Não, hoje não saio
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu
Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu
Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu…
Maria Teresa M Carrilho
O Esplendor das Madrugadas, 1998 – Lisboa, Portugal
terça-feira, 20 de março de 2012
O marxismo é a chave para o entendimento e eventual superação do capitalismo, avalia historiador
Não há nenhum deus além de Karl Marx, e Eric Hobsbawm é seu profeta. Maior historiador marxista ainda em atividade, aos 94 anos, o inglês Hobsbawm dedica sua última obra – Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo – a mostrar que o filósofo alemão, tido como soterrado pelos escombros do Muro de Berlim, continua a ser a chave para o entendimento do capitalismo e para sua superação, agora em tempos de aquecimento global.
Já em seu livro A Era dos Extremos, Hobsbawm colocou a Revolução Bolchevique como o principal evento do “breve século 20″ – que em sua visão acaba, justamente, na implosão da URSS. “O mundo que se esfacelou no fim da década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917″, escreveu ele, para elaborar a teoria segundo a qual todos os processos históricos do período – das alianças diplomáticas aos desdobramentos econômicos globais – tiveram como eixo a instalação do comunismo na Rússia. Trata-se, obviamente, de um exagero. Mas o Marx que Hobsbawm tenta resgatar em seu novo livro não é o de Lenin e de Stalin, nem o dos marxistas contemporâneos, e sim a essência de seu pensamento.
Em Como Mudar o Mundo, reedição de textos escritos entre 1956 e 2009, Hobsbawm trata de diferenciar Marx do marxismo e de sua aplicação extrema, o comunismo – o que é conveniente, ao se observar as atrocidades cometidas em nome da igualdade. Para ele, dizer que o marxismo é responsável por essas tragédias “é o mesmo que afirmar que o cristianismo levou ao absolutismo papal”.
Hobsbawm se localiza entre aqueles que veem Marx como um mapa do caminho para a revolução e os que o encaram simplesmente como teoria. Mostra a ruptura dele com os socialistas utópicos, mas deixa claro o tributo que Marx lhes paga na forma da ideia de que é “inevitável” mudança não apenas de regime de governo, mas de todo o modo de vida sobre a Terra. Nos últimos 130 anos, diz o historiador, Marx foi o tema central da paisagem intelectual e, graças à sua capacidade de mobilizar forças sociais, foi uma presença crucial na história. No entanto, o desgaste provocado pelo colapso da URSS expôs, nas palavras de Hobsbawm, o “fracasso das predições” das teorias marxistas.
De tempos em tempos, anuncia-se que o capitalismo está no fim. Como a história mostra, porém, o moribundo arruma um jeito de se recuperar, entre outras razões porque a classe trabalhadora, que seria o esteio da revolução, sofreu mudanças dramáticas no último meio século, ao ponto de se tornar irreconhecível como “proletariado”. Mas Hobsbawm, em meio à crise global deflagrada em 2008, não resistiu à tentação e escreveu que, desta vez, vai: “Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século 21, mas quem quiser solucioná-los deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”. Para ele, o futuro do marxismo e da humanidade estão intimamente vinculados.
No entanto, convém relevar o entusiasmo de Hobsbawm. A história mostra que é prudente ler Marx mais como uma forma de entender o mundo do que de mudá-lo
Marcos Guterman.O Estado de S.Paulo
17/12/11
Já em seu livro A Era dos Extremos, Hobsbawm colocou a Revolução Bolchevique como o principal evento do “breve século 20″ – que em sua visão acaba, justamente, na implosão da URSS. “O mundo que se esfacelou no fim da década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917″, escreveu ele, para elaborar a teoria segundo a qual todos os processos históricos do período – das alianças diplomáticas aos desdobramentos econômicos globais – tiveram como eixo a instalação do comunismo na Rússia. Trata-se, obviamente, de um exagero. Mas o Marx que Hobsbawm tenta resgatar em seu novo livro não é o de Lenin e de Stalin, nem o dos marxistas contemporâneos, e sim a essência de seu pensamento.
Em Como Mudar o Mundo, reedição de textos escritos entre 1956 e 2009, Hobsbawm trata de diferenciar Marx do marxismo e de sua aplicação extrema, o comunismo – o que é conveniente, ao se observar as atrocidades cometidas em nome da igualdade. Para ele, dizer que o marxismo é responsável por essas tragédias “é o mesmo que afirmar que o cristianismo levou ao absolutismo papal”.
Hobsbawm se localiza entre aqueles que veem Marx como um mapa do caminho para a revolução e os que o encaram simplesmente como teoria. Mostra a ruptura dele com os socialistas utópicos, mas deixa claro o tributo que Marx lhes paga na forma da ideia de que é “inevitável” mudança não apenas de regime de governo, mas de todo o modo de vida sobre a Terra. Nos últimos 130 anos, diz o historiador, Marx foi o tema central da paisagem intelectual e, graças à sua capacidade de mobilizar forças sociais, foi uma presença crucial na história. No entanto, o desgaste provocado pelo colapso da URSS expôs, nas palavras de Hobsbawm, o “fracasso das predições” das teorias marxistas.
De tempos em tempos, anuncia-se que o capitalismo está no fim. Como a história mostra, porém, o moribundo arruma um jeito de se recuperar, entre outras razões porque a classe trabalhadora, que seria o esteio da revolução, sofreu mudanças dramáticas no último meio século, ao ponto de se tornar irreconhecível como “proletariado”. Mas Hobsbawm, em meio à crise global deflagrada em 2008, não resistiu à tentação e escreveu que, desta vez, vai: “Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século 21, mas quem quiser solucioná-los deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”. Para ele, o futuro do marxismo e da humanidade estão intimamente vinculados.
No entanto, convém relevar o entusiasmo de Hobsbawm. A história mostra que é prudente ler Marx mais como uma forma de entender o mundo do que de mudá-lo
Marcos Guterman.O Estado de S.Paulo
17/12/11
A esperança de vencer as cercas e dominar as secas
Passadas as eleições, é importante não esquecermos o papel dos aparelhos ideológicos. Se na idade média, a Igreja era o grande veículo da classe dominante (senhores feudais e clero) e, na idade moderna, a Escola foi a grande reprodutora das idéias dos capitalistas, hoje pode-se dizer que este grande meio é a mídia (revistas, jornais, TV, etc.).
-se e produz-se verdades em cima de técnicas de reprodução (algumas explícitas e vergonhosas como as denunciadas abaixo; outras subliminares).
Os valores humanos são cotidianamente atacados, desqualificados, em função dos valores do mercado. Mente
Quando falamos de consciência política, não estamos tratando de oposição governamental, tampouco de um jogo de tabuleiros. Estamos falando de vidas humanas.
A mídia nas mãos dos ricos é uma bomba poderosa. Mas pode ser um instrumento de emancipação nas mãos daqueles que têm consciência histórica e que não vêem a construção da humanidade como um jogo de tabuleiros ou como um negócio.Precisamos estar cada vez mais atentos. A eleição terminou, a luta pela construção de um novo mundo está apenas começando. E quem sabe o grito do nordeste brasileiro seja o marco do início de uma nova nação brasileira.
Ana Ines
ana@cefuria.org.br
-se e produz-se verdades em cima de técnicas de reprodução (algumas explícitas e vergonhosas como as denunciadas abaixo; outras subliminares).
Os valores humanos são cotidianamente atacados, desqualificados, em função dos valores do mercado. Mente
Quando falamos de consciência política, não estamos tratando de oposição governamental, tampouco de um jogo de tabuleiros. Estamos falando de vidas humanas.
A mídia nas mãos dos ricos é uma bomba poderosa. Mas pode ser um instrumento de emancipação nas mãos daqueles que têm consciência histórica e que não vêem a construção da humanidade como um jogo de tabuleiros ou como um negócio.Precisamos estar cada vez mais atentos. A eleição terminou, a luta pela construção de um novo mundo está apenas começando. E quem sabe o grito do nordeste brasileiro seja o marco do início de uma nova nação brasileira.
Ana Ines
ana@cefuria.org.br
segunda-feira, 19 de março de 2012
Mario Vargas Llosa: “La política se ha banalizado y frivolizado”
El escritor peruano y premio Nobel de Literatura, analiza el gobierno de Sebastián Piñera y explica por qué cree que la crispación social es un problema propio de los países desarrollados. Rechaza el igualitarismo como solución al malestar y señala que “Chile es un ejemplo de que el desarrollo económico, por sí solo, no basta”.
por C. Boffil, R. Montes y H. Soto – La Tercera (Chile)
EN el living de una habitación del hotel Hyatt de Santiago, donde se aloja el escritor peruano Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936), el teléfono empieza a sonar insistentemente. El premio Nobel de Literatura, nervioso ante el sonido, se levanta del sillón para contestar. Sin embargo, la llamada se corta apenas toma el auricular. “Yo no contesto jamás el teléfono”, dice, entre riéndose y excusándose mientras regresa a su sitio. “Le tengo un terror supersticioso, porque solo me trae problemas. Nunca en la vida tendría celular, ¡qué horror!”.
A Vargas Llosa no le gusta la tecnología, por lo que no usa tabletas ni notebooks. “No tengo nada de eso, solamente lápiz y libreta de papel. Yo escribo mis libros a mano y después los paso a una computadora, que uso solamente como máquina de escribir”, relata el escritor. De hecho, dice que desconfía del mundo de internet: “Hace poco, una señora me escribió para felicitarme por el texto tan bonito que yo había escrito en homenaje a la mujer. Me lo envió y era una cursilería monstruosa, una huachafería, como decimos en Perú. Y estaba firmado por mí. ¿Cómo te defiendes contra eso? Llegas a perder tu identidad, se apropian de tu nombre. Es desmoralizador”.
