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domingo, 15 de julho de 2012

La Ciudad y los Perros, o filme

Luiz Zanin – O Estado SP

O romance de formação de Mario Vargas Llosa, La Ciudad y los Perros, que completa 50 anos, ganhou uma bela adaptação para cinema, em 1985, dirigida pelo cineasta peruano Francisco Lombardi.

Francisco “Paco” Lombardi é o principal diretor de cinema do Peru, e já verteu para a tela grande outra obra de seu conterrâneo Vargas Llosa, o satírico Pantaleão e as Visitadoras (1999), que chegou a concorrer no Festival de Gramado, aqui no Brasil.

Em La Ciudad y los Perros (conservamos o nome original porque o filme não teve lançamento comercial no País), Lombardi consegue captar o clima opressivo descrito no romance.

Temos lá, em 144 minutos de ação tensa e realista, a descrição fiel do ambiente da Academia Militar de Lima, na qual os cadetes são tratados sob rígida disciplina pelos superiores, em especial por um tenente durão, Gamboa (Gustavo Bueno, artista frequente em filmes de Lombardi, como Boca do Lobo, sobre o Sendero Luminoso).

Mas o que fica também clara é a hierarquia que se estabelece entre os próprios alunos, com a dominância do mais forte (o “Jaguar”) sobre os mais fracos. Um deles é apelidado de “o escravo” pelos outros e vive espezinhado porque não consegue se defender e só sobrevive pela submissão total. Ele será o pivô de uma tragédia que envolve todos os outros e arrasta a Academia a uma crise. O próprio Llosa se retrata através de um alter ego, “o Poeta” (Pablo Serra), cadete com veleidades literárias, que escreve histórias eróticas a troco de cigarro e bebidas. Mas, além disso, o Poeta será também uma espécie de consciência crítica, antecipando o papel do intelectual que Llosa se reserva diante da sociedade peruana. Será ele não o causador da crise, mas o catalisador de uma situação difícil de ser controlada pela hierarquia. Por essa ação, verá seu poder, mas também as limitações próprias de todo intelectual. O livro e o filme são premonitórios, de certa forma.

Por meio de uma mise-en-scène vigorosa, Lombardi retrata essa rigidez de superfície que esconde uma dupla moral vigente na Academia. Por trás do ambiente de extrema legalidade, instaura-se um tráfico de produtos proibidos comandada pelos alunos e que só pode sobreviver pela conivência de alguns militares de patentes superiores. É uma rede hipocrisias que só pode ser desvendada por que algo fora do controle, como a morte de um aluno, acabou acontecendo sob as barbas dos superiores. Mesmo assim, quem ocupa os postos mais altos da hierarquia tentará acobertar o crime e os possíveis criminosos sob o pretexto de que uma investigação seria prejudicial para a Academia. O desfecho é brilhante. E desalentador para quem acredita na pureza das instituições. Militares ou não porque salta à vista que a crítica de Llosa é mais geral e se estende à sociedade opressiva em seu todo.

De certa forma, a mesma crítica à rigidez e à dupla moral será feita, em outro registro, em Pantaleão e as Visitadoras, o outro romance de Llosa adaptado por Lombardi. Em La Ciudad y los Perros era a violência sob o verniz da ordem; em Pantaleão, é a questão da sexualidade. A história é hilária. Num posto avançado nas selvas peruanas, os soldados sofrem com a falta de sexo. Há notícias de estupros praticados contra mulheres das localidades remotas. Para resolver o problema é instituído um serviço de prostitutas para aplacar a libido da soldadesca. Pantaleão é o oficial destacado para organizar – com minúcia militar – esse serviço de importância estratégica.

Pelo riso, Llosa chega a resultado semelhante ao que consegue pelo drama em La Ciudad y los Perros.

sábado, 18 de junho de 2011

A relatividade da idade de ouro segundo Allen

Até quem não gosta de Woody Allen tem gostado deste Woody Allen. Por que, teria ele errado a mão em Meia Noite em Paris? Nada disso. É o mesmo Woody de sempre, inventivo, engraçado, profundo. Quer dizer, um artista em sua maturidade, que não se cansa de escavar em seu inesgotável imaginário na busca de novas histórias para retrabalhar velhos temas. Quem é muito ligado em novidades não nota isso. Novidades passam como o vento, e em geral é tudo bobagem. Nada fica. O velho e bom Allen permanece. Acontece que esse filme tem tanta leveza que mesmo gente ranzinza ou ávida pela última “grande obra” lançada pela indústria do entretenimento parece capaz de desfrutá-lo. O que é ótimo. Faltam humor e inteligência ao mundo.

E é com inteligência e humor que Allen trabalha em Meia Noite em Paris um conceito em aparência complexo: existe uma idade de ouro da humanidade ou ela é só construção mental de quem vive insatisfeito em seu próprio tempo?

