terça-feira, 6 de julho de 2010
Cheiro
perdi a virgindade com um dedo. que eu me lembre não conheci ninguém nessa mesma situação. e olha que fui empresária do sexo durante vinte anos, acho que vi de tudo em cima e fora de uma cama ––– mas foi impossível resistir ao padre giancarlo, aquela cara de franco nero e mãos belíssimas: mãos de padre pecador. quando chegou no colégio das freiras todas as meninas ficaram alvoroçadas e molhadinhas, mas eu, eu a mais bela de todas disfarcei e ardi sozinha ––– quantos olhares, quantos suspiros naquele mês de junho, eu virgem de quinze anos louca pra dar e giancarlo ali, justo ali fazendo pouso pra conhecer os sertões brasileiros. de passagem para uma missão no alto são francisco. a filha do prefeito fez várias cartas e disse que ia fugir com ele, uma tal que não lembro nome ficou pálida e triste acho que tanto tocar siririca ––– mas ele era um homem sério. e eu sabia disso. parece que mulher fica ainda mais assanhada pra seduzir quando o homem não dá bola ––– uma tarde quando todas as internas estavam recolhidas e a externas em suas casas lá fui eu devolver ao padre italiano um breviário de verbos em latim ––– as mãos do padre giancarlo eram uma obra de arte em carne e sangue que até hoje não consigo esquecer: unhas perfeitas, dedos longos e duas suaves veias em formato de ípsilon ––– ai ai ai ––– a chuvinha fina, o jardim do pátio do claustro, touceiras de jasmins e dálias coloridas ––– então ––– então o beijo ali no escuro do corredor ––– sinceramente que desperdício aquele homem ser padre, se giancarlo me pegasse e fugisse comigo eu acho que não tinha virado puta ––– eu já toda entregue, cheiro de homem asseado, saia levantada ––– ai ––– toda trêmula fui mulher entre os dedos dele e depois o meu galã de batina completamente horrorizado pelo excesso. será que ele era virgem? que coisa ––– fugiu ––– evitou-me como pôde e uma semana depois meu primeiro homem sumiu pra sempre. eu tinha vontade de gritar praquelas abestalhadas do colégio: chupei a língua do padre giancarlo! ele enfiou o dedão todinho no meu priquito! e gozei suas burguesinhas de merda e gozei ––– numa das viagens de compras por nova york eu e rubenita entramos na macy’s. a vendedora com cara de ganso fazendo demonstração do perfume diorella. quando cheirei no pulso fiquei tonta e quase desmaiei. era o cheiro daquela tarde de chuva com giancarlo me dedilhando no corredor ––– can i help you? what are you feeling mam? ––– como explicar praquela vendedora que o perfume lembrava o dia que eu perdi o meu cabaço? ––– sou uma pessoa olfativa. canja na panela lembra minha infância, insenso de sândalo lembra marina e o tal diorella nunca tive coragem de comprar. seria como viver com um fantasma fungando no meu pescoço pelo resto da vida –––
Fonte :Escritoras Suicidas
Fonte :Escritoras Suicidas
Bajazet, ópera de Vivaldi – ária Sposa son disprezzata
Italiano
Sposa son disprezzata,
fida son oltraggiata,
cieli che feci mai?
E pur egl’è il mio cor
il mio sposo, il mio amor,
la mia speranza.
L’amo ma egl’è infedel
spero ma egl’è crudel,
morir mi lascierai?
O Dio manca il valor
valor e la costanza.
Inglês
I am a scorned wife,
faithful, yet insulted.
Heavens, what did I do?
And yet he is my heart,
my husband, my love,
my hope.
I love him, but he is unfaithful,
I hope, but he is cruel,
will he let me die?
O God, valor is missing -
valor and constancy.
Sposa son disprezzata,
fida son oltraggiata,
cieli che feci mai?
E pur egl’è il mio cor
il mio sposo, il mio amor,
la mia speranza.
L’amo ma egl’è infedel
spero ma egl’è crudel,
morir mi lascierai?
O Dio manca il valor
valor e la costanza.
Inglês
I am a scorned wife,
faithful, yet insulted.
