''Não digo que eu fosse desprovido de amor-próprio,
mas jamais este sentimento me dominou; ao contrário, fui obrigado a lutar
contra mim mesmo e contra minha natureza toda vez que me preparava para falar
publicamente ou mesmo para escrever para o público. Eu não tinha também esses
vícios enormes, ao modo Danton ou Mirabeau, eu não conhecia essa depravação
ilimitada e insaciável que, para se satisfazer, está pronta a chocar o mundo
inteiro.
E se eu sofresse de egoísmo, este egoísmo seria unicamente necessidade de
movimento, necessidade de ação. Sempre houve em minha natureza um defeito
capital: o amor pelo fantástico, pelas aventuras extraordinárias e inauditas,
ações abrindo à visão de horizontes ilimitados e das quais ninguém pode prever
onde vai desembocar. Numa existência ordinária e calma eu sufocava, sentia-me
mal em minha pele. Os homens procuram ordinariamente a tranqüilidade e a
consideram como o bem supremo; no que me concerne, ela me mergulhava no
desespero; minha alma se encontrava em perpétua agitação, exigindo ação,
movimento e vida.
Eu deveria ter na nascido em algum lugar nas florestas americanas, entre os
colonos do Far West, lá onde a civilização está ainda em seu início e onde toda
existência nada mais é do que uma luta incessante contra homens selvagens e
contra a natureza virgem, e não numa sociedade burguesa organizada. E, também,
se desde minha juventude o destino tivesse querido fazer de mim um marinheiro,
eu seria ainda hoje, provavelmente, um bom homem, eu não teria pensado na política
e não teria procurado outras aventuras e tempestades a não ser as do mar. Mas o
destino decidiu de outra forma e minha necessidade de movimento e de ação
permaneceu insatisfeita. Esta necessidade , junta, em seguida, à exaltação
democrática, foi, por assim dizer, minha única motivação. No que concerne a
esta exaltação, ela pode ser definida em poucas palavras: o amor pela liberdade
e um ódio invencível por toda opressão, ódio ainda mais intenso quando esta
opressão dizia respeito a outra pessoa, e não a mim mesmo. Procurar minha
felicidade na felicidade do outro, minha dignidade pessoal na dignidade de
todos aqueles que me cercavam, ser livre na liberdade dos outros, eis todo meu
credo, a aspiração de toda minha vida. Eu considerava como o mais sagrado dos
deveres o de me revoltar contra toda opressão, fosse o autor ou a vitima.
Sempre houve em mim muito de Dom Quixote, não somente na política, mas também
em minha vida privada; eu não podia ver, com olhar indiferente, a mínima
injustiça, e, por uma razão ainda mais forte, uma gritante opressão; algumas
vezes, sem ter a competência nem o direito, eu me intrometi, de modo
irrefletido, nos problemas dos outros e cometi, também, durante uma existência
agitada, mas vazia e inútil, muitas besteiras, incorri em muitas contrariedades
e fiz inúmeros inimigos, sem odiar, por assim dizer, ninguém. Eis, Sire, a
verdadeira chave de todos meus atos insensatos, de meus pecados e de meus
crimes. Se falo disso com esta segurança e com esta clareza, é que eu tive,
durante estes dois últimos anos, bastante tempo para estudar a mim mesmo e para
refletir sobre meu passado; agora me vejo com indiferença, como se pode ver um
moribundo ou um morto.''
-Michail Bakunin
(carta ao czar Nikolai I)