sexta-feira, 18 de abril de 2014
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (1927 - 2014)
"Nenhum dos grandes romances de García Márquez
representa a época em que ele próprio se tornou escritor. Macondo desaparece na
Grande Depressão. O patriarca pertence ao mundo rústico de Juan Vicente Gómez.
Os tempos do cólera são vitorianos. O general expira com o fim da Restauração.
A modernidade é alérgica à mágica. Os poderes de Márquez sempre necessitaram de
uma volta ao passado para serem exercidos com plena liberdade."
Perry Anderson, "Lembranças tropicais: Gabriel García
Márquez", no Blog da Boitempo: http://wp.me/pB9tZ-2ov
CANÇÃO NOTURNA DO ANDARILHO
Toldam-se as colinas
em paz,
nem se ouve ali nas
frondes mais
que um ar; detêm-
-se os pios na mata. Aguarda: em breve,
tua paz já deve
chegar
também.
WANDERERS
NACHTLIED
Über allen
Gipfeln
Ist Ruh,
In allen
Wipfeln
Spürest du
Kaum einen
Hauch;
Die
Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Ser é Escolher-se
Para a realidade humana,
ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa
receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma
espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo
pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu
nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é
inteiramente e sempre livre, ou não é.
Jean-Paul
Sartre, in 'O Ser e o Nada'
"Mi trabajo se desenvuelve según
el querer de Nietzsche, que no amaba al autor contraído a la producción
intencional, deliberada, de un libro, sino a aquél cuyos pensamientos formaban
un libro espontánea e inadvertidamente. Muchos proyectos de libro visitan mi
vigilia; pero sé por anticipado que sólo realizaré los que un imperioso mandato
vital me ordene. Mi pensamiento y mi vida constituyen una sola cosa, un único
proceso. Y si algún mérito espero y reclamo que me sea reconocido es el de
-también conforme un principio de Nietzsche- meter toda mi sangre en mis
ideas."
José
Carlos Mariátegui en "Siete ensayos de interpretación de la realidad
peruana"
terça-feira, 15 de abril de 2014
"É sempre difícil estabelecer estes limites entre
ficção e realidade ao escrever um romance. O historiador tem um código mais
rigoroso, uma relação mais respeitosa com a realidade histórica, enquanto o
romance é o reino da liberdade. Não obstante, sou muito cuidadoso com os fatos
históricos reais, não gosto de alterá-los, embora, em certas ocasiões, o
desenvolvimento dramático peça aos gritos alguma violação dos acontecimentos,
pois a realidade, como sabemos, é dramática à sua maneira, mas não à maneira do
romance. O que costumo fazer é empreender a investigação mais aprofundada
possível; procuro conhecer os personagens e seus contextos com muitos detalhes,
e enxergá-los por dentro, não para analisá-los, mas para dar-lhes vida. Às
vezes, um simples detalhe – o amor pelos cães, por exemplo – é mais revelador a
respeito de um personagem do que toda a sua atuação histórica, e é aí que o
romancista deve fazer suas escolhas, e pôr em linguagem estética, em função
dramática, fatos que ocorreram na realidade, que ele pensa que devem ter
ocorrido de determinada maneira a partir deste conhecimento adquirido."
Leonardo Padura discute "O homem que amava os
cachorros" em entrevista publicada no Estadão.
Estamos entrando na semana santa católica e vale lembrar,
para cristãos e não-cristãos, um ensinamento de Jesus aos seus discípulos:
"onde está o teu tesouro, lá também está teu coração".
Jesus era um cabra porreta e atual em muitas de suas
reflexões. De fato, há que escolher, como tesouro, a solidariedade ou o culto
ao dinheiro, pois a acumulação desmedida deste, como vemos em nossa sociedade
capitalista, com uma extrema minoria de bilionários e uma extrema maioria de
miseráveis, depende da cisão de todos os laços de humanidade.
Estética da Desaparição
de Paul Virilio:
“'Quando funciona, está obsoleto!' É esse o paradoxo do
Ocidente, insuficientemente questionado e convertido no lema de Lorde
Mountbatten durante a última guerra, quando ele dirigia a pesquisa britânica em
matéria de armamentos. Trata-se aqui da concorrência, da competição entre as
diversas máquinas de guerra fabricadas por nações inimigas. Quando uma máquina
funciona, logo deixa de ser uma 'surpresa' para o adversário e, com isso, perde
sua eficácia, isto é, sua qualidade dominante de acidente. Mas, como sempre, no
domínio técnico, a guerra é o melhor modelo. A máquina, por ter sido trazida ao
mundo, já não faz parte da ausência; funciona e, no instante em que funciona,
deixa de fazer parte daquilo que virá. Fica ultrapassada. Daí a necessidade do
recorde de velocidade; esse recorde aproximará a máquina técnica de um sem-fim
imaginário, visto que ninguém conhece os limites das altas velocidades."
