quarta-feira, 14 de julho de 2010
O bar, a parede e a flor
o bar
aqui
no fim do dia
rumino a alma
e espeto a dor
com o palito de azeitona
a parede e a flor
o paredão de pedra
divide são paulo e eu
as nuvens passam beirando as balas
e as meninas dos sinais
as barbas do edifício estão de molho
neste frio mariano
são paulo é uma cidade do alto
mas aqui também tem girassóis
mesmo que o frio arda
mesmo que a noite adentre a boca
mesmo que a boca adentre a terra
são paulo é uma cidade do alto
mas aqui também tem girassóis
mesmo que girem pra brindar a morte
Cida Pedrosa
fonte: Escritoras Suicidas
aqui
no fim do dia
rumino a alma
e espeto a dor
com o palito de azeitona
a parede e a flor
o paredão de pedra
divide são paulo e eu
as nuvens passam beirando as balas
e as meninas dos sinais
as barbas do edifício estão de molho
neste frio mariano
são paulo é uma cidade do alto
mas aqui também tem girassóis
mesmo que o frio arda
mesmo que a noite adentre a boca
mesmo que a boca adentre a terra
são paulo é uma cidade do alto
mas aqui também tem girassóis
mesmo que girem pra brindar a morte
Cida Pedrosa
fonte: Escritoras Suicidas
Estou Indo
Vem, vem, seja você quem for,
Não importa se você é um infiel, um idólatra,
Ou um adorador do fogo,
Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero,
Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,
Vem assim mesmo.
Rumi
Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
Poema Sufi, de Jalal ad-Din Muhammad Rumi
Não importa se você é um infiel, um idólatra,
Ou um adorador do fogo,
Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero,
Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,
Vem assim mesmo.
Rumi
Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
Poema Sufi, de Jalal ad-Din Muhammad Rumi
terça-feira, 13 de julho de 2010
Sonetos a Orfeu
Rainer Maria Rilke
I, 22
A nós, nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.
É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.
Jovem, não há virtude na velocidade
e no vôo, aonde for.
Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.
Tradução: Augusto de Campos
Coisas e Anjos de Rilke – Ed. Perspectiva
I, 22
A nós, nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.
É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.
Jovem, não há virtude na velocidade
e no vôo, aonde for.
Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.
Tradução: Augusto de Campos
Coisas e Anjos de Rilke – Ed. Perspectiva
segunda-feira, 12 de julho de 2010
A Fuga de Pulcinella
Pulcinella era a marionete mais inquieta de todo o velho teatro. Tinha sempre que protestar, seja porque no momento do espetáculo preferira passear, seja porque seu manipulador concedera-lhe uma parte cômica, enquanto ele preferira uma dramática.
-Qualquer dia destes – dizia em segredo a Arlecchino – corto a corda*! E assim fez, mas não durante o dia. Uma noite, ao conseguir tomar posse de uma tesoura esquecida pelo manipulador das marionetes, cortou de um topo ao outro os fios que lhe prendiam a cabeça, as mãos e os pés e propôs a Arlecchino:
-Vem comigo.
Só que Arlecchino não queria saber de separar-se de Colombina e nem Pulcinella tinha a intenção de ir atrás daquela manhosa, que no teatro tinha-lhe pregado cem mil peças.
-Irei sozinho! – decide. Lançou-se corajosamente rua a fora, pernas para que te quero!
“Que beleza – pensava ao correr – não sentir mais os puxões daqueles malditos fios em lugar nenhum. Que beleza meter o pé bem aonde se deseja”.
O mundo, para uma marionete solitária, é grande e terrível e habitado (especialmente à noite) por gatos ferozes, prontos a confundir qualquer coisa que fuja como um rato, a qual se dá a caça. Pulcinella conseguiu convencer os gatos, que se metiam com um bom artista, e conto após conto, refugiou-se em um jardim, encostou-se em um pequeno muro e ali adormeceu.
Acordou com o nascer do sol e tinha fome. Porém, ao seu redor, até onde a vista alcançava, não havia mais do que cravos, tulipas, zínias e hortênsias.