Heavens, what did I do?
And yet he is my heart,
my husband, my love,
my hope.
I love him, but he is unfaithful,
I hope, but he is cruel,
will he let me die?
O God, valor is missing -
valor and constancy.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Soneto do Desmantelo Azul
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Carlos Pena Filho
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Carlos Pena Filho
Escada helicoidal do Museu do Vaticano, projetada por Giuseppe Momo, em 1932.
Crédito: Antonio Henrique in http://picasaweb.google.com./
ESCADAS
Poesias
ESCADAS
Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror !
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E 'sabes' que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...
Mário Quintana
ESCADAS
Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror !
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E 'sabes' que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...
Mário Quintana
domingo, 4 de julho de 2010
Paixão é fulminante e viciante , mas dura pouco.
Especialista brasileira lança livro sobre a química do amor e fala sobre o estágio mais derradeiro das relações.
A paixão, como descrita pela ciência, é um estado fisiológico, com sintomas psíquicos e físicos, em que há uma intensa atividade cerebral e hormonal muito semelhante à do vício por uma droga, como a cocaína.
O julgamento crítico, o discernimento, e a racionalidade em relação ao parceiro estão muito reduzidos, especialmente nos primeiros meses.” É assim que a médica Cibele Fabichak, autora de “Sexo, amor, endorfinas e bobagens” (Ed.
Novo Século), define o estado de enlevo que se apossa dos amantes de forma avassaladora, mas tem prazo para acabar: no máximo quatro anos.
AS TRÊS FASES DO AMOR:
“O que a ciência tem nos mostrado é que o amor, do ponto de vista biológico, tem três estágios independentes. O primeiro é o desejo ou luxúria, a busca da satisfação sexual, comandada por hormônios sexuais, principalmente a testosterona, sem uma elaboração emocional maior. O segundo estágio é o do amor romântico ou paixão, da atração física e sexual. Esta fase é marcada por uma cascata de substâncias, como noradrenalina, endorfina, serotonina, e também testosterona, estrógeno e progesterona.
O terceiro estágio é o da construção gradual do vínculo duradouro, o amor propriamente dito. Nesta fase há a ação do hormônio oxitocina na mulher e vasopressina no homem, os hormônios do vínculo.”
A ORDEM DOS FATORES:
“Os três estágios do amor geralmente ocorrem nesta ordem, mas não necessariamente. E não necessariamente com a mesma pessoa. É possível ter um vínculo muito forte com o marido, mas sentir desejo por um colega de trabalho e estar apaixonada pelo vizinho.”
PAIXÃO:
“Vários estudos, tanto americanos quanto europeus, chegaram à conclusão semelhante: a paixão, esse estado de alteração mental e física muito característico, dura de 12 a 48 meses. A média é de dois anos. Outros elementos, não só os químicos, influenciam, claro, como o lado psicológico, as personalidades, o histórico de relacionamentos, o grau de expectativa que cada um cria, o tipo de educação, o relacionamento que teve com os pais, a cultura, que é muito importante.”
VIVER APAIXONADO:
“Para o cérebro, existe um limite da perpetuação disso, é fisiológico.
Por mais que queiramos, o cérebro não consegue manter esse turbilhão de hormônios por muito mais tempo. É biológico, não tem como. A não ser que perpetue de forma patológica, transtorno obsessivocompulsivo, amor patológico.”
COMO UM VÍCIO:
“Na fase da paixão, algumas substâncias no cérebro se alteram. As endorfinas, a adrenalina, a noradrenalina e a dopamina aumentam, enquanto a serotonina diminui.
Este desequilíbrio de substâncias acontece de forma semelhante no transtorno obsessivo compulsivo e no vício por drogas, como cocaína. Ou seja, a paixão é um estado semelhante ao de um vício em uma droga. E está na fronteira com transtornos. Uma linha de pesquisa italiana está estudando justamente o momento em que a paixão se torna patológica e salta para o transtorno.”