Aterrizó el miércoles en Santiago, para participar en el homenaje que el Centro de Estudios Públicos (CEP) organizó para conmemorar el cumpleaños 80 del escritor y embajador chileno en Francia, Jorge Edwards. Les une una amistad de medio siglo, que se mantiene intacta. “Hace un mes, sin que nadie supiera, salvo Jorge, pasé un mes en París escribiendo. El Premio Nobel es una semana de cuento de hadas, pero un año de pesadilla absoluta. Te paraliza la vida y te llena de obligaciones”, relata Vargas Llosa.
En los dos últimos años ha visitado Chile en tres ocasiones. A comienzos de 2010, antes de la segunda vuelta presidencial, vino para apoyar al candidato Sebastián Piñera.
Usted tenía muchas expectativas puestas en el gobierno de Piñera. ¿Cómo se explica la crispación que se ha visto en los últimos meses en Chile?
Una de las cosas que me llamó la atención cuando vine a apoyar a Piñera fue ver que el plan de gobierno tenía como primera prioridad la política educativa. Era considerada la cuestión neurálgica para la conversión definitiva del país. Entonces, que haya surgido este conflicto me ha sorprendido mucho. Y mi impresión es que Chile está viviendo problemas que no había tenido antes y que, en buena parte, son producto de su desarrollo.
La gran paradoja es que los buenos índices económicos no se reflejan en la popularidad del gobierno ni han contribuido a apaciguar las movilizaciones sociales.
Hay que tener claro que Chile no está entrampado en un hueco, en absoluto. Es inconcebible una regresión hacia el caos allendista o la dictadura pinochetista, no veo ninguna posibilidad. El país ha dado un salto en lo que se refiere a sus instituciones democráticas y políticas económicas, y lo que importa es que esa dirección no cambie en el futuro. Al mismo tiempo, en América Latina, y por eso Chile tiene una problemática de primer mundo, hay un gran optimismo. Existe la sensación de que está saliendo adelante, de que hay oportunidades, que ha quedado atrás lo peor y que lo que viene es para mejor. Es algo que se vive en Perú, Colombia, Uruguay, Brasil e incluso en Venezuela, donde hasta hace poco parecía imposible salir de Chávez. Yo creo que no hay razones para sentirse pesimista. Incluso en Chile que, con toda la problemática que tiene, sigue creciendo.
¿A qué atribuye los problemas que ha debido enfrentar el gobierno chileno?
A la política del corto plazo. El tener que resolver los problemas del día a día provoca que los grandes lineamientos queden como obnubilados.
Tras el triunfo de Piñera, usted manifestó su esperanza de que hiciera un gobierno de centroderecha que fuera capaz de irradiar con su ejemplo a otros países de Latinoamérica. Algunos analistas tienen la impresión de que eso se frustró.
Da la impresión, desgraciadamente, pero lleva solamente dos años y queda la mitad del período para lograrlo. Es muy importante que un gobierno de centroderecha muestre que no solamente cree en la libertad, sino que tiene gran conciencia de tipo social y trabaja por la igualdad de oportunidades, que es un principio liberal básico. Mi gran esperanza era que el gobierno de Piñera reflejara, precisamente por el nivel de desarrollo que ha alcanzado, la mejor cara del liberalismo. Pero repito que quedan dos años para resucitar esa idea.
¿Habla habitualmente con el Presidente?¿Han mantenido el contacto luego de la elección?
No, no lo he visto.
¿A qué cree que responde el malestar social que se ha visto en Chile y en otros lugares del mundo?
El gran problema es que el desarrollo no se debe medir estrictamente por índices económicos, estadísticos. Es uno de los grandes errores de la concepción puramente economicista del desarrollo. Si detrás de eso no se ejercita la igualdad de oportunidades, que es un principio absolutamente fundamental de la cultura democrática, eso crea una gran frustración. La calidad de vida también es una cosa muy importante, y en eso juega un papel central la cultura, que desgraciadamente no figura en los planes de desarrollo como una prioridad para ningún gobierno, ni de derecha ni de izquierda. Algo de eso se refleja en ese malestar, desasosiego, frustración, que es una característica tan grande hoy día en diversas sociedades. Chile es un ejemplo de que el desarrollo económico, por sí solo, no basta, no es suficiente.
El analista Moisés Naím baraja la tesis de que la indignación que ha brotado en diversos lugares del mundo está gatillada por la desigualdad.
No es el igualitarismo el que resuelve los problemas. Primero, porque el igualitarismo no existe, es un mito, y crea sociedades donde algunos son mucho más iguales que otros. Lo fundamental es que la gente tenga las oportunidades para corregir la desigualdad, que inevitablemente existe, gracias a su talento y esfuerzo. Que las personas tengan la posibilidad de crecer, subir y alcanzar sus propios objetivos. En Estados Unidos ha habido desigualdad toda la vida, pero, sin embargo, el optimismo es la gran característica de la sociedad norteamericana. Los estadounidenses piensan que trabajando, rompiéndose el alma, sacrificándose, pueden llegar a la cúspide. Y hay casos inmensos de que es así, de que es verdad y cierto.
¿Sigue siendo cierto?
Eso sigue siendo cierto en la sociedad norteamericana. La europea, a medida que se ha ido modernizando, ha ido rompiendo esas estructuras rígidas que otorgan ciertos privilegios a la hora de competir. Pero nada comparable a Estados Unidos. Es cosa de observar los últimos casos de grandes millonarios estadounidenses y la mayoría ha salido de abajo. Es gente que ha aprovechado ese espacio grande que hay para inventar y crear.
El ranking de millonarios cambia mucho de una década a otra.
Hay que fijarse en lo ocurrido con Steve Jobs y cómo se ha convertido en el gran mito moderno. Su caso es típicamente norteamericano. Warren Buffett, otro mito. Bill Gates, otro. Ellos son la prueba de que existe ese margen.
Los gobiernos, entonces, según plantea, no deben focalizarse en la igualdad.
No hay que buscar una igualdad que es imposible de conseguir sin establecer un sistema de una ferocidad y un control e intervencionismo estatal que acaba con la libertad. Eso fue Rusia y eso fueron todos los países socialistas. Hay que crear una sociedad en que las desigualdades parecen obedecer a un cierto esquema de justicia, en el que realmente quienes tienen más éxito son los que alcanzan los niveles más altos de vida. Porque si el problema son las desigualdades, ¿cuál es la solución? ¿Crear la sociedad soviética? ¿Volver a China?
Quizás volver al Estado de bienestar.
Pero tienes que justificarlo. La tragedia que vive actualmente Europa es que creó unos estados de bienestar que eran completamente irreales, que no había cómo financiarlos. Eso ha generado una crisis económica espantosa, que ha aumentado las injusticias y las desigualdades. No puedes abandonar el realismo a la hora de organizar la sociedad. Y el Estado de bienestar fue una ilusión que no estaba sostenida en análisis económicos serios sobre lo posible y lo imposible. Si crees que puedes trabajar 35 horas al mes y mantener los mismos niveles de vida, y no puedes, eso te genera una enorme frustración.
Naím también plantea que el malestar mundial tiene que ver con la rebelión generalizada contra el poder, que hoy se encuentra en manos de más personas.
Si lo fuera, tendríamos que alegrarnos, ¿no? Cuánto mejor si el poder se diluye. Pero no sé si corresponde a la realidad del mundo de hoy.
Muchos atribuyen los cambios actuales a las redes sociales: la gente, al informarse rápidamente, ahora podría cuestionar las decisiones públicas.
Es un paso fantástico el de la revolución de las comunicaciones. Pero, al mismo tiempo, eso ha venido acompañado de una falta de discriminación muy grande con respecto a la información. Y en muchos casos, en vez de más conocimiento, provoca una gran confusión. Toda la revolución informativa está acompañada de una frivolización y banalización de la cultura. ¿Y a qué se llega? A una sociedad confusa, completamente desbrujulada.
Usted es crítico de Wikileaks.
Controlar el poder y fiscalizarlo es fundamental. Ahora, anularlo es algo terrible. Wikileaks llega a hurgar de tal manera en la privacidad, que el poder pasa a estar completamente indefenso y paralizado para actuar. Todo paso que da pasa a ser automáticamente de propiedad pública. Eso al final conspira contra la cultura democrática, ya que las dictaduras no son víctimas de eso. ¿China? ¿Qué se sabe sobre los secretos de China? Esos antecedentes no salen a la luz.
Usted habla de la banalización de la cultura. ¿Cree también que hay una frivolización de la política?
Sí, naturalmente. La banalización, la frivolización, es un fenómeno que abarca todos los aspectos de la vida social e individual: la política, la religión, la cultura en general, la creación, las artes. Y la política. Basta ver las campañas electorales hoy, que están guiadas por los creativos de las agencias de publicidad y no por los programas.
Lo que parece estar hundiéndose es el concepto del liderazgo. Antes eran más sólidos y generaban confianza. Hoy, en cambio, provocan sospechas.
Porque las ideas tenían mayor protagonismo. Hoy son más importantes los eslóganes, las caras, los gestos, la publicidad. Ahí sí hay una crisis que podría afectar profundamente la cultura democrática, sin duda.
¿Es la banalización política la que permite, por ejemplo, que el Presidente de Perú, Ollanta Humala, salga de un extremo político y se instale en otro?
No ha sido de un día para otro. En 2006 era el candidato chavista de ideas confusas. Pero luego de la derrota, Humala comenzó a advertir que por ese camino no iba a llegar a la presidencia. Desde entonces, con mucha discreción, para no perder la base de izquierda, empezó a moverse discretamente hacia el centro. Y la persona que se presentó a las elecciones en 2011 era más moderada. Cuando en la segunda vuelta se enfrentó a Keiko Fujimori, él dio un paso importantísimo: marcar una hoja de ruta en San Marcos. Y ha respetado tanto las instituciones democráticas como las políticas de mercado.