-Paciência – falava para si Pulcinella e, ao colher um cravo, começou a mastigar-lhe as pétalas com uma certa indiferença. Não era como comer uma bisteca grelhada ou um filé de peixe pérsico: as flores têm muito perfume e pouco sabor. Entretanto, para Pulcinella aquilo parecia o sabor da liberdade e, na segunda bocada, estava seguro de nunca ter provado comida mais deliciosa. Decidiu permanecer para sempre naquele jardim e assim o fez. Dormia sob uma grande magnólia, cujas duras folhas não temiam nem mesmo as fortes chuvas, e se nutria das flores: hoje um cravo, amanhã uma rosa. Pulcinella sonhava com montanhas de espaguetes e planícies de mussarelas, mas não se rendia. Tornava-se seco, seco, mas tão perfumado, que a todo instante abelhas pousavam em seu corpo para sugar-lhe o néctar e logo afastavam-se frustradas, pois não conseguiam afundar o ferrão na sua cabeça de madeira.
Veio o inverno. O jardim, agora sem flores, esperava a primeira nevasca e a pobre marionete não tinha mais nada para comer. Sem dedos que pudessem recomeçar a viagem: as suas pobres pernas de madeira não suportariam levá-lo para longe.
“Paciência, – falava para si Pulcinella – morrerei aqui. Não é um lugar feio para se morrer. Além do mais, morrerei livre: ninguém poderá prender um fio à minha cabeça, para me fazer dizer sim ou não.”
A primeira nevasca o sepultou abaixo de uma mórbida coberta branca.
Na primavera, naquele exato lugar, nasceu um cravo. Soterrado, calmo e feliz, Pulcinella pensava: “ Eis que acima da minha cabeça cresceu uma flor. Existe alguém mais feliz do que eu?”.
Porém, não estava morto, porque as marionetes de madeira não podem morrer. Ainda continua soterrado, só que ninguém sabe disto. Se vocês pretendem encontrá-lo, não amarrem nenhum fio em sua cabeça: aos reis e rainhas do teatro, este fio não incomoda, mas a ele, pode fazê-lo sofrer.
*cortar a corda: `tagliare la corda` (no original) é uma expressão idiomática que significa “ir-se embora”. No texto original é utilizada em forma de trocadilho, devido ao fato de Pulcinella ser uma marionete (consequentemente, presa por cordas).
Por Gianni Rodari
Bruna G. Galvão (tradução)
BIOGRAFIA: Gianni Rodari (1920-1980), jornalista e escritor italiano que se destacou como autor de histórias infantis. Dentre suas publicações está Favole al Telefono (1962), onde se encontra a fábula aqui traduzida
Fonte– Cronópios
-Qualquer dia destes – dizia em segredo a Arlecchino – corto a corda*! E assim fez, mas não durante o dia. Uma noite, ao conseguir tomar posse de uma tesoura esquecida pelo manipulador das marionetes, cortou de um topo ao outro os fios que lhe prendiam a cabeça, as mãos e os pés e propôs a Arlecchino:
-Vem comigo.
Só que Arlecchino não queria saber de separar-se de Colombina e nem Pulcinella tinha a intenção de ir atrás daquela manhosa, que no teatro tinha-lhe pregado cem mil peças.
-Irei sozinho! – decide. Lançou-se corajosamente rua a fora, pernas para que te quero!
“Que beleza – pensava ao correr – não sentir mais os puxões daqueles malditos fios em lugar nenhum. Que beleza meter o pé bem aonde se deseja”.
O mundo, para uma marionete solitária, é grande e terrível e habitado (especialmente à noite) por gatos ferozes, prontos a confundir qualquer coisa que fuja como um rato, a qual se dá a caça. Pulcinella conseguiu convencer os gatos, que se metiam com um bom artista, e conto após conto, refugiou-se em um jardim, encostou-se em um pequeno muro e ali adormeceu.
Acordou com o nascer do sol e tinha fome. Porém, ao seu redor, até onde a vista alcançava, não havia mais do que cravos, tulipas, zínias e hortênsias.
