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sábado, 6 de outubro de 2012


" Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outros; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos. (...)


 João Cabral de Melo Neto.

sábado, 24 de setembro de 2011

Em missão, de Dacar a Bissau

O avião-táxi me apeia em Bissau,
vindo de ambíguo mar-areia.
Apeio;já nado o ar Recife;
súbito, a gota de uma igreja !

Igreja mais extraordinária:
do fio insosso das modernas,
rente à avenida, salva-a porém
a praça que a espaldas dela.

Ali reencontrei a alma úmida
das casas de porta e janela,
de um tijolo amadurecido
a sombra -poço de mangueiras.

João Cabral de Mello Neto
in:O artista inconfessável, Rio de Janeiro, Objetiva,2007.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O artista incofessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer  e não fazer
mas vale o inútil do fazer.
Mas não fazer para esquecer
que é inútil : nunca o esquecer
Mas fazendo o inútil sabendo
que é inútil  e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer:porque ele é mais difícil
do que não fazer, e difícil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mas direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

João Cabral de Mello Neto
in: O Artista inconfessável, Rio de Janeiro, Objetiva,2007.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma faca só lâmina

(ou serventia das idéias fixas )

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espeswso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
No músculo de um homem
Pesando-o mais de um lado;

Qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

1955

João Cabral de Melo Neto

Morte e Vida Severina, Rio de Janeiro, Alfaguara, 2007

domingo, 24 de abril de 2011

O artista inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer.
mais vale o inútil do fazer.
Mas não fazer para esquecer
que é inútil; nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil , e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais dificil-
mente se poderás dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

João Cabral de Mello Neto.
in: O artista inconfessável, Rio de Janero .Objetiva, 2007