CEGUEIRA APAIXONADA:
“Essa química cerebral alterada, esse turbilhão todo, faz com que o sistema límbico, a central das emoções, fique tão alterado que distorça a visão do parceiro escolhido. Faz com que o apaixonado sinta uma onda de prazer tão forte cada vez que entra em contato com o eleito que passa a associar uma coisa à outra. Então, não enxerga defeitos no apaixonado. Pensamentos obsessivos e de posse sexual são outras características desta fase.”
TRUQUE DA NATUREZA:
“Quando as alterações hormonais acontecem, a pessoa entende que aquele ser é uma grande fonte de prazer. Com isso, não vê defeito no outro, cria uma dependência emocional e isso gera um estado de profunda ligação entre o casal. O grande objetivo da natureza é, justamente, produzir uma rápida e profunda ligação entre as duas pessoas para que se reproduzam e mantenham a espécie. É difícil imaginar uma traição neste momento.”
TRAIÇÃO:
“Pode acontecer a qualquer momento, desde o primeiro estágio, em que é possível sentir desejo por diversas pessoas. No pico da paixão, nos primeiros meses, a infidelidade tem uma possibilidade menor de acontecer porque toda a química está voltada para fazer com que o indivíduo fique obsessivamente ligado naquele outro específico. Mas não quer dizer que não ocorra. E claro que, à medida que o vínculo se desenvolve, a infidelidade pode acontecer. Lembrando que, do ponto de vista biológico, bem pragmático, a traição pode ter vantagens tanto para homens como para mulheres, no que tange a chances maiores de reprodução da espécie.”
ESCOLHAS BIOLÓGICAS:
“Inúmeros elementos fazem parte do grande momento da paixão, tanto físicos quanto psicológicos e ambientais. Mas o que a biologia tem nos mostrado é que a atração, o primeiro contato, passa basicamente pelos cinco sentidos. Isso significa que não temos controle voluntário e consciente sobre essa escolha. (Pela visão, tato, audição, olfato e paladar é possível saber, inconscientemente, a compatibilidade genética e do sistema imunológico, o parceiro mais fértil, entre outras informações fundamentais para a reprodução da espécie).”
DA PAIXÃO AO AMOR:
“Esse é o grande X, saber em que momento a paixão começa a ceder. E por que a transição ocorre para alguns casais e não para outros. Para os cientistas, alguns elementos presentes desde o início da paixão podem apontar para uma relação mais duradoura. Um deles é o comprometimento com o parceiro e o relacionamento. Outro elemento fundamental é a novidade. Cada um precisa trazer elementos novos para a relação, desafios ao casal, fazendo com que os dois possam vivenciar situações nas quais cresçam. Isso aumenta o vínculo. A celebração é outro elemento importante, a capacidade de celebrar os sucessos do outro. Bom humor também é fundamental, saber brincar consigo mesmo e com o parceiro. E a boa comunicação sempre.”
A IMPORTÂNCIA DO SEXO:
“O sexo é fundamental. Já está comprovado que a geração do sexo é cerebral, com progesterona, estrógeno e endorfinas. E um dos hormônios de grande importância é a oxitocina, que alcança grandes picos durante orgasmo, tanto do homem quanto na mulher. E este é o hormônio por trás da criação de vínculos duradouros. Faz com que as estruturas do cérebro reconheçam o outro como fonte de prazer.”
PAIXÕES EM SÉRIE:
“Vivemos numa sociedade de extremo consumo, com muitas possibilidades e estresses de escolha. Há muita pressão para que se vivencie tudo, de forma rápida, muitas vezes simultânea, que alguns relacionamentos vão nessa mesma direção, numa dinâmica semelhante ao do consumir o máximo possível. A paixão está sendo hipervalorizada. Ela é um dos elementos do amor, mas o que se vê é gente tentando conhecer o maior número possível de pessoas, pulando de relação em relação, em vez de aprofundar uma história, conhecer melhor o outro, de se criar um relacionamento duradouro. Está se optando pela superficialidade, há uma incapacidade de tolerar diferenças e o tempo da relação segue mais ou menos o tempo biológico, de alguns meses a poucos anos.”
Fonte: O Globo 04/07/2010
A paixão, como descrita pela ciência, é um estado fisiológico, com sintomas psíquicos e físicos, em que há uma intensa atividade cerebral e hormonal muito semelhante à do vício por uma droga, como a cocaína.