-Paciência – falava para si Pulcinella e, ao colher um cravo, começou a mastigar-lhe as pétalas com uma certa indiferença. Não era como comer uma bisteca grelhada ou um filé de peixe pérsico: as flores têm muito perfume e pouco sabor. Entretanto, para Pulcinella aquilo parecia o sabor da liberdade e, na segunda bocada, estava seguro de nunca ter provado comida mais deliciosa. Decidiu permanecer para sempre naquele jardim e assim o fez. Dormia sob uma grande magnólia, cujas duras folhas não temiam nem mesmo as fortes chuvas, e se nutria das flores: hoje um cravo, amanhã uma rosa. Pulcinella sonhava com montanhas de espaguetes e planícies de mussarelas, mas não se rendia. Tornava-se seco, seco, mas tão perfumado, que a todo instante abelhas pousavam em seu corpo para sugar-lhe o néctar e logo afastavam-se frustradas, pois não conseguiam afundar o ferrão na sua cabeça de madeira.
Veio o inverno. O jardim, agora sem flores, esperava a primeira nevasca e a pobre marionete não tinha mais nada para comer. Sem dedos que pudessem recomeçar a viagem: as suas pobres pernas de madeira não suportariam levá-lo para longe.
“Paciência, – falava para si Pulcinella – morrerei aqui. Não é um lugar feio para se morrer. Além do mais, morrerei livre: ninguém poderá prender um fio à minha cabeça, para me fazer dizer sim ou não.”
A primeira nevasca o sepultou abaixo de uma mórbida coberta branca.
Na primavera, naquele exato lugar, nasceu um cravo. Soterrado, calmo e feliz, Pulcinella pensava: “ Eis que acima da minha cabeça cresceu uma flor. Existe alguém mais feliz do que eu?”.
Porém, não estava morto, porque as marionetes de madeira não podem morrer. Ainda continua soterrado, só que ninguém sabe disto. Se vocês pretendem encontrá-lo, não amarrem nenhum fio em sua cabeça: aos reis e rainhas do teatro, este fio não incomoda, mas a ele, pode fazê-lo sofrer.
*cortar a corda: `tagliare la corda` (no original) é uma expressão idiomática que significa “ir-se embora”. No texto original é utilizada em forma de trocadilho, devido ao fato de Pulcinella ser uma marionete (consequentemente, presa por cordas).
Por Gianni Rodari
Bruna G. Galvão (tradução)
BIOGRAFIA: Gianni Rodari (1920-1980), jornalista e escritor italiano que se destacou como autor de histórias infantis. Dentre suas publicações está Favole al Telefono (1962), onde se encontra a fábula aqui traduzida
Fonte– Cronópios
domingo, 11 de julho de 2010
Um autor para adolescentes: Cortázar, nosso tio legal e meio maluco
DAMIÁN TABAROVSKY
colaboração para a Folha de Buenos Aires
JULIO CORTÁZAR É O GRANDE ESCRITOR ADOLESCENTE da literatura argentina. Isso não deve ser lido como um defeito, mas, pelo contrário, como parte de alguns atributos que o tornam irremediavelmente original.
Adolescente em pelo menos três sentidos. Primeiro, por seu aspecto, seu porte, seu estilo. Por alguma razão misteriosa, Cortázar sempre pareceu mais jovem do que realmente era. Nascido em 1914, nos anos 60 -durante a explosão do boom de literatura latino-americana- já era um senhor maduro; não obstante, partilhava cartel (e marketing) com escritores dez ou quinze anos mais novos: García Márquez nasceu em 1927, Carlos Fuentes, em 1928, e Vargas Llosa, ainda mais tarde, em 1936.
E mesmo assim nas fotos ele sempre aparece fresco, viçoso, alto, esbelto, com aquele jeito de intelectual parisiense que fazia parte de seu halo. Lembro agora de uma foto, certamente a mais famosa de Cortázar, tirada em 1967 na Rue de Savoie, em Paris, pela fotógrafa argentina Sara Facio: é um primeiro plano de seu rosto, com um cigarro apagado na boca, elegante, com o cenho levemente franzido. Tinha 53 anos, mas parecia ter bem menos.
LOOK É que a adolescência em Cortázar também é uma questão de atitude: seu “look” se conjuga com um esquerdismo romântico, de viagem em viagem (de Cuba à Nicarágua, passando por Maio de 68), com um frescor ideológico carente de rigor teórico e, ainda mais, de dureza militante, mas que funcionava com um ímã, como uma apresentação à rebeldia literária para as jovens gerações em busca de um mestre.