¿Cuáles son los principales problemas que enfrenta hoy Perú?
Lo que hay son problemas menores que hoy se han convertido en problemas mayores, como la minería informal. Y hay una movilización muy fuerte en su defensa, pese a que no sólo es catastrófica para el Estado, sino también para la naturaleza. Luego hay una izquierda radical que ha encontrado en el ecologismo una bandera que le permite resucitar los viejos problemas. Es lo que ha ocurrido con la resistencia de algunos grupos al proyecto minero de Conga, en Cajamarca, que implica una inversión de 4.500 millones de dólares para una región muy pobre. Hay una confrontación que puede tener consecuencias serias.
¿El refugio de ciertos grupos en el ambientalismo es una tendencia que usted observa solamente en Perú?
No. Yo creo que está en todas partes. En Europa, por supuesto. Hoy, salvo que seas un ser completamente fuera de la realidad, es muy difícil defender la vieja agenda de la izquierda: cerrarse al mundo, ensimismarse, levantar fronteras económicas, redistribuir la riqueza y nacionalizar. Por eso el refugio es ahora el ambientalismo.
¿Qué opina del gobierno de Cristina Fernández en Argentina?
Se necesitan brujos y chamanes para entender lo que sucede en Argentina. Eso es un galimatías y yo renuncio: no entiendo el país. Para mí es algo indescifrable, incomprensible. ¿Por qué el país más culto de América Latina, que tuvo una tradición tan notable no sólo de desarrollo económico, sino cultural, ha podido caer en lo que ha caído? Hoy Argentina es el peronismo. Derecha, centro, izquierda… todo es peronismo. Un sistema de poder tal no se ha visto nunca tan absolutamente generado en un país y ha llegado a posicionarse en toda la sociedad con graves consecuencias. ¿Y cuál es la salida? No lo sé, pero no se ve.
Usted está a punto de lanzar su próximo libro, que es un ensayo.
Voy a lanzar un ensayo que se llama La civilización del espectáculo, que analiza justamente la banalización de la cultura en el siglo XXI. Qué consecuencias puede tener esta situación y la importancia de la cultura en el desarrollo. Un crecimiento sin cultura, que es perfectamente posible, es un crecimiento con pies de barro. Un país puede alcanzar una gran modernidad, pero una modernidad donde no hay valores, alma y vida espiritual, al final es algo terrible.
¿Muchos reproches a los intelectuales?
Al fraude artístico e intelectual. En campos como la pintura se ha llegado a extremos increíbles. Los valores estéticos estallaron y lo que se impuso es la publicidad, la frivolidad más absoluta. En la literatura, afortunadamente todavía hay ciertos patrones que se respetan y te permiten decir “esto es bueno, esto es malo”. Tú puedes señalar que a Dan Brown lo leen muchos, pero no puedes afirmar que es el Cervantes del siglo XXI.
Está preparando también una novela.
La estoy escribiendo y se va a llamar, creo, El héroe discreto. Transcurre en el Perú de hoy, entre Piura y Lima, donde se viven problemas que no se han visto antes. Conflictos propios de un país que está en pleno desarrollo, donde hay una violencia criminal muy fuerte, que es una gran protagonista de la vida social y política.
“Me dio mucha pena la muerte de Pilarcita Donoso”
¿Cómo afrontó el suicidio de la hija de José Donoso?
Me afectó mucho, porque yo no solamente había sido muy amigo de los Donoso, sino que había visto a la Pilarcita desde niñita, desde que la adoptaron. Una historia muy triste, trágica. La última vez que estuve en Chile la vi y tenía el proyecto de irse a España, para intentar identificar a su madre biológica. Quería irse a vivir a Calaceite. La impresión que me dio es que estaba perdida, insegura. Me dio mucha pena la muerte de la Pilarcita Donoso.
Usted elogió su libro Correr el tupido velo, donde Pilar Donoso reveló los secretos de la familia.
A mí me impresionó muchísimo. Yo creo que el libro fue un acto de coraje extraordinario. Nunca me hubiera imaginado, habiendo frecuentado a los Donoso casi a diario en Barcelona, que vivían ese drama tan desgarrador que guardaban en las sombras. No podíamos sospechar que había ese drama de alcoholismo, la confrontación entre Pepe y su esposa. Y la historia de la niña que es desgarradora. Era maltratada por su madre y su padre, los dos tenían celos de ella. Y al mismo tiempo la quisieron mucho, porque la verdad es que la chiquita les cambió la vida.
¿Alguna vez advirtió frustración en José Donoso, porque el boom de alguna manera pasó por el lado suyo?
Pepe era una persona complicada, que tenía un mundo interior tortuoso, enrevesado. Ningún buen escritor es una persona fácil y Pepe particularmente, porque cultivaba sus neurosis. María del Pilar, su esposa, lo acompañaba, lo seguía. Ellos contaban anécdotas que probablemente eran falsas, pero que revelaban mucho el estado de tensión en la que vivía la familia. Decían que cuando invitaban a comer, luego del postre, así como se distribuyen chocolatitos, ellos ofrecían Valium.
por C. Boffil, R. Montes y H. Soto – La Tercera (Chile)
EN el living de una habitación del hotel Hyatt de Santiago, donde se aloja el escritor peruano Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936), el teléfono empieza a sonar insistentemente. El premio Nobel de Literatura, nervioso ante el sonido, se levanta del sillón para contestar. Sin embargo, la llamada se corta apenas toma el auricular. “Yo no contesto jamás el teléfono”, dice, entre riéndose y excusándose mientras regresa a su sitio. “Le tengo un terror supersticioso, porque solo me trae problemas. Nunca en la vida tendría celular, ¡qué horror!”.
A Vargas Llosa no le gusta la tecnología, por lo que no usa tabletas ni notebooks. “No tengo nada de eso, solamente lápiz y libreta de papel. Yo escribo mis libros a mano y después los paso a una computadora, que uso solamente como máquina de escribir”, relata el escritor. De hecho, dice que desconfía del mundo de internet: “Hace poco, una señora me escribió para felicitarme por el texto tan bonito que yo había escrito en homenaje a la mujer. Me lo envió y era una cursilería monstruosa, una huachafería, como decimos en Perú. Y estaba firmado por mí. ¿Cómo te defiendes contra eso? Llegas a perder tu identidad, se apropian de tu nombre. Es desmoralizador”.
Aterrizó el miércoles en Santiago, para participar en el homenaje que el Centro de Estudios Públicos (CEP) organizó para conmemorar el cumpleaños 80 del escritor y embajador chileno en Francia, Jorge Edwards. Les une una amistad de medio siglo, que se mantiene intacta. “Hace un mes, sin que nadie supiera, salvo Jorge, pasé un mes en París escribiendo. El Premio Nobel es una semana de cuento de hadas, pero un año de pesadilla absoluta. Te paraliza la vida y te llena de obligaciones”, relata Vargas Llosa.
En los dos últimos años ha visitado Chile en tres ocasiones. A comienzos de 2010, antes de la segunda vuelta presidencial, vino para apoyar al candidato Sebastián Piñera.
Usted tenía muchas expectativas puestas en el gobierno de Piñera. ¿Cómo se explica la crispación que se ha visto en los últimos meses en Chile?
Una de las cosas que me llamó la atención cuando vine a apoyar a Piñera fue ver que el plan de gobierno tenía como primera prioridad la política educativa. Era considerada la cuestión neurálgica para la conversión definitiva del país. Entonces, que haya surgido este conflicto me ha sorprendido mucho. Y mi impresión es que Chile está viviendo problemas que no había tenido antes y que, en buena parte, son producto de su desarrollo.
La gran paradoja es que los buenos índices económicos no se reflejan en la popularidad del gobierno ni han contribuido a apaciguar las movilizaciones sociales.
Hay que tener claro que Chile no está entrampado en un hueco, en absoluto. Es inconcebible una regresión hacia el caos allendista o la dictadura pinochetista, no veo ninguna posibilidad. El país ha dado un salto en lo que se refiere a sus instituciones democráticas y políticas económicas, y lo que importa es que esa dirección no cambie en el futuro. Al mismo tiempo, en América Latina, y por eso Chile tiene una problemática de primer mundo, hay un gran optimismo. Existe la sensación de que está saliendo adelante, de que hay oportunidades, que ha quedado atrás lo peor y que lo que viene es para mejor. Es algo que se vive en Perú, Colombia, Uruguay, Brasil e incluso en Venezuela, donde hasta hace poco parecía imposible salir de Chávez. Yo creo que no hay razones para sentirse pesimista. Incluso en Chile que, con toda la problemática que tiene, sigue creciendo.
¿A qué atribuye los problemas que ha debido enfrentar el gobierno chileno?
A la política del corto plazo. El tener que resolver los problemas del día a día provoca que los grandes lineamientos queden como obnubilados.
Tras el triunfo de Piñera, usted manifestó su esperanza de que hiciera un gobierno de centroderecha que fuera capaz de irradiar con su ejemplo a otros países de Latinoamérica. Algunos analistas tienen la impresión de que eso se frustró.
Da la impresión, desgraciadamente, pero lleva solamente dos años y queda la mitad del período para lograrlo. Es muy importante que un gobierno de centroderecha muestre que no solamente cree en la libertad, sino que tiene gran conciencia de tipo social y trabaja por la igualdad de oportunidades, que es un principio liberal básico. Mi gran esperanza era que el gobierno de Piñera reflejara, precisamente por el nivel de desarrollo que ha alcanzado, la mejor cara del liberalismo. Pero repito que quedan dos años para resucitar esa idea.
¿Habla habitualmente con el Presidente?¿Han mantenido el contacto luego de la elección?
No, no lo he visto.
¿A qué cree que responde el malestar social que se ha visto en Chile y en otros lugares del mundo?
