terça-feira, 11 de setembro de 2012

Inverno branco
esqueletos pretos,
as desfolhadas árvores...

.......Xìang Rì Kuí.
[4. Sem ramos de oliveira

a invasão de Mar & Cia no litoral,
prolonga-se além dos esperados
150 dias
os pássaros não têm mais onde pousar:

indefinidamente,
seremos feras submarinas]

Daniel Faria, Desvio para o Vermelho
treze poetas brasileiros contemporâneos

PARA EVITAR LA MÚSICA DE LAS SIRENAS


-Eduardo Chirinos-

ESBOZO PARA UNA POÉTICA DEL MAR

Has de saber ante todo
que la poesía nos conduce a desconfiar del mar.
El mar es fuente de metáforas fáciles: muerte y nacimiento conviven en sus
[aguas,
del mar nace la vida y nuestras vidas
son los ríos que van a dar en la mar / que es el morir.
Peligroso bañarse entre sus aguas y aún mojarse los pies;
el mar seduce, su canto arrulla y nos ofrece salmos de gloria,
la música de las sirenas.
Pero no es conveniente la gloria: un poeta oscuro será siempre más valioso
[que cien héroes muertos, no lo olvides.
‎"Ich sah Viel Städt als flammenraub
Und Greuel auf Greuel häufen die Zeiten"
....
*Eu vi muitas cidades roubadas pelas chamas
E os tempos amontoarem horror sobre horror*
(Georg Trakl)

O mundo é minha pátria, os humanos, irmãos

O mundo é minha pátria, os humanos, irmãos

Salvador Allende e Pablo Neruda

(...)
Eu preconizo um amor inexorável.
E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.
Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
É esse meu temor e minha agonia.
Por isso no combate ninguém espere
Que se quede sem voz minha poesia.
'' O indivíduo é ''livre'' . Nenhuma autoridade lhe pode dizer como ele deve se manter; cada um pode escolher trabalhar como lhe aprouver. Um indivíduo pode decidir produzir sapatos, outro, livros, um terceiro rifles, um quarto botões de ouro. Mas os bens que cada um produz são mercadorias, isto é, valores de uso, não para ele, mas para outros indivíduos.Cada um deve trocar seus produtos por outros valores que satisfarão suas necessidades.Em outras palavras , a satisfação das necessidades de cada um pressupõe que o produto do seu trabalho atenda a uma necessidade social.Mas não se pode saber com antecedência. Só quando traz os produtos do trabalho ao mercado é que se pode verificar se empregou , ou não, um tempo de trabalho social.
(...) O valor de troca das suas mercadorias decide seu destino social. A ''forma em que opera esta distribuição proporcional do trabalho, em um estágio da sociedade em que a interconexão do trabalho social se manifesta pela troca privada dos produtos individuais do trabalho, é precisamente o valor de troca destes produtos ", que assim determina a realização proporcional da necessidade social.''

Herbert Marcuse

(Os Fundamentos da Teoria Dialética da Sociedade , ''Razão e Revolução")

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Direito ao Delírio


Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.

Eduardo Galeano

V [vaso]


um vaso é um vaso é um vaso e o mesmo vale para qualquer palavra que seja mais profunda do que ampla. é isso? ornamento não é um vaso embora ele o contenha. palavra é como algumas pessoas chegam ao que eles pensam deva ser um vaso, para deflorá-lo. que falta de profundidade, e sagacidade. ornamento, ornamento, estou cansado de seu entediado lamento. você precisa de um amante que iria escrever um vaso uma carta: vessel, querida, você não é uma palavra

Uljana Wolf;

tradução livre by Ricardo Pozzo

domingo, 9 de setembro de 2012

Ô bien-aimée, quels yeux tes yeux
Embarcadères la nuit, bruissant de mille adieux
Des digues silencieuses
Qui guettent les lumières
Loin... si loin dans le noir
Ô bien-aimée, quels yeux... tes yeux
Tous ces mystères dans tes yeux
Tous ces navires, tous ces voiliers
Tous ces naufrages dans tes yeux
Ô ma bien-aimée aux yeux païens
Un jour, si Dieu voulait
Un jour... dans tes yeux
Je verrais de la poésie, le regard implorant
Ô ma bien-aimée, quels yeux... tes yeux

(VINÍCIUS DE MORAES - JEANNE MOREAU/DOMINIQUE DREYFUS)

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(VINÍCIUS DE MORAES/PAULO SOLEDAE)
IL PARADISO SUI TETTI..................................


Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda
come il sole che nasce o che muore, e il vetro
chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.

Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,
nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra
sarà come il tepore. Empirà la stanza
per la grande finestra un cielo più grande.
Dalla scala salita un giorno per sempre
non verranno più voci, né visi morti.

Non sarà necessario lasciare il letto.
Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.
Basterà la finestra a vestire ogni cosa
di un chiarore tranquillo, quasi una luce.
Poserà un’ombra scarna sul volto supino.
I ricordi saranno dei grumi d’ombra
appiattati così come vecchia brace
nel camino. Il ricordo sarà la vampa
che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.

(Cesare Pavese!)

O QUE A MATEMÁTICA DE CLINTON DIRIA DE FHC?

Bill Clinton, que os tucanos adoram, disparou a seguinte aritmética na convenção que aclamou Obama a buscar um segundo mandato na Casa Branca: "De 1961 para cá, os republicanos governaram o país por 28 anos, e os democratas, por 24 anos. Nesse período, foram criados 66 milhões de empregos, assim: 24 milhões pelos republicanos e 42 milhões pelos democratas". Curto e grosso, Clinton atingiu o fígado adversário. Se fosse manejar a mesma aritmética demolidora no Brasil, Clinton ( que os tucanos adoram, repita-se) diria o seguinte: "De 1994 para cá, o PSDB governou o Brasil por oito anos, e o PT, por 9 anos e meio (8 de Lula, e um ano e meio de Dilma). Nesse período, foram criados 18 milhões e oitocentos mil empregos: 800 mil pelos tucanos; 15 milhões por Lula e 3 milhões por Dilma". É por isso que FHC quando se manifesta é prolixo, mas foge dos números. Por isso, também, Serra recorre ao 'mensalão', na falta do que dizer diante do esfarelamento de sua candidatura. Por conta desse flanco aritmético o PSDB, igualmente, quer interpelar Dilma que anunciou um corte de 16% da tarifa elétrica residencial e de 28% na indústrial em pleno Sete de Setembro. Pudera: no governo FHC, em 2001 --diria a matemática de Clinton-- o corte que houve foi no fornecimento. O 'apagão', conforme cálculos insuspeitos de Delfim Netto, custou R$ 60 bi aos brasileiros. O equivalente a um salário mínimo extraído de cada cidadão, assim: perda de 2 pontos do PIB ($ 50 bi, em valores de 2001, em empregos, produção, renda) e mais R$ 10 bi de 'imposto apagão' para financiar termoelétricas. Vai falar do quê, não é Serra?

Alexandra Peixoto

sábado, 8 de setembro de 2012

em minha outra vida
eu gostaria de ser
flor de cerejeira

( matsuo bashô )

tradução de Geir Campos - Poesia do Japão

No limiar da insanidade

Palavras que invadem a mente e atraem sensações
Apenas expressões deliciosas
Que me invade a imaginação
É como energia ligando meu corpo
Onde meus hormônios disparam acelerado
Inebriando minha mente
Causando sentidos acalorados
Redescobrindo o novo sentido de meu ser
O extremo do prazer é deixar-se levar?
Se rebelar contra preconceitos errôneos?
Onde desejar é indecente?
Fazer é proibido
Se for errado sentir?
Porque nascemos com isso?
E suprimir nossas fantasias?
É ir contra nossa natureza?
Meu conflito é intimo e pessoal
Entre o que é certo ou errado
No limiar da insanidade

(Don Juan Castelano)


Al borde de la locura

Las palabras que invaden la mente y atraer sentimientos
Sólo expresiones deliciosas
Lo que la imaginación se apodera de mí
Es como si mi cuerpo la energía de unión
Cuando mis hormonas desencadenan acelerado
Inebriando mi mente
Causar sentidos con calefacción
Redescubriendo el nuevo sentido de mi ser
El placer extremo es dejarse ir?
Rebelde contra preconceptos erróneos?
¿Dónde quieres es indecente?
Hacer esté prohibido
Si te sientes mal?
Porque nacemos con él?
Y reprimir nuestras fantasías?
Va en contra de nuestra naturaleza?
Mi conflicto es íntimo y personal
Entre lo que está bien o mal
Al borde de la locura

(Don Juan Castelano)
‎"Minha vida se dispersa continuamente. Como um rio que sai do leito e transborda sobre a terra. Então, tenho de abandonar muitas coisas e pensar no que é útil e bom. Só assim controlo as águas e as faço voltar ao seu leito. É como um pêndulo. Foi sempre assim. Já me acostumei a viver com essas inundações que arrasam tudo, e depois a calma, o controle, a solidão, o silêncio. É como uma longa aprendizagem. Infinita. Desconfio que nunca se concluirá."

