domingo, 11 de setembro de 2011
Paredão
Uma cidade toda paredão
Paredão em volta das casas
Em volta, paredão, das almas
O paredão dos precipícios
O paredão familiar.
Ruas feitas de paredão
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão
Paredão de úmidade e sombra
sem uma fresta para a vida
A canivete perfurá-lo,
a unha , a dente, a bofetão
Se do outro lado existe apenas
Outro, mais outro, paredão ?
Carlos Drumond de Andrade
Paredão em volta das casas
Em volta, paredão, das almas
O paredão dos precipícios
O paredão familiar.
Ruas feitas de paredão
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão
Paredão de úmidade e sombra
sem uma fresta para a vida
A canivete perfurá-lo,
a unha , a dente, a bofetão
Se do outro lado existe apenas
Outro, mais outro, paredão ?
Carlos Drumond de Andrade
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
NATURAL (DO NATURAL)
Do sal
sabor, saliva boa.
Da tinta
... as cores do cabelo
que voa.
Da areia
arte, imaginação.
Do vento
a vida que se aloja
na ação.
Do sol
a luz, o olho que vem.
Do céu
a certeza que grita
no bem.
Dalton Luiz Gandin
sabor, saliva boa.
Da tinta
... as cores do cabelo
que voa.
Da areia
arte, imaginação.
Do vento
a vida que se aloja
na ação.
Do sol
a luz, o olho que vem.
Do céu
a certeza que grita
no bem.
Dalton Luiz Gandin
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
©Olegário Mariano
In Ba-Ta-Clan, 1924
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
©Olegário Mariano
In Ba-Ta-Clan, 1924
NO JARDIM DO MOSTEIRO
Poema integrante da série I: Da Morte.
No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim
Autor: Neide Archanjo
No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim
Autor: Neide Archanjo
O LIXO
plásticos voando baixo
cacos de uma garrafa
pétalas
sobre o asfalto
aquilo
que não mais
se considera útil
ou propício
há um balde
naquela lixeira
está nos sacos
jogados na esquina
caixas de madeira
está nos sacos
ao lado da cabine
telefônica
o lixo está contido
em outro saco
restos de comida e cigarros
no canteiro, sem a árvore,
lixo consentido
agora sob o viaduto
onde se confunde
com mendigos
Régis Bonvicino
cacos de uma garrafa
pétalas
sobre o asfalto
aquilo
que não mais
se considera útil
ou propício
há um balde
naquela lixeira
está nos sacos
jogados na esquina
caixas de madeira
está nos sacos
ao lado da cabine
telefônica
o lixo está contido
em outro saco
restos de comida e cigarros
no canteiro, sem a árvore,
lixo consentido
agora sob o viaduto
onde se confunde
com mendigos
Régis Bonvicino
AGONIA
uma gaivota rente ao mar
voa entre os barcos
no pôr-do-sol
toca
asas na água
sem o peixe
voando em círculos
perto da árvore
em bando barcos parados
a voz da gaivota,
aguda, ecoa
rumo ao mar
fechado, mergulha
imersa, agora, como ostra
destroça o peixe
entre as patas gaivotas a lua?
na água que apagou
nuvens sobre a montanha
onde já é quase noite
acima um céu azul ainda
horizonte uma gaivota voa
luz acesa da ponte
silêncio íntimo da baía
cor no entanto a onda
Régis Bonvicino
Régis Bonvicino é autor de vários livros de poesia, entre eles: Bicho papel (SP, Groove, 1975); Régis Hotel (SP, Groove, 1978); Sósia da cópia (SP, Max Limonad, 1983); Más companhias (SP, Olavobrás, 1987); 33 poemas (SP, Iluminuras, 1990); Outros poemas (SP, Iluminuras, 1993); Ossos de borboleta (SP, 34, 1996); Céu-eclipse (SP, 34, 1999); Remorso do cosmos (SP, Ateliê, 2003).
voa entre os barcos
no pôr-do-sol
toca
asas na água
sem o peixe
voando em círculos
perto da árvore
em bando barcos parados
a voz da gaivota,
aguda, ecoa
rumo ao mar
fechado, mergulha
imersa, agora, como ostra
destroça o peixe
entre as patas gaivotas a lua?
