terça-feira, 7 de maio de 2013

entrevista sobre literatura


"O Dairan Paul, da Universidade Federal de Santa Maria, me pediu uma entrevista sobre literatura. Republico-a abaixo, no caso de que interesse a alguém.
 
1) Um estudo da professora Regina Dalcastagnè, da UnB, revelou alguns dados sobre a produção literária brasileira entre os anos de 1990-2004: 72,7% dos romances foram escritos por homens, sendo que 93,9% dos autores são brancos. O que você pensa sobre essa exclusão que existe no campo literário? Podemos afirmar que há um elitismo no campo literário, ao menos no Brasil?
 
Sem dúvida, há um componente de elitização que acompanha a literatura, muito especialmente no Brasil, dado o abismo de letramento que constitui a sociedade brasileira. Mesmo em comarcas mais comparáveis à nossa, como a Argentina, isso não se aplica da mesma forma, posto que lá a própria constituição do estado nacional foi mediada por um processo letrado. Nesse sentido, os resultados da pesquisa de Regina não surpreendem. O que posso dizer é que conheço bem o rigor e a seriedade do trabalho anterior de Regina, mas dessa pesquisa, em particular, só li, até agora, resumos e reportagens. Seria leviano tecer qualquer consideração sem ler a pesquisa na íntegra, o que pretendo fazer em breve, embora, à primeira vista, tanto os resultados como a inspiração do trabalho só reforcem minha admiração por ela.
 
2) Alguns críticos escrevem que a literatura marginal é um mero relato cotidiano, sem valor literário e apreciação estética de um texto canônico. Como isso se diferenciaria de textos de autores consagrados, como Rubem Fonseca, que escrevem também sobre estes espaços periféricos?
 
Sobre isso, sim, acredito que posso lhe dizer algo, tendo trabalhado um pouco com as noções de valor estético e de cânone literário. Consultando uma publicação minha na Revista Brasileira de Literatura Comparada de 2009 (http://bit.ly/16SyQjt), você terá os fundamentos. A resposta curta é: basicamente, em nada. Não se diferenciam em nada relevante. É evidente que o texto de Rubem Fonseca é diferente do texto de Ferrez. Dizê-lo é recorrer a uma tautologia. Relevante, aqui no caso, é outra coisa. É o fato de que não há nada, no texto de Rubem Fonseca, que o faça intrínseca, imanentemente dotado de um valor literário, estético, ausente no texto de Ferrez. Se você quiser determinar por que o primeiro circula legitimado pelos códigos da estética e o segundo, não, você terá que ir a outro lugar: aos processos de produção, circulação e consumo desses textos e à constituição de pactos e comunidades interpretativas que legitimam certos objetos como estéticos e outros, não. Claro que não se trata de uma operação puramente vertical, conspiratória. Essa legitimação se dá no interior de lutas interpretativas que não estão imunes a fluxos contra-hegemônicos. Mas há que se desbancar o raciocínio tautológico que elenca características imanentes à obra dotada de valor estético, estabelecendo-as através de uma lista de autores que supostamente as possuiriam, lista à qual, é claro, só se chega por uma busca daquelas mesmas características de que você partiu no começo do raciocínio. Como costumo dizer, não é à toa que os alunos não aceitem isso facilmente. Eles estão certíssimos.
 
3) A literatura pode perpetuar preconceitos e/ou ideologias? O que você pensa de casos como o de Monteiro Lobato, acusado de racismo em suas obras?
 
Sim, evidentemente a literatura pode perpetuar preconceitos e ideologias. No caso de Monteiro Lobato, eu teria que recomendar o texto de Ana Maria Gonçalves, “Não é sobre você que devemos falar” (http://bit.ly/16SzFJe), a melhor análise que conheço dessa questão. O que é mais notável no caso de Lobato é a fúria com que se reagiu a uma descoberta filológica banal, patente: a de que Lobato foi, sistemática, reiteradamente, um propagandista não só do racismo mais odioso como um defensor do extermínio de negros e um admirador da Ku Klux Klan. Incapaz de retrucar ao simples empilhamento de citações, evidências e provas do fato, o negacionista brasileiro recorre, em geral, a uma operação curiosa. Ele dá testemunho de ter lido Lobato e não ter se tornado racista. Descobri, ao longo de minha participação neste debate, que Lobato deve ter sido lido por dezenas de milhões de pessoas, mais gente do que os milhões que declaram ter estado no acanhado estádio da Rua Javari quando Pelé fez seu famoso, e não filmado, gol de placa contra o Juventus. Mais notável ainda, todos eles declaram com absoluta certeza não terem se tornado racistas, num país em que mais de 90% da população reconhece a existência do racismo (ao mesmo tempo em que, claro, mais de 90% declara não ter nenhum preconceito racial). O brasileiro branco se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, mas basta colocar em pauta um caso óbvio, gritante de racismo, para que o negacionismo se veja de forma nítida, em geral com um furor que recorre a termos como “censura” antes sequer de que se coloque em pauta o problema de se indicar ou não livros de um racista como ele a crianças de nove ou dez anos de idade na escola pública. O caso Lobato é uma grande lição sobre os mecanismos através dos quais opera o negacionismo no Brasil.
 
