sábado, 8 de dezembro de 2012

TENDA DOS MILAGRES



Rosa sempre chega assim, inesperada, vem de súbito.
Da mesma forma inconseqüente desaparece...
Fuxicos, arengas, xeretices, pois em verdade
Ninguém sabe nada de concreto sobre Rosa.
Rosa brincava com as algas, todos os ventos em seus cabelos.
Todos os ventos, do norte e sul, o vento terrível do noroeste.
Na canoa ancorada ela deitava, a cabeça de fora, o cabelo no mar.
Parecia cabeça sem corpo, saindo d´água, dava arrepio.
Rosa maluca, Rosa do cais, tanta vezes mentias!

Jorge Amado


Aquilo a que chamam amor é bem pequeno, bem restrito, e bem fraco, comparado à inefável orgia, à santa prostituição da alma que se dá toda inteira, em poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
É bom ensinar por vezes aos felizes deste mundo, nem que seja só para os humilhar um instante no seu estúpido orgulho, que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais delicadas. Os fundadores das colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida qualquer coisa destas misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu gênio constituiu, devem rir-se algumas vezes daqueles que os lamentam pela sina tão revolta e pela vida tão casta.

Charles Baudelaire


O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa.
 
 

O semblante do primeiro Satã era de um sexo ambíguo, e havia
nas linhas do seu corpo a molície dos antigos Bacos. Os belos
olhos lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, assemelhavam-se
a violetas carregadas, ainda, das pesadas lágrimas da
tempestade(…).
Fitou-me com os seus olhos inconsolavelmente aflitos (…) e
disse-me em voz cantante:
– Se quiseres, se quiseres, eu te farei o soberano das almas, e tu
serás o senhor da matéria viva, ainda mais do que o escultor o
pode ser da argila; e conhecerás o prazer, ininterruptamente
renovável, de sair de ti mesmo para te esqueceres em
outrem, e de atrair as outras almas até confundi-las com a
tua.
 
 
Charles Baudelaire. 
Pequenos Poemas em Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 59-60.

Tesitura




Ylia Kazama

1

Hoy tengo un deseo que me hace nueva…
Mi intención “hombre de agua” es:
obsesionarte con mi beso;
amarte con fascinación,
con adoración ferviente.
Haremos el amor… delicadamente.

2

Cuando tu boca apenas me roza
me convierte en una parcela llena de humedad.
Me seduces a la liviandad.

3

Mi liviandad tu la provocas, con tu mirada de beso
con tu beso de … quiero!.

4

Tu cuerpo cálido es una invitación abierta al amor.
No sólo a la demostración física…
Hablo del sentimiento vasto e infinito.
De la pasión que no decrece con la presencia,
de la que se intensifica con la ausencia.
Hablo de lo que me inspira
tu esencia y contexto.
Lleno de defectos, que bien claro miro
y no me asusta; que asumo como algo tuyo.
Hablo de algo muy sencillo:
del amor que por ti siento.

5

Me encanta como suenas,
tu sabor, olor
y textura.
Me fascina como piensas,
tu manera de mirar
y locura.

6

A qué sabrá tu boca en la mañana?
A membrillo?, a durazno?… a limón!.
Cómo se oirá tu corazón en la mañana?
Cómo un tambor?… cómo trombón?… cómo canción!.
Cómo despertaras después de “eso”, en la mañana?
Humanamente?… amantemente?… Amadamente!.

7

La noche es un milagro.
Transitar por ella me hace vasta.
La obscuridad es vulnerabilidad
en espacio impenetrable.
Vulnerabilidad es la obscuridad.
Vasta me hace transitar por ella.
Es un milagro la noche

8

Mientras despierta sueño,
que soy tu sueño.
Que sueñas
que te sueño
y así… no duermo.

9

Pienso que estoy en tu pensamiento
que piensas que te pienso
y así…. me duerme.

10

La noche ya llego… estoy dispuesta al amor.
Dispuesta a tu amor… amanezco.

11

Acontece que amanece cuando el amor llega.

12

Vengo a descubrir que la inspiración
algo te la da.
Sólo falta un beso… te besan y ya!.

13

No sé sí estoy inspirada o sólo enamorada.

14

Entre el amor, la noche, el sueño,
la realidad, el deseo;
la pasión y la ternura
está la tesitura.

A arte dos neurônios



Em 1906, Santiago Ramón y Cajal recebeu o prëmio Nobel de Medicina.
Ele quis ser pintos.
Seu pai não deixou, e ele não teve outro remédio a não ser se transformar no cientista espanhol mais importante de todos os tempos.
Se vingou desenhando o que descobria. Suas paisagens do cérebro competiam com MIró, com Klee:
- O jardim da neurologia oferece emoções artísticas incomparáveis - costumava dizer.
Ele desfrutava explorando os mistérios do sistema nervoso, e mais ainda desfrutava desenhando-os.
E mais ainda, inda ais, desfrutava dizendo a viva voz o que pensava, sabendo que isso lhe iria produzir mais inimigos que amigos.
Às vezes, perguntava, surpreso:
- Vocë não tem inimigos? Como não? Será porque vocë jamais disse a verdade e jamais amou a justiça?

 Galeano - 8 de dezembro