Adolescente também, e principalmente, é sua obra. Em seu “Diccionario de Autores Latinoamericanos”, Cesar Aira escreve: “Em 1951, ano de sua partida para a França, apareceu ‘Bestiário’, livro de contos que, pelo estilo, procedimentos, temática e qualidade, poderia ser intercambiado com o último que escreveu, 30 anos depois. Não houve maturação visível em Cortázar”.
GOMBROWICZ A literatura argentina conhece outro caso de quem fez uma arte de não amadurecer: Witold Gombrowicz (1904-69). Repassemos brevemente sua história. Ancorado por acaso em Buenos Aires em 1939 (os nazistas tinham acabado de invadir sua Polônia natal), residiria na Argentina por 24 anos, onde escreveu vários de seus romances-chave (daí a piada, acho que de Ricardo Piglia, de dizer que “Gombrowicz é o grande escritor argentino”).
A tradução de “Ferdydurke” para o espanhol é um dos maiores mitos literários argentinos, senão o maior: reunidos no bar Rex, em Buenos Aires, Gombrowicz ia traduzindo, frase por frase, do polonês original para um espanhol calamitoso (jamais conseguiu aprender bem o idioma), e um grupo de jovens escritores, entre eles Adolfo de Objeta (o filho de Macedonio Fernández, mestre de Borges) e Virgilio Piñera (o grande escritor cubano) tentavam compreender e dar “estilo” às frases desconexas do autor até traduzir o romance para um espanhol inverossímil.
Pois bem, Gombrowicz baseia toda a sua obra em sua teoria da imaturidade. Nele, a imaturidade está ligada à ideia da forma, à recusa de toda metafísica, de todo essencialismo, tanto literário como político. A imaturidade em Gombrowicz é um modo de não pertencer ao mundo, de não deixar-se pegar por ele, de pôr o sentido em suspenso, de suspeitar das ideias simples, de deixar as coisas mais complexas.
Nada disso ocorre em Cortázar. Se a sua literatura é imatura ou, melhor dizendo, adolescente, é, muito pelo contrário, porque para ele tudo fica demasiado fácil, binário, transparente, inteligível. A escrita de Cortázar funciona por empatia, como os adolescentes. Forma bandos, grupos (Os Cronópios, As Famas), conta histórias reconhecíveis, permite que nos sintamos identificados (que garota dos anos 60 não queria ser como A Maga, personagem de “O Jogo da Amarelinha”?). Querer identificar-se com Cortázar é parte do encanto da cultura argentina.
PERENE JUVENTUDE Chegamos agora à terceira razão, talvez a mais importante, a mais enigmática, a mais sexual: o que faz de Cortázar um adolescente é que ele é o grande escritor argentino lido por adolescentes. Volto ao dicionário de Aira: “Um ar de perene juventude banha sua obra, indiscutível favorita entre os jovens, leitura de iniciação e descoberta da literatura”.
Todo escritor, intelectual ou simplesmente leitor argentino, em sua adolescência, leu e amou loucamente Cortázar. Se alguma vez encontrar um leitor argentino que diga o contrário, não acredite: é mentira. Cortázar é para todos nós uma fonte inesgotável de alegria, de felicidade: nos lembra quando éramos jovens, quando tínhamos o futuro adiante, o mundo a nossos pés.
E nos lembra perguntas enigmáticas, como esta: “Onde o destino põe a obra dos jovens escritores?”. Se existe algo que Cortázar jamais pensou foi em converter-se no grande escritor para adolescentes, o grande escritor de iniciação (ele se pensava competindo com Borges, dialogando com Gide, herdando de Breton). E, mesmo assim, seus livros, seus romances e contos, sua foto com o cigarro apagado são o ritual de iniciação à leitura (à leitura verdadeira, à emoção, ao pensamento) de milhares de jovens a cada ano.
Cortázar tem um duplo enigma, o enigma da passagem do tempo: nós envelhecemos, mas ele, não. Ele sempre é brisa de liberdade, de esperança, de alegria, como é a própria juventude.