4) Por fim, a função social da literatura não se perderia nessa falta de representação não-estereotipada de minorias? Você encara a produção literária atual do Brasil com otimismo ou pessimismo?
 
Para isso, inspiro-me em Walter Benjamin e, portanto, acredito que otimismo e pessimismo são duas faces da mesma moeda. Não vejo a História como progresso e não acredito em períodos de declínio. Creio que as avaliações totalizadoras do presente padecem de excessiva generalização e insuficiente leitura. Dedico boa parte de meu tempo à leitura da literatura brasileira contemporânea e não entendo como alguns, que visivelmente leram muito pouco, proclamam com tanta certeza que vivemos um período de declínio. O argumento de que “já não há Clarices ou Rosas” é risível, posto que o conceito de valor literário com o qual trabalhamos hoje, no interior das comunidades interpretativas que leem e avaliam a literatura brasileira, foi, em grande parte, estabelecido pela própria Clarice e pelo próprio Rosa – ou seja, pela circulação, canonização e consumo de seus textos. Dizer que “já não há Clarices ou Rosas” é, portanto, continuar no terreno da tautologia. O que posso lhe dizer é que há inúmeros autores vivos que continuo lendo com enorme gosto e proveito: Milton Hatoum, Zulmira Ribeiro Tavares, Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Ana Miranda, Carlos Sussekind, Ricardo Lísias, Silviano Santiago, Rubens Figueiredo, Santiago Nazarian, Luiz Ruffato, Ana Maria Gonçalves, Chico Buarque de Hollanda, Veronica Stigger, Ariano Suassuna, Carola Saavedra, Bernardo Carvalho, Paulo Lins, Fabio Weintraub, Elvira Vigna-Marú, Paulo Henriques Britto, Carlito Azevedo, Manoel de Barros, Eduardo Sterzi, Ricardo Guilherme Dicke, Ferrez e Pádua Fernandes são apenas alguns dos meus favoritos. Não me parece uma era de declínio."

 Idelber Avelar Guarani Kaiowá - por Mario Pinheiro.

Fonte : Haya del Bel

Erich Fried__________________

(Vienna, 6 maggio 1921 – Baden-Baden, 22 novembre 1988

Quando ti bacio
non è solo la tua bocca
non è solo il tuo ombellico
...non è solo il tuo grembo
che bacio
Io bacio anche le tue domande
e i tuoi desideri
bacio il tuo riflettere
i tuoi dubbi
e il tuo coraggio

il tuo amore per me
e la tua libertà da me
il tuo piede
che è giunto qui
e che di nuovo se ne va
io bacio te
così come sei
e come sarai
domani e oltre
e quando il mio tempo sarà trascorso

 

Canción por la unidad latinoamericana


El nacimiento de un mundo
Se aplazó por un momento
Fue un breve lapso del tiempo
Del universo un segundo

Sin embargo parecia
Que todo se iba a acabar
Con la distancia mortal
Que separó nuestras vidas

Realizavan la labor
De desunir nossas mãos
E fazer com que os irmãos
Se mirassem com temor

Cunado passaron los años
Se acumularam rancores
Se olvidaram os amores
Parecíamos estraños

Que distância tão sofrida
Que mundo tão separado
Jamás se hubiera encontrado
Sin aportar nuevas vidas

E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

É um trem riscando trilhos
Abrindo novos espaços
Acenando muitos braços
Balançando nossos filhos

Lo que brilla con luz propia
Nadie lo puede apagar
Su brillo puede alcanzar
La oscuridad de otras costas

Quem vai impedir que a chama
Saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário
Saia inventando outra trama

Quem vai evitar que os ventos
Batam portas mal fechadas
Revirem terras mal socadas
E espalhem nossos lamentos

E enfim quem paga o pesar
Do tempo que se gastou
De las vidas que costó
De las que puede costar

Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela

Chico Buarque de Holanda

sábado, 4 de maio de 2013


Retrovisor



O presente é o instante em que a roda
do automóvel em alta velocidade toca
minimamente o chão. E a parte da roda
que ainda não tocou tocará num imediato
que absorve o instante presente e torna-o
passado. Eu, viva e tremeluzente como
os instantes, acendo-me e me apago,
acendo e apago, acendo e apago...

Clarice Lispector (1925-1977).

Peixes voadores:
ao golpe do ouro solar
estala em estilhaços o vidro do mar.

José Juan Tablada

Tradução: Olga Savary

quarta-feira, 1 de maio de 2013


"Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele."

- Fiódor Dostoiévski, Memórias do subsolo (Записки из подполья), 1864.

