quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Breve história crítica dos feminismos no Brasil



Por CARLA RODRIGUES

Excluídas da história oficial, as mulheres fazem do ato de contar a própria trajetória uma forma de resistência. Neste ensaio, publicado na serrote #30, a filósofa Carla Rodrigues enlaça as várias linhas dos movimentos feministas no país nas últimas décadas
Das mulheres, já se disse muita tolice. Para que não alcançassem a cidadania, Rousseau as restringiu à esfera privada. Kant confinou-as à pura sensibilidade e, ao deixá-las de fora do campo da razão, manteve-as longe da ciência. Devido ao suposto mistério envolvendo sua sexualidade, Freud considerou-as um enigma indecifrável. Excluídas da história, criaram uma historiografia própria para se opor ao apagamento e à invisibilidade da existência, fazendo do ato de contar a própria trajetória uma forma de resistência.1 Dicionários nomeiam, classificam e ordenam as pensadoras como forma de articular política editorial e estratégias de perpetuar a memória onde havia esquecimento.2 Esta breve história dos feminismos é costurada a partir do entrelaçamento de quatro feixes, quatro linhas históricas que serão trançadas como os cabelos das mulheres negras ou como as tramas das cestarias, nas quais a trama é menos visível do que a forma final que os fios produzem. Quero contar uma história despida de qualquer historicismo, de qualquer pretensão a estabelecer um nexo causal entre vários momentos, uma história que parte do tempo do agora.

“O histórico e o a-histórico são na mesma medida necessários para a saúde de um indivíduo, um povo e uma cultura”, escreve Friedrich Nietzsche em sua Segunda consideração intempestiva, de 1874,3 cujo subtítulo instiga quem se engaja na historiografia – “da utilidade e da desvantagem da história para a vida”. O texto entrou para a tradição filosófica como tendo exercido grande influência sobre as Teses sobre o conceito de história (1940), em que Walter Benjamin propõe, entre tantas outras coisas, capturar o passado “somente como imagem que lampeja no instante de sua recognoscibilidade, para nunca mais ser vista”. O argumento começa na tese V e continua na VI: “Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo ‘tal como ele propriamente foi’”, mas “capturar uma imagem do passado como ela inesperadamente se coloca para o sujeito histórico no instante do perigo. O perigo ameaça tanto o conteúdo dado da tradição quanto os seus destinatários.”4 Se é verdade que os feminismos são plurais e abertos, eles o são exatamente ali onde não podem se constituir numa história monumental. Escrita a partir do encontro de Nietzsche com Benjamin, esta pequena história é crítica e se tece costurando quatro fios: os movimentos de mulheres e suas resistências; a constituição dos estudos feministas; a recepção do conceito de gênero e seus desdobramentos teóricos; e as relações internacionais tanto dos movimentos quanto das teorias. A cada tempo, a cada nó ou a cada onda, esses cruzamentos se modificam conforme a trama, como se as tranças fossem ao mesmo tempo hierárquicas e rizomáticas, lógicas e borromeanas, compatibilizando sistemas contraditórios entre si. Nessas amarrações, há movimentos de busca de elementos históricos, assim como há descontinuidades, curtos-circuitos onde algo parece se perder para vir a ser retomado depois. É como se o aforismo de Nietzsche – da história, trata-se de saber o que lembrar e o que esquecer – nem sempre funcionasse a contento. Há inúmeras iniciativas de reconstituição da trajetória dos movimentos de mulheres, seus erros, acertos e descontinuidades.5 Por vezes, cai no esquecimento aquilo que teria potência histórica; em outros casos, lembram-se de mais episódios que poderiam ser, senão esquecidos, pelo menos trançados com outros fios da memória.

#FIO 1 – RESISTÊNCIAS

A ressignificação da figura histórica de Luíza Mahin como mito libertário da escravidão tem sido, desde a publicação de Um defeito de cor (2006), o romance premiado de Ana Maria Gonçalves (1970), mola propulsora para o fortalecimento do movimento de mulheres negras e fundamental para desenhar novos símbolos, contrários à violenta associação entre ser negra e ser subalterna. Ex-escrava, Luíza liderou, no século 19, a revolta dos Malês, descrita por Ana Maria e tomada como ponto de resistência das mulheres negras e de oposição à tradição de subserviência. Faz parte desse movimento   a criação do Dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra no calendário da cidade do Rio de Janeiro, a ser comemorado   no dia 25 de julho, resultado da aprovação de projeto da vereadora Marielle Franco e também direcionado a enaltecer mulheres negras em posição de poder e resistência. Fenômenos parecidos podem ser encontrados nas diferentes formas de retomada das obras de escritoras como Carolina Maria de Jesus (1914-1977) e Conceição Evaristo (1946) – só recentemente reconhecida pelo grande público, embora veiculasse seus textos desde os anos 1980 nos Cadernos Negros, série anual de coletâneas de poesia e prosa dedicada a dar espaço e visibilidade a autoras e autores negros. A estratégia de voltar ao passado tem sido fundamental para as coletivas nas universidades, formadas por jovens que, em muitos casos, são as primeiras da família a escapar do trabalho doméstico para uma promessa de vida intelectual. O recurso a outra visão do passado tem produzido muitos efeitos no presente. Do slogan “Mulher negra tem história” à multiplicação de pesquisas acadêmicas,6 passando pela mobilização semanal de 120 coletivos de mulheres negras que se reúnem na capital paulista, há também as novas candidatas para os parlamentos estadual e federal, as disputas de poesia como o Slam das Minas, e a publicação, pela Companhia das Letras, de Quem tem medo do feminismo negro? (2018), de Djamila Ribeiro (1980). Além de autora, Djamila edita o selo Feminismos Plurais, da editora Letramento, que reúne obras de mulheres negras e títulos sobre racismo. Ainda que mais tímidos, há também fios trançados em torno da memória da feminista Lélia Gonzalez (1935-1994). Uma biografia de Lélia e a reedição de seus ensaios prometem ser parte desse desenho.7 Sua obra foi escrita em intenso diálogo com a feminista norte-americana Angela Davis, hoje mais editada aqui (com três títulos traduzidos nos últimos dois anos pela Boitempo) do que a brasileira.

A estratégia das mulheres negras de recuperação da sua história é similar a um tipo de proposta comum em outro grupo de mulheres, a geração que, anterior à segunda onda do feminismo, ficou imprensada entre as sufragistas e a explosão que viria nos anos 1970. É um grupo heterogêneo, formado principalmente por escritoras e intelectuais que, no rastro do Movimento Modernista de 1922, tomam como óbvio aquilo que na verdade era ainda muito estranho: que mulheres pudessem ser intelectuais e ocupar o espaço público e, sobretudo, o lugar do pensamento, da arte e da escrita. Esse momento das mulheres de letras no Brasil da primeira metade do século 20 é fundamental para abrir caminhos para as que viriam a seguir. Inclui Clarice Lispector (1920-1977), por exemplo, assim como Carmen da Silva (1919-1985), que fez história como editora e colunista na revista Claudia.8 É desse período também a literatura de Ruth Guimarães (1920-2014), mulher negra cujo romance de estreia, Água funda (1946, relançado em 2018 pela Editora 34), recebeu elogios e prefácio de Antonio Candido: “É um romance, mas escrito como se fosse prosa fiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos.” Raça, classe ou gênero não aparecem na avaliação de Candido.

Era um tempo em que escritoras flertavam com o que então se chamava “a questão feminina”, como Lygia Fagundes Telles (1923) ou Marina Colasanti (1937), e discutiam os problemas do gênero literário. “Existe uma literatura feminina?”  era uma pergunta a embalar algumas daquelas mulheres de letras. Merece destaque o trabalho da pesquisadora Zahidé Muzart (1939-2015), cuja carreira docente na UFSC foi dedicada à recuperação de autoras brasileiras ignoradas pelo cânone literário. Publicou livros, orientou pesquisas de mestrado e doutorado, fundou a Editora Mulheres – espelhada na iniciativa francesa da Éditions des Femmes, liderada pela feminista Antoinette Fouque – e foi pioneira na edição da crítica literária sobre Hilda Hilst (1930-2004).9 Zahidé compilou autoras brasileiras como Emília Freitas (1855-1908) e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e tornou conhecida a trajetória de Nísia Floresta (1810-1885),10 o que nos remeteria a outros fios dessa trama: a estratégia de legitimar as pautas feministas brasileiras a partir de autoras estrangeiras e a permanente interlocução dos movimentos no Brasil com os movimentos internacionais.


Gego, Sem título, 1970 Foto: Reinaldo Armás Ponce / Arquivo Fundación Gego

#FIO 2 – ESCREVER, EDITAR, PUBLICAR

Traduzir e editar textos feministas tem sido fundamental para os movimentos de mulheres desde que, no final do século 19, a educadora Nísia Floresta verteu “livremente” textos da feminista inglesa Mary Wollstonecraft, publicando Direitos das mulheres e injustiça dos homens em 1832 e entrando para a história como precursora intelectual dos ideais feministas de igualdade e emancipação.11 A estratégia de se apresentar como tradutora se entrelaça com a busca de legitimidade internacional para seus escritos, fio que vai se encontrar, na segunda metade do século 20, com o trabalho de Rose Marie Muraro (1930-2014), coordenadora do selo Rosa dos Tempos – hoje relançado pelo grupo Record – e editora de inúmeros textos fundamentais para a teoria feminista. Além do histórico A mística feminina, que trouxe a americana Betty Friedan ao Brasil nos anos 1970, há também o pioneirismo de Feminismo como crítica da modernidade (Rosa dos Tempos, 1991), onde está um dos primeiros textos de Judith Butler publicados em português, “Variações sobre sexo e gênero – Beauvoir, Wittig e Foucault”, espécie de laboratório para o clássico Gender Trouble (1990), publicado no Brasil em 2003 como Problemas de gênero. Tem papel fundamental também o trabalho de Heloisa Buarque de Hollanda (1939) na edição de coletâneas feministas. Está em Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura (Rocco, 1994), organizado por ela, o hoje clássico “Um manifesto para os cyborgs”, de Donna Haraway, e “Quem reivindica a alteridade”, de Gayatri Spivak, precursor de um dos textos fundadores do pensamento pós-colonial, Pode o subalterno falar? (Editora UFMG, 2010).

