terça-feira, 28 de junho de 2011

Tua mão em mim

Você me acorda no meio da noite

e eu que navegava tão distante

cravada a proa em espumas

desfraldados os sonhos

afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis

a boca ainda salgada mas já amarga

molhada a crina

encharcados os pêlos

na maresia que do meu corpo escorre.

Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.

A correnteza arrasta.

Só quando o primeiro sopro escapar

entre os lábios da manhã

levantarei âncora.

Mas será tarde demais.

O sol nascente terá trancado o porto

e estarei prisioneira da vigília.

Marina Colasanti,

Gargantas abertas, Editora Rocco, 1998 – Rio de Janeiro, Brasil

Carinho da igual

Eu quero mais é um carinho da igual.

Beber dessa doçura ímpar feminina-letal.

Trocar tocando seios que se bicam, magnéticos.

Saborear teus cheiros de menina, elétricos.



Eu quero mais é essa doçura sem igual.

Derreter nesses carinhos não homem-sexuais.

Beijar trocando línguas que se roçam, nirvanescas.

Acariciar tua púbis de menina – e sonhar, quixotesca.



Eu quero mais é esse prazer indizível que é teu prazer também.

Esse trocar de iguais tão diferentes de tudo – e tão bom.

Essa magia incandescente que só nasce de pólos-poros-peles iguais,

Que se tocam-retocam-retrocam criando amor.



Eu quero mais é beber dessa magia de nós duas,

Nuas e eternas,

Ternamente nuas,

Virando uma.

Criando mel-de-vida.

Fabricando amor.

Notívaga Noturna

domingo, 26 de junho de 2011

"Eis aí uma das primeiras funções do mito: a apodixe explicativa historiográfica, a qual não revela a História apenas como sucessão de eventos dispostos no tempo e no espaço, mas como essência ilimitada, capaz de explicar-se e implicar-se, indefinidamente, conforme novas necessidades de associação com casos concretos. [...] Quando o educando passa a compreender que a imagem da Hidra se refere, analogicamente, ao pântano de Lerna enquanto forma, a apropriação de uma herança heraclida real está perfeita na sua educação: dá-se aí a catástrofe trágica da imagem mítica e a liberação extática da verdade sobre a potência brutal que a força dória, Héracles, soube domar para bem da civilização grega."






A REDESCOBERTA DO FUTURO E DA DIVERSIDADE NO EMBRIÃO DE UMA PAIDEIA PÓS-MODERNA



Teses principais



1 - Apodixe metafórica explicativa e elogio da diversidade.

- http://ensaiosde-igorbuys.blogspot.com/

O sexo é sagrado…

O sexo é sagrado,

como salgadas são as gotas de suor

que brotam dos meus poros

e encharcam nossas peles.

A noite é meu templo

onde me torno uma deusa enlouquecida

sentindo teus pelos sobre a minha pele.

Neste instante já não sou nada,

somente corpo,

boca,

pele,

pêlos,

línguas,

bocas.

E a vida brota da semente,

dos poucos segundos de êxtase.

Tuas mãos como um brinquedo

passeiam pelo meu corpo.

Não revelam segredos

desvendam apenas o pudor do mundo,

descobrem a febre dos animais.

Então nos tornamos um

ao mesmo tempo em que

a escuridão explode em festa.

A noite amanhece sem versos,

com a música do seu hálito ofegante.

O sol brota de dentro de mim.

Breves segundos.

Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.

Eu fui feliz

Cláudia Marczak

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vida

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta feira...

Quando se vê, já terminou o ano...

quando se vê, passaram-se 50 anos!



Agora, é tarde demais para ser reprovado...

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo

caminho, a casca dourada e inútil das horas..

Dessa forma eu digo:



Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta

de tempo, a única falta que terá, será desse tempo

que infelizmente não voltará mais.


Mário Quintana
Por muito tempo, eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade.


Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. aí sim, a vida de verdade começaria.



Por fim, cheguei à conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade.

Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade.

A felicidade é o caminho! Assim, aproveite todos os momentos que você tem.

E aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém.