DIVULGAÇÃO Se a literatura de Cortázar cumpre essa função de iniciação, é porque sua obra é um imenso mecanismo de divulgação literária e cultural. Em seus livros aparece um conjunto de nomes próprios, que muitos conheceram pela primeira vez graças a ele: de Marcel Duchamp à patafísica, de Rimbaud a Lezama Lima, do free jazz a Raymond Roussel, a escrita de Cortázar funciona como uma batedeira, um liquidificador, um multiprocessador onde, de um lado, entram essas matérias-primas (os ecos da boemia e da vanguarda francesa!) e, do outro, sai um produto que conserva citações e referências àquela vanguarda, mas apresentados agora de modo amigável, ameno, sem nada que dificulte a leitura.
Por todos os lados, esse mecanismo funciona, não apenas em sua política de citações de nomes próprios (explícita em livros como “A Volta ao Dia em 80 Mundos”), mas, sobretudo, em seus contos, em suas narrativas, em seus romances: “Histórias de Cronópios e de Famas” é uma reescrita gentil do imaginário surrealista, “O Jogo da Amarelinha” retoma de maneira amável as grandes experimentações do romance de vanguarda do começo do século 20.
AMIGÁVEL Como todo grande mestre de adolescentes, Cortázar tem um componente tranquilizante: sua obra vem nos dizer que a vanguarda não implica um corte radical, uma quebra estrutural, não gera uma irremediável sensação de solidão, mas, pelo contrário, mostra que é possível ser vanguardista e amigável ao mesmo tempo. Cortázar é como um tio legal e meio maluco da literatura argentina.
E depois, irremediavelmente, vem o momento trágico. Acontece com todos nós, e tudo bem que seja assim: nós o abandonamos. Graças a ele, conhecemos Raymond Roussel. Mas, depois de ler Roussel, não podemos voltar a Cortázar. Porque depois pulamos para Foucault (autor de um livro formidável sobre Roussel) e dele para Robbe-Grillet, e depois para Duchamp e Cage, e à mais radical vanguarda latino-americana, e então os mecanismos de divulgação cortazarianos já não nos divertem mais. Pelo contrário, nos parecem triviais. É um momento penoso: significa que deixamos a adolescência para trás, que já não somos mais jovens.
E quando ninguém esperava nada novo de Cortázar, no ano passado saiu na Argentina o livro que agora acaba de ser traduzido para o português: “Papéis Inesperados” (os livros de Cortazar são publicados no Brasil pela ed. Civilização Brasileira). Um conjunto de textos nunca antes publicados, como algumas chaves de leitura muito interessantes (como o discurso para professores, de 1939, no qual temos acesso a um Cortázar bem sério, ou o belíssimo texto sobre o funcionamento do metrô).
Quando saiu, o volume foi apresentado na Feira do Livro de Buenos Aires, na sala maior, totalmente lotada: 1.200 pessoas, na maioria menores de 30 anos, curiosos pela aparição de uma novidade de seu autor favorito, morto faz muito tempo (1984).
Mas sempre jovem, é claro.
colaboração para a Folha de Buenos Aires
JULIO CORTÁZAR É O GRANDE ESCRITOR ADOLESCENTE da literatura argentina. Isso não deve ser lido como um defeito, mas, pelo contrário, como parte de alguns atributos que o tornam irremediavelmente original.
Adolescente em pelo menos três sentidos. Primeiro, por seu aspecto, seu porte, seu estilo. Por alguma razão misteriosa, Cortázar sempre pareceu mais jovem do que realmente era. Nascido em 1914, nos anos 60 -durante a explosão do boom de literatura latino-americana- já era um senhor maduro; não obstante, partilhava cartel (e marketing) com escritores dez ou quinze anos mais novos: García Márquez nasceu em 1927, Carlos Fuentes, em 1928, e Vargas Llosa, ainda mais tarde, em 1936.
E mesmo assim nas fotos ele sempre aparece fresco, viçoso, alto, esbelto, com aquele jeito de intelectual parisiense que fazia parte de seu halo. Lembro agora de uma foto, certamente a mais famosa de Cortázar, tirada em 1967 na Rue de Savoie, em Paris, pela fotógrafa argentina Sara Facio: é um primeiro plano de seu rosto, com um cigarro apagado na boca, elegante, com o cenho levemente franzido. Tinha 53 anos, mas parecia ter bem menos.
