sábado, 23 de outubro de 2010

Quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência

Paulo Leminski
Serenata

by Ludwig Rellstab (1799-1860)


Leise flehen meine Lieder

Durch die Nacht zu dir;

In den stillen Hain hernieder,

Liebchen, komm zu mir!

Flüsternd schlanke Wipfel rauschen

In des Mondes Licht;

Des Verräters feindlich Lauschen

Fürchte, Holde, nicht.

Hörst die Nachtigallen schlagen?

Ach! sie flehen dich,

Mit der Töne süßen Klagen

Flehen sie für mich.

Sie verstehn des Busens Sehnen,

Kennen Liebesschmerz,

Rühren mit den Silbertönen

Jedes weiche Herz.

Laß auch dir die Brust bewegen,

Liebchen, höre mich!

Bebend harr’ ich dir entgegen!

Komm, beglücke mich!

Serenade

My songs beckon softly

through the night to you;

below in the quiet grove,

Come to me, beloved!

The rustle of slender leaf tips whispers

in the moonlight;

Do not fear the evil spying

of the betrayer, my dear.

Do you hear the nightingales call?

Ah, they beckon to you,

With the sweet sound of their singing

they beckon to you for me.

They understand the heart’s longing,

know the pain of love,

They calm each tender heart

with their silver tones.

Let them also stir within your breast,

beloved, hear me!

Trembling I wait for you,

Come, please me!

Translation from German by Michael P. Rosewall

Objeto de amor

De tal ordem é e tão precioso

o que devo dizer-lhes

que não posso guardá-lo

sem que me oprima a sensação de um roubo:

cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.

Quanto a mim dou graças

pelo que agora sei

e, mais que perdôo, eu amo.

Adélia Prado

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A rua

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De contínuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.



A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo

Erótica é a alma

Pernas entrelaçadas

as minhas, as tuas

sem saber de quem são.

as mãos!



língua aventureira

desvenda meus sonhos

molha minha pele

Tesão!



jogado na cama

passeio em teu corpo

como tua carne

em ritual

Oração!



Eros nos move

Baco nos guia

ao prazer sem pressa

até que eu morra em teus braços

renasça em tua boca.

Para que morras em meu corpo

e renasças

dentro de mim.



Adélia Prado,

em Poesia reunida. São Paulo. Editora Siciliano

domingo, 17 de outubro de 2010

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Summertime - Janis Joplin

Não passarão


Miguel Torga

Não desesperes, Mãe!

O último triunfo é interdito

Aos heróis que o não são.

Lembra-te do teu grito:

Não passarão!



Não passarão!

Só mesmo se parasse o coração

Que te bate no peito.

Só mesmo se pudesse haver sentido

Entre o sangue vertido

E o sonho desfeito.



Só mesmo se a raiz bebesse em lodo

De traição e de crime.

Só mesmo se não fosse o mundo todo

Que na tua tragédia se redime.



Não passarão!

Arde a seara, mas dum simples grão

Nasce o trigal de novo.

Morrem filhos e filhas da nação,

Não morre um povo!



Não passarão!

Seja qual for a fúria da agressão,

As forças que te querem jugular

Não poderão passar

Sobre a dor infinita desse não

Que a terra inteira ouviu

E repetiu:

Não passarão!
Recomeça…



Miguel Torga

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.



E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ma Solitude

Pour avoir si souvent dormi


Avec ma solitude

Je m’en suis fait presqu’une amie

Une douce habitude

Ell’ ne me quitte pas d’un pas

Fidèle comme une ombre

Elle m’a suivi ça et là

Aux quatre coins du monde



Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude



Quand elle est au creux de mon lit

Elle prend toute la place

Et nous passons de longues nuits

Tous les deux face à face

Je ne sais vraiment pas jusqu’où

Ira cette complice

Faudra-t-il que j’y prenne goût

Ou que je réagisse?



Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude



Par elle, j’ai autant appris

Que j’ai versé de larmes

Si parfois je la répudie

Jamais elle ne désarme

Et si je préfère l’amour

D’une autre courtisane

Elle sera à mon dernier jour

Ma dernière compagne



Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude

Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude

Georges Moustaki - Ma Solitude

Laura Pausini e Lara Fabian - La Solitudine Live in Rome

La Solitudine

Marco se n’è andato e non ritorna piů

Il treno delle sette e trenta senza lui

Č un cuore di metallo senza l’anima

Nel freddo del matino grigio di città



A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me

è dolce il suo respiro fra i pensieri miei

Distanze enormi sembrano dividerci

Ma il cuore batte forte dentro me



Chissà se tu mi penserai

Se con i tuoi non parli mai

Se ti nascondi come me

Sfuggi gli sguardi e te ne stai



Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare

Stringi forte al te il cuscino

Piangi non lo sai

Quanto altro male ti farà la solitudine



Marco nel mio diario ho una fotografia

Hai gli occhi di bambino un poco timido

La stringo forte al cuore e sento che ci sei

Fra i compiti d’inglese e matematica



Tuo padre e i suoi consigli che monotonia

Lui con il suo lavoro ti ha portato via

Di certo il tuo parere non l’ha chiesto mai

Ha detto: “un giorno tu mi capirai”



Chissà se tu mi penserai

Se con gli amici parlerai

Per non soffrire piů per me

Ma non è facile lo sai



A scuola non me posso piů

E i pomeriggi senza te

Studiare è inutile tutte le idee

Si affollano su te



Non è possibile dividere

La vita di noi due

Ti prego aspettami amore mio

Ma illuderti non so



La solitudine fra noi

Questo silenzio dentro me

è l’inquietudine di vivere

La vita senza te



Ti prego aspettami perché

Non posso stare senza te

Non è possibile dividere

La storia di noi due



La solitudine fra noi

Questo silenzio dentro me

è l’inquietudine di vivere

La vita senza te



Ti prego aspettami perché

Non posso stare senza te

Non è possibile dividere

La storia di noi due

La solitudine

Léo Ferré - La Solitude

Je suis d’un autre pays que le vôtre, d’une autre quartier, d’une autre solitude.

Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.

J’attends des mutants. Biologiquement je m’arrange avec l’idée que je me fais de la biologie: je pisse, j’éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s’il s’agissait d’objets manufacturés.

Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais…



la solitude…



Les moules sont d’une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n’avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c’est derrière, la nuit c’est le jour. Et…



la solitude…



Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d’arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n’est qu’une dépendance de l’ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant…



la solitude…



Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l’appellerons “bonheur”, les mots que vous employez n’étant plus ” les mots” mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais…



la solitude…



Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l’incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.

Je voudrais m’insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.

billie holiday solitude

Solitude

In my solitude

You haunt me

With dreadful ease

Of days gone by



In my solitude

You taunt me

With memories

That never die



I sit in my chair

And filled with despair

There’s no one could be so sad

With gloom everywhere

I sit and I stare

I know that I’ll soon go mad



In my solitude

I’m afraid

Dear Lord above

Send back my love