Percorrendo as linhas estratégicas da edição, é preciso mencionar também o trabalho de Danda Prado (1929). Quando chegou do exílio na França, nos anos 1980, Danda encontrou na Brasiliense uma linha editorial engajada, que procurava dar espaço para a publicação de autoras nacionais. A coleção Primeiros Passos, idealizada por Caio Graco, irmão de Danda, e dirigida pelo jovem Luiz Schwarcz, servia aos interesses feministas de oferecer textos acessíveis a grupos militantes. Títulos como O que é o feminismo, O que é o aborto e O que é a família – este assinado pela própria Danda – foram parte da sua interseção entre ativismo e produção intelectual. É da Brasiliense também a primeira edição de Breve história do feminismo no Brasil (1993), de Maria Amélia de Almeida Teles (1944), reeditado como Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios (Alameda Editorial, 2017). Já à professora Guacira Lopes Louro (1945) coube o pioneirismo na recepção da teoria queer, em especial no campo da educação, incluindo a tradução da introdução de Bodies That Matter – On the Discursive Limits of Sex (1993), de Judith Butler, complemento necessário aos debates iniciados em Gender Trouble.12 Faz parte dos desacertos nas leituras de Butler no Brasil a quase ignorância desse livro, onde estão algumas das respostas que ela oferece a críticas recebidas por Problemas de gênero.

#FIO 3 – INTERNACIONAL E DECOLONIAL

Outro nó se amarra aqui. Enquanto os movimentos se animam com as leituras, na constituição do campo dos estudos feministas acontece o debate sobre o problema da colonização dos saberes, que nos colocariam numa condição de dependência em relação à produção intelectual internacional. Impulsionadas primeiro por críticas pós-coloniais, como a de Gayatri Spivak, e hoje pelo que se renomeou como pensamento decolonial, teóricas feministas brasileiras se engajam nas escavações de pensadoras brasileiras, como fez Zahidé, e em críticas de políticas de tradução com ênfase em nomes consagrados, legando ao esquecimento autoras indispensáveis nas bibliografias de pesquisa, mas nem sempre palatáveis ao mercado editorial. Destaco a coletânea Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas (1970-2010), volume que dá continuidade à estratégia de preencher lacunas bibliográficas e reúne a tradução de textos fundamentais para a teoria feminista. Inclui, por exemplo, “O riso da Medusa”, de Hélène Cixous, “O pensamento straight”, de Monique Wittig, “O olhar oposicional: espectadoras negras”, de bel hooks, além de comentadoras brasileiras das respectivas traduções.13

Táticas de guerrilha cumpriram a função de amarrar teoria e prática. Foi o que aconteceu, por exemplo, em relação a “The Traffic in Women: Notes on the ‘Political Economy’ of Sex” (1975), da antropóloga Gayle Rubin, considerado peça fundamental para a compreensão do sistema sexo/gênero e da crítica feminista à antropologia estruturalista de Lévi-Strauss. A necessidade de se valer desse texto nos debates políticos e   o obstáculo de não haver edição em português fizeram com que três ativistas traduzissem o artigo, que começa a circular ainda em mimeo, depois em cópias xerox, muitas enviadas pelo correio. Foi editado pelo SOS Corpo, organização não governamental atuante na defesa dos direitos das mulheres.14 Nos anos 1990, com a chegada da internet, passou a estar disponível online. Só em 2017 ganhou edição em livro.15

O ponto da crítica à bibliografia faz nó, por exemplo, com a criação, pela ONU, do Ano Internacional da Mulher. Era 1975, momento crucial para feministas e movimentos de resistência à ditadura civil-militar, unidos apesar das diferenças internas (bons tempos…). A importância do apoio internacional pode ser encontrada no balanço dos 40 anos de atuação da Fundação Ford no Brasil,16 cujo trabalho no país começa em 1962 e chega aos anos 1990 com o financiamento a projetos sociais de mulheres e para mulheres. Desde o final dos anos 1950, a Ford seguia uma preocupação comum à época: o crescimento populacional em países em desenvolvimento. No Brasil, deu apoio decisivo para áreas como demografia, planejamento familiar e reprodução, tendo participado da chamada transição demográfica brasileira, que significou, nas décadas de 1970 e 1980, a queda do número de filhos por mulher. Nos anos 1990, o programa foi revisto, por ser considerado “controlista” e muito ligado a abordagens médicas, e a Ford passou a atuar junto aos movimentos de mulheres e às comunidades de base. Assim, a área deixa de se chamar População para tornar-se aberta a outros temas e ser rebatizada de Sexualidade e Saúde Reprodutiva, com expressivo apoio à agenda da ONU.17 Estratégias de internacionalização ganham reforço, em menor grau de investimento, da Fundação MacArthur, cujo programa de bolsas foi responsável pela formação de lideranças feministas em diferentes áreas de atuação.

Uma das peculiaridades no trabalho da Fundação Ford foi apoiar pesquisas acadêmicas. Em 1996, começou a financiar o Programa em Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva, coordenado pela antropóloga Maria Luiza Heilborn (1953) no Instituto de Medicina Social (Uerj), onde de novo se cruzam dois feixes desta trama: o desenvolvimento do campo universitário e a recepção do conceito de gênero na pesquisa sobre mulheres – nas ciências sociais em geral e na antropologia em particular. Na linha da constituição dos estudos de gênero, o apoio à Revista de Estudos Feministas, criada na UFRJ e hoje editada pela UFSC, é ponto de amarração entre teoria e prática. Em tese de doutorado18 recém-defendida na Unicamp, a pesquisadora Marília Moschkovich (1986) retoma a recepção do conceito de gênero entre os anos 1980 e 1990. Dedica o trabalho às antropólogas Maria Luiza Heilborn e Elisabeth Souza-Lobo (1943-1991), duas mulheres que são parte importante nessa costura. O percurso de Maria Luiza, por exemplo, passa pelos quatro fios entrelaçados aqui: atuação no movimento de mulheres, constituição do campo de pesquisa, recepção do conceito de gênero, com formação de pesquisadoras na área, e interlocução internacional como pioneira no projeto financiado pela Ford em 1996. Haveria muitas outras autoras a citar, legadas ao esquecimento, talvez porque cada vez mais as bibliografias de pesquisa sejam feitas nas prateleiras dos lançamentos das livrarias e menos nas empoeiradas estantes das bibliotecas.

Em termos de internacionalização, a década de 1990 foi marcada por conferências da ONU, desde a Rio 92, onde as organizações feministas estiveram representadas no “Planeta fêmea” – montado no aterro do Flamengo a fim de dar visibilidade aos projetos com e de mulheres ao redor do mundo –, passando pela Cairo 94, com o tema da população, e Beijing 95, abordando os direitos das mulheres. Foram pelo menos 20 anos de intensa participação brasileira em redes internacionais. Desse período se trança uma iniciativa contemporânea, costurada desde 2002, o Observatório de Sexualidade e Política (SPW, na sigla em inglês), sediado na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids e dirigido por Sonia Corrêa (1948) e Richard Parker, ambos articuladores dos ativismos nacionais com os internacionais.



#FIO 4 – CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE GÊNERO

No eixo da formação acadêmica, a geração precursora da segunda onda do feminismo, nos anos 1970, se inspirou no admirável trabalho da socióloga Heleieth Saffioti (1934-2010). Sua tese de livre-docência defendida em 1967 nas Ciências Sociais da Unesp antecipava, pelo viés marxista, o debate sobre as desigualdades sociais e econômicas que pesavam sobre as mulheres. Publicada em livro,19 tornou-se referência nesse cruzamento entre materialismo e feminismo, em que as relações de poder entre homens e mulheres são pensadas em tensão dialética, o que em muitos movimentos contemporâneos infelizmente se perdeu na perspectiva simplista de opor vítimas e algozes. “Como na dialética entre o escravo e seu senhor, homem e mulher jogam, cada um com seus poderes. O primeiro para preservar sua supremacia, a segunda para tornar menos incompleta sua cidadania”, escreve Saffioti num artigo da coletânea Uma questão de gênero, editada em 1992 pela Fundação Carlos Chagas como balanço dos primeiros 15 anos de recepção do conceito de gênero nos estudos brasileiros. Embora seja impossível encontrar o único ponto de costura inicial dessa rede, ou exatamente por isso, vale a pena seguir a tese de Marília, que reconta a criação do primeiro grupo de trabalho sobre gênero na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Em 1990, dois núcleos estudavam temas ligados às mulheres, um voltado para a participação na política e outro, para a inserção no mercado de trabalho. A decisão de se unirem em um novo grupo, “O caráter transversal do gênero nas ciências sociais”, coordenado pela economista Lena Lavinas (1953), promoveu a criação do primeiro núcleo oficial de pesquisa sobre gênero no país.