Portanto, pare de esperar até que você termine a faculdade; até que você volte para a faculdade; até que você perca 5 kg; até que você ganhe 5 kg; até que seus filhos tenham saído de casa; até que você se case; até que você se divorcie; até sexta à noite até segunda de manhã; até que você tenha comprado um carro ou uma casa nova; até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos; até o próximo verão, outono, inverno; até que você esteja aposentado; até que a sua música toque; até que você tenha terminado seu drink; até que você esteja sóbrio de novo; até que você morra; e decida que não há hora melhor para ser feliz do que agora mesmo ...

Lembre-se: felicidade é uma viagem, não um destino.



Autoria de Henfil

O estrangeiro

O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara

O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela

A Baía de Guanabara

O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara

Pareceu-lhe uma boca banguela

E eu, menos aa conhecera, mais a amara?

Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela

O que é uma coisa bela?

O amor é cego

Ray Charles é cego

Stevie Wonder é cego

E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem

Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?

Uma arara?

Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara

Em que se passara passa passará um raro pesadelo

Que aqui começo a contruir sempre buscando o belo e o Amaro

Eu não sonhei:

A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel

Sob meus tênis

E o Pão de Açúcar menos óbvio possível

À minha frente

Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas

À áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura

Do branco das areias e das espumas

Que era tudo quanto havia então de aurora

Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas

E uma menina ainda adolescente e muito linda

Não olho pra trás mas sei de tudo

Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo

Mas eu não desejo ver o terno negro do velho

Nem os dentes quase-não-púrpura da menina

(Pense Seurat e pense impressionista

Essa coisa da luz nos brancos dente e onda

Mas não pense surrealista que é outra onda)

E ouço as vozes

Os dois me dizem

Num duplo som

Como que sampleados num Sinclavier:

"É chegada a hora da reeducação de alguém

Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém

O certo é louco tomar eletrochoque

O certo é saber que o certo é certo

O macho adulto branco sempre no comando

E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo

Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita

Riscar os índios, nada esperar dos pretos"

E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento

Sigo mais sozinho caminhando contar o vento

E entendo o centro do que estão dizendo

Aquele cara e aquela:

É um desmascaro

Singelo grito:

"O rei está nu"

Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu

E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo

E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo

("Some may like a soft brazilian singer

But I've given up all attempts at perfection")

Caetano Veloso


 

© Editora Gapa

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os esforços dos homens para trazer as mulheres sob seu controle foram acompanhadas por medos e superstições continuando sobre os poderes das mulheres. No folclore russo, a figura mais poderosa do sexo feminino foi Baba Yaga. Embora voltada tanto para o bem quanto para o mal, Baba Yaga era acima de tudo poderosa e devia ser temida. Outras figuras femininas no folclore foram as rusalkas. Em diferentes partes do país  tomou formas diferentes, mas estavam sempre a ser temidas por seus poderes sobre os homens. Moscovitas acreditava piamente em poderes mágicos. A magia das mulheres foi mais frequentemente associada com "magia negra" ou para o mal; a magia dos homens com o bem. Sem dúvida, algumas mulheres optaram por prosseguir o ocultismo, a fim de capacitar-se em uma sociedade que belittled e controlado-los. Bruxas e a punição de bruxas são um tema freqüente nos escritos da Igreja no séculos XV a XVII. Como a igreja ocidental, a Igreja Ortodoxa teve uma atitude ambivalente para as mulheres. Juntamente com a adoração da Virgem Maria era a imagem de Eva a tentadora. Mulheres e o pecado foram associados e sexualidade era suspeita. Só as mulheres de idade, após a idade de atividade sexual foram consideradas como puras e tão somente as mulheres de idade tinham permissão para assar o pão para a comunhão. O amor não era geralmente um motivo para o casamento. Ganho econômico ou social era. E assim a maioria dos casamentos eram arranjados, sem a noiva e o noivo ter visto um ao outro. Uma exceção foi Ivan, o Terrível, e sua esposa Anastasia. Sexo no casamento era, naturalmente, permitida para a procriação, mas foi proibida na véspera de feriados religiosos, em dias de jejum e durante toda a Quaresma. Antes de fazer amor com sua esposa de um homem era esperado para remover as cruzes que usavam em seus pescoços. Sacerdotes russos foram proibidos de oferecer os Sacramentos se tivessem tido relações sexuais com suas esposas na noite anterior.