El gran problema es que el desarrollo no se debe medir estrictamente por índices económicos, estadísticos. Es uno de los grandes errores de la concepción puramente economicista del desarrollo. Si detrás de eso no se ejercita la igualdad de oportunidades, que es un principio absolutamente fundamental de la cultura democrática, eso crea una gran frustración. La calidad de vida también es una cosa muy importante, y en eso juega un papel central la cultura, que desgraciadamente no figura en los planes de desarrollo como una prioridad para ningún gobierno, ni de derecha ni de izquierda. Algo de eso se refleja en ese malestar, desasosiego, frustración, que es una característica tan grande hoy día en diversas sociedades. Chile es un ejemplo de que el desarrollo económico, por sí solo, no basta, no es suficiente.
El analista Moisés Naím baraja la tesis de que la indignación que ha brotado en diversos lugares del mundo está gatillada por la desigualdad.
No es el igualitarismo el que resuelve los problemas. Primero, porque el igualitarismo no existe, es un mito, y crea sociedades donde algunos son mucho más iguales que otros. Lo fundamental es que la gente tenga las oportunidades para corregir la desigualdad, que inevitablemente existe, gracias a su talento y esfuerzo. Que las personas tengan la posibilidad de crecer, subir y alcanzar sus propios objetivos. En Estados Unidos ha habido desigualdad toda la vida, pero, sin embargo, el optimismo es la gran característica de la sociedad norteamericana. Los estadounidenses piensan que trabajando, rompiéndose el alma, sacrificándose, pueden llegar a la cúspide. Y hay casos inmensos de que es así, de que es verdad y cierto.
¿Sigue siendo cierto?
Eso sigue siendo cierto en la sociedad norteamericana. La europea, a medida que se ha ido modernizando, ha ido rompiendo esas estructuras rígidas que otorgan ciertos privilegios a la hora de competir. Pero nada comparable a Estados Unidos. Es cosa de observar los últimos casos de grandes millonarios estadounidenses y la mayoría ha salido de abajo. Es gente que ha aprovechado ese espacio grande que hay para inventar y crear.
El ranking de millonarios cambia mucho de una década a otra.
Hay que fijarse en lo ocurrido con Steve Jobs y cómo se ha convertido en el gran mito moderno. Su caso es típicamente norteamericano. Warren Buffett, otro mito. Bill Gates, otro. Ellos son la prueba de que existe ese margen.
Los gobiernos, entonces, según plantea, no deben focalizarse en la igualdad.
No hay que buscar una igualdad que es imposible de conseguir sin establecer un sistema de una ferocidad y un control e intervencionismo estatal que acaba con la libertad. Eso fue Rusia y eso fueron todos los países socialistas. Hay que crear una sociedad en que las desigualdades parecen obedecer a un cierto esquema de justicia, en el que realmente quienes tienen más éxito son los que alcanzan los niveles más altos de vida. Porque si el problema son las desigualdades, ¿cuál es la solución? ¿Crear la sociedad soviética? ¿Volver a China?
Quizás volver al Estado de bienestar.
Pero tienes que justificarlo. La tragedia que vive actualmente Europa es que creó unos estados de bienestar que eran completamente irreales, que no había cómo financiarlos. Eso ha generado una crisis económica espantosa, que ha aumentado las injusticias y las desigualdades. No puedes abandonar el realismo a la hora de organizar la sociedad. Y el Estado de bienestar fue una ilusión que no estaba sostenida en análisis económicos serios sobre lo posible y lo imposible. Si crees que puedes trabajar 35 horas al mes y mantener los mismos niveles de vida, y no puedes, eso te genera una enorme frustración.
Naím también plantea que el malestar mundial tiene que ver con la rebelión generalizada contra el poder, que hoy se encuentra en manos de más personas.
Si lo fuera, tendríamos que alegrarnos, ¿no? Cuánto mejor si el poder se diluye. Pero no sé si corresponde a la realidad del mundo de hoy.
Muchos atribuyen los cambios actuales a las redes sociales: la gente, al informarse rápidamente, ahora podría cuestionar las decisiones públicas.
Es un paso fantástico el de la revolución de las comunicaciones. Pero, al mismo tiempo, eso ha venido acompañado de una falta de discriminación muy grande con respecto a la información. Y en muchos casos, en vez de más conocimiento, provoca una gran confusión. Toda la revolución informativa está acompañada de una frivolización y banalización de la cultura. ¿Y a qué se llega? A una sociedad confusa, completamente desbrujulada.
Usted es crítico de Wikileaks.
Controlar el poder y fiscalizarlo es fundamental. Ahora, anularlo es algo terrible. Wikileaks llega a hurgar de tal manera en la privacidad, que el poder pasa a estar completamente indefenso y paralizado para actuar. Todo paso que da pasa a ser automáticamente de propiedad pública. Eso al final conspira contra la cultura democrática, ya que las dictaduras no son víctimas de eso. ¿China? ¿Qué se sabe sobre los secretos de China? Esos antecedentes no salen a la luz.
Usted habla de la banalización de la cultura. ¿Cree también que hay una frivolización de la política?
Sí, naturalmente. La banalización, la frivolización, es un fenómeno que abarca todos los aspectos de la vida social e individual: la política, la religión, la cultura en general, la creación, las artes. Y la política. Basta ver las campañas electorales hoy, que están guiadas por los creativos de las agencias de publicidad y no por los programas.
Lo que parece estar hundiéndose es el concepto del liderazgo. Antes eran más sólidos y generaban confianza. Hoy, en cambio, provocan sospechas.
Porque las ideas tenían mayor protagonismo. Hoy son más importantes los eslóganes, las caras, los gestos, la publicidad. Ahí sí hay una crisis que podría afectar profundamente la cultura democrática, sin duda.
¿Es la banalización política la que permite, por ejemplo, que el Presidente de Perú, Ollanta Humala, salga de un extremo político y se instale en otro?
No ha sido de un día para otro. En 2006 era el candidato chavista de ideas confusas. Pero luego de la derrota, Humala comenzó a advertir que por ese camino no iba a llegar a la presidencia. Desde entonces, con mucha discreción, para no perder la base de izquierda, empezó a moverse discretamente hacia el centro. Y la persona que se presentó a las elecciones en 2011 era más moderada. Cuando en la segunda vuelta se enfrentó a Keiko Fujimori, él dio un paso importantísimo: marcar una hoja de ruta en San Marcos. Y ha respetado tanto las instituciones democráticas como las políticas de mercado.
¿Cuáles son los principales problemas que enfrenta hoy Perú?
Lo que hay son problemas menores que hoy se han convertido en problemas mayores, como la minería informal. Y hay una movilización muy fuerte en su defensa, pese a que no sólo es catastrófica para el Estado, sino también para la naturaleza. Luego hay una izquierda radical que ha encontrado en el ecologismo una bandera que le permite resucitar los viejos problemas. Es lo que ha ocurrido con la resistencia de algunos grupos al proyecto minero de Conga, en Cajamarca, que implica una inversión de 4.500 millones de dólares para una región muy pobre. Hay una confrontación que puede tener consecuencias serias.
¿El refugio de ciertos grupos en el ambientalismo es una tendencia que usted observa solamente en Perú?
No. Yo creo que está en todas partes. En Europa, por supuesto. Hoy, salvo que seas un ser completamente fuera de la realidad, es muy difícil defender la vieja agenda de la izquierda: cerrarse al mundo, ensimismarse, levantar fronteras económicas, redistribuir la riqueza y nacionalizar. Por eso el refugio es ahora el ambientalismo.
¿Qué opina del gobierno de Cristina Fernández en Argentina?
Se necesitan brujos y chamanes para entender lo que sucede en Argentina. Eso es un galimatías y yo renuncio: no entiendo el país. Para mí es algo indescifrable, incomprensible. ¿Por qué el país más culto de América Latina, que tuvo una tradición tan notable no sólo de desarrollo económico, sino cultural, ha podido caer en lo que ha caído? Hoy Argentina es el peronismo. Derecha, centro, izquierda… todo es peronismo. Un sistema de poder tal no se ha visto nunca tan absolutamente generado en un país y ha llegado a posicionarse en toda la sociedad con graves consecuencias. ¿Y cuál es la salida? No lo sé, pero no se ve.
Usted está a punto de lanzar su próximo libro, que es un ensayo.
Voy a lanzar un ensayo que se llama La civilización del espectáculo, que analiza justamente la banalización de la cultura en el siglo XXI. Qué consecuencias puede tener esta situación y la importancia de la cultura en el desarrollo. Un crecimiento sin cultura, que es perfectamente posible, es un crecimiento con pies de barro. Un país puede alcanzar una gran modernidad, pero una modernidad donde no hay valores, alma y vida espiritual, al final es algo terrible.
¿Muchos reproches a los intelectuales?
Al fraude artístico e intelectual. En campos como la pintura se ha llegado a extremos increíbles. Los valores estéticos estallaron y lo que se impuso es la publicidad, la frivolidad más absoluta. En la literatura, afortunadamente todavía hay ciertos patrones que se respetan y te permiten decir “esto es bueno, esto es malo”. Tú puedes señalar que a Dan Brown lo leen muchos, pero no puedes afirmar que es el Cervantes del siglo XXI.
Está preparando también una novela.
La estoy escribiendo y se va a llamar, creo, El héroe discreto. Transcurre en el Perú de hoy, entre Piura y Lima, donde se viven problemas que no se han visto antes. Conflictos propios de un país que está en pleno desarrollo, donde hay una violencia criminal muy fuerte, que es una gran protagonista de la vida social y política.
“Me dio mucha pena la muerte de Pilarcita Donoso”
¿Cómo afrontó el suicidio de la hija de José Donoso?