O julgamento crítico, o discernimento, e a racionalidade em relação ao parceiro estão muito reduzidos, especialmente nos primeiros meses.” É assim que a médica Cibele Fabichak, autora de “Sexo, amor, endorfinas e bobagens” (Ed.
Novo Século), define o estado de enlevo que se apossa dos amantes de forma avassaladora, mas tem prazo para acabar: no máximo quatro anos.
AS TRÊS FASES DO AMOR:
“O que a ciência tem nos mostrado é que o amor, do ponto de vista biológico, tem três estágios independentes. O primeiro é o desejo ou luxúria, a busca da satisfação sexual, comandada por hormônios sexuais, principalmente a testosterona, sem uma elaboração emocional maior. O segundo estágio é o do amor romântico ou paixão, da atração física e sexual. Esta fase é marcada por uma cascata de substâncias, como noradrenalina, endorfina, serotonina, e também testosterona, estrógeno e progesterona.
O terceiro estágio é o da construção gradual do vínculo duradouro, o amor propriamente dito. Nesta fase há a ação do hormônio oxitocina na mulher e vasopressina no homem, os hormônios do vínculo.”
A ORDEM DOS FATORES:
“Os três estágios do amor geralmente ocorrem nesta ordem, mas não necessariamente. E não necessariamente com a mesma pessoa. É possível ter um vínculo muito forte com o marido, mas sentir desejo por um colega de trabalho e estar apaixonada pelo vizinho.”
PAIXÃO:
“Vários estudos, tanto americanos quanto europeus, chegaram à conclusão semelhante: a paixão, esse estado de alteração mental e física muito característico, dura de 12 a 48 meses. A média é de dois anos. Outros elementos, não só os químicos, influenciam, claro, como o lado psicológico, as personalidades, o histórico de relacionamentos, o grau de expectativa que cada um cria, o tipo de educação, o relacionamento que teve com os pais, a cultura, que é muito importante.”
VIVER APAIXONADO:
“Para o cérebro, existe um limite da perpetuação disso, é fisiológico.
Por mais que queiramos, o cérebro não consegue manter esse turbilhão de hormônios por muito mais tempo. É biológico, não tem como. A não ser que perpetue de forma patológica, transtorno obsessivocompulsivo, amor patológico.”
COMO UM VÍCIO:
“Na fase da paixão, algumas substâncias no cérebro se alteram. As endorfinas, a adrenalina, a noradrenalina e a dopamina aumentam, enquanto a serotonina diminui.
Este desequilíbrio de substâncias acontece de forma semelhante no transtorno obsessivo compulsivo e no vício por drogas, como cocaína. Ou seja, a paixão é um estado semelhante ao de um vício em uma droga. E está na fronteira com transtornos. Uma linha de pesquisa italiana está estudando justamente o momento em que a paixão se torna patológica e salta para o transtorno.”
CEGUEIRA APAIXONADA:
“Essa química cerebral alterada, esse turbilhão todo, faz com que o sistema límbico, a central das emoções, fique tão alterado que distorça a visão do parceiro escolhido. Faz com que o apaixonado sinta uma onda de prazer tão forte cada vez que entra em contato com o eleito que passa a associar uma coisa à outra. Então, não enxerga defeitos no apaixonado. Pensamentos obsessivos e de posse sexual são outras características desta fase.”
TRUQUE DA NATUREZA:
“Quando as alterações hormonais acontecem, a pessoa entende que aquele ser é uma grande fonte de prazer. Com isso, não vê defeito no outro, cria uma dependência emocional e isso gera um estado de profunda ligação entre o casal. O grande objetivo da natureza é, justamente, produzir uma rápida e profunda ligação entre as duas pessoas para que se reproduzam e mantenham a espécie. É difícil imaginar uma traição neste momento.”