LOOK É que a adolescência em Cortázar também é uma questão de atitude: seu “look” se conjuga com um esquerdismo romântico, de viagem em viagem (de Cuba à Nicarágua, passando por Maio de 68), com um frescor ideológico carente de rigor teórico e, ainda mais, de dureza militante, mas que funcionava com um ímã, como uma apresentação à rebeldia literária para as jovens gerações em busca de um mestre.
Adolescente também, e principalmente, é sua obra. Em seu “Diccionario de Autores Latinoamericanos”, Cesar Aira escreve: “Em 1951, ano de sua partida para a França, apareceu ‘Bestiário’, livro de contos que, pelo estilo, procedimentos, temática e qualidade, poderia ser intercambiado com o último que escreveu, 30 anos depois. Não houve maturação visível em Cortázar”.
GOMBROWICZ A literatura argentina conhece outro caso de quem fez uma arte de não amadurecer: Witold Gombrowicz (1904-69). Repassemos brevemente sua história. Ancorado por acaso em Buenos Aires em 1939 (os nazistas tinham acabado de invadir sua Polônia natal), residiria na Argentina por 24 anos, onde escreveu vários de seus romances-chave (daí a piada, acho que de Ricardo Piglia, de dizer que “Gombrowicz é o grande escritor argentino”).
A tradução de “Ferdydurke” para o espanhol é um dos maiores mitos literários argentinos, senão o maior: reunidos no bar Rex, em Buenos Aires, Gombrowicz ia traduzindo, frase por frase, do polonês original para um espanhol calamitoso (jamais conseguiu aprender bem o idioma), e um grupo de jovens escritores, entre eles Adolfo de Objeta (o filho de Macedonio Fernández, mestre de Borges) e Virgilio Piñera (o grande escritor cubano) tentavam compreender e dar “estilo” às frases desconexas do autor até traduzir o romance para um espanhol inverossímil.
Pois bem, Gombrowicz baseia toda a sua obra em sua teoria da imaturidade. Nele, a imaturidade está ligada à ideia da forma, à recusa de toda metafísica, de todo essencialismo, tanto literário como político. A imaturidade em Gombrowicz é um modo de não pertencer ao mundo, de não deixar-se pegar por ele, de pôr o sentido em suspenso, de suspeitar das ideias simples, de deixar as coisas mais complexas.
Nada disso ocorre em Cortázar. Se a sua literatura é imatura ou, melhor dizendo, adolescente, é, muito pelo contrário, porque para ele tudo fica demasiado fácil, binário, transparente, inteligível. A escrita de Cortázar funciona por empatia, como os adolescentes. Forma bandos, grupos (Os Cronópios, As Famas), conta histórias reconhecíveis, permite que nos sintamos identificados (que garota dos anos 60 não queria ser como A Maga, personagem de “O Jogo da Amarelinha”?). Querer identificar-se com Cortázar é parte do encanto da cultura argentina.
PERENE JUVENTUDE Chegamos agora à terceira razão, talvez a mais importante, a mais enigmática, a mais sexual: o que faz de Cortázar um adolescente é que ele é o grande escritor argentino lido por adolescentes. Volto ao dicionário de Aira: “Um ar de perene juventude banha sua obra, indiscutível favorita entre os jovens, leitura de iniciação e descoberta da literatura”.
Todo escritor, intelectual ou simplesmente leitor argentino, em sua adolescência, leu e amou loucamente Cortázar. Se alguma vez encontrar um leitor argentino que diga o contrário, não acredite: é mentira. Cortázar é para todos nós uma fonte inesgotável de alegria, de felicidade: nos lembra quando éramos jovens, quando tínhamos o futuro adiante, o mundo a nossos pés.
E nos lembra perguntas enigmáticas, como esta: “Onde o destino põe a obra dos jovens escritores?”. Se existe algo que Cortázar jamais pensou foi em converter-se no grande escritor para adolescentes, o grande escritor de iniciação (ele se pensava competindo com Borges, dialogando com Gide, herdando de Breton). E, mesmo assim, seus livros, seus romances e contos, sua foto com o cigarro apagado são o ritual de iniciação à leitura (à leitura verdadeira, à emoção, ao pensamento) de milhares de jovens a cada ano.