Aqui, vale a pena fazer um point de capiton, aquele usado no capitonê francês, metáfora lacaniana para o ponto de interrupção da rede de significantes pensada pela linguística estruturalista. Hoje sob ataque cerrado de “ideólogos” que enxergam nele o fim da família – e quiçá da humanidade –  ou de teóricos que consideram necessário substituí-lo pela crítica à heteronormatividade, o conceito de gênero se estabelecia na década de 1990 a partir de sua construção política e discursiva em prol do debate sobre diferença sexual    e assimetria do papel de homens e mulheres na vida social. Fazendo eco a um debate sobre o quanto o termo “gênero” poderia estar subsumindo a categoria mulher, Maria Luiza Heilborn escreve: “Em geral, a entrada da perspectiva do gênero foi saudada como uma grande renovação nas ciências sociais […]. Nos primeiros momentos imaginou-se que uma revolução estava em curso nas ciências sociais, mas um balanço um pouco menos ufanista assinala que a incorporação da perspectiva de gênero foi menos transformadora do que se supõe.”20

Antropólogas de ontem e de hoje continuam trabalhando e criticando o conceito de gênero, com amarrações, por exemplo, na sua recente expansão para o campo da filosofia. Em que pese o pioneirismo de Maria de Lourdes Borges (1961) e Marcia Tiburi (1970) em seminários e publicações sobre a mulher na filosofia no início dos anos 2000, é preciso registrar o quão recente é a criação do primeiro grupo de trabalho sobre filosofia e gênero na Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), reunião dos programas de pós-graduação em filosofia nas universidades brasileiras. Apenas em 2016, por iniciativa de Susana de Castro Amaral Vieira (1967), o tema foi institucionalizado num ambiente filosófico que há dez anos considerava Simone de Beauvoir “apenas” uma grande escritora francesa premiada. Entre as precursoras das pesquisas sobre a filósofa francesa está a mineira Magda Guadalupe dos Santos (1957), participante assídua dos congressos anuais da Simone de Beauvoir Society. Até bem pouco tempo atrás, ainda era necessário justificar diante de agências de fomento a realização de pesquisas sobre Beauvoir em filosofia. Entre o Fazendo Gênero e o (Des)fazendo Gênero, dois encontros em torno da recepção do conceito nas ciências sociais, a filosofia chega para ampliar o caráter multidisciplinar do gênero.

Na história, em certa medida impulsionadas pela importância do trabalho de Joan Scott – no artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, cuja tradução fez parte do fio estratégico da edição de textos fundamentais21 –, muitas feministas se engajam na costura entre o passado e o contemporâneo. É de imensa relevância a pesquisa da historiadora Margareth Rago (1948) sobre o pensamento anarquista-libertário de Maria Lacerda de Moura (1887-1945), escritora, militante anarquista, dedicada a pensar formas anti-hierárquicas de viver e engajada na luta internacional antifascista, em diálogo com a italiana Luce Fabbri (1908-2000) e com anarquistas latino-americanas, principalmente as argentinas. Maria Lacerda de Moura começa a publicar seus textos em 1908, mas será entre as décadas de 1910 e 1930 que seus livros estarão carregados de críticas à situação social da mulher e à moral sexual opressora. Amor livre, amor plural, educação sexual, direito ao prazer e prostituição são alguns dos temas abordados por ela e que se amarram à emergência dos atuais coletivos feministas anarquistas, aos grupos defensores do poliamor e à mobilização das prostitutas pela legalização da profissão. A pesquisa de Margareth sobre a atuação política de Maria Lacerda de Moura está a serviço do seu interesse em contestar a narrativa hegemônica do feminismo branco e bem-comportado da burguesia.22 Significa dizer, no rastro das manifestações de junho de 2013 e da expansão das formas anarquistas de política, aí incluindo os movimentos antiencarceramento, que há grandes lacunas a preencher para costurar as lutas futuras com as passadas. São inúmeras as tentativas de ligações históricas desses nós tramados entre as mulheres de hoje e de ontem, e há sempre aquilo que resta a ser contado, costurado, amarrado e lembrado.

#CESTARIA

Da reedição de Parque industrial,23 de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), à emergência de uma imprensa feminista24 para se contrapor ao velho modelo da imprensa feminina, passando pela volta das velhas tensões entre esquerda e feminismos, indicadas no neologismo “esquerdomacho” – termo que poderia ter sido criado pelas militantes feministas, sempre enfrentando dificuldade com a pauta de mulheres nos movimentos de resistência à ditadura –, os pontos de encontro são muitos. As mulheres da periferia de São Paulo da década de 1970 se reconheceriam nos movimentos de negras em favelas, assim como as protagonistas das campanhas de denúncia da violência contra a mulher estariam – e muitas delas ainda estão – nas Marchas das Vadias iniciadas a partir do Canadá em 2011. As mulheres negras de hoje gostariam de ter estado presentes numa das reuniões do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado em 1985, quando duas feministas se enfrentaram – a negra acusando a branca de “nunca abandonar sua atitude de sinhazinha” –, em termos não muito diferentes dos usados hoje pelas feministas negras para acusar as brancas de autoritarismo, racismo e hierarquia. As lésbicas, que já nos anos 1980 reivindicavam maior visibilidade dentro dos encontros feministas, gostariam de conversar com as mulheres trans, ainda invisíveis nas amplas pautas atuais, e talvez enfrentar juntas algumas das dificuldades de aceitação por parte de grupos mais radicais. As atuais redes de apoio político-jurídico a mulheres que buscam o direito ao aborto se encontrariam com as feministas que nos anos 1980 ofereciam suporte à interrupção de gravidez para mulheres pobres, para as quais as clínicas clandestinas de qualidade eram inacessíveis. Exemplo recente foi a mobilização em torno da jovem Rebeca Mendes (1987), que, depois de ver negado seu pedido junto ao STF de fazer um aborto legal, foi amparada pela Anis – Instituto de Bioética (organização não governamental feminista) para realizá-lo na Colômbia, onde a prática já está descriminalizada.

Mas se é verdade que, como argumenta Paulo Arantes,25 vivemos em um tempo sem horizonte, encolhendo o nosso campo de ação por não dispormos mais de parte do futuro, também podemos voltar a Walter Benjamin para pensar que vivemos num tempo sem passado. Em 2018, ano do inominável assassinato da vereadora Marielle Franco (1979-2018), uma pequena história dos feminismos no Brasil talvez nos sirva para despertar, a partir da potência dos movimentos políticos que ela encarnava, algum tipo de esperança se não no futuro, pelo menos na tarefa da rememoração. A radiante mulher negra em seus turbantes e brincos coloridos havia sido eleita com o dito de campanha “eu sou porque nós somos”, referência à força da comunidade contra a fraqueza da individualidade, outra forma de criticar o feminismo liberal branco de matriz individualista.26 Os fios da resistência, da teoria, do conceito e das relações internacionais são entrelaçamentos entre teoria e prática, outra das preocupações de Benjamin nas suas teses sobre o conceito de história, seja a partir da influência de György Lukács, seja pela importância do materialismo histórico na fase madura de sua obra. Uma das potências da rememoração está em trançar passado, presente e futuro para fora de qualquer linha de progresso, seguindo Max Horkheimer na sua proposição de que a transformação radical da sociedade e o fim da exploração não são uma aceleração do progresso, mas um salto para fora do progresso.

Somos, numa proposição de Max Weber tomada pelo antropólogo Clifford Geertz na definição de cultura, seres amarrados em teias de significado que nós mesmas tecemos, ou atados pela história que contamos sobre nós mesmas e sempre recontamos, porque é infinita a necessidade de separar o que lembrar e o que esquecer, e redesenhar as imagens que lampejam do passado, em constelações muito menos coerentes do que gostaríamos de acreditar. Se essas teias pudessem formar um cesto que contorna o vazio, configurar um receptáculo que dá lugar a todas as reivindicações e, mais, onde sempre pode caber a cada vez uma nova pauta política, passaríamos a propor transformações ao modo dos feminismos, que estão sempre sendo costurados, feitos, desfeitos e refeitos, a fim de tornar as nossas tramas outro modo de fazer revolução.