TRAIÇÃO:
“Pode acontecer a qualquer momento, desde o primeiro estágio, em que é possível sentir desejo por diversas pessoas. No pico da paixão, nos primeiros meses, a infidelidade tem uma possibilidade menor de acontecer porque toda a química está voltada para fazer com que o indivíduo fique obsessivamente ligado naquele outro específico. Mas não quer dizer que não ocorra. E claro que, à medida que o vínculo se desenvolve, a infidelidade pode acontecer. Lembrando que, do ponto de vista biológico, bem pragmático, a traição pode ter vantagens tanto para homens como para mulheres, no que tange a chances maiores de reprodução da espécie.”
ESCOLHAS BIOLÓGICAS:
“Inúmeros elementos fazem parte do grande momento da paixão, tanto físicos quanto psicológicos e ambientais. Mas o que a biologia tem nos mostrado é que a atração, o primeiro contato, passa basicamente pelos cinco sentidos. Isso significa que não temos controle voluntário e consciente sobre essa escolha. (Pela visão, tato, audição, olfato e paladar é possível saber, inconscientemente, a compatibilidade genética e do sistema imunológico, o parceiro mais fértil, entre outras informações fundamentais para a reprodução da espécie).”
DA PAIXÃO AO AMOR:
“Esse é o grande X, saber em que momento a paixão começa a ceder. E por que a transição ocorre para alguns casais e não para outros. Para os cientistas, alguns elementos presentes desde o início da paixão podem apontar para uma relação mais duradoura. Um deles é o comprometimento com o parceiro e o relacionamento. Outro elemento fundamental é a novidade. Cada um precisa trazer elementos novos para a relação, desafios ao casal, fazendo com que os dois possam vivenciar situações nas quais cresçam. Isso aumenta o vínculo. A celebração é outro elemento importante, a capacidade de celebrar os sucessos do outro. Bom humor também é fundamental, saber brincar consigo mesmo e com o parceiro. E a boa comunicação sempre.”
A IMPORTÂNCIA DO SEXO:
“O sexo é fundamental. Já está comprovado que a geração do sexo é cerebral, com progesterona, estrógeno e endorfinas. E um dos hormônios de grande importância é a oxitocina, que alcança grandes picos durante orgasmo, tanto do homem quanto na mulher. E este é o hormônio por trás da criação de vínculos duradouros. Faz com que as estruturas do cérebro reconheçam o outro como fonte de prazer.”
PAIXÕES EM SÉRIE:
“Vivemos numa sociedade de extremo consumo, com muitas possibilidades e estresses de escolha. Há muita pressão para que se vivencie tudo, de forma rápida, muitas vezes simultânea, que alguns relacionamentos vão nessa mesma direção, numa dinâmica semelhante ao do consumir o máximo possível. A paixão está sendo hipervalorizada. Ela é um dos elementos do amor, mas o que se vê é gente tentando conhecer o maior número possível de pessoas, pulando de relação em relação, em vez de aprofundar uma história, conhecer melhor o outro, de se criar um relacionamento duradouro. Está se optando pela superficialidade, há uma incapacidade de tolerar diferenças e o tempo da relação segue mais ou menos o tempo biológico, de alguns meses a poucos anos.”
Fonte: O Globo 04/07/2010
sábado, 3 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Quem escreve livros é sempre otimista, diz autora Margaret Atwood
Margaret Eleanor Atwood nasceu 1939 no Canadá
Autora canadense fala à Deutsche Welle sobre seu novo livro: sobrevivência humana após uma catástrofe natural. Ainda assim, ela se diz otimista.
The Year of the the Flood é uma história futurista sobre a consequência de um grande desastre natural que, ao que parece, teria comprometido a vida humana. Adam One, o líder de um grupo religioso que mistura ciência, fé e natureza, já havia previsto a catástrofe. Depois do acontecimento, ele e seus seguidores se reagrupam num mundo alterado e imprevisível.
A obra é assinada por Margaret Atwood. A autora nasceu em 1939, no Canadá, escreveu contos, estudos críticos, peças, livros para crianças e poemas – mas é conhecida por seus romances. O trabalho de Atwood já foi traduzido em mais de 30 línguas, inclusive para o português.
Deutsche Welle: Você viveu na Alemanha nos anos de 1980. Quais foram as suas experiências naquela época?