Me afectó mucho, porque yo no solamente había sido muy amigo de los Donoso, sino que había visto a la Pilarcita desde niñita, desde que la adoptaron. Una historia muy triste, trágica. La última vez que estuve en Chile la vi y tenía el proyecto de irse a España, para intentar identificar a su madre biológica. Quería irse a vivir a Calaceite. La impresión que me dio es que estaba perdida, insegura. Me dio mucha pena la muerte de la Pilarcita Donoso.
Usted elogió su libro Correr el tupido velo, donde Pilar Donoso reveló los secretos de la familia.
A mí me impresionó muchísimo. Yo creo que el libro fue un acto de coraje extraordinario. Nunca me hubiera imaginado, habiendo frecuentado a los Donoso casi a diario en Barcelona, que vivían ese drama tan desgarrador que guardaban en las sombras. No podíamos sospechar que había ese drama de alcoholismo, la confrontación entre Pepe y su esposa. Y la historia de la niña que es desgarradora. Era maltratada por su madre y su padre, los dos tenían celos de ella. Y al mismo tiempo la quisieron mucho, porque la verdad es que la chiquita les cambió la vida.
¿Alguna vez advirtió frustración en José Donoso, porque el boom de alguna manera pasó por el lado suyo?
Pepe era una persona complicada, que tenía un mundo interior tortuoso, enrevesado. Ningún buen escritor es una persona fácil y Pepe particularmente, porque cultivaba sus neurosis. María del Pilar, su esposa, lo acompañaba, lo seguía. Ellos contaban anécdotas que probablemente eran falsas, pero que revelaban mucho el estado de tensión en la que vivía la familia. Decían que cuando invitaban a comer, luego del postre, así como se distribuyen chocolatitos, ellos ofrecían Valium.
Foi um beijo…
foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinqüente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca
Martha Medeiros
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinqüente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca
Martha Medeiros
O medo de esquecer tira a vontade de lembrar
Imaginação
Prosa, poesia e tradução
RONALDO BRESSANE
POR QUE VOCÊ não entra?, diz Hannah. Você sabe que não sei nadar, responde Fabrizio. Não precisa nadar pra ficar aqui, Hannah insinua. Você pode nadar cachorrinho. Eu o faço boiar, é só usar meu nariz. Prometo não fazer cócegas… Obrigado, não estou com vontade, diz Fabrizio, distraindo-se na observação das próprias rugas refletidas no vidro do aquário.
Você tem medo, diz Hannah. Eu sei, li seu diário enquanto você dormia. Você é intrometida, diz Fabrizio, sem mover um músculo da face. E você não deve ter lido de verdade o que escrevi. Não pode ter lido enquanto eu dormia só porque pensa que consegue ler meu pensamento quando estou sonhando. E se eu estivesse pensando em outra coisa enquanto escrevia?, diz Fabrizio. Bom, essa é a prerrogativa dos maus escritores, diz Hannah; se você mentiu pra si mesmo enquanto escrevia, já começou errado. Hum, então você agora virou crítica literária, ironiza Fabrizio.
Só temos você e eu aqui; tenho que ler alguma coisa, não? Já que você tem preguiça de ler pra mim…, diz Hannah. Você não se esforça pra nada. Nem vem nadar comigo… Ah, que saco, por que não fica quieta?, diz Fabrizio, levantando-se -e, pela primeira vez, se dá conta de que soltou a voz, não usou a telepatia para conversar com Hannah.
Ela percebe o ato falho. Puxa, isso realmente o incomoda, diz Hannah. Você não gostou de eu ter lido seu diário. Mas pra que escrever algo que ninguém vai ler? Diário é a forma mais hipócrita de literatura: se pretende isenta e sincera, mas nada pode ser mais pedante ou cheio de autocomplacência -nem a poesia beatnik do século passado, diz Hannah.
Se você tivesse lido o “Diário de Anne Frank”, não falaria essa besteira, diz Fabrizio. Tem aí?, diz Hannah. Se não, baixa na Psico5 pra mim? Sobre o que é? É a história de uma menina judia que se escondeu dos nazistas com a família, diz Fabrizio. Passou um ano até ser denunciada, o diário ficou no esconderijo.
Isso é só desespero, grafomania, o marquês de Sade também tinha isso, escrevia diário com a própria merda na cela lá na Bastilha, diz Hannah. Isso não tem nada a ver com literatura.
E quem disse que o que escrevo tem a ver com literatura?, diz Fabrizio. Você claramente quer deixar um testemunho do que trama e fazer isso com estilo, diz Hannah. Pretende ser objetivo, o que não passa de mentira. Pior, pura vaidade, diz Hannah. O Antonio Maria fez um diário por pouco mais de um ano e nunca publicou, só descobriram quando ele morreu, diz Fabrizio. Decerto a vaidade dele não deixou de atentar para esse detalhe, diz Hannah. Mas isso não é o que mais me espanta no seu diário. E sim essa ideia louca que você escreveu… Sobre manipular esse pobre programador de palavras cruzadas, diz Hannah.
Bobagem, diz Fabrizio. Você ficou irritada porque não consegue escrever; se enciumou com o que escrevi e agora me critica. Você só escreveu porque sabia que eu ia ler, diz Hannah, e só teve a ideia de titerar o pobre Adavilson porque leu a existência dele no meu corpo, durante o Rubi de ontem. Fabrizio sorri: Quer dizer que você se acha minha musa inspiradora?
Então Hannah corcoveia rapidamente, a barbatana dorsal revelando-se por sobre a lâmina do grande tanque e, com um golpe da cauda, gira 180º, mostrando a Fabrizio o seu lado direito -não sem antes oferecer sutilmente uma visão do oviduto oculto sob seu clasper. Ele sempre fica fascinado com essa contradição. Por que não tinham feito Hannah assexuada? Quem foi o sarcástico bioengenheiro da Divisão que teve a cruel ideia de criar um tubarão-tigre hermafrodita para lhe fazer companhia? O mesmo Mengele que lhe havia extraído a memória anterior à sua vida neste apartamento no edifício Copan?
Olha, Hannah, diz Fabrizio, bufando: Só escrevo o diário por um motivo -o tédio. Descobri que, assim como você, se parar não consigo respirar. E escrever é o que me dá um mínimo de calma. Ou melhor, o que me permite não ficar maluco enquanto estamos confinados aqui.
Quanto ao pobre Adavilson, foi uma ideia que tivemos juntos, lembra? Esse programador de palavras cruzadas que trabalha naquela megacorporação de comunicação, a TXT, inventou um jogo em que controla telepaticamente os jogadores de futebol do Campeonato. Se alguém passar a ele a ideia de exportar seu jogo para as colônias chinesas na Lua… Quem sabe em dois anos não temos uma guerrinha entre Xangai e São Paulo. Vou mandar esse tema, junto com nossa predição, para nosso chefinho Mark Sandman.
O que foi exatamente que você leu no meu corpo ontem?, Hannah para, encarando-o com seus olhos prateados. Quando a luz do sol caiu, às cinco e meia da tarde, li nas manchas das suas costas sobre esse homem amargurado que criou um jogo para ser vendido só nos territórios dos Coisos, diz Fabrizio. Ele resgatou o conceito de torcida, extinta quando os jogos começaram a ocorrer em estádios fechados, por causa do terrorismo. Se ele puder fazer com que os Coisos manipulem os jogadores, pode influenciar na loteria esportiva.
É uma ideia genial pra ganhar dinheiro: seu jogo telepático só será vendido aos Coisos -que não usam créditos, só dinheiro vivo. Agora, imagina esse jogo vendido às colônias chinesas. Aí teremos duas torcidas trabalhando mentalmente os jogos do Campeonato. A Divisão vai achar divertido. Quando os chineses descobrirem que o jogo foi criado numa empresa de entretenimento de São Paulo…
E como você vai fazer Adavilssom exportar esse jogo pra Lua?, diz Hannah. Adavilson é um frustrado, diz Fabrizio. No fundo, só quer que a TXT, onde ele trabalha, se dê mal com sua invenção. Vamos enfiar essa ideia na cabeça dele e ele vai achar que pensou sozinho. Entendi, diz Hannah. Assim como acha que a ideia do jogo telepático foi dele, e não algo que sugerimos a ele. Mas não sugerimos, espanta-se Fabrizio. Ah, não?, diz Hannah. E se eu disser que essa ideia está no seu diário de um ano atrás?
Confuso, Fabrizio levanta-se, vai até a mesa, abre o caderno: 25 de abril de 2054. Hoje o Rubi tuniu com a visão de um homem chamado Adavilson Félix Tristão. Ele é um programador de jogos que trabalha na corporação TXT. Um sujeito solitário como eu -com a diferença de que não tem um tubarão-tigre como companhia. Ele tem algumas das características que a Divisão aponta como necessárias para um “agent provocateur”. E se dermos uma ideiazinha a ele? Fabrizio para de ler, horrorizado.
Hannah riu. Agora você lembrou por que faz o diário. Não é por vaidade, para espantar o tédio ou praticar literatura. É para ter a ilusão de que controla essa sua memoriazinha fraca infeliz. Se é assim, você leu na minha mente antes que eu escrevesse, diz Fabrizio. A pior solidão do mundo deve ser essa: um escritor que vive com seu crítico literário, diz, abaixando os olhos. Como escapar?
Vou citar o Mark Sandman: Não há respostas, só escolhas, diz Hannah. Sei por que faz isso; quer inventar uma máquina de memória. Melhor dizendo, uma mnemomáquina, não? Lembrando o instante anterior, quer apreender o instante anterior ao anterior e aí voltar àquele tempo do qual não lembra nada. Aquele tempo em que não era um velhote cheio de manias morando num apartamento enorme com um tubarão. Mas tem uma coisa. O medo de esquecer tira a vontade de lembrar. Você sempre pode viver num doce esquecimento, assim como eu… É tão… Gostoso…
Fabrizio derruba os ombros: Bom, parece que é xeque de novo. Que escolha eu tenho? O sol cai, dando às três fileiras de dentes de Hannah um lindo efeito avermelhado, como frases escritas numa língua antiga. Ela diz: Que tal tirar esse pijama e vir nadar comigo?