NOTAS

Destaco o trabalho da francesa Michelle Perrot, autora, entre outros tantos títulos, da inspiradora coletânea de ensaios Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. São Paulo: Paz e Terra, 2017.
Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, Dicionário Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2000; Nelly Novaes Coelho, Dicionário crítico de escritoras brasileiras. São Paulo: Escrituras, 2002; Helena Hirata, Dicionário crítico do feminismo. São Paulo: Editora Unesp, 2009; Béatrice Didier, Antoinette Fouque, Mireille Calle-Gruber, Le Dictionnaire universel des créatrices. Paris: Éditions des Femmes, 2013; Ana Maria Colling e Losandro Antonio Tedeschi, Dicionário crítico de gênero. Dourados: Editora UFGD, 2015.
Friedrich Nietzsche, Segunda consideração intempestiva: da utilidade e da desvantagem da história para a vida. Trad. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2003.
Estou citando a tradução das teses feita por Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller, publicada em Michael Löwy, Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.
Apenas como exemplo, cito duas autoras que vêm se dedicando a contar histórias dos feminismos no Brasil: Céli Regina Jardim Pinto, Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003; Rachel Soihet, Feminismos e  antifeminismos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2017.
Gostaria de destacar, no movimento de valorização da trajetória de Luíza Mahin, o trabalho de Dulcilei da Conceição Lima, Desvendando Luíza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. Dissertação de mestrado em Educação, Arte e História da Cultura, Universidade Mackenzie, São Paulo, 2011.
Alex Ratts e Flavia Rios, Lélia Gonzalez. São Paulo: Selo Negro Edições, 2010; Lélia Gonzalez, Primavera para as rosas negras. São Paulo: Território Africano, 2018.
Ana Rita Fonteles Duarte, Carmen da Silva: o feminismo na imprensa brasileira. Fortaleza: Expressão Gráfica; Edições Nudoc, 2005.
Vera Queiroz, Hilda Hilst: três leituras. Florianópolis: Editora Mulheres, 2000.
Constância Duarte, Nísia Floresta: a primeira feminista do Brasil. Florianópolis: Editora Mulheres, 2005.
Nísia Floresta, Direito das mulheres e injustiças dos homens, publicado em Recife em 1832, em Porto Alegre em 1833, no Rio de Janeiro em 1839. Há uma quarta edição comentada por sua biógrafa, Constância Lima Duarte (São Paulo: Cortez, 1989). Durante muito tempo, o texto de Nísia foi citado como a primeira tradução de A Vindication of the Rights of Woman: With Strictures on Political and Moral Subjects, escrito em 1792 por Mary Wollstonecraft, hoje editado no Brasil como Reivindicação dos direitos da mulher. Trad. Ivania Pocinho Motta. São Paulo: Boitempo, 2016.
Estou me referindo à publicação de “Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do ‘sexo’” em coletânea organizada por Guacira Lopes Louro com textos traduzidos por Tomaz Tadeu da Silva, O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
Izabel Brandão, Ildney Cavalcanti, Claudia de Lima Costa e Ana Cecília A. Lima (orgs.), Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas (1970-2010). Florianópolis: Edufal/Editora Mulheres/ Editora da UFsC, 2017.
As tradutoras são Christine Rufino Dabat, Edileusa Oliveira da Rocha e Sonia Corrêa.
Gayle Rubin, “Tráfico de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo”, in Políticas do sexo. Trad. Jamile Pinheiro Dias. São Paulo: Ubu, 2017.
Nigel Brooke e Mary Witoshynsky (orgs.), Os 40 anos da Fundação Ford no Brasil: uma parceria para a mudança social. São Paulo: Edusp; Ford, 2002.
Conforme relato de Cecília de Mello e Souza em “Dos estudos populacionais à saúde reprodutiva”, in Os 40 anos da Fundação Ford no Brasil, op. cit.
Marília Moschkovich, Feminist Gender Wars: a recepção do conceito de gênero no Brasil (1980s -1990s) e as dinâmicas globais de produção e circulação de conhecimento. Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação da Unicamp, Campinas, 2018.
Heleieth Saffioti, A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976.
Maria Luiza Heilborn, “De que gênero estamos falando?”. Sexualidade, gênero e sociedade, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1994, pp. 1-8, apud Marília Moschkovich, op. cit., p. 30.
Joan Scott, “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Trad. Guacira Lopes Louro. Revista de Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 15, n. 2, 1990.
Mais sobre a figura histórica de Maria Lacerda de Moura nas leituras de Margareth Rago, “Entre o anarquismo e o feminismo: Maria Lacerda de Moura e Luce Fabbri”, Revista Verve. São Paulo, n. 21, 2012, pp. 54-78; Miriam L. Moreira Leite, Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura. São Paulo: Ática, 1984; Liane Peters Richter, Emancipação feminina e moral libertária: Emma  Goldman e Maria Lacerda de Moura. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp, Campinas, 1998, defendida sob orientação de Margareth Rago.
São Paulo: Linha a Linha, 2018.
Destaco a pesquisa Comunicação e gênero: as narrativas dos movimentos feministas contemporâneos, em que Ana Beatriz Rangel Pessanha da Silva faz um amplo levantamento de publicações feministas. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Gradução em Comunicação e Cultura da ECO/UFRJ, 2017.
Paulo Arantes, O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
Sobre esses limites, sigo as argumentações de Nancy Fraser em “O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história”. Trad. Anselmo da Costa Filho e Sávio Cavalcante. Mediações, Londrina, v. 14, n. 2, 2009, pp. 11-33.

Carla Rodrigues (1961) é feminista, filósofa, professora de filosofia na UFRJ e pesquisadora da Faperj. É uma das organizadoras da antologia Problemas de gênero, da coleção Ensaios Brasileiros Contemporâneos, editada pela Funarte em 2017. Na serrote, publicou “Os nomes do capital” (#9), “Revolta” (#15) e “Erguer, acumular, quebrar, varrer, erguer…” (#24).

site da revista Serrote, publicação do Instituto Moreira Salles,

A ideia de um mundo sem fronteiras



Por ACHILLE MBEMBE

A utopia da livre circulação entre os países é hoje solapada pelo reforço das restrições de movimento que reproduzem e intensificam a vulnerabilidade de grupos estigmatizados e mais marcados racialmente

A capacidade de decidir quem pode se mover, quem pode se estabelecer onde e sob quais condições, ocupa cada vez mais o centro de lutas políticas por soberania, nacionalismo, cidadania, segurança e liberdade. Com a expansão colonial do ocidente, e de modo mais decisivo com o advento do capitalismo, a raison d’être da fronteira se relaciona a questões­-chave como: a quem pertence a terra? Quem tem o direito de reivindicar partes dela e os vários seres que nela habitam? Quem determina sua distribuição ou divisão? Ao enquadrar a questão da fronteira dessa forma, estou tentando mostrar que o poder da fronteira está em sua capacidade de regular as múltiplas distribuições das populações – humanas e não humanas – sobre o corpo da terra, e, assim, afetar as forças vitais de todos os tipos de seres.

No século 21, torna-­se evidente um desejo global renovado dos cidadãos e de seus respectivos Estados por um controle mais rígido da mobilidade. Para onde quer que se olhe, o impulso é em direção ao cercamento ou, em todo caso, a uma dialética mais intensa de territorialização e desterritorialização, de abertura e fechamento. Ganha força a crença de que o mundo seria mais seguro se ao menos os riscos, as ambiguidades e as incertezas pudessem ser controladas, se ao menos as identidades pudessem ser fixadas de uma vez por todas. Técnicas de gerenciamento de risco estão se tornando, cada vez mais, um método para governar a mobilidade. Sobretudo na medida em que a fronteira biométrica se expande para múltiplos domínios, não apenas na vida social, mas também no corpo, o corpo que não é meu.

Gostaria de prosseguir nessa linha de argumentação sobre a redistribuição da terra. Não apenas por meio do controle dos corpos, mas do controle do movimento em si e de seu corolário, a velocidade, pois é a isso que as políticas de controle migratório estão de fato relacionadas: controlar os corpos, mas também o movimento. Mais especificamente, quero investigar se, e sob quais condições, poderíamos reengendrar a utopia de um mundo sem fronteiras, e, por extensão, reengendrar um mundo sem fronteiras, uma vez que, pelo que sei, a África é parte do mundo. E o mundo é parte da África.

É importante levar em consideração que a questão de um mundo sem fronteiras é uma intenção obviamente utópica. Desde a sua origem, o “movimento”, ou mais precisamente “a ausência de fronteiras”, tem sido central para várias tradições utópicas. O próprio conceito de utopia refere-­se ao que não tem fronteiras, a começar pela imaginação em si. O poder da utopia consiste em sua capacidade de representar a tensão entre a ausência de fronteiras, o movimento e o lugar, uma tensão – se observarmos com cuidado – que marcou as transformações sociais na era moderna. Essa tensão continua nas discussões contemporâneas sobre processos sociais baseados no movimento, especialmente a migração internacional, as fronteiras abertas, o transnacionalismo e até o cosmopolitismo. Nesse contexto, a ideia de um mundo sem fronteiras pode ser um recurso poderoso, embora problemático, para o social, o político e até mesmo para a imaginação estética. Por causa da atual atrofia da imaginação utópica, o espírito do nosso tempo foi colonizado por imaginários apocalípticos e narrativas de desastres cataclísmicos e futuros desconhecidos. Mas que política as visões do apocalipse e da catástrofe engendram, se não uma política da separação, em vez de uma política da humanidade, de espécies começando a existir plenamente? Porque nós herdamos uma história em que a norma é o sacrifício recorrente de algumas vidas para a melhoria de outras, e porque estes são tempos de medos profundamente enraizados, incluindo o medo de um planeta dominado por outras pessoas de raças diferentes; por tudo isso, a violência racial está amplamente codificada na linguagem da fronteira e da segurança. Como resultado disso, as fronteiras contemporâneas correm o risco de se tornarem lugares de reforço, reprodução e intensificação da vulnerabilidade para grupos estigmatizados e desrespeitados, para os mais marcados racialmente, cada vez mais dispensáveis, aqueles que, na era do desamparo neoliberal, pagam o preço mais alto pelo período em que mais se construíram prisões em toda a história humana. Aqui me refiro à prisão, às paisagens carcerárias de nosso mundo, precisamente como a antítese do movimento, da liberdade de se mover. Não há oposição mais dramática à ideia de movimento do que a prisão. E a prisão é uma característica-­chave da paisagem dos nossos tempos.

Ao propor um reexame da questão de uma África sem fronteiras e de um mundo sem fronteiras, gostaria de manter distância dos tratamentos dominantes que esse assunto tem recebido. Isto é, sob o signo de Kant e sua promessa de um cosmopolitismo sem limites, e sob o signo de um individualismo liberal visto como antídoto para os impulsos fascistas arraigados na governança e na burocracia europeias. Embora pareçam dois mundos diferentes, ambas as abordagens são articuladas em torno do conceito das quatro liberdades.
  