Margaret Atwood: Eu fui para a Alemanha pela primeira vez por causa de um editor alemão, nos anos de 1970. Então, em 1984, eu comecei o livro The Handmaid´s Tale em Berlim, antes da queda do Muro. Eu comecei o livro em Berlim e terminei em Tuscaloosa, no estado americano do Alabama, o que foi um contraste.
Mas os dois casos foram situações de estresse, porque a Alemanha Ocidental, naquela época, claro que era circundada pelo Muro e todos os domingos a força aérea da Alemanha Oriental sobrevoava a região e fazia aquele ruído sônico só para lembrar-nos que estavam lá.
Agora, na Alemanha, você está apresentando o seu novo livro The Year of the Flood. O que esse livro, que foi concluído aos seus 70 anos, representa para você?
Na verdade, ele foi completado um ano antes. A publicação foi adiada por um ano porque, se fosse publicada em 2008, coincidiria com as eleições americanas. E os editores disseram diretamente que ninguém iria fazer outra coisa a não ser acompanhar as eleições porque, na disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama, qualquer resultado não teria precedentes e todos estariam ligados na televisão, o que de fato aconteceu.
É assustador pensar que o seu último livro é uma profecia sobre o futuro.
Primeiramente, não é uma profecia porque eu não sou profeta. Ninguém pode realmente prever o futuro. Até mesmo os profetas do Velho Testamento não previram o futuro, eles disseram mais ou menos o estado da alma das pessoas naquele momento. Não se pode realmente escrever sobre o futuro porque ninguém ainda esteve lá. É como Dante escreveu sobre o inferno – ele não esteve lá de verdade.
Você é otimista sobre o futuro? O seu livro traz um ambiente de devastação, do qual nós sempre ouvimos nos noticiários.
Não é tanto sobre isso, na verdade. A verdade é que, se você retira as pessoas, a natureza se revigora bem, o que é o ponto abordado no começo do livro. Há bastante natureza e não o fato de que a natureza é destruída.
Como diz Willian Gibson, o futuro já está aqui, mas é desigualmente distribuído. Algumas pessoas falam sobre aquecimento global, mas elas deveriam dizer mudança climática porque o clima está ficando mais extremo. As coisas mudam.
O que realmente assusta no livro não é exatamente isso, embora seja uma motivação, mas o que assusta é que nós podemos criar novas espécies. Nós já podemos criar novas espécies, e já estamos fazendo isso. Mas o que é realmente assustador é que nós podemos inventar novas doenças. E nós já temos essa capacidade. Porque um país ainda não criou uma doença horrível e lançou-a em todos? Eles têm medo que o golpe se volte contra eles. Não há como fazer isso sem a possibilidade que seu país também se contamine, com as coisas sendo tão facilmente alastradas.
O que as pessoas não sabem é que o seu primeiro livro foi de poesia.
Sim, mas não foi a primeira coisa que eu escrevi. Eu estava de fato escrevendo prosa e poesia ao mesmo tempo. Era assim que era naqueles tempos, no Canadá, onde era praticamente impossível publicar um romance por completo. Poesias eram muito mais baratas, eram mais curtas.
E tipicamente, você começava fazendo cópias no mimeógrafo, ou juntando tudo num tipo de livro insensível, ou fazia tudo à mão, o que eu fiz com meu primeiro livreto de poema – eu acertei tudo manualmente numa impressora. Tenta fazer isso!
Você reconheceria que Margaret Atwood é uma otimista?
Qualquer um que escreve um livro é um otimista. Não importa o conteúdo. A coisa otimista sobre isso é: é um livro.
Autor: Breandain O'Shea (np)
Revisão:
Fonte : Deutsche- Welle. Cultura. 26/06/2010
Autora canadense fala à Deutsche Welle sobre seu novo livro: sobrevivência humana após uma catástrofe natural. Ainda assim, ela se diz otimista.
The Year of the the Flood é uma história futurista sobre a consequência de um grande desastre natural que, ao que parece, teria comprometido a vida humana. Adam One, o líder de um grupo religioso que mistura ciência, fé e natureza, já havia previsto a catástrofe. Depois do acontecimento, ele e seus seguidores se reagrupam num mundo alterado e imprevisível.