Via-Láctea - XIII
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
- in 'Via-Láctea - XIII’, 1888. Olavo Bilac. Antologia:
Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 37-55: Via-Láctea. (Coleção a
obra-prima de cada autor).
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
- Torquato Neto, em "Os cem melhores poemas brasileiros
do século", [seleção e organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2001, p. 269.
Se você abrir teu casaco,
Terei que dar o dobro de amor.
Se você vestir o chapéu redondo e branco,
Terei que exagerar meu sangue.
Da sala onde você faz amor,
terão que tirar todos os móveis
todas as árvores, todas as montanhas, todos os oceanos.
O mundo é estreito demais.
*Yehuda Amichai (1924-2000). Versões elaboradas em cima das
traduzidas do hebraico ao inglês por Chana Bloch e Stephen Mitchell (Selected
Poetry of Yehuda Amichai, New York, Harper & Row). fonte: blog Sibila
domingo, 13 de abril de 2014
PAIXÃO
um sol cego na sombra
miragem da imagem
areia
ar
crer por crer
viver de morrer
quem alcança esse fim?
Incompreensível para as massas
Entre escritor
e leitor
posta-se o intermediário,
e o gosto
do intermediário
é bastante intermédio.
Medíocre
mesnada
de medianeiros médios
pulula
na crítica
e nos hebdomadários.
Aonde
galopando
chega teu pensamento,
um deles
considera tudo
sonolento:
– Sou homem
de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora
um verso
de Nadson…
O operário
Não tolera
linhas breves.
E com tal
mediador
ainda se entende Assiéiev
Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
O senhor
corta os versos
toma muitas licenças.
Továrich Maiacóvski,
porque não escreve iambos?
Vinte copeques
por linha
eu lhe garanto, a mais.
E narra
não sei quantas
lendas medievais,
e fala quatro horas
longas como anos.
O mestre lamentável
repete
um só refrão:
– Camponês
e operário
não vos compreenderão.
O peso da consciência
pulveriza
o autor.
Mas voltemos agora
ao conspícuo censor:
Campones só viu
há tempo
antes da guerra,
na datcha,
ao comprar
mocotós de vitela.
Operários?
Viu menos.
Deu com dois
uma vez
por ocasião da cheia,
dois pontos
numa ponte
contemplando o terreno,
vendo a água subir
e a fusão das geleiras.
Em muitos milhões
para servir de lastro
colheu dois exemplares
o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa -
é tudo a mesma massa…
Gente – de carne e osso!!
E à hora do chá
expende
sua sentença:
– A classe
operária?
Conheço-a como a palma!
Por trás
do seu silêncio,
posso ler-lhe na alma -
Nem dor
nem decadência.
Que autores
então
há de ler essa classe?
Só Gógol,
só os clássicos.
Camponeses?
Também.
O quadro não se altera.
Lembra-me e agora -
a datcha, a primavera…
Este palrar
de literatos
muitas vezes passa
entre nós
por convívio com a massa.
E impige
modelos
pré-revolucionários
da arte do pincel,
do cinzel,
do vocábulo.
E para a massa
flutuam
dádivas de letrados -
lírios,
delírios,
trinos dulcificados.
Aos pávidos
poetas
aqui vai meu aparte:
Chega
de chuchotar
versos para os pobres.
A classe condutora,
também ela pode
compreender a arte.
Logo:
que se eleve
a cultura do povo!
Uma só,
para todos.
O livro bom
é claro
e necessário
a vós,
a mim,
ao camponês
e ao operário.
Vladimir Maiakóvski
Tradução: Augusto e Haroldo de Campos
COLETA DE DADOS
(alguns momentos antes)
toda semente hesita
por duas vidas
ponteiros giram
porque não há retorno
entre arco e alvo
uma flecha de deslize
uma pálpebra uma nuvem
um oriente um atol
cada palavra sem papel
viver seria um jeito de desistir
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