Perguntas de um trabalhador que lê


 Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão os nomes dos reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra? / E a Babilonia varias vezes destruida - / Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas / Da Lima dourada moravam os construtores? / Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? / A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. / Quem os ergueu? Sobre quem / triunfaram os Césares? A decantada Bizancio / tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida / os que se afogavam gritaram por seus escravos / na noite em que o mar a tragou. / O jovem Alexandre conquistou a Índia. / Sozinho? / Cesar bateu os gauleses. / Não levava sequer um cozinheiro? / Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada / naufragou. Ninguém mais chorou? / Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. / Quem venceu além dele? Cada página uma vitória. / Quem cozinhava o banquete? / A cada dez anos um grande homem. / Quem pagava a conta? / Tantas histórias. / Tantas questões.

(Bertold Brecht)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Catedral da Assunção


Em 30 de abril de 1472, foi fundada no Kremlin de Moscou a Catedral da Assunção, a principal igreja da Rússia, que serviu como local para o enterro das autoridades eclesiásticas russas, e hoje expõe também o trono do Czar Ivã, o Terrível, confeccionado em 1551. Além disso, o local servia como um importante prédio público, tendo sido palco da coroação de czares russos entre 1498 e 1896. Conta-se que o candelabro central dessa catedral foi feito com prata confiscada do exército de Napoleão pelos soldados russos, em 1812.


Saiba mais em nosso site: http://www.diariodarussia.com.br/acontecimentos-2/noticias/2013/04/30/aconteceu-em-30-de-abril-2/
 



A PROPRIEDADE É UM ROUBO


Mari Quarentei

 algo incômodo no texto do libertyzine me remeteu ao Proudhon : 

A PROPRIEDADE É UM ROUBO*

Se eu tivesse de responder à seguinte questão:

o que é a escravidão?, e a respondesse numa única

palavra: é um assassinato, meu pensamento seria logo

compreendido. Eu não teria necessidade de um longo

discurso para mostrar que o poder de tirar ao homem

o pensamento, a vontade, a personalidade é um poder

de vida e de morte, e que fazer um homem escravo é

assassiná-lo. Por que então a esta outra pergunta: o

que é a propriedade?, não posso eu responder da mesma maneira: é um roubo, sem ter a certeza de não ser

entendido, embora esta segunda proposição não seja

senão a primeira transformada?


Vania L Cintra 


“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” (Guimarães Rosa em momento de invejável lucidez).

Sem pretensões a demonstrar aqui qualquer pseudo-cientificidade tão distante de meu muito pouco e muito empírico saber, eu diria que um dos muitos mitos que vêm fazendo dos cânones do “progresso” (??) um complexo instrumento de absoluto retrocesso é o da possibilidade de que tenhamos 2 registros ou 2 códigos mentais, um para a comunicação escrita, outro para a comunicação oral. Talvez alguém possa acreditar que tenhamos também um 3º registro ou código que utilizamos apenas para pensar. Ou vários registros ou códigos que correspondam a linguagens diferentes, que seremos capazes de isolar perfeitamente ao nos dirigir a pessoas mais cultas ou menos cultas, ao ouvir, ler, escrever ou falar em diferentes idiomas estrangeiros, ao tocar diferentes instrumentos musicais etc. etc.
Assim, quem procure falar Português corretamente em todas e quaisquer ocasiões - ou procure fazer qualquer outra coisa tal como deve e precisa ser feita, contas exatas, por exemplo... - poderá ser, pelos “progressistas”, apontado como purista, como pedante ou até mesmo como reacionário.
O mesmo mito incluirá o pressuposto de que podemos fragmentar nossos processos mentais, isolando-os todos e cada um deles de forma a produzir coisas diferentes que nenhuma conexão guardem entre si e/ou que nada tenham a ver com nossas convicções a respeito de qualquer assunto, com nosso passado, com nossas ambições, com nossas projeções etc. etc. também por exemplo.
A mente, no entanto, é um todo, um todo íntegro e totalmente articulado. O que nos permite, à falta de um elemento mais adequado, recorrer a metáforas, a analogias ou a outro elemento qualquer que, embora muitas vezes não o seja, pareça-nos similar ao que se mostra necessário e/ou ser seu substitutivo e nos “quebre o galho”. De “quebra-galho” em “quebra-galho”, porém, cada vez menos buscamos o mais adequado e cada vez mais tenderemos a substituí-lo por qualquer coisa que signifique qualquer coisa.
Daí que... em que direção estará indo o nosso "avanço", o nosso “progresso”?
O saber, o cuidado e os demais elementos presentes no processo de pensar (e no de refletir, por suposto) serão sempre os mesmos saber, cuidado e demais elementos presentes no processo que nos permite querer externar o pensamento (e promover a reflexão, por suposto); portanto, serão os mesmos elementos presentes no processo de comunicação, independentemente do grau de facilidade nele encontrado por cada indivíduo. E também estarão presentes no processo de criação, de produção material etc. etc. São, todos eles, processos em e de um único sistema mental.




"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."

Albert Cossery