A obra é assinada por Margaret Atwood. A autora nasceu em 1939, no Canadá, escreveu contos, estudos críticos, peças, livros para crianças e poemas – mas é conhecida por seus romances. O trabalho de Atwood já foi traduzido em mais de 30 línguas, inclusive para o português.
Deutsche Welle: Você viveu na Alemanha nos anos de 1980. Quais foram as suas experiências naquela época?
Margaret Atwood: Eu fui para a Alemanha pela primeira vez por causa de um editor alemão, nos anos de 1970. Então, em 1984, eu comecei o livro The Handmaid´s Tale em Berlim, antes da queda do Muro. Eu comecei o livro em Berlim e terminei em Tuscaloosa, no estado americano do Alabama, o que foi um contraste.
Mas os dois casos foram situações de estresse, porque a Alemanha Ocidental, naquela época, claro que era circundada pelo Muro e todos os domingos a força aérea da Alemanha Oriental sobrevoava a região e fazia aquele ruído sônico só para lembrar-nos que estavam lá.
Agora, na Alemanha, você está apresentando o seu novo livro The Year of the Flood. O que esse livro, que foi concluído aos seus 70 anos, representa para você?
Na verdade, ele foi completado um ano antes. A publicação foi adiada por um ano porque, se fosse publicada em 2008, coincidiria com as eleições americanas. E os editores disseram diretamente que ninguém iria fazer outra coisa a não ser acompanhar as eleições porque, na disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama, qualquer resultado não teria precedentes e todos estariam ligados na televisão, o que de fato aconteceu.
É assustador pensar que o seu último livro é uma profecia sobre o futuro.
Primeiramente, não é uma profecia porque eu não sou profeta. Ninguém pode realmente prever o futuro. Até mesmo os profetas do Velho Testamento não previram o futuro, eles disseram mais ou menos o estado da alma das pessoas naquele momento. Não se pode realmente escrever sobre o futuro porque ninguém ainda esteve lá. É como Dante escreveu sobre o inferno – ele não esteve lá de verdade.
Você é otimista sobre o futuro? O seu livro traz um ambiente de devastação, do qual nós sempre ouvimos nos noticiários.
Não é tanto sobre isso, na verdade. A verdade é que, se você retira as pessoas, a natureza se revigora bem, o que é o ponto abordado no começo do livro. Há bastante natureza e não o fato de que a natureza é destruída.
Como diz Willian Gibson, o futuro já está aqui, mas é desigualmente distribuído. Algumas pessoas falam sobre aquecimento global, mas elas deveriam dizer mudança climática porque o clima está ficando mais extremo. As coisas mudam.
O que realmente assusta no livro não é exatamente isso, embora seja uma motivação, mas o que assusta é que nós podemos criar novas espécies. Nós já podemos criar novas espécies, e já estamos fazendo isso. Mas o que é realmente assustador é que nós podemos inventar novas doenças. E nós já temos essa capacidade. Porque um país ainda não criou uma doença horrível e lançou-a em todos? Eles têm medo que o golpe se volte contra eles. Não há como fazer isso sem a possibilidade que seu país também se contamine, com as coisas sendo tão facilmente alastradas.
O que as pessoas não sabem é que o seu primeiro livro foi de poesia.
Sim, mas não foi a primeira coisa que eu escrevi. Eu estava de fato escrevendo prosa e poesia ao mesmo tempo. Era assim que era naqueles tempos, no Canadá, onde era praticamente impossível publicar um romance por completo. Poesias eram muito mais baratas, eram mais curtas.
E tipicamente, você começava fazendo cópias no mimeógrafo, ou juntando tudo num tipo de livro insensível, ou fazia tudo à mão, o que eu fiz com meu primeiro livreto de poema – eu acertei tudo manualmente numa impressora. Tenta fazer isso!
Você reconheceria que Margaret Atwood é uma otimista?
Qualquer um que escreve um livro é um otimista. Não importa o conteúdo. A coisa otimista sobre isso é: é um livro.
