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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O fascismo


“O fascismo não é provocado por uma psicose ou ‘histeria’, mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade”. Pronunciadas em 1933, as palavras de Leon Trótski (1879-1940) soam mais atuais do que nunca diante do recrudescimento dos partidos neonazistas na Europa novamente em crise. O revolucionário russo estava em seu desterro de quatro anos na Turquia quando foi entrevistado pelo então jovem escritor belga Georges Simenon (1903-1989).
Simenon tinha acabado de criar seu mais célebre personagem, o inspetor Maigret, que marcaria presença em mais de 70 romances e 30 contos do escritor. Atuava como correspondente para o jornal Paris-Soir e corria o mundo escrevendo reportagens, uma hora na África, outra na União Soviética, ou nas ilhas Príncipe (Prinkipo), onde vai encontrar Trótski vivendo uma tranquila vida de aposentado que não duraria muito: em seguida partiria para a França e de lá para a Noruega, de onde seguiria para o México encontrar a morte, encomendada pelo rival Stalin.
As análises de Trótski, judeu, sobre raça, e a previsão, seis anos antes, de que a Alemanha de Hitler iria levar a Europa à guerra demonstram sua profunda visão estratégica e o desprezo dos comunistas pelos conceitos e “ideias” nazistas. O texto de Simenon, é claro, flui deliciosamente, como as águas azuis e tranquilas que cercam a ilha e que ele, amante do mar, faz questão de destacar. Quanto o jornalismo de hoje tem a aprender com o passado… 

Leonardo Padura

Tradução : socialista morena 
http://socialistamorena.cartacapital.com.br/leonardo-padur…/

terça-feira, 15 de abril de 2014

"É sempre difícil estabelecer estes limites entre ficção e realidade ao escrever um romance. O historiador tem um código mais rigoroso, uma relação mais respeitosa com a realidade histórica, enquanto o romance é o reino da liberdade. Não obstante, sou muito cuidadoso com os fatos históricos reais, não gosto de alterá-los, embora, em certas ocasiões, o desenvolvimento dramático peça aos gritos alguma violação dos acontecimentos, pois a realidade, como sabemos, é dramática à sua maneira, mas não à maneira do romance. O que costumo fazer é empreender a investigação mais aprofundada possível; procuro conhecer os personagens e seus contextos com muitos detalhes, e enxergá-los por dentro, não para analisá-los, mas para dar-lhes vida. Às vezes, um simples detalhe – o amor pelos cães, por exemplo – é mais revelador a respeito de um personagem do que toda a sua atuação histórica, e é aí que o romancista deve fazer suas escolhas, e pôr em linguagem estética, em função dramática, fatos que ocorreram na realidade, que ele pensa que devem ter ocorrido de determinada maneira a partir deste conhecimento adquirido."


Leonardo Padura discute "O homem que amava os cachorros" em entrevista publicada no Estadão.