Prosa, poesia e tradução
RONALDO BRESSANE
POR QUE VOCÊ não entra?, diz Hannah. Você sabe que não sei nadar, responde Fabrizio. Não precisa nadar pra ficar aqui, Hannah insinua. Você pode nadar cachorrinho. Eu o faço boiar, é só usar meu nariz. Prometo não fazer cócegas… Obrigado, não estou com vontade, diz Fabrizio, distraindo-se na observação das próprias rugas refletidas no vidro do aquário.
Você tem medo, diz Hannah. Eu sei, li seu diário enquanto você dormia. Você é intrometida, diz Fabrizio, sem mover um músculo da face. E você não deve ter lido de verdade o que escrevi. Não pode ter lido enquanto eu dormia só porque pensa que consegue ler meu pensamento quando estou sonhando. E se eu estivesse pensando em outra coisa enquanto escrevia?, diz Fabrizio. Bom, essa é a prerrogativa dos maus escritores, diz Hannah; se você mentiu pra si mesmo enquanto escrevia, já começou errado. Hum, então você agora virou crítica literária, ironiza Fabrizio.
Só temos você e eu aqui; tenho que ler alguma coisa, não? Já que você tem preguiça de ler pra mim…, diz Hannah. Você não se esforça pra nada. Nem vem nadar comigo… Ah, que saco, por que não fica quieta?, diz Fabrizio, levantando-se -e, pela primeira vez, se dá conta de que soltou a voz, não usou a telepatia para conversar com Hannah.
Ela percebe o ato falho. Puxa, isso realmente o incomoda, diz Hannah. Você não gostou de eu ter lido seu diário. Mas pra que escrever algo que ninguém vai ler? Diário é a forma mais hipócrita de literatura: se pretende isenta e sincera, mas nada pode ser mais pedante ou cheio de autocomplacência -nem a poesia beatnik do século passado, diz Hannah.
Se você tivesse lido o “Diário de Anne Frank”, não falaria essa besteira, diz Fabrizio. Tem aí?, diz Hannah. Se não, baixa na Psico5 pra mim? Sobre o que é? É a história de uma menina judia que se escondeu dos nazistas com a família, diz Fabrizio. Passou um ano até ser denunciada, o diário ficou no esconderijo.
Isso é só desespero, grafomania, o marquês de Sade também tinha isso, escrevia diário com a própria merda na cela lá na Bastilha, diz Hannah. Isso não tem nada a ver com literatura.
E quem disse que o que escrevo tem a ver com literatura?, diz Fabrizio. Você claramente quer deixar um testemunho do que trama e fazer isso com estilo, diz Hannah. Pretende ser objetivo, o que não passa de mentira. Pior, pura vaidade, diz Hannah. O Antonio Maria fez um diário por pouco mais de um ano e nunca publicou, só descobriram quando ele morreu, diz Fabrizio. Decerto a vaidade dele não deixou de atentar para esse detalhe, diz Hannah. Mas isso não é o que mais me espanta no seu diário. E sim essa ideia louca que você escreveu… Sobre manipular esse pobre programador de palavras cruzadas, diz Hannah.
Bobagem, diz Fabrizio. Você ficou irritada porque não consegue escrever; se enciumou com o que escrevi e agora me critica. Você só escreveu porque sabia que eu ia ler, diz Hannah, e só teve a ideia de titerar o pobre Adavilson porque leu a existência dele no meu corpo, durante o Rubi de ontem. Fabrizio sorri: Quer dizer que você se acha minha musa inspiradora?
Então Hannah corcoveia rapidamente, a barbatana dorsal revelando-se por sobre a lâmina do grande tanque e, com um golpe da cauda, gira 180º, mostrando a Fabrizio o seu lado direito -não sem antes oferecer sutilmente uma visão do oviduto oculto sob seu clasper. Ele sempre fica fascinado com essa contradição. Por que não tinham feito Hannah assexuada? Quem foi o sarcástico bioengenheiro da Divisão que teve a cruel ideia de criar um tubarão-tigre hermafrodita para lhe fazer companhia? O mesmo Mengele que lhe havia extraído a memória anterior à sua vida neste apartamento no edifício Copan?
Olha, Hannah, diz Fabrizio, bufando: Só escrevo o diário por um motivo -o tédio. Descobri que, assim como você, se parar não consigo respirar. E escrever é o que me dá um mínimo de calma. Ou melhor, o que me permite não ficar maluco enquanto estamos confinados aqui.
Quanto ao pobre Adavilson, foi uma ideia que tivemos juntos, lembra? Esse programador de palavras cruzadas que trabalha naquela megacorporação de comunicação, a TXT, inventou um jogo em que controla telepaticamente os jogadores de futebol do Campeonato. Se alguém passar a ele a ideia de exportar seu jogo para as colônias chinesas na Lua… Quem sabe em dois anos não temos uma guerrinha entre Xangai e São Paulo. Vou mandar esse tema, junto com nossa predição, para nosso chefinho Mark Sandman.
O que foi exatamente que você leu no meu corpo ontem?, Hannah para, encarando-o com seus olhos prateados. Quando a luz do sol caiu, às cinco e meia da tarde, li nas manchas das suas costas sobre esse homem amargurado que criou um jogo para ser vendido só nos territórios dos Coisos, diz Fabrizio. Ele resgatou o conceito de torcida, extinta quando os jogos começaram a ocorrer em estádios fechados, por causa do terrorismo. Se ele puder fazer com que os Coisos manipulem os jogadores, pode influenciar na loteria esportiva.
É uma ideia genial pra ganhar dinheiro: seu jogo telepático só será vendido aos Coisos -que não usam créditos, só dinheiro vivo. Agora, imagina esse jogo vendido às colônias chinesas. Aí teremos duas torcidas trabalhando mentalmente os jogos do Campeonato. A Divisão vai achar divertido. Quando os chineses descobrirem que o jogo foi criado numa empresa de entretenimento de São Paulo…
E como você vai fazer Adavilssom exportar esse jogo pra Lua?, diz Hannah. Adavilson é um frustrado, diz Fabrizio. No fundo, só quer que a TXT, onde ele trabalha, se dê mal com sua invenção. Vamos enfiar essa ideia na cabeça dele e ele vai achar que pensou sozinho. Entendi, diz Hannah. Assim como acha que a ideia do jogo telepático foi dele, e não algo que sugerimos a ele. Mas não sugerimos, espanta-se Fabrizio. Ah, não?, diz Hannah. E se eu disser que essa ideia está no seu diário de um ano atrás?
Confuso, Fabrizio levanta-se, vai até a mesa, abre o caderno: 25 de abril de 2054. Hoje o Rubi tuniu com a visão de um homem chamado Adavilson Félix Tristão. Ele é um programador de jogos que trabalha na corporação TXT. Um sujeito solitário como eu -com a diferença de que não tem um tubarão-tigre como companhia. Ele tem algumas das características que a Divisão aponta como necessárias para um “agent provocateur”. E se dermos uma ideiazinha a ele? Fabrizio para de ler, horrorizado.
Hannah riu. Agora você lembrou por que faz o diário. Não é por vaidade, para espantar o tédio ou praticar literatura. É para ter a ilusão de que controla essa sua memoriazinha fraca infeliz. Se é assim, você leu na minha mente antes que eu escrevesse, diz Fabrizio. A pior solidão do mundo deve ser essa: um escritor que vive com seu crítico literário, diz, abaixando os olhos. Como escapar?
Vou citar o Mark Sandman: Não há respostas, só escolhas, diz Hannah. Sei por que faz isso; quer inventar uma máquina de memória. Melhor dizendo, uma mnemomáquina, não? Lembrando o instante anterior, quer apreender o instante anterior ao anterior e aí voltar àquele tempo do qual não lembra nada. Aquele tempo em que não era um velhote cheio de manias morando num apartamento enorme com um tubarão. Mas tem uma coisa. O medo de esquecer tira a vontade de lembrar. Você sempre pode viver num doce esquecimento, assim como eu… É tão… Gostoso…
Fabrizio derruba os ombros: Bom, parece que é xeque de novo. Que escolha eu tenho? O sol cai, dando às três fileiras de dentes de Hannah um lindo efeito avermelhado, como frases escritas numa língua antiga. Ela diz: Que tal tirar esse pijama e vir nadar comigo?
Sou uma gata…
sou uma gata
que cruza
outros gatos
na rua
quem vê gata
assanhada
logo fica
engatado
Martha Medeiros
que cruza
outros gatos
na rua
quem vê gata
assanhada
logo fica
engatado
Martha Medeiros
sexta-feira, 16 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Seios
Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.
E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.
E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.
E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.
E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.
Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios.
Patricia Clemente
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.
E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.
E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.
E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.
E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.
Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios.
Patricia Clemente
segunda-feira, 5 de março de 2012
Era só para dizer
Era só para dizer
William Carlos Williams
THIS IS JUST TO SAY
I have eaten
the plums
that were in
the icebox
and which
you were probably
saving
for breakfast
Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
ERA SÓ PARA DIZER
Eu comi
as ameixas
que estavam
no frigorifico
as quais estarias
provavelmente
a guardar para
o pequeno-almoço
Perdoa-me
eram deliciosas
tão doces
e tão frias
William Carlos Williams
THIS IS JUST TO SAY
I have eaten
the plums
that were in
the icebox
and which
you were probably
saving
for breakfast
Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
ERA SÓ PARA DIZER
Eu comi
as ameixas
que estavam
no frigorifico
as quais estarias
provavelmente
a guardar para
o pequeno-almoço
Perdoa-me
eram deliciosas
tão doces
e tão frias
Maria Bonita
Esta noite em Angico
a brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como que lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas límpias carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira,
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabe desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teu olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto de sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata
Sua a ponta
Do teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
Sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro – bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme. Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartrucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem, devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
- fúria e falta -
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele do meu peito
Esta fome sem data.