Autor: Breandain O'Shea (np)
Revisão:
Fonte : Deutsche- Welle. Cultura. 26/06/2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Geométrica e Quadro ao contrário de Magritte
Por Ana Paula Ferraz – Cronópios
Geométricas
I
O triângulo amoroso é
um círculo vicioso.
II
De um ângulo agudo, ela perguntou:
- de que lado você está?
III
O amor é assimétrico.
***
Quadro ao contrário de Magritte
Eu vejo pelos ombros o caminhante percorrendo as montanhas.
Ele quer o doce e escuro poço
e encontra
e molha os dedos
e abre
o pequeno orifício
que atravessa rompendo, em rompantes
acariciando copas, apalpando o fruto
invadindo os pomares
atrás do vale.
Tudo ele toma, em mergulho, até que a terra arde.
Assim descubro, fundamente
(já são suaves as mãos de sombra –
ele é quase folha caída)
: amar é uma brutalidade.
***
porque os tempos são de guerra e a pista é vazia
desejei o colo do tanque
do canhão.
e assim amei o imoldável
até descolar pele de metal e perceber
os curtos braços
o longo asfalto
a pouca vista.
ficou em lugar algum minha luta
, que era outra.
blindado não abraça
e fui esmagada de cima dos trilhos.
***
Numa esquina do seu pescoço
sua maciez de pão
me cortou
os dentes.
Rente, encarei
que a nuca é sem rosto
e, ali, nem a solidão
existe.
Ficou claro -
o amor não passa
de um quadro ao contrário
de Magritte.
***
sou feita de profundezas
gargantas íntimas, uterinas
e grito –
estou de ecos até o pescoço.
nessas estreitezas de quente/frágil
sublimes vapores se adensam
ao toque
de amígdalas e estalagmites.
***
aqui molhamos os pés na areia -
somos uns secos bancos brancos
cabisbaixos, desmergulhados
que confundem suas costas rasas
a de baleias.
Ana Paula Ferraz é poeta paulistana da safra 1979. Participa do Coletivo Vacamarela, responsável pelo jornal O Casulo de Literatura Contemporânea e pela FLAP!, entre outros eventos literários.
E-mail: anapaulaferraz3@gmail.com
Geométricas
I
O triângulo amoroso é
um círculo vicioso.
II
De um ângulo agudo, ela perguntou:
- de que lado você está?
III
O amor é assimétrico.
***
Quadro ao contrário de Magritte
Eu vejo pelos ombros o caminhante percorrendo as montanhas.
Ele quer o doce e escuro poço
e encontra
e molha os dedos
e abre
o pequeno orifício
que atravessa rompendo, em rompantes
acariciando copas, apalpando o fruto
invadindo os pomares
atrás do vale.
Tudo ele toma, em mergulho, até que a terra arde.
Assim descubro, fundamente
(já são suaves as mãos de sombra –
ele é quase folha caída)
: amar é uma brutalidade.
***
porque os tempos são de guerra e a pista é vazia
desejei o colo do tanque
do canhão.
e assim amei o imoldável
até descolar pele de metal e perceber
os curtos braços
o longo asfalto
a pouca vista.
ficou em lugar algum minha luta
, que era outra.
blindado não abraça
e fui esmagada de cima dos trilhos.
***
Numa esquina do seu pescoço
sua maciez de pão
me cortou
os dentes.
Rente, encarei
que a nuca é sem rosto
e, ali, nem a solidão
existe.
Ficou claro -
o amor não passa
de um quadro ao contrário
de Magritte.
***
sou feita de profundezas
gargantas íntimas, uterinas
e grito –
estou de ecos até o pescoço.
nessas estreitezas de quente/frágil
sublimes vapores se adensam
ao toque
de amígdalas e estalagmites.
***
aqui molhamos os pés na areia -
somos uns secos bancos brancos
cabisbaixos, desmergulhados
que confundem suas costas rasas
a de baleias.
Ana Paula Ferraz é poeta paulistana da safra 1979. Participa do Coletivo Vacamarela, responsável pelo jornal O Casulo de Literatura Contemporânea e pela FLAP!, entre outros eventos literários.
E-mail: anapaulaferraz3@gmail.com
quarta-feira, 30 de junho de 2010
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