na água que apagou
nuvens sobre a montanha
onde já é quase noite
acima um céu azul ainda
horizonte uma gaivota voa
luz acesa da ponte
silêncio íntimo da baía
cor no entanto a onda
Régis Bonvicino
Régis Bonvicino é autor de vários livros de poesia, entre eles: Bicho papel (SP, Groove, 1975); Régis Hotel (SP, Groove, 1978); Sósia da cópia (SP, Max Limonad, 1983); Más companhias (SP, Olavobrás, 1987); 33 poemas (SP, Iluminuras, 1990); Outros poemas (SP, Iluminuras, 1993); Ossos de borboleta (SP, 34, 1996); Céu-eclipse (SP, 34, 1999); Remorso do cosmos (SP, Ateliê, 2003).
domingo, 28 de agosto de 2011
For You
Tranque a porta
Baby
Rasgue a roupa
Dependure as rosas
No varal
No penhor
Todo o meu.
Oh baby
Seque a garganta
Antes de (me) dizer
Que é todo seu
O meu.
Celia Regina Cavalheiro
Microclima
Um domingo de manhã com sol, tão fácil
apaixonar-se, acordar mais tarde,
talvez em Abril
ou nas súbitas variações primaveris
do final de Fevereiro,
é fácil apaixonar-se
– apaixonei-me por ti muitas vezes no cais –
do azul, das conversas
dos amigos, sorrisos.
São estes céus insuperáveis, sempre demasiado breves
as horas para as pupilas,
a condicionar as nossas mentes,
as psicologias,
e já não sei viver
na esterilidade sem sentido de culpa.
O que poderia ser – as folhas
nesta avenida comprida, os papéis
nos grandes contentores da freguesia, de madeira – entre nós.
As dissonâncias.
A nossa fronteira são os Alpes
quase azuis, a neve de ontem à noite
faz-nos falar, sentia-se que estava para cair.
Se caísse sobre a cidade sobre a praia
como em oitenta e cinco, as escolas
fechadas, a irrealidade de tudo – outros desesperos.
Os chuviscos tardios nas avenidas que se alagam
facilmente nos lados
e à noite muitas vezes se encontra uma névoa amanteigada
como se estivéssemos no parmigiano. Seguem-se
mal-estares, olheiras, por factos
tão repentinos
e depois as danosas marulhadas, mas também estas
com a sua misteriosa violência, também estas
são qualquer coisa que deve existir
GABRIEL DEL SARTO
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
DE MIM O SOPRO
Olhando p’ra mim respiro o que escrevo
Palavras saídas sentidas de dentro
Anseios alados vividos esfumados
...Penumbras trazidas lonjuras guardadas
Revejo remiro ilusão tormento
Dor incontida angustia momento
Ajusto de coisas figuras passadas
Princípio sem fim saudades amargas
Atento deslumbro contento contacto
Vidas sofridas tão de abstracto
Resumo consumo nas dobras do tempo
Revejo reverso no verso de mim
Tristeza ternura confusão sem fim
Sou ponto de vida exclamação d’alguém
Certeza concisa colhida de quem
Trazida embalada de questões e razões
Olhar maduro que pinga ilusões
Sérgio Matos
Palavras saídas sentidas de dentro
Anseios alados vividos esfumados
...Penumbras trazidas lonjuras guardadas
Revejo remiro ilusão tormento
Dor incontida angustia momento
Ajusto de coisas figuras passadas
Princípio sem fim saudades amargas
Atento deslumbro contento contacto
Vidas sofridas tão de abstracto
Resumo consumo nas dobras do tempo
Revejo reverso no verso de mim
Tristeza ternura confusão sem fim
Sou ponto de vida exclamação d’alguém
Certeza concisa colhida de quem
Trazida embalada de questões e razões
Olhar maduro que pinga ilusões
Sérgio Matos
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
FLUXOS RUBROS
primeiro foi a manhã
ruiva leoa:
patas de tulipas
e rugidos de papoulas
depois o fogo
artéria de hélio
glóbulos celsius
irrigando a terra
por fim: o crepúsculo
portal de rubis
entre astros que nascem
e azuis
que desintegram
Adriano Wintter
nasceu e reside em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi um dos vencedores do Festival de Música, Poesia e Conto de Paranavaí (Femup 2010), com o poema "Os átilas". Permanece inédito em livro. Edita o blogue Ars Poetica - AW (http://adrianowintter.wordpress.com).
Garganta
Eu sou um rasgo
- entre um trago e outro -
um canto profundo
feito silêncio
vão
que germina em vasos alheios.
Vasos grandes,
recheados de picas,
falocratas,
postas nas mesas-bocas
escuras e quentes,
vício maldito
dos porões
Eliana Pougy
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