Myrian Fraga
a brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como que lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas límpias carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira,
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabe desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teu olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto de sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata
Sua a ponta
Do teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
Sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro – bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme. Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartrucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem, devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
- fúria e falta -
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele do meu peito
Esta fome sem data.
Myrian Fraga
sábado, 3 de março de 2012
Grupo 47
O Grupo 47 – um círculo literário criado em 1947 para resgatar a língua alemã da contaminação pela propaganda nazista – nunca foi homogêneo, conforme ressaltou Rühmkorf. Basta lembrar que o grupo também incluiu, além de autores mais conformes com as tendências da época, escritores tão inovadores como Paul Celan, Arno Schmidt e Peter Handke. "Nós três sempre nos entendemos bem. Reagimos contra a poesia vigente na década de 50 e tivemos trajetórias semelhantes. É isso que nos une", explicou Grass. Foi por isso que resolveram reeditar o "café central de uma literatura sem capital", como já havia denominado Enzensberger o Grupo 47.
Digitando define: (com dois pontos) e logo depois o termo em questão, a busca se restringe a enciclopédias. Geralmente se obtêm referências a artigos da Wikipedia alemã; em alguns casos, o usuário também é remetido a outras fontes.
O site www.msn.com, por sua vez, abriu recentemente a opção de consultar o dicionário enciclopédico Encarta em diversas línguas, inclusive em alemão.
O site www.msn.com, por sua vez, abriu recentemente a opção de consultar o dicionário enciclopédico Encarta em diversas línguas, inclusive em alemão.
Para além da compreensão
Livro aborda vantagens de se aceitar a incompreensão como algo inevitável e insolúvel.
'Kultur Nicht Verstehen' (Não Entender Cultura)
Kultur Nicht Verstehen: Pruduktives Nichtverstehen und Verstehen als Gestaltung (Não Entender Cultura: Não-Compreensão Produtiva e Compreensão como Princípio Configurador). Org. Juerg Albrecht, Jörg Huber, Kornelia Imesch, Karl Jost, Philipp Stoellger. Viena / Nova York: Springer (Zurique: Edition Voldemeer), 2005; 347p.
Um dos argumentos mais freqüentes usados na caracterização da cultura de entretenimento, em oposição à chamada "alta cultura", é o fato de aquela ser acessível a todos, ou seja, perfeitamente inteligível. Por outro lado, as manifestações culturais que não se compreendem tão facilmente são consideradas elitistas e deliberadamente direcionadas a um reduzido grupo de iniciados.
Lutero traduz a Bíblia, gravura de Gustav König, (1808–1869), 1847
Para escapar a este antagonismo muitas vezes empobrecedor, seria interessante questionar de onde vem a exigência de que a arte seja perfeitamente compreensível. Uma coletânea de textos teóricos publicada pela Edition Voldemeer (Springer Verlag) discute o conceito de cultura, incorporando a interferência do ininteligível. O livro inclui contribuições de intelectuais de diversas áreas, como teoria literária, filosofia, teoria da ciência, filosofia da religião, teologia, teoria da arte e do cinema.
Arte é feita para ser entendida
"A arte, por exemplo, não se realiza através da compreensão, mas sempre desperta perplexidade e reflexão, na melhor das hipóteses, ou mera incompreensão até o tédio, na pior das hipóteses. A produtiva irritação provocada pelo não compreendido sempre incita à releitura", constata Philipp Stoellger, professor de Teologia do Instituto de Hermenêutica e Filosofia da Religião da Universidade de Zurique.
A releitura talvez seja o critério essencial para diferenciar objetos de arte descartáveis daqueles que desafiam o leitor, observador ou espectador a retornar àquilo que se manteve enigmático durante a apreciação. Mas será que o desafio, neste caso, seria reler e reler e reler, até se desvendar o mistério? É justamente isso que desmente esta coletânea de textos.
Não entender faz parte
Hans-Georg Gadamer, 2000
A Hermenêutica, ciência da compreensão dos textos, desenvolvida tanto como pressuposto teológico da exegese bíblica como método de reflexão filosófica e científica (desenvolvido por Friedrich Schleiermacher, Wilhelm Dilthey, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer, entre outros) parte do pressuposto de que tudo o que não foi compreendido pode ser desvendado por uma leitura cíclica.
O ciclo descreve um movimento da parte ao todo e à parte e ao todo e assim por diante, até se chegar a uma totalidade do objeto apreciado. Neste modelo, a não compreensão é apenas um momento temporário do processo de comunicação, a ser eliminado ou minimizado através deste círculo hermenêutico.
Contra esta posição se voltou não apenas o Pós-Estruturalismo francês, sobretudo a Deconstrução protagonizada pelo filósofo Jacques Derrida. Diferentes correntes teóricas atuais questionam a possibilidade de a comunicação eliminar mal-entendidos ou a própria incompreensão. Ao invés de tentar eliminar o "incômodo" daquilo que não foi compreendido, a idéia seria incorporá-lo como parte essencial do processo comunicativo e sobretudo da apreciação artística.
Do nome secreto ao signo enigmático
Elvis Presley subindo no trem em Bremerhaven (Alemanha), 1958, rumo a Friedberg, onde ficou 18 meses estacionado como soldado
O volume Kultur Nicht Verstehen (Não Comprender Cultura), organizado por diversos teóricos de língua alemã, compreende diferentes visões deste dilema entre comunicação e incompreensão. As contribuições abordam as questões mais diversas, desde as formas de lidar com a denomimnação de Deus na teologia medieval até a historiografia do fenômeno pop Elvis Presley, passando pela função do riso em O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e pela linguagem corporal das artes marciais.
Eliminando qualquer dissociação entre uma "alta cultura" incompreensível e uma cultura de entretenimento acessível, esta publicação compreende uma grande diversidade de repertórios, do pop ao erudito, através da abordagem de uma questão que poderá vir a mudar a forma de apreciar e criticar arte.
Data 27.01.2006
Autor Simone de Mello
'Kultur Nicht Verstehen' (Não Entender Cultura)
Kultur Nicht Verstehen: Pruduktives Nichtverstehen und Verstehen als Gestaltung (Não Entender Cultura: Não-Compreensão Produtiva e Compreensão como Princípio Configurador). Org. Juerg Albrecht, Jörg Huber, Kornelia Imesch, Karl Jost, Philipp Stoellger. Viena / Nova York: Springer (Zurique: Edition Voldemeer), 2005; 347p.
Um dos argumentos mais freqüentes usados na caracterização da cultura de entretenimento, em oposição à chamada "alta cultura", é o fato de aquela ser acessível a todos, ou seja, perfeitamente inteligível. Por outro lado, as manifestações culturais que não se compreendem tão facilmente são consideradas elitistas e deliberadamente direcionadas a um reduzido grupo de iniciados.
Lutero traduz a Bíblia, gravura de Gustav König, (1808–1869), 1847
Para escapar a este antagonismo muitas vezes empobrecedor, seria interessante questionar de onde vem a exigência de que a arte seja perfeitamente compreensível. Uma coletânea de textos teóricos publicada pela Edition Voldemeer (Springer Verlag) discute o conceito de cultura, incorporando a interferência do ininteligível. O livro inclui contribuições de intelectuais de diversas áreas, como teoria literária, filosofia, teoria da ciência, filosofia da religião, teologia, teoria da arte e do cinema.
Arte é feita para ser entendida
"A arte, por exemplo, não se realiza através da compreensão, mas sempre desperta perplexidade e reflexão, na melhor das hipóteses, ou mera incompreensão até o tédio, na pior das hipóteses. A produtiva irritação provocada pelo não compreendido sempre incita à releitura", constata Philipp Stoellger, professor de Teologia do Instituto de Hermenêutica e Filosofia da Religião da Universidade de Zurique.
A releitura talvez seja o critério essencial para diferenciar objetos de arte descartáveis daqueles que desafiam o leitor, observador ou espectador a retornar àquilo que se manteve enigmático durante a apreciação. Mas será que o desafio, neste caso, seria reler e reler e reler, até se desvendar o mistério? É justamente isso que desmente esta coletânea de textos.
Não entender faz parte
Hans-Georg Gadamer, 2000
A Hermenêutica, ciência da compreensão dos textos, desenvolvida tanto como pressuposto teológico da exegese bíblica como método de reflexão filosófica e científica (desenvolvido por Friedrich Schleiermacher, Wilhelm Dilthey, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer, entre outros) parte do pressuposto de que tudo o que não foi compreendido pode ser desvendado por uma leitura cíclica.
O ciclo descreve um movimento da parte ao todo e à parte e ao todo e assim por diante, até se chegar a uma totalidade do objeto apreciado. Neste modelo, a não compreensão é apenas um momento temporário do processo de comunicação, a ser eliminado ou minimizado através deste círculo hermenêutico.
Contra esta posição se voltou não apenas o Pós-Estruturalismo francês, sobretudo a Deconstrução protagonizada pelo filósofo Jacques Derrida. Diferentes correntes teóricas atuais questionam a possibilidade de a comunicação eliminar mal-entendidos ou a própria incompreensão. Ao invés de tentar eliminar o "incômodo" daquilo que não foi compreendido, a idéia seria incorporá-lo como parte essencial do processo comunicativo e sobretudo da apreciação artística.