Pedro Juan Gutiérrez

Vidas desperdiçadas

"Quando todos os seres humanos se livrarem de Deus e da eternidade (como deverá acontecer, com a lógica impiedosa de sucessivas camadas geológicas) o homem irá se concentrar em "obter da vida tudo que ela pode dar, em nome da felicidade e da alegria, mas apenas neste mundo, aqui e agora". Então os seres humanos se tornarão eles próprios "como deuses", imbuídos do espírito e da "titânica presunção" divinos. O conhecimento de que a vida não passa de um instante fugidio, de que não há uma segunda chance, mudará a natureza do amor. O amor não terá um tempo para habitar. O que ele perder em duração vai ganhar em intensidade. Vai arder mais, de modo mais fascinante que nunca, consciente de que está destinado a ser vivido e usado num único momento e até o fim, em vez de se espalhar de maneira tênue e insípida, como antes, pela eternidade e pela vida imortal da alma..."

Vidas desperdiçadas Zygmunt Bauman;
tradução Carlos Alberto Medeiros.
- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2005 "

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


Si yo salí de la tierra,
si yo he nacido de un vientre
desdichado y con pobreza,
no fue sino para hacerme
ruiseñor de las desdichas,
eco de la mala suerte,


y cantar y repetir
a quien escucharme debe
cuanto a penas, cuanto a pobres,
cuanto a tierra se refiere.

MIGUEL HERNANDEZ.

Desafios brasileiros na era dos gigantes

Desafios brasileiros na era dos gigantes
Samuel Pinheiro Guimarães
Ed. Contraponto
R$ 64,00

Os quatro grandes desafios do Brasil são: 1) a redução, gradual e firme, das extraordinárias disparidades sociais; 2) a eliminação das crônicas vulnerabilidades externas; 3) a construção do potencial brasileiro; e 4) a consolidação de uma democracia efetiva, em um cenário mundial violento, imprevisível e instável. É o que nos diz o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães no fim do primeiro capítulo deste livro. Estabelece-se assim um ponto de partida que difere fundamentalmente das análises correntes da situação brasileira, há muitos anos dominadas por diferentes versões de “macroeconomias do curto prazo”. Obcecadas pelos fluxos financeiros, elas são cegas para outras questões muito mais fundamentais: estruturas de poder, território, história, população, capacidade técnica, cultura e vontade. Essas são, justamente, as questões que predominam neste livro tão importante.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Em regra, aceitamos a simplificação que confundia uma obra de engenharia civil (a demolição de um muro) com um desejado fim do "comunismo".Penetrávamos no mundo em que não havia mais "guerra fria", não existiam "esquerda e direita", e mesmo a História se alegava acabada. Pesadelos de uma noite de tempestade. Vontades idiotas não foram satisfeitas, mas aí estão os resultados concretos da "queda do muro de Berlim": a restauração da união entre Igreja e Estado, o poder inquestionável do czar Putin, julgamentos que são comédias de non sense.

Sérgio Gonçalves
BRASÍLIA: fase final de construção, mas antes de ser habitada por vermes. Espíritos maus rondam a grande obra de JK: Jânio Quadros assumiu, bebeu, escreveu bilhetes e renunciou rapidamente. Surgem então as figuras tétricas: Auro Soares de Moura Andrade, açodado no seu dever de declarar a vacância do cargo, chama Ranieri Mazili, que assume, na ausência de Jango. Os militares sentem os bons ares favoráveis ao golpe e negam posse ao vice-presidente. Machado Lopes, um general que comandava o 3º Exército, sai de Porto Alegre e sobe, rumo ao Rio de Janeiro, para que se cumpra a Constituição. Jango assume: anos tumultuados, as reformas de base e a conspiração despudorada das direitas: as coisas ainda aconteciam no Rio de Janeiro, o comício da Central do Brasil, a "anta fardada", que desce de Minas Gerais, e a fuga de Jango. Vinte e cinco anos de vergonha, tendo enfim, como palco, a cidade que se faz um quartel, habitado por homens vestidos de verde e fantasmas sem caráter. A "democracia nova", com Jose Sarney e com o criminoso aspirador de pó. Esperanças de redenção com a chegada de FHC, o homem que vendeu o Brasil.
BRASÍLIA: NUNCA FOI E NÃO É O BRASIL!

Sérgio Gonçalves