AS QUATRO LIBERDADES DE MOVIMENTO

No pensamento liberal clássico, existem três liberdades fundamentais: antes de tudo, a liberdade de ir e vir. Dentro da liberdade de ir e vir, existe a liberdade de movimentação do capital, a maior prioridade. Mas, uma vez que não há capital sem bens, existe a liberdade de movimentação dos bens. A terceira é a dos serviços, e, especialmente nestes nossos tempos, a liberdade de movimento daqueles que podem prestá-­los. Essas são as três liberdades fundamentais; a quarta é a liberdade de movimento das pessoas. Os compromissos tradicionais com a ideia de um mundo sem fronteiras visavam precipitar o advento dessa quarta liberdade. De acordo com essa configuração, em um mundo sem fronteiras haveria liberdade de movimento para: o capital, os bens, os serviços e as pessoas. Essa movimentação, essa liberdade de movimento não seria restrita ao núcleo de países ou Estados economicamente ricos, como é o caso atualmente. O Tratado de Schengen,1 por exemplo, inclui apenas um núcleo de países europeus. De fato, se você tem um passaporte americano, basicamente pode ir aonde quiser. O mundo pertence a você. Mas não é assim que funciona para todo habitante do nosso planeta. Na configuração que mencionei, a quarta liberdade, a capacidade de se mover pelo planeta, não estaria mais restrita a europeus e americanos. Seria um direito radical que todos os indivíduos teriam pelo simples fato de serem humanos. Um direito estendido aos pobres da terra. Voltamos sempre à questão da terra. Não haveria vistos, em algumas instâncias da quarta liberdade de movimento não haveria cotas, e nenhuma categoria bizarra na qual se enquadrar. Seria possível simplesmente pegar a estrada, um avião, um trem, um barco, uma bicicleta. O direito de não ser discriminado seria estendido a todos. Em Camarões, até o início dos anos 1980, era possível viajar para a França apenas com a carteira de identidade. A maioria das pessoas ia à França e voltava. Não iam porque queriam se estabelecer lá. A maioria das pessoas quer viver no lugar ao qual “pertence”. Mas querem poder ir e vir. E é mais provável que vão e venham quando as fronteiras não são hermeticamente fechadas. Logo, o mundo sem fronteiras imaginado pela quarta liberdade de movimento é baseado em duas premissas: o direito à não discriminação e os arranjos circulatórios e pendulares de migração.

Para elucidar ou apresentar de modo diferente as questões de um mundo sem fronteiras é preciso contrastar dois paradigmas. Examinar a ideia liberal de um mundo sem fronteiras por meio do conceito de liberdade de movimento, e contrapô-­la aos modos como se compreendia a movimentação no espaço da África pré­-colonial. O contraste entre esses dois paradigmas nos dará, espero, recursos conceituais para expandir o projeto utópico de um mundo sem fronteiras.



A TRADIÇÃO LIBERAL INDIVIDUALISTA

Falar em pensamento clássico liberal, sabemos, é extremamente complicado. Estou propondo um arquétipo, que precisa ser desconstruído adequadamente. E aqui vou me referir em especial a uma obra recente, Movement and the Ordering of Freedom, de Hagar Kotef, uma acadêmica israelense que leciona na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Você pode usar a imaginação e adivinhar por que uma israelense está interessada nisso. O que Kotef demonstra nessa obra é como o pensamento político liberal, ao imaginar a possibilidade de um mundo sem fronteiras, carregou sempre uma contradição. Seu argumento é que essa contradição decorre da forma como o pensamento liberal compreende o movimento. Ela mostra que, de fato, dentro do pensamento liberal clássico, duas configurações dominantes de movimento entram constantemente em conflito, de modo que, às vezes, uma anula a outra. O movimento aqui é visto, ao mesmo tempo, como manifestação das liberdades e como interrupção, ameaça à ordem. Uma das funções do Estado é, portanto, fabricar conceitos de ordem, estabilidade e segurança que possam ser conciliados com seus conceitos de liberdade e movimento. Essa é a contradição. Kotef argumenta que o Estado liberal clássico é inimigo das pessoas que circulam incansavelmente. Essas pessoas se tornam um outro inassimilável. Não se pode assimilá-­los. Eles estão em movimento constante. Em tudo isso, há uma repercussão colonial. O maior problema do Estado colonial no continente africano, do século 19 em diante, era garantir que as pessoas ficassem no lugar. Foi difícil. Elas circulavam constantemente. Eram “incapturadas”.

Portanto, o negócio do Estado é conseguir capturá-­los. Sem isso, a soberania não significa nada. Soberania significa capturar um povo, capturar um território, delimitar fronteiras. Isso, por sua vez, permite que se exerça o monopólio do território, claro, o monopólio sobre as pessoas nos termos do uso legítimo da força e, o que é muito importante – porque todo o resto depende disso –,   o monopólio sobre a cobrança de impostos. Não se pode cobrar impostos de quem não tem endereço. O Estado vê essas pessoas como inimigas – tanto da liberdade, porque eles não a exercem dentro dos limites, quanto da segurança e da ordem. Não se pode construir uma ordem com base no que é instável.

O mesmo Estado é amigo do movimento autorregulado. Por quê? Porque a liberdade nesse caso é entendida como uma questão de moderação, de autorregulação. Não está associada ao excesso – o movimento excessivo imediatamente invoca problemas de segurança. Kotef então mostra que o movimento não só precisa ser contido por um aparato de mecanismos disciplinares, como deve ser reconciliado com a liberdade e, em certa medida, com o autocontrole. Mas não se supõe que todos os sujeitos tenham capacidade de controlar ou regular a si mesmos. Nem todo mundo consegue se conter. Portanto, alguns movimentos são rotulados como liberdade, e outros são considerados impróprios e percebidos como uma ameaça. Essa é a bifurcação que existe no pensamento clássico liberal. É o espectro que assombra os Estados liberais clássicos, desde aquela época até agora. Ainda não nos livramos desse espectro.

Os Estados liberais clássicos tentaram resolver essa contradição pelo gerenciamento da mobilidade, que está de volta à pauta agora na Europa e até na África do Sul, onde tenho feito alguns trabalhos com o Departamento de Assuntos Internos a respeito da regulação de migrações interafricanas. O conceito-­chave é “mobilidade gerenciada”. Então, no quadro da mobilidade gerenciada, certas categorias da população são vistas o tempo todo como possível ameaça, não apenas para si mesmas e sua própria segurança, mas também para a segurança dos demais. Acredita-­se que essa ameaça pode ser reduzida se os movimentos dessas pessoas forem limitados e se elas forem domesticadas e submetidas a algum tipo de reforma.


O MODELO AFRICANO

No modelo clássico liberal, segurança e liberdade passam a ser definidas como um direito de exclusão. A ordem, nesse modelo, diz respeito à garantia de uma organização desigual das relações de propriedade. Assegurar as fronteiras da nação acompanha a afirmação dos limites da raça. Agora, redefinir os limites da raça nesse modelo exige uma definição apropriada dos limites do corpo; a centralidade do corpo nos cálculos de liberdade e de segurança.

Antes de mais nada, devo dizer que a África pré­-colonial pode não ter sido um mundo sem fronteiras, pelo menos não no sentido em que as temos definido; as fronteiras existentes sempre foram porosas e permeáveis. A função de uma fronteira, na realidade, é ser cruzada. É para isso que elas servem. Não há fronteira concebível fora desse princípio, a lei da permeabilidade. Como atestam as tradições de comércio de longa distância, a circulação era essencial. Era fundamental na produção de formas culturais, arranjos políticos, configurações econômicas, sociais e religiosas. O veículo mais importante para a transformação e a mudança era a mobilidade. Não era a luta de classes, no sentido em que a compreendemos. A mobilidade era o motor de qualquer tipo de transformação social, econômica ou política. Aliás, era o princípio indutor por trás da delimitação e da organização do espaço   e dos territórios. Assim, o princípio primordial da organização espacial era o movimento contínuo. E isso ainda é parte da cultura hoje. Parar é correr riscos. Você precisa estar em constante movimento. Sobretudo em situações de crise, essa é a própria condição da sobrevivência. Se você não se move, as chances de sobreviver diminuem. Logo, o domínio sobre   a soberania não era expresso exclusivamente por meio do controle de território, marcado fisicamente com fronteiras. Como era, então? Se não se controla um território, como se pode exercer a soberania? Como se pode extrair qualquer coisa, uma vez que, pelo que sabemos, o poder se expressa também, se não essencialmente, por meio de alguma forma de extração?

Tudo isso era representado pelas redes. Redes e encruzilhadas. A importância das redes e das encruzilhadas na literatura africana é impressionante. Leia Soyinka, leia Achebe, leia Tutuola.2 Estradas e cruzamentos estão por toda parte na literatura deles. As encruzilhadas, os fluxos de pessoas e os fluxos da natureza, ambos em relações dialéticas, porque nessas cosmogonias as pessoas são impensáveis sem o que chamamos de natureza. Isto posto, enquanto a virada do Antropoceno parece uma novidade em parte do nosso mundo hoje, nós sempre vivemos assim. Não é nenhuma novidade. Porque não se pode pensar nas pessoas sem pensar nos não humanos. Leia Tutuola, é um mundo de humanos e não humanos interagindo, agindo uns com os outros. Não quero exagerar. Espaços geográficos fixos, como cidades e vilas, existiam. Pessoas e coisas poderiam estar concentradas em um local específico. Esses lugares podiam até se tornar a origem do movimento, e havia ligações entre eles, como estradas e rotas de voo, mas os lugares não eram descritos por pontos ou linhas. O mais importante era a distribuição do movimento entre os lugares. O movimento era a força motriz da própria produção de espaço e deslocamento, se acreditarmos em algumas daquelas cosmogonias. Tenho agora em mente a cosmogonia Dogon, que foi estudada particularmente por Marcel Griaule, ou outras cosmogonias na África Equatorial analisadas por antropólogos e historiadores como Jan Vansina, John M. Janzen e outros. O movimento em si não era necessariamente relacionado ao deslocamento. O mais importante era o quanto os fluxos e suas intensidades se cruzavam e interagiam com outros fluxos, as novas formas que estes poderiam assumir quando se intensificavam. O movimento, especialmente entre os Dogon, poderia levar a desvios, conversões e intersecções. Isso era mais importante do que pontos, linhas e superfícies, que, como sabemos, são as referências cardeais na geometria ocidental. Logo, o que temos aqui é outro tipo de geometria, da qual derivam conceitos próprios de fronteiras, poder, relações e separação.

Se quisermos captar recursos alternativos, como um vocabulário conceitual, para imaginarmos um mundo sem fronteiras, eis aqui uma fonte. Não é a única. Mas queremos reunir os arquivos do mundo em geral, não apenas os documentos ocidentais. Na verdade, os arquivos ocidentais não nos ajudam a desenvolver a ideia de um mundo sem fronteiras. O arquivo ocidental está baseado na cristalização da ideia de fronteira.

