quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"You were the first to demonstrate beyond question by your experience that man is man everywhere, that is, a kind, sociable being with whom communication can and should be established through kindness and truth, not guns and spirits. I do not know what contribution your collections and discoveries will make to the science for which you serve, but your experience of contacting the primitive peoples will make an epoch in the science for which I serve i. e. the science which teaches how human beings should live with one another."



— Leo Tolstoy (1828-1910) in a letter to Nikolai Miklukho-Maklai, September 1886

Leon Trotsky.....hunting for cacti in Mexico, 1940


fonte :http://zolotoivek.tumblr.com/
The sun would fail in the observant height,
In clear air, the shining stars would vanish,
The world would sink into a smoke lavish,
And thunders – into silence of the night, –

On the sad moon, invisible and black –
In its dark deeps – would rise the awful fire,
And by the tracks, lost in the Lethe’s mire,
Life would be gone without coming back, –

A dust would lie instead of all these grasses,
All nightingales would cut their loving plea,
All wars and funs would melt like snow masses, –

With a deep sigh, would flee a spirit trustless,
It’d be the same – to be or not to be –
Sooner than I might cease remembering thee.

"

— Konstantin Balmont (1867-1942)

Peasant Child Begging, 1920.

"In order to educate man to a new longing, everyday familiar objects must be shown to him with totally unexpected perspectives and in unexpected situations. New objects should be depicted from different sides in order to provide a complete impression of the object."


— Aleksandr Rodchenko (1891-1956)

familia do povo Nivkh , 1880-90’s



The sense of your bidding is unclear:
to pray, to curse, is it, to fight
you bid me, inscrutable genius?
The spring slackens, niggard, meager,
and Benozzo Gozzoli’s courier
dozes in the drowsy thickets.

Hills are dark with honeyed cloud.
Look: I do not touch lithe strings.
Your gaze, prophetically flying,
is clenched, gushes no winged streams,
and beckons by no May road, trying
to outstrip Hermes in his flight.

Hobbled horses do not neigh,
Aging warriors sprawl in disarray…
Hold your palms open wide!
Risen spring is bright,
but groves of darkness are not given
to leap for joy having leapt from dreams.

The groom names not the hour,
be not guiled to tarry,
hark through ice the clarion voice,
your flax is drenched with chrism,
and, bidding goodbye to numb laze,
free, in love, you will rise.

"
— Mikhail Kuzmin (1872-1936)

Lév Tolstói


"Out of frayed sackcloth - breasts of filthy cataracts,
Like raw potatoes, branched with rooted blue veins.
What shall we trade? Salt? How much do you want?
There’s a dead child’s hat still here.
In the marketplace, a surveyor dozes like a white skull-
A homeless dog sniffs him as he would an old cadaver.
What shall we trade? Bread? How much do you bid?
A pack of dogs in the street tears a heap of rusted brains into bits.
And birds in the air flap like scattered black hats-
A disheveled tuft of wind keeps trying them on-
Is there a deal? Wind? What do you bid for a windmill?
There, across the foothills, they aimlessly quarrel over eagles’ wings.
Making a trade? Wind? What do you bid?"


— Peretz Markish (1895-1952)

Brigada de combate ao fogo- Tonshaevo, Rússia , 1920’s

fonte : http://zolotoivek.tumblr.com/
"O efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado".


Antonio Candido



"São precisamente as realizações mais frágeis da arte aquelas que se referem ao sentimento imediato da vida, ao passo que as mais poderosas, de acordo com sua verdade, referem-se a uma esfera aparentada ao mítico: "o poetificado". A vida é, em geral, o "poetificado" dos poemas - assim se poderia dizer; no entanto, quanto mais diretamente o poeta procura converter a unidade da vida em unidade artística sem transformá-la, mais ele se revela inepto. Estamos acostumados a ver a inépcia defendida, e mesmo reivindicada, como "sentimento imediato da vida", "calor humano', "sensibilidade"."

Walter Benjamin

*Procura da Poesia


Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


*Escritos sobre mito e linguagem (Editora 34, 2011).
Poetas
seresteiros e
prostitutas tem algo incomum

todos
durante a execução de suas ‘obras’
suportam
comedidamente
a dor
ainda que esta
seja
lancinante

Jeronimo
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar

Memórias do Cárcere

"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas."


- Graciliano Ramos, em "Memórias do Cárcere", cap. 5, 1953

Geografia da Fome

“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante.”


- Josué de Castro, In Geografia da Fome.

Memorial de Maria Moura

“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembranças que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.”


- Rachel de Queiroz, in "Memorial de Maria Moura".

Reflexões sobre o Romance-rio

"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla, tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido, vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando, há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor maneira."


- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”. Revista do Globo, 213, 1937. p 17.

Livre


Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.

Dom Casmurro

"- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários." in Dom Casmurro - Machado de Assis
"Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos: nós roemos.Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído."


- Machado de Assis, in: "Dom Casmurro", 26ª ed. São Paulo: Ática, 1992. p. 117.