Do nome secreto ao signo enigmático
Elvis Presley subindo no trem em Bremerhaven (Alemanha), 1958, rumo a Friedberg, onde ficou 18 meses estacionado como soldado
O volume Kultur Nicht Verstehen (Não Comprender Cultura), organizado por diversos teóricos de língua alemã, compreende diferentes visões deste dilema entre comunicação e incompreensão. As contribuições abordam as questões mais diversas, desde as formas de lidar com a denomimnação de Deus na teologia medieval até a historiografia do fenômeno pop Elvis Presley, passando pela função do riso em O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e pela linguagem corporal das artes marciais.
Eliminando qualquer dissociação entre uma "alta cultura" incompreensível e uma cultura de entretenimento acessível, esta publicação compreende uma grande diversidade de repertórios, do pop ao erudito, através da abordagem de uma questão que poderá vir a mudar a forma de apreciar e criticar arte.
Data 27.01.2006
Autor Simone de Mello
Poesia na rede e a malha da palavra
Coluna de Literatura 2006
Após uma fase de experimento com a internet como mídia lúdica de poesia, a rede passa a servir de suporte para projetos literários de maior consistência.
A internet oferece um milhão de respostas para perguntas que ninguém jamais fez (Sir Peter Ustinov)
Doze poetas de língua alemã se juntaram há mais de um ano na plataforma neuedichte.de (novadensidade), para gerar um intercâmbio espontâneo de reflexões circunstanciais e experimentos poéticos. Cada texto se linca a outras contribuições, compondo um diálogo em off, por assim dizer. Em off, porque nem sempre são referências explícitas e frontais que coligam os textos, mas sim contingências e detalhes, nem sempre transparentes ao leitor / usuário à primeira vista.
Ao penetrar neste labirinto, fica claro que o processo de contínua lincagem na internet é correlato ao movimento da linguagem poética, que sempre adia o significado, como se as palavras fossem escorregadias. Estas "afinidades seletivas" entre uma dúzia de poetas geram uma textura bem amarrada, uma consistência densa, lembrando que a palavra Dichtung (poesia, literatura) provém de dicht (denso).
Poesia como resposta à globalização
Cybercafé na Arábia Saudita, 2000
"Este mundo novo [no início do terceiro milênio] não deve e não pode ser descrito apenas por processos econômicos, estratégias de mercado e pelas mídias globais de entretenimento. Ele precisa, na mesma medida, de vozes individuais que se manifestem no singular potencial lingüístico e reflexivo do poema."
"Estas vozes falam a todos. Queremos localizá-las, tanto em sua inovação como em seu vínculo com todas as línguas do mundo, inserindo-as numa mídia mundial a ser acessada de quase todos os cantos da Terra", diz o programa da neuedichte.de.
A iniciativa reúne os poetas Ulrike Draesner, Oswald Egger, Elke Erb, Birgit Kempker, Ursula Krechel, Brigitte Oleschinski, Ilma Rakusa, Monika Rinck, Ferdinand Schmatz, Kathrin Schmidt, Ulf Stolterfoht e Peter Waterhouse.
Antologia poética in progress
Fontshop International, em Berlim, desenvolve novas fontes do alfabeto cirílico
Enquanto os poetas parecem perder gradativamente o interesse pelo potencial meramente lúdico da internet, aumenta a importância da rede como banco de dados e suporte para works in progress. De fevereiro de 2003 a final de 2005, o poeta alemão Ron Winkler (33) criou a antologia online Lyrik.Log, lançando um poema a cada semana.
A coletânea, publicada na revista eletrônica satt.org, inclui quase cem poetas. Encerrada em dezembro passado, é uma amostragem relativamente representativa da produção poética contemporânea de língua alemã.
Ao lado de alguns nomes estrangeiros, a antologia inclui autores como Friederike Mayröcker, Kurt Drawert, Gerhard Falkner, Franzobel, Günter Kunert, Marcel Beyer, Oskar Pastior, Mirko Bonné, Raoul Schrott, Marion Poschmann, entre muitos outros.
Ron Winkler – mestre em literatura alemã com uma tese sobre o poeta Durs Grünbein, editor da revista intendenzen desde 1997 e autor de vereinzelt Passanten (isolados passantes, kookbooks 2004) – resume a intenção do projeto: "O que originalmente foi pensado como um esboço temporário, a Lyrik.Log acompanhou os caminhos e sinais da poesia contemporânea, tornando-se uma pequena biblioteca, não apenas da poesia de língua alemã".
"Autores australianos, poloneses, lituanos, dinamarqueses, russos, ingleses e americanos se inscreveram neste espaço. E como um projeto como este jamais pode prometer ser completo, sua forma fechada pode ser entendida como janela para um universo maior."
Poesia na escrita e na fala
Um outro work in progress poético, porém mais enciclopédico, é o site lyrikline.org. A escolha de poetas representados neste banco de dados é submetida à curadoria de autores alemães e estrangeiros. O repertório ainda não pode ser considerado representativo, dado o caráter progressivo do projeto.
Poesia Digital, Giselle Beiguelmann, Poétrica
As grandes lacunas nas literaturas estrangeiras se devem ao fato de o site ter se iniciado em 1999 exclusivamente como plataforma de língua alemã. O interessante é o foco multilingual do projeto, que inclui poemas na língua original, oferecendo traduções existentes em outros idiomas.
Cada poeta é representado com uma breve biografia, uma lista de publicações e uma seleção de textos acompanhados de áudio. Este é um dos poucos sites em que é possível conferir a sonoridade dos textos lidos, um pressuposto fundamental na apreciação de poesia.
Autor Simone de Mello
Após uma fase de experimento com a internet como mídia lúdica de poesia, a rede passa a servir de suporte para projetos literários de maior consistência.
A internet oferece um milhão de respostas para perguntas que ninguém jamais fez (Sir Peter Ustinov)
Doze poetas de língua alemã se juntaram há mais de um ano na plataforma neuedichte.de (novadensidade), para gerar um intercâmbio espontâneo de reflexões circunstanciais e experimentos poéticos. Cada texto se linca a outras contribuições, compondo um diálogo em off, por assim dizer. Em off, porque nem sempre são referências explícitas e frontais que coligam os textos, mas sim contingências e detalhes, nem sempre transparentes ao leitor / usuário à primeira vista.
Ao penetrar neste labirinto, fica claro que o processo de contínua lincagem na internet é correlato ao movimento da linguagem poética, que sempre adia o significado, como se as palavras fossem escorregadias. Estas "afinidades seletivas" entre uma dúzia de poetas geram uma textura bem amarrada, uma consistência densa, lembrando que a palavra Dichtung (poesia, literatura) provém de dicht (denso).
Poesia como resposta à globalização
Cybercafé na Arábia Saudita, 2000
"Este mundo novo [no início do terceiro milênio] não deve e não pode ser descrito apenas por processos econômicos, estratégias de mercado e pelas mídias globais de entretenimento. Ele precisa, na mesma medida, de vozes individuais que se manifestem no singular potencial lingüístico e reflexivo do poema."
"Estas vozes falam a todos. Queremos localizá-las, tanto em sua inovação como em seu vínculo com todas as línguas do mundo, inserindo-as numa mídia mundial a ser acessada de quase todos os cantos da Terra", diz o programa da neuedichte.de.
A iniciativa reúne os poetas Ulrike Draesner, Oswald Egger, Elke Erb, Birgit Kempker, Ursula Krechel, Brigitte Oleschinski, Ilma Rakusa, Monika Rinck, Ferdinand Schmatz, Kathrin Schmidt, Ulf Stolterfoht e Peter Waterhouse.
Antologia poética in progress
Fontshop International, em Berlim, desenvolve novas fontes do alfabeto cirílico
Enquanto os poetas parecem perder gradativamente o interesse pelo potencial meramente lúdico da internet, aumenta a importância da rede como banco de dados e suporte para works in progress. De fevereiro de 2003 a final de 2005, o poeta alemão Ron Winkler (33) criou a antologia online Lyrik.Log, lançando um poema a cada semana.
A coletânea, publicada na revista eletrônica satt.org, inclui quase cem poetas. Encerrada em dezembro passado, é uma amostragem relativamente representativa da produção poética contemporânea de língua alemã.
Ao lado de alguns nomes estrangeiros, a antologia inclui autores como Friederike Mayröcker, Kurt Drawert, Gerhard Falkner, Franzobel, Günter Kunert, Marcel Beyer, Oskar Pastior, Mirko Bonné, Raoul Schrott, Marion Poschmann, entre muitos outros.
Ron Winkler – mestre em literatura alemã com uma tese sobre o poeta Durs Grünbein, editor da revista intendenzen desde 1997 e autor de vereinzelt Passanten (isolados passantes, kookbooks 2004) – resume a intenção do projeto: "O que originalmente foi pensado como um esboço temporário, a Lyrik.Log acompanhou os caminhos e sinais da poesia contemporânea, tornando-se uma pequena biblioteca, não apenas da poesia de língua alemã".
"Autores australianos, poloneses, lituanos, dinamarqueses, russos, ingleses e americanos se inscreveram neste espaço. E como um projeto como este jamais pode prometer ser completo, sua forma fechada pode ser entendida como janela para um universo maior."
Poesia na escrita e na fala
Um outro work in progress poético, porém mais enciclopédico, é o site lyrikline.org. A escolha de poetas representados neste banco de dados é submetida à curadoria de autores alemães e estrangeiros. O repertório ainda não pode ser considerado representativo, dado o caráter progressivo do projeto.
Poesia Digital, Giselle Beiguelmann, Poétrica
As grandes lacunas nas literaturas estrangeiras se devem ao fato de o site ter se iniciado em 1999 exclusivamente como plataforma de língua alemã. O interessante é o foco multilingual do projeto, que inclui poemas na língua original, oferecendo traduções existentes em outros idiomas.
Cada poeta é representado com uma breve biografia, uma lista de publicações e uma seleção de textos acompanhados de áudio. Este é um dos poucos sites em que é possível conferir a sonoridade dos textos lidos, um pressuposto fundamental na apreciação de poesia.
Autor Simone de Mello
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