Nessa configuração, riqueza e poder, ou a riqueza nas pessoas, digamos assim, sempre superou a riqueza nas coisas. Há duas formas de riqueza. Você pode ser rico de acordo com a sua capacidade de aglutinar em torno de si clientes, familiares etc. Ou você pode ser rico simplesmente por ter acumulado uma quantidade imensa de coisas. Eis aqui uma dialética de quantidades e qualidades. E múltiplas formas de associação sempre estiveram disponíveis. Como alguém se tornava parte de algo? Através de qual janela se pode entrar na casa? Havia muitas formas de associação, não classificações rígidas de que se é ou um cidadão ou um forasteiro. Entre um e outro havia todo um repertório de formas alternativas de associação – construir alianças por meio de negócios, casamento ou religião, incorporar aos regimes existentes novas relações comerciais e pessoas refugiadas ou em busca de asilo – essa era a regra. A dominação se dava por meio da integração dos forasteiros. Todo tipo de forasteiros. E a noção de povo – não a de nação – incluía não apenas os vivos, mas também os mortos, os não nascidos, os humanos e os não humanos. A comunidade era impensável sem algum tipo de dívida fundadora, com duas formas principais de endividamento. Existe a dívida expropriatória, como alguns de nós estamos devendo para bancos. Mas, nessas constelações, há um tipo diferente de dívida que constitui a própria base da relação. É o tipo de dívida que abrange não só os vivos, o presente, mas também aqueles que vieram antes e os que virão depois de nós e com quem também temos obrigações – a corrente de seres que inclui, mais uma vez, não apenas humanos, mas também animais e o que chamamos de natureza. 


O DIREITO À MORADIA

Gostaria de concluir apresentando uma ideia que retirei da constituição de Gana. Ela desenvolveu um conceito que não encontrei em nenhum outro lugar. É um novo direito fundamental que eles chamam de “direito à moradia” e que querem incluir na lista dos direitos humanos tradicionais. A ideia desse direito à moradia me parece a pedra fundamental para qualquer tentativa de reimaginar a África como um espaço sem fronteiras. Em um nível histórico profundo, os africanos e as lutas diaspóricas pela liberdade e pela autodeterminação sempre estiveram entrelaçados à aspiração de se mover sem amarras. Seja em condições de escravidão ou sob domínio colonial, a perda de nossa soberania resultou automaticamente na perda de nosso direito à livre circulação. Essa é a razão pela qual o sonho redentor de uma nação africana livre e poderosa tem sido ligado de modo inextrincável à recuperação do direito de ir e vir sem obstáculos ao longo de nosso continente colossal. De fato, nossa história na modernidade tem sido, em grande medida, de constante deslocamento e confinamento, migrações coagidas e trabalhos forçados. Pense no sistema de plantation nas Américas e no Caribe. Pense nos Black Codes e Pig Laws,3 ou no status de vagabundagem depois do fracasso da reconstrução dos Estados Unidos em 1887. Pense nas chain gangs,4 trabalhando em empreitadas como construção de estradas, escavação de valas, demolição e desmatamento. Pense no Code de l’indigénat,5 pense nos Bantustões,6 nas reservas de trabalho no sul da África e na indústria de complexos carcerários hoje nos Estados Unidos. Em cada exemplo, ser africano e ser negro significa ser relegado a um entre os muitos espaços de confinamento que a modernidade inventou.

A corrida para a África no século 19 e a demarcação de suas fronteiras de acordo com as linhas coloniais transformaram o continente em um enorme espaço carcerário e fizeram de cada um de nós um imigrante ilegal em potencial, impedido de circular salvo sob condições cada vez mais punitivas. Na realidade, o aprisionamento se tornou a precondição para a exploração do nosso trabalho, e por isso as lutas pela emancipação racial e por melhorias das condições de vida dos negros são tão entrelaçadas às lutas pelo direito de circular livremente. Se quisermos concluir o trabalho de descolonização, precisamos derrubar as fronteiras coloniais em nosso continente e transformar a África num vasto espaço de circulação para os africanos, para seus descendentes e para todos aqueles que quiserem ligar seus destinos ao nosso continente.

Tratado que criou uma zona de livre circulação de cidadãos entre países europeus, na qual os controles de fronteira foram abolidos, salvo em casos excepcionais. Começou com cinco países, em 1985, e hoje reúne 26 Estados. [N. da T.]
O autor se refere a três dos principais autores da literatura nigeriana do século 20: Wole Soyinka (1934), premiado com o Nobel de Literatura em 1986; Chinua Achebe (1930­2013); e Amos Tutuola (1920­1997). [N. da T.]
Black Codes eram leis discriminatórias promulgadas após o fim da guerra civil nos EUA, que permitiam a pessoas negras o direito à propriedade privada, mas as proibiam de votar, testemunhar contra brancos ou servirem como jurados. As leis que criminalizavam o desemprego como vagabundagem e puniam pessoas negras por roubo de comida ficaram conhecidas como Pig Laws. [N. da T.]
Com o fim da Guerra Civil e da escravidão nos EUA, os estados do Sul passaram a usar o trabalho forçado de prisioneiros, na maioria negros, em obras de infraestrutura. Os grupos eram conhecidos como chain gangs por serem acorrentados pelos pés para evitar fugas. [N. da T.]
Leis coloniais francesas que restringiam os direitos da população muçulmana da Argélia em 1881, extintas apenas depois da guerra de independência argelina, em 1962. [N. da T.]
Territórios onde os povos bosquímanos foram segregados pelo apartheid em territórios supostamente autônomos dentro da África do Sul. [N. da T.]

Tradução de Stephanie Borges



O camaronês Achille Mbembe (1957) é professor de história e ciência política da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e na Duke University, nos EUA. É um dos mais originais pensadores contemporâneos nas questões relacionadas à descolonização, à escravidão e ao racismo. É autor de Crítica da razão negra e Necropolítica, ambos publicados no Brasil pela n-­1. Este ensaio foi apresentado em março de 2018 como parte da tradicional série Tanner Lectures on Human Values, na Universidade Yale.


Fonte : site da revista Serrote, publicação do Instituto Moreira Salles

Racismo e fascismo



Por TONI MORRISON

Neste ensaio, publicado na serrote 32, a americana Toni Morrison (1931-2019) faz um alerta sobre o avanço do ódio e do autoritarismo na vida de uma nação. “A genialidade do fascismo está no fato de que qualquer estrutura política pode hospedar o vírus, e praticamente qualquer país desenvolvido oferece um caldo de cultura adequado”, ela disse quando apresentou o texto, em 1995, a uma plateia de estudantes e professores na Howard University, universidade historicamente negra situada em Washington.

Ganhadora do Nobel de Literatura em 1993, Morrison é autora de clássicos contemporâneos como os romances Amada e Jazz. Este ensaio faz parte da antologia The Source of Self-Regard, Selected Essays, Speeches and Meditations, lançada em 2019 nos EUA e inédita no Brasil.

  

Não nos esqueçamos de que, antes de haver uma solução final, deve haver uma primeira solução, uma segunda, até mesmo uma terceira. O movimento rumo à solução final não é um salto. Exige um passo inicial, seguido de outro, e outro mais. Talvez algo assim:

1. Construa um inimigo interno, para servir tanto como foco quanto como algo que desvie a atenção daquilo que se deseja ocultar.

2. Isole e demonize esse inimigo, desencadeando e protegendo a prática de ofensas verbais e insultos ostensivos ou indiretos. Use ataques de caráter pessoal como acusações legítimas contra o inimigo.

3. Recrute e crie fontes de informação e divulgadores dispostos a reforçar o processo de demonização porque ele é lucrativo, porque oferece poder ou simplesmente porque funciona.

4. Segregue todas as formas de arte; monitore, desacredite ou expulse quem desafiar ou desestabilizar os processos de demonização e deificação.

5. Sabote e calunie todos os representantes e simpatizantes do inimigo assim construído.

6. Procure, entre os inimigos, aliados que concordem com o processo de expropriação e possam contribuir para “limpá-lo”.

7. Use publicações acadêmicas e meios de comunicação de massa para caracterizar o inimigo como uma patologia; por exemplo, recicle o racismo científico e os mitos de superioridade racial para relacionar a patologia a determinados segmentos da população.

8. Transforme os inimigos em criminosos. Então, proporcionando os recursos orçamentários cabíveis e explicando sua necessidade, prepare as instalações onde o inimigo ficará confinado, em especial os homens e sem dúvida seus filhos.

9. Premie a indiferença e a apatia com diversões monumentais e pequenos prazeres e seduções: alguns minutos num programa de televisão, umas poucas linhas num artigo de jornal; migalhas de sucesso aparente; a ilusão de poder e influência; algum divertimento, doses moderadas de estilo e importância.

10. A qualquer custo, mantenha-se em silêncio.

*

Em 1995, o racismo vestiu roupa nova e comprou um novo par de botas, mas nem ele nem o fascismo, súcubo que é seu irmão gêmeo, são novos ou podem fazer algo de novo. Juntos, eles só são capazes de reproduzir o ambiente que sustenta sua própria saúde: medo, negação e uma atmosfera em que as vítimas perderam a vontade de lutar.

As forças interessadas em soluções fascistas para os problemas nacionais não estão neste ou naquele partido político, numa ou noutra ala de determinado partido. Os democratas não têm condições de apresentar uma história imaculada de igualitarismo. Nem estão os liberais isentos de projetos de dominação. Os republicanos abrigaram em seu seio abolicionistas e supremacistas brancos. Conservadores, moderados, liberais; direita, esquerda, extrema esquerda, direita radical; religiosos, laicos, socialistas – não devemos nos deixar cegar por esses rótulos de Pepsi e Coca-Cola, pois a genialidade do fascismo está no fato de que qualquer estrutura política pode hospedar o vírus, e praticamente qualquer país desenvolvido oferece um caldo de cultura adequado. O fascismo usa a retórica da ideologia, mas constitui de fato um fenômeno de marketing, a propaganda do poder.