fonte : https://tspace.library.utoronto.ca/citd/RussianHeritage/9.WO/WO.5.html

Uma faca só lâmina

(ou serventia das idéias fixas )

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espeswso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
No músculo de um homem
Pesando-o mais de um lado;

Qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

1955

João Cabral de Melo Neto

Morte e Vida Severina, Rio de Janeiro, Alfaguara, 2007

sábado, 18 de junho de 2011

Figadal

Agora sim estou preparado pra não gostar do que quer que seja em você.Tenho tanta certeza da droga que você vai me oferecer , que nem ficarei louco. Ficarei é calmo, entre morto de ódio e de tédio, se você quer saber .Aliás, se você quer mesmo saber, compre os seus próprios livros (na hipótese de que ensinem alguma coisa depois de escritos): leia os clássificados de aluguel. Encontrei esse lugar bem quentinho pro meu deserto , onde a desolação fermenta esterelidade. Diga ao povo que fico é aqui. Nem vou me coçar. Claro que você não perderá uma chance de me encher o saco. É o pouco do muito que eu sei. Vamos...pode mandar. Mostre-me o que você quiser. Nem ligo. Tenho um fígado inteiro pra nos servir em prato frio.

Fernando Bonassi. "Da Rua "
http://lovetheuglytoo.tumblr.com/

A relatividade da idade de ouro segundo Allen

Até quem não gosta de Woody Allen tem gostado deste Woody Allen. Por que, teria ele errado a mão em Meia Noite em Paris? Nada disso. É o mesmo Woody de sempre, inventivo, engraçado, profundo. Quer dizer, um artista em sua maturidade, que não se cansa de escavar em seu inesgotável imaginário na busca de novas histórias para retrabalhar velhos temas. Quem é muito ligado em novidades não nota isso. Novidades passam como o vento, e em geral é tudo bobagem. Nada fica. O velho e bom Allen permanece. Acontece que esse filme tem tanta leveza que mesmo gente ranzinza ou ávida pela última “grande obra” lançada pela indústria do entretenimento parece capaz de desfrutá-lo. O que é ótimo. Faltam humor e inteligência ao mundo.

E é com inteligência e humor que Allen trabalha em Meia Noite em Paris um conceito em aparência complexo: existe uma idade de ouro da humanidade ou ela é só construção mental de quem vive insatisfeito em seu próprio tempo?

Essa questão, na verdade fascinante, ganha corpo na figura do escritor Gil (Owen Wilson), que se encontra em Paris com a noiva chatinha e os futuros sogros, riquíssimos. Gil é uma alma que poderíamos chamar de romântica. Ou de civilizada, dependendo do ponto de vista. O contraponto aqui é entre a Europa, refinada, suposta amante das artes, e os Estados Unidos, brutalizados pelo dinheiro. Civilização x barbárie. Uma dicotomia meio tosca (como quase todas), muitas vezes utilizada pelos europeus em causa própria, mas raramente por um norte-americano, como Allen. Também é verdade que Woody Allen hoje consegue filmar na Europa e não em seu país. Fatos são fatos.

De qualquer forma, a mística europeia – a de Paris, em particular – historicamente provocou um êxodo da intelligentsia norte-americana para lá nos anos 1930 e 30. Zelda e Scott Fitzgerald, Hemingway e Gertrude Stein frequentavam-se e a outros europeus na diáspora, como os espanhóis Picasso, Salvador Dalí e Luis Buñuel. Todos em Paris, centro do mundo, de outro mundo que não o nosso. Estaria lá e naquele tempo a tal idade de ouro? Pode ser, pode não ser.