Essa questão, na verdade fascinante, ganha corpo na figura do escritor Gil (Owen Wilson), que se encontra em Paris com a noiva chatinha e os futuros sogros, riquíssimos. Gil é uma alma que poderíamos chamar de romântica. Ou de civilizada, dependendo do ponto de vista. O contraponto aqui é entre a Europa, refinada, suposta amante das artes, e os Estados Unidos, brutalizados pelo dinheiro. Civilização x barbárie. Uma dicotomia meio tosca (como quase todas), muitas vezes utilizada pelos europeus em causa própria, mas raramente por um norte-americano, como Allen. Também é verdade que Woody Allen hoje consegue filmar na Europa e não em seu país. Fatos são fatos.

De qualquer forma, a mística europeia – a de Paris, em particular – historicamente provocou um êxodo da intelligentsia norte-americana para lá nos anos 1930 e 30. Zelda e Scott Fitzgerald, Hemingway e Gertrude Stein frequentavam-se e a outros europeus na diáspora, como os espanhóis Picasso, Salvador Dalí e Luis Buñuel. Todos em Paris, centro do mundo, de outro mundo que não o nosso. Estaria lá e naquele tempo a tal idade de ouro? Pode ser, pode não ser.

Allen usa um expediente de ficção científica, a viagem no tempo, para debater a questão. Mistura figuras reais a personagens imaginárias, como o próprio Gil e também as dulcíssimas Adriana (Marion Cotillard) e Gabrielle (Léa Seydoux). Ambas francesas e incumbidas de “mostrar” a Gil as ambivalências da idealização, por um lado. E também certa sabedoria da vida, simples como gota d”água, aquela que consiste em aproveitar o melhor possível o tempo que nos é dado, já que é tudo o que temos. Talvez haja algum didatismo na maneira como esse teorema se demonstra em Meia Noite em Paris. Como se Woody Allen tivesse medo de que o público não o seguisse de todo.

Ninguém pode culpá-lo por esse receio, e só podemos agradecê-lo e curtir mais este filme solar, daqueles raros a nos dar alguma esperança que não pareça fraudulenta ou ingênua.

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

sábado, 21 de maio de 2011

Kafka e o horror neutro

“É um aparelho singular.” Desse modo, um oficial descreve ao visitante a máquina de execuções em Na Colônia Penal, de Franz Kafka. Essa frase inicial está na primeira cena da versão da graphic novel de Sylvain Ricard (roteiro), Maël (desenho) e Albertine Ralenti (cores), álbum agora lançado em português na tradução de Carol Bensimon pelo selo Quadrinhos na Cia.

Trata-se de um trabalho gráfico bastante sofisticado. Preserva o sumo da história de Kafka e a ilustra com desenhos muito expressivos, que ressaltam o absurdo da trama. O comandante, com seus olhos delirantes, é o personagem principal, que tenta explicar ao visitante o funcionamento da máquina e a beleza da administração da justiça que dela advém.

A primeira frase é um emblema. A máquina de tortura é apenas “singular”. Uma proeza técnica, na qual o engenho humano para infligir sofrimento ao seu semelhante é elevado à categoria de arte. Em sua descrição, o aparelho não é terrível, nem desumano, ou qualquer outro termo que expresse juízo de valor. É apenas singular, fruto da genialidade de outro comandante, antecessor deste que narra e se apresenta como guardião de uma tradição. Ao lado jaz, acorrentado, o pobre-diabo que provará da ação da máquina para deleite do comandante e ilustração do visitante. É um soldado raso que dormiu durante seu turno de guarda e reagiu com violência ao relho do seu superior.

A descrição da máquina “singular” é minuciosa. Trata-se de um aparelho munido de agulhas que imprimem a sentença no corpo do prisioneiro, perfurando-o cada vez mais fundo. O processo inteiro dura 12 horas e, nos “bons tempos”, segundo o oficial, era presenciado por toda a população da cidade. Mesmo pelas crianças, que tinham acesso privilegiado às proximidades do cadafalso. Afinal, era um espetáculo e uma lição. A finalidade: fazer com que o condenado, através da dor, compreendesse, em seu corpo, a verdade da sentença e a sabedoria da justiça.

No traço de Maël, a máquina é apresentada em seus detalhes, sem que a vejamos em seu todo, o que a torna ainda mais terrível. Ressaltam as agulhas compridas, as engrenagens, a mordaça que é colocada na boca para que os gritos da vítima não perturbem o público. Soturno, Maël faz jus a uma das características marcantes de Kafka, a de transformar objetos em personagens e personagens em objetos. Relação de intercâmbio entre homens e coisas que faz a genialidade de sua obra, talvez a mais poderosa sobre a desumanização da espécie.

Em seu texto, Kafka usa sua melhor arma ao tratar com fria objetividade uma situação absurda – não por acaso, Ernesto Sábato o chamava de escritor absolutamente realista. O que há de terrível em sua escrita é o contraste entre aquilo que descreve e a maneira como é descrito. Kafka naturaliza o horror e, assim o fazendo, o coloca diante de nós como um terrível espelho.