Ele é reconhecível pela necessidade de expurgar, pelas estratégias que emprega para expurgar, e por seu pavor de projetos verdadeiramente democráticos. É reconhecível por sua determinação em converter todos os serviços públicos em empresas privadas, todas as organizações sem fins de lucro em empreitadas lucrativas – de modo que desapareça o abismo estreito, mas protetor, entre o governo e os negócios particulares. Transforma os cidadãos em pagadores de impostos – de modo que os indivíduos se enfureçam até mesmo com a noção do bem público. Transforma vizinhos em consumidores – de modo que nosso valor como seres humanos não seja medido pela benevolência, pela compaixão ou pela generosidade, e sim por nossas posses. Faz com que a criação dos filhos vire uma fonte constante de pânico – de modo que votemos contra os interesses de nossos próprios filhos, contra a saúde deles, a educação deles, a segurança deles contra o uso de armas. E, ao provocar todas essas mudanças, o fascismo produz o capitalista perfeito, aquele que está disposto a matar um ser humano em troca de alguma mercadoria (um par de tênis, um blusão, um carro) ou a matar gerações para obter o controle de muitas mercadorias (petróleo, drogas, frutas, ouro).

Quando nossos medos forem todos transformados em episódios de uma série, nossa criatividade censurada, nossas ideias levadas ao mercado, nossos direitos vendidos, nossa inteligência reduzida a palavras de ordem, nossa força exaurida, nossa privacidade leiloada; quando a vida estiver completamente transformada em encenação, em entretenimento, em comércio, então vamos nos encontrar vivendo não numa nação, mas num consórcio de indústrias em que seremos totalmente ininteligíveis uns para os outros, exceto pelo que conseguirmos ver através de uma tela escura.

Tradução de Jorio Dauster

Fonte : site da revista Serrote, publicação do Instituto Moreira Salles,
"Nós advertimos os governos e as classes dirigentes de todos os países em guerra contra o prosseguimento desta carnificina e apelamos às massas trabalhadoras desses países para impor seu final. Só uma paz nascida sobre o terreno da solidariedade internacional pode ser uma paz segura. Proletários de todos os países, uni-vos de novo apesar de tudo !
Levantando um protesto contra a guerra , seus responsáveis e aqueles que a conduzem, contra a politica geral que os provocou (...) , nós recusamos os créditos pedidos."



(final da declaração feita por Karl Liebknecht à bancada social-democrata para ser lida na sessão do Parlamento em 2 de dezembro de 1914, esta declaração foi recusada pela bancada e sua inscrição na ata dos debates foi rejeitada )

RAP da Felicidade

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci,é
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar (...)
Pois moro numa favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado.
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido a tiros de metralhadora(...)
Pessoas inocentes que não têm nada a ver
Estão perdendo hoje o seu direito de viver.

Julinho Rasta e Katia. 1994




Mares e éticas



Jorge Coli. Caderno Mais ! Folha de São Paulo

Malandrês dos anos 50


Ein Kleines Ja und ein Grosses Nein

Um pequeno sim e um grande não

Freud buscou construir uma ciência que trata fundamentalmente daquilo que é da ordem do particular, do singular e da interpretação, como um método criado a partir da experiência dele como alguém disposto a escutar . (...)o sonho é a pérola do inconsciente, é o que pode nos conduzir a uma proximidade de auto –conhecimento e do desejo, o que foi a grande contribuição de Freud.

Fani Hisgail,psicanalista e coordenadora do Centro de Estudos em Semiótica e Psicanálise do PPG em semiótica da Puc – SP.

FSP 28 de Novembro de 2000


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A BALADA DO PORTEIRO



via Marcia Denser

A BALADA DO PORTEIRO

Então, foi assim.

Em 14 de março de 2018, o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, simplesmente, enlouqueceu. Decidiu, do nada, fazer anotações aleatórias num livro de registro da portaria para, pela ordem:

1) Inventar que um miliciano, Élcio Queiroz, prestes a assassinar Marielle Franco e Anderson Gomes, teria pedido para ir à casa 58;
2) Inventar que o dono da casa 58, Jair Bolsonaro, teria autorizado a entrada do miliciano;
3) Inventar que reparou, pelas câmeras de segurança, que o miliciano estava indo para a casa de outro miliciano;
4) Inventar que o dono da casa 58, avisado do desvio, teria dito que tudo bem, sabia para onde o carro estava indo: a casa 65, do sargento de milícias Ronnie Lessa, o outro assassino.

Tudo isso em 14 de março, horas antes do duplo assassinato, meses antes de Bolsonaro ser eleito presidente da República. Louco, o porteiro previu que, fazendo essas anotações e, mais tarde, as confirmando em depoimento à Polícia Civil do Rio de Janeiro, seria inevitável a queda do presidente.

Estranhamente, depôs já sabendo que, ao narrar esta história, estava mexendo com milicianos assassinos e com uma família intrinsicamente ligada às milícias, a partir do gabinete de Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio, quando deputado estadual.

Bolsonaro sabia, desde 9 de outubro, por uma inconfidência – criminosa, diga-se de passagem – do governador Wilson Witzel, do depoimento do porteiro e do encaminhamento ao Supremo Tribunal Federal.

Portanto, aquele teatro na madrugada saudita, aquela indignação apoplética, foi encenação pura. Uma cena pateticamente programada.

Além disso, ele, os filhos e a turma de milicianos ligada à família tiveram quase 20 dias para fazer e acontecer com os registros do condomínio e conseguir, da forma vergonhosa que conseguiram, que o Ministério Público decidisse, sem perícia e sem decência, que o porteiro estava mentindo.

Desculpem, só sendo idiota ou muito ingênuo para achar que um porteiro, em 14 de março do ano passado, iria anotar com precisão as placas de carro de um miliciano e, mais tarde, iria denunciá-lo à polícia para caluniar um presidente que ele nem sabia que seria candidato.

BILHETE A BAUDELAIRE


Segue um poema de Vinicius de Moraes ao poeta francês:


Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!


ERA TUDO INVENÇÃO DO LULA...



Por Diogo Costa

Em 2007 Lula e a Petrobras anunciaram a descoberta do pré-sal.

Em 2008 a Petrobras começou a extrair petróleo do pré-sal e o percentual de participação do petróleo do pré-sal, em relação ao total produzido pela empresa, fechou em 0,4% do total.

Em 2010, no final do governo Lula, a participação do petróleo do pré-sal era de 2% em relação ao total produzido pela Petrobras.

Em 2013, ano da licitação do mega Campo de Libra, o pré-sal já respondia por 14% do total produzido em Pindorama.

Em 2016 - ano do golpe - o pré-sal já respondia por 38% do total; neste ano de 2019 já representa 60% do total e em 2022 deve chegar a 70% do total produzido em todo o território nacional.

Ou seja, saímos do 0% para uma participação de 60% do petróleo do pré-sal em relação ao total produzido no Brasil; isso em apenas 11 anos!

Mas era tudo invenção do Lula, não é mesmo?

Quantas e quantas vezes não ouvimos e lemos que o pré-sal não era viável e que não passava de uma bravata do Lula?

Pois aí está o pré-sal, bombando cada vez mais e por isso mesmo sendo motivo de grande cobiça internacional.

Houve várias motivações para o golpe de 2016 e a subsequente interdição de Lula - o sucesso do pré-sal certamente foi um destes motivos.

A mudança - de regime de concessão para regime de partilha - na exploração do pré-sal, feita em 2010, também.


VISITA




Ferreira Gullar

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando


Monte Castelo




Ainda que eu falasse a língua dos homens
Que falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O Amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
Que falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria.

(Renato Russo)

A una calavera de mujer




Esta cabeza, cuando viva, tuvo
sobre la arquitectura de estos huesos
carne y cabellos, por quien fueron presos
los ojos que mirándola detuvo.

Aquí la rosa de la boca estuvo,
marchita ya con tan helados besos;
aquí los ojos, de esmeralda impresos,
color que tantas almas entretuvo;

aquí la estimativa, en quien tenía
el principio de todo movimiento;
aquí de las potencias la armonía.

¡Oh hermosura mortal, cometa al viento!
¿En donde tanta presunción vivía
desprecian los gusanos aposento?

Lope de Vega

Biblioteca Digital Ciudad Seva

La situación económica en Rusia es establemente mala



Entrevistado :Vasili Koltashov 

El economista Vasili Koltashov (Novosibirsk, 1979) conoce de primera mano cómo es la situación real de la economía en Rusia. Koltashov es el director del Centro de Investigación Económica del Instituto de la Globalización y los Movimientos Sociales (IGSO) de Moscú y también forma parte del Laboratorio de Política Económica Internacional de la Universidad Plejánov de Economía. “La calidad de vida ha empeorado de manera sensible en Rusia”, advierte. Le entrevistó para la revista La Marea Àngel Ferrero, en Moscú.

En los medios occidentales leemos con frecuencia artículos que hablan de una crisis económica inminente en Rusia, pero ésta parece no llegar. El gobierno ruso, por su parte, tiende a destacar los aspectos positivos. ¿Cuál es el estado actual real de la economía rusa?

La situación es establemente mala. El año 2016 fue relativamente estable: los salarios no cayeron, pero tampoco subieron y, para la gente que buscaba trabajo, fue difícil encontrar uno. En 2015 el salario medio en rublos se redujo de manera considerable: en algunas regiones hemos visto una caída hasta los 27.000 y 20.000 rublos al mes (415-300 euros), en otras hasta los 25.000 (384 euros), 15.000 (230 euros) e incluso los 13.000 rublos  (200 euros) al mes. La calidad de vida ha empeorado de manera sensible. En 2014 y 2015, es decir, en dos años consecutivos, el rublo se ha depreciado.