Allen usa um expediente de ficção científica, a viagem no tempo, para debater a questão. Mistura figuras reais a personagens imaginárias, como o próprio Gil e também as dulcíssimas Adriana (Marion Cotillard) e Gabrielle (Léa Seydoux). Ambas francesas e incumbidas de “mostrar” a Gil as ambivalências da idealização, por um lado. E também certa sabedoria da vida, simples como gota d”água, aquela que consiste em aproveitar o melhor possível o tempo que nos é dado, já que é tudo o que temos. Talvez haja algum didatismo na maneira como esse teorema se demonstra em Meia Noite em Paris. Como se Woody Allen tivesse medo de que o público não o seguisse de todo.

Ninguém pode culpá-lo por esse receio, e só podemos agradecê-lo e curtir mais este filme solar, daqueles raros a nos dar alguma esperança que não pareça fraudulenta ou ingênua.

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

Por que nome chamaremos



Por que nome chamaremos

quando nos sentirmos pálidos

sobre os abismos supremos?

De que rosto, olhar, instante,

veremos brilhar as âncoras

para as mãos agonizantes?

Que salvação vai ser essa,

com tão fortes asas súbitas,

na definitiva pressa?

Ó grande urgência do aflito!

Ecos de misericórdia

procuram lágrima e grito,

– andam nas ruas do mundo,

pondo sedas de silêncio

em lábios de moribundo.

Cecília Meireles


Melhores Poemas, Global Editora, 1984 – S.Paulo, Brasil

Reflexão

Há certas almas

como as borboletas,

cuja fragilidade de asas

não resiste ao mais leve contato,

que deixam ficar pedaços

pelos dedos que as tocam.





Em seu vôo de ideal,

deslumbram olhos,

atraem as vistas:

perseguem-nas,

alcançam-nas,

detem-nas,

mas, quase sempre,

por saciedade

ou piedade,

libertam-nas outra vez.





Ela, porém, não voam como dantes,

ficam vazias de si mesmas,

cheias de desalento...





Almas e borboletas,

não fosse a tentação das cousas rasas;

- o amor de néctar,

- o néctar do amor,

e pairaríamos nos cimos

seduzindo do alto,

admirando de longe!...









Gilka Machado

(in Sublimação, 1928)

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco,

faço o pouco que me cabe

me dando inteiro.

Sabendo que não vou ver

o homem que quero ser.



Já sofri o suficiente

para não enganar a ninguém:

principalmente aos que sofrem

na própria vida, a garra

da opressão, e nem sabem.



Não tenho o sol escondido

no meu bolso de palavras.

Sou simplesmente um homem

para quem já a primeira

e desolada pessoa

do singular - foi deixando,

devagar, sofridamente

de ser, para transformar-se

- muito mais sofridamente -

na primeira e profunda pessoa

do plural.



Não importa que doa: é tempo

de avançar de mão dada

com quem vai no mesmo rumo,

mesmo que longe ainda esteja

de aprender a conjugar

o verbo amar.



É tempo sobretudo

de deixar de ser apenas

a solitária vanguarda

de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.

(Dura no peito, arde a límpida

verdade dos nossos erros.)

Se trata de abrir o rumo.



Os que virão, serão povo,

e saber serão, lutando.

Thiago de Mello





Faltam-te pés para viajar?


Viaja dentro de ti mesmo,

e reflete, como a mina de rubis,

os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,

transmutará teu pó em ouro puro.





RUMI

SILENCE

I could spend my life hearing your silence

cause it springs like the voice of the rose,

it sings like the rhythm of the ocean,

when there is no sound between the waves.

I stop everything that I've been doing with my soul,

with my wings, and I use them to listen and keep.



You are not like everybody else.



You are like an one that came from the galaxies,

with veils of light or tissue, white or blue, or something

and everything that we want is to be pleasant,

cause we are burning of tenderness.

But there is a fear which stabs the stomach,

a fear of doing the wrong thing, being untimely,

being too much Latin-American and brute.

So when a smile becomes true, it's the eden,

the contact with the higher, the beautiful, the pure.



I could spend my life listening to your silence.

Cause it is religion. And I never found that kind of peace before.





Igor Buy