Sua paródia sinistra da justiça, apresentada em Na Colônia Penal, é esmiuçada passo a passo. Aquele que vai morrer sabe qual a sentença? Não. Sabe que foi condenado? Não. Sabe como foi conduzida a sua defesa? Não, ele não teve oportunidade de se defender. O oficial prossegue: se tivesse sido interrogado, contaria um monte de mentiras, advogados dariam sua interpretação e perderíamos tempo precioso nesse emaranhado de versões. Tudo pode ser mais simples: “O princípio segundo o qual eu sentencio é de que a culpabilidade nunca deixa dúvidas”. O réu é culpado de antemão, como em O Processo.

Em seu ensaio clássico, Kafka – Pró & Contra (Cosac Naify, 2007), Günther Anders fala da “calma sobriedade de Kafka”, referindo-se, justamente, a Na Colônia Penal. O livro de Anders é de 1946, lançado na ressaca da 2.ª Guerra Mundial, quando então o autor pôde aproximar esse absurdo da violência do texto kafkiano e a mistura de civilização e barbárie do 3.º Reich. Nos campos de extermínio, os nazistas construíam para si aposentos sofisticados, com toca-discos, estofados e abajures, separados por meia parede das câmaras de gás. Talvez a imaginação de Kafka não chegasse a esse ponto.

No entanto, ele escreve Na Colônia Penal em 1919, após a débâcle da civilização europeia na 1.ª Guerra. Essa noção do absurdo, que bebe na natureza humana mas também em sua contingência histórica, continua a garantir atualidade aos textos de Kafka. Afinal, como escreve no prefácio o roteirista da HQ, Sylvain Ricard, “Um olhar para a atualidade, para nossas telas de televisão, pode indicar que o homem colocou com frequência a sua inventividade a serviço da destruição do outro e que a fascinação diante da dor é cada vez mais banalizada. …Não há sombra de dúvida de que uma execução pública na Place de la Concorde teria mais sucesso e mais telespectadores que qualquer outra festividade. O que explica como a obra fascinante que é Na Colônia Penal se torna o espelho da sociedade em que vivemos e daquilo que somos.” Quem há de negar?

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo



NA COLÔNIA PENAL

Autor: Franz Kafka. Quadrinhos na Cia (56 págs., R$ 56)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A arte de demolir clichês

Libanesa luta contra estereótipos ocidentais sobre a mulher árabe

Luiz Zanin Oricchio




Uma jornalista estrangeira julgou que fazia um cumprimento a Joumana Haddad ao dizer que não sabia como ela conseguiu publicar uma revista erótica em sua língua materna. Joumana, editora da revista Jasad, ofendeu-se. E a coisa piorou quando a sueca completou: “No Ocidente não estamos familiarizados com a possibilidade de existirem mulheres árabes liberadas como você”, disse. Joumana deu uma resposta malcriada, alguma coisa sobre como não se sentir tão excepcional assim e que a jornalista, na verdade, exibia uma visão preconceituosa sobre o Oriente em geral, e sobre a mulher árabe, de maneira particular.



Mas tarde, e um pouco mais calma, a libanesa Joumana Haddad, nascida em 1970, arrependeu-se da irritação e começou a escrever tentando entender sua reação um tanto destemperada. O resultado, depois de vários rascunhos e textos parciais, é o livro Eu Matei Sherazade, que contém o conveniente subtítulo Confissões de Uma Árabe Enfurecida.



Seu primeiro trabalho é desfazer preconceitos: “Não moro numa tenda, não ando de camelo e não pratico a dança do ventre”, avisa. Ao contar parte de sua própria vida, Joumana fornece retrato bem diferente à nossa consideração. Ela mesma filha de uma família culta e conservadora, diz que se formou a partir da leitura de livros tirados da ótima biblioteca paterna.



O volume que mais a influenciou na adolescência? Nada menos que Justine, ou os Malefícios da Virtude, do Marquês de Sade, que leu na flor dos 12 anos. Antes, a garota havia atravessado As Ilusões Perdidas e ela mesma se pergunta como não naufragou no imenso abismo existente entre Balzac e o Divino Marquês. Na prateleira libertina do pai colheu ainda Henry Miller e autores árabes, que alternava com Hugo, Nabokov, Flaubert, Stendhal e Proust. Não admira que tanta variedade, dentro da qualidade, tenha forjado um espírito livre.



Ou melhor, um espírito por se libertar, porque Joumana sabe que a liberdade é um trabalho e muitas vezes se sente como ave a se debater entre grades. Seu espírito voa, mas é consciente de pertencer a uma cultura opressiva à qual não se rende.



O relato dessa luta tem muita beleza e encantamento. Poderia mostrar, talvez, um pouco mais de profundidade, qualidade que costuma vir acompanhada de serenidade. Talvez isso fique para depois. Há um tempo para a raiva e outro para a reflexão. Joumana estará na Fliporto, em Olinda, entre 11 e 15 de novembro. Promete incendiar os debates.







EU MATEI SHERAZADE

Autora: Joumana Haddad

Tradução: Dinah Azevedo

Editora: Record

(144 págs., R$ 29,90)



Fonte : O Estado de São Paulo 23/04/2011