¿Qué impacto han tenido las sanciones económicas de la Unión Europea y EEUU?

Prácticamente ninguna, en mi opinión. Llueve sobre mojado. Es la segunda onda de la crisis lo que realmente afecta a la economía rusa. No hay sanciones contra Brasil, por ejemplo, y sin embargo su situación es similar a la de Rusia.

¿Está funcionando el programa de sustitución de importaciones del gobierno ruso? 

Muy poco. Incluso en la agricultura, donde hay muchas posibilidades de éxito, sus resultados distan de ser positivos. Se dice que ha aumentado la cosecha de trigo y verduras, pero nadie sabe dónde están porque no hay almacenes adecuados para almacenar la cantidad de alimentos que se declara haber producido. En agricultura se han registrado algunos éxitos en el programa de sustitución de alimentos. En el sector industrial encontramos algunos ejemplos de sustitución de bienes de consumo, pero es un efecto que sólo se debe a la depreciación del rublo. La economía rusa sigue siendo débil como para sustituir todos los bienes que importa.

Otro de los lugares comunes sobre la economía de Rusia es su dependencia de los hidrocarburos. ¿Hasta qué punto es cierto?

La dependencia es enorme. No sólo del petróleo y el gas, sino de la exportación de metales, fertilizantes químicos y otras materias primas. La dependencia sería menor si el mercado interno estuviese más desarrollado, pero la política anticrisis consiste en reducir el poder adquisitivo de los consumidores y recortar los programas sociales. Es una copia de las medidas económicas de la Unión Europea.

Pero en la Unión Europea estas medidas de austeridad no están funcionando…

¿Cómo que no funcionan? Claro que funcionan: son muy efectivas a la hora de llevar a la bancarrota  a la gente [ríe]. El rublo ha sufrido como consecuencia de esta dependencia del precio del petróleo, se ha debilitado directamente tras la caída de los precios de la energía y hay un temor crónico a que una crisis del petróleo arrastre su valor con ella. La elite tiene la ilusión mística de que si los precios del petróleo aumentan de nuevo todos los problemas se resolverán automáticamente. Pero eso, por supuesto, no es así. La crisis económica en Rusia tiene causas tanto internas como externas. Las causas externas son los cambios en los precios de las materias primas y en la demanda. En la economía doméstica es, sobre todo, el sobreendeudamiento de la población por las hipotecas y préstamos para el consumo. Estos créditos sirven para enmascarar los bajos salarios de la población, que han sido reducidos por las empresas. El gobierno y las empresas se han adaptado a las condiciones de crisis a través de la reduccción de los salarios. También los de los funcionarios: por ejemplo, los salarios de oficiales en las regiones eran de 35-40.000 rublos (615 euros aprox.) y ahora pueden llegar a cobrar 15.000 (230 euros). Esto crea una fuerte base para la crisis interna, ya que no hay programas para crear puestos de trabajo de calidad ni estimular los salarios.

En su último discurso a la nación, el presidente Putin pidió un presupuesto más estable y una economía cada vez más autónoma de la exportación de petróleo y gas. ¿Es posible a corto y medio plazo?

Es posible, pero no está ocurriendo. Si persisten en su política neoliberal, no será posible. El presidente no ha hablado de crear un complejo industrial como el que existía durante la Unión Soviética, ha hablado del procesamiento de las materias primas. No se tratará de vender las materias primas, sino de procesarlas primero en Rusia y ya se están construyendo factorías con ese propósito. Esto tiene que ver con el gas, el petróleo y los minerales. Hay grandes planes para construir estas factorías en Siberia. Pero esto no cambia en principio el motor de la economía, por lo que es insuficiente.

El complejo militar-industrial es conocido por ser otro de los pilares del país. ¿Cuál es el estado de este sector?

Su importancia es enorme. Su capacidad de exportación ha crecido considerablemente. Rusia ha conseguido adquirir la reputación de ser un país proveedor que no te invadirá si le compras y que te ofrecerá apoyo diplomático cuando sea necesario. Quienes compraron armas a EEUU, por ejemplo, no recibieron garantías de que algún día podrían ser invadidos. Sucedió, por ejemplo, en Libia: este país importó armas de Reino Unido. Una vez cumplieron con el último contrato, fueron invadidos. En cualquier caso, este sector necesita de un mayor orden: hay demasiada burocracia, una modernización limitada. El dinero del presupuesto para Defensa no sólo se destina de manera ineficiente, sino que también es robado.

China es uno de los países con los que Rusia mantiene una relación económica preferente. ¿Cómo cree que podría evolucionar esta relación?

Rusia se está convirtiendo en un proveedor de materias primas para China, y esta exportación se incrementará. La compleja situación económica en China no está siendo considerada en serio y creen que el crecimiento de la economía china permitirá mantener el ritmo de las exportaciones rusas.

Tanto en China como en Rusia hay mucha especulación con la posibilidad de desacoplarse del sistema dólar.

Pienso que la cuestión es más complicada que eso. El euro se ha depreciado en los últimos años, la libra esterlina también, ahora la pregunta es ¿qué divisa se depreciará antes, el dólar o el yuan? Ésa es la verdadera pregunta. Los debates sobre alejarse del sistema dólar son, por ahora, mera especulación. China busca apoyar la estabilidad del yuan porque si su moneda cae, la crisis en China se manifestará de manera más clara y se extenderá a Rusia, golpeando a su economía. Pero si el dólar baja, el yuan caerá con él. Por ahora el dólar se mantiene, mientras el yuan se deprecia gradualmente. De momento no hay signos de un alejamiento del dólar. Los chinos, en cualquier caso, buscan convertir el yuan en un sistema análogo al dólar. Veamos si ello ocurre. Yo, personalmente, no lo creo.

¿Cómo valora la Unión Económica Eurosiática? 

Está testimoniando una crisis profunda. Como diría un médico: el paciente está más muerto que vivo. El motivo es que Rusia ingresó en la OMC sin crear un mercado protegido en Euroasia. Esto hizo que Ucrania se decantase hacia la Unión Europea y facilitó la victoria de las fuerzas de Maidán.

¿Cuál es la situación económica de Ucrania?

Se ha deteriorado de manera considerable. A nivel doméstico, sólo el sector agrícola es relativamente estable. Podemos hablar de un proceso de desurbanización, no hay suficiente mano de obra en las ciudades. La industria ucraniana es ineficiente, su maquinaria es anticuada y, de hecho, la industria se está muriendo. En algunas partes con lentitud, en otras más rápidamente. El Acuerdo de Asociación con la Unión Europea es una completa catástrofe. Con todo, la crisis habría afectado a Ucrania de cualquier modo.

¿Se busca convertir a Ucrania en un proveedor de materias primas para la Unión Europea?

Sí, eso es lo que ocurre en este momento. La mayoría de la mano de obra, en cualquier caso, trata de emigrar a Rusia. Europa les ha cerrado las puertas.

¿Pero no estarían las empresas europeas interesadas en la mano de obra cualificada ucraniana, como ocurrió antes con la integración de otros países de Europa oriental?

Ya no es así. Incluso si ése era el plan en 2014, en este momento no tienen puestos de trabajo para ofrecer. El objetivo es que las corporaciones europeas controlen las riquezas de Ucrania. Puesto que Rusia desea debatir y negociar la retirada de las sanciones, esto crea las condiciones ideales para que la Unión Europea haga rehén a Ucrania en cualquier negociación. El objetivo de la oligarquía ucraniana era el Acuerdo de Asociación con la UE y, después, acceder como miembro de pleno derecho sin ceder su poder. Ahora mismo no tienen muchas oportunidades.

¿Ve tendencias aislacionistas o proteccionistas a nivel global?

Es probable que veamos en los próximos años una mayor desintegración de los bloques económicos neoliberales y la creación de grandes mercados continentales. El llamado “nacionalismo económico” sólo puede realizarse en grandes naciones con grandes mercados. Los grandes mercados requieren normativas y aranceles, que funcionan como protección contra los competidores. También de una diferente estrategia interna, consistente en un incremento de la demanda interna. La victoria de Trump en EEUU demuestra que una política así sólo será posible si hay una dura lucha política interna.

También se habla de guerras comerciales, especulación de divisas e inclusos nuevas burbujas.

Hay una batalla en curso entre las bolsas china y estadounidense. En Europa hay una burbuja financiera. El crédito barato, como la tasa del 0% del BCE, infla estas burbujas. También hay una burbuja industrial en China, creada después de que el país atrajese al capital especulador internacional con la emisión de bonos. Rusia tiene un sistema parecido. La caída de mercados de materias primas es inminente, al igual que la depreciación del dinero, en particular del euro. El debate sobre una nueva política económica ganará actualidad. La victoria de Donald Trump demuestra que ese debate es posible. Todos los demás están buscando soluciones externas a sus problemas e ignoran sus cuestiones internas, las causas de la crisis. La política de la UE es una expansión de su capital hacia el Este; la política de Rusia es mantener altos los precios de las materias primas y un alto nivel de exportación de las mismas a China; la política de China es encontrar inversiones extranjeras para mantener su burbuja industrial. Estas estrategias no ofrecen ninguna salida a la crisis. Ignoran a los consumidores, a la gente. Lo único que ofrecen son nuevos créditos, y eso no es ninguna solución.

Vasili Koltashov  (Novosibirsk, 1979) es el director del Centro de Investigación Económica del Instituto de la Globalización y los Movimientos Sociales (IGSO) de Moscú y también forma parte del Laboratorio de Política Económica Internacional de la Universidad Plejánov de Economía.

Fuente:http://www.lamarea.com/2017/01/15/la-situacion-economica-en-rusia-es-establemente-mala/