade se diga que Pasternak não participou nem da Primeira, nem da Segunda Guerra. A sua maneira de encarar a luta armada foi inspirada pelas emoções e pelo temperamento poético, em vez da experiência própria. 


Aleksandr Soljenítsin:
“Nenhuma guerra é solução. A guerra é a morte. O horror da guerra consiste não no avanço das tropas, nem nos incêndios, nem nos bombardeios. Antes de mais, a guerra é horrorosa porque entrega tudo que há de raciocinativo ao poder legal da inépcia (…) Aliás, sem guerra também lá estamos nós.”
(Romance “O Primeiro Círculo”, 1958)
Soljenítsin, ex-oficial do Exército, mandado para a prisão da linha de frente da batalha, sendo depois colocado num campo de concentração estalinista, profere a sentença bem clara contra a guerra em que participa o Estado totalitário, apesar de se tratar de uma resistência e contraposição ao agressor: “Qualquer situação bélica serve apenas para justificar uma tirania interna, fortalecendo-a.”


Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projeto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder econômico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstratas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efêmeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade...



José Saramago, in 'Revista Universidad de Antioquia (2001)'

Parece claro que a questão da Palestina não está nem em defender o Hamas, muito menos o Estado que o governo de Netanyahu representa.
A injustiça que acontece na Palestina acontece por toda América Latina tendo sido diluída pelo encilhamento histórico ao qual fomos submetidos.
Quanto maior nossa responsabilidade, ou envolvimento, menos conseguimos enxergar com clareza a realidade dos fatos.
Eduardo Galeano sugere, por exemplo, que a polícia brasileira tenha matado em um ano [qualquer], mais do que a repressão na época da ditadura militar inteira.
Quanto as vítimas que o crime tenha produzido, não me parecem claras as estatísticas.
De qualquer forma, entre a polícia e o crime, a Faixa de Gaza continua sendo a população que trata de ganhar a vida produzindo o PIB do país.
Já a classe política, historicamente, joga para quem oferece a melhor paga, tendo a hipocrisia como prática ética ideológica diária.

E assim, com grau relevante de morbidez, a população, em qualquer região deste mundo, muito fácil torna se refém de invisíveis interesses.

Ricardo Pozzo

‘Lección sobre la lección


Enlace: https://anonfiles.com/file/f5f9683c8c80ff2924d2a92c1a9a57bd


En esta lección inaugural con ocasión de su ingreso en el Collége de France, en 1982, Pierre Bourdieu impartió una suerte de metalección («lección sobre la lección inaugural de sociología consagrada a la sociología de la lección inaugural») en la que dejó muy clara su noción de la sociología : no una ciencia descriptiva de la sociedad, sino una interrogación acerca de la «violencia simbólica» con que se «trata de imponer la verdad parcial de un grupo como la verdad de las relaciones objetivas entre los grupos». Así, la sociología es, ella misma, objeto de su propia labor de investigación: «en la sociología, tal como yo la concibo, todas las proposiciones que esta ciencia enuncia pueden y deben aplicarse al sujeto que hace la ciencia» . Para Bourdieu, el sociólogo es una especie de policía del capital simbólico, que permanece atento a los engaños que la cultura establecida siempre querrá imponer; por eso su labor no puede no ser política: se tratará de detectar en qué momento el racismo, la demagogia o el populismo aparecen en el discurso del periodista, del ministro, del libro de texto. En este sentido, Bourdieu rinde homenaje a Marx, «fundador de la sociología del conocimiento», y a Foucault, quien forma parte de «la gran tradición de epistemología histórica», de la que también participa Canguilhem. Bourdieu agrega, en esa senda, que «no hay crítica epistemológica sin crítica social». Un texto que puede ser una excelente introducción a la obra de Bourdieu y también, para los iniciados, un documento histórico a la par que un interesante resumen de las ideas esenciales del autor a mediados de su carrera intelectual.

PIERRE BOURDIEU

Una gota de rocío
deslizándose en la hoja,
a punto de caer, antes
que el sol la desintegre.
Un corpúsculo. Una
transparencia sobre
un fondo verde corriendo
como un río; despeñándose
como una catarata.
Y un arco iris infinitesimal
perdiéndose en la
mañana inmensa.
Nada más he pretendido
del mundo.

Ya estoy hecho.

Gustavo Caso Rosendi

Distâncias

10 de janeiro - Distâncias

O automóvel ia tossindo. E aos trambolhões, empilhados dentro do automóvel, viajavam alguns músicos. Estavam indo alegrar uma reunião de camponeses, mas já fazia um bom tempo que andavam perdidos pelos caminhos ferventes de Santiago del Estero.
Os desorientados não tinham a quem perguntar. Não havia ninguém, não sobrava ninguém naqueles desertos que tinham sido bosques.
E de repente apareceu, numa nuvem de poeira, uma menina de bicicleta.
- Falta quanto? - perguntaram a ela.
E ela disse:
- Falta menos.
E foi-se embora na poeira.

Galeano