Cortázar tem um duplo enigma, o enigma da passagem do tempo: nós envelhecemos, mas ele, não. Ele sempre é brisa de liberdade, de esperança, de alegria, como é a própria juventude.
DIVULGAÇÃO Se a literatura de Cortázar cumpre essa função de iniciação, é porque sua obra é um imenso mecanismo de divulgação literária e cultural. Em seus livros aparece um conjunto de nomes próprios, que muitos conheceram pela primeira vez graças a ele: de Marcel Duchamp à patafísica, de Rimbaud a Lezama Lima, do free jazz a Raymond Roussel, a escrita de Cortázar funciona como uma batedeira, um liquidificador, um multiprocessador onde, de um lado, entram essas matérias-primas (os ecos da boemia e da vanguarda francesa!) e, do outro, sai um produto que conserva citações e referências àquela vanguarda, mas apresentados agora de modo amigável, ameno, sem nada que dificulte a leitura.
Por todos os lados, esse mecanismo funciona, não apenas em sua política de citações de nomes próprios (explícita em livros como “A Volta ao Dia em 80 Mundos”), mas, sobretudo, em seus contos, em suas narrativas, em seus romances: “Histórias de Cronópios e de Famas” é uma reescrita gentil do imaginário surrealista, “O Jogo da Amarelinha” retoma de maneira amável as grandes experimentações do romance de vanguarda do começo do século 20.
AMIGÁVEL Como todo grande mestre de adolescentes, Cortázar tem um componente tranquilizante: sua obra vem nos dizer que a vanguarda não implica um corte radical, uma quebra estrutural, não gera uma irremediável sensação de solidão, mas, pelo contrário, mostra que é possível ser vanguardista e amigável ao mesmo tempo. Cortázar é como um tio legal e meio maluco da literatura argentina.
E depois, irremediavelmente, vem o momento trágico. Acontece com todos nós, e tudo bem que seja assim: nós o abandonamos. Graças a ele, conhecemos Raymond Roussel. Mas, depois de ler Roussel, não podemos voltar a Cortázar. Porque depois pulamos para Foucault (autor de um livro formidável sobre Roussel) e dele para Robbe-Grillet, e depois para Duchamp e Cage, e à mais radical vanguarda latino-americana, e então os mecanismos de divulgação cortazarianos já não nos divertem mais. Pelo contrário, nos parecem triviais. É um momento penoso: significa que deixamos a adolescência para trás, que já não somos mais jovens.
E quando ninguém esperava nada novo de Cortázar, no ano passado saiu na Argentina o livro que agora acaba de ser traduzido para o português: “Papéis Inesperados” (os livros de Cortazar são publicados no Brasil pela ed. Civilização Brasileira). Um conjunto de textos nunca antes publicados, como algumas chaves de leitura muito interessantes (como o discurso para professores, de 1939, no qual temos acesso a um Cortázar bem sério, ou o belíssimo texto sobre o funcionamento do metrô).
Quando saiu, o volume foi apresentado na Feira do Livro de Buenos Aires, na sala maior, totalmente lotada: 1.200 pessoas, na maioria menores de 30 anos, curiosos pela aparição de uma novidade de seu autor favorito, morto faz muito tempo (1984).
Mas sempre jovem, é claro.
sábado, 10 de julho de 2010
OJOS (III)
RECUPERO el mandamiento
que no se me permitió vociferar
estando yo en el vientre de la mujer
que intenté y no pude o no quise amar.
Cruzó el océano una báscula de ojos…,
examino las sinfonías del fallecimiento
que buscan descanso encima
del témpano de fuego, lejos
y muy cerca de lo que deseamos ser.
Concluí –ayer- que el aspecto
de mis manos es bastante embelesado,
de nata mortífera y hojas de libros
que fueron esmeradamente empastados
por los hijos de tus hijos bastardos.
Alexander Vórtice
www.lacoctelera.com/alexandervortice
http://www.opinionvortice.blogspot.com/
que no se me permitió vociferar
estando yo en el vientre de la mujer
que intenté y no pude o no quise amar.
Cruzó el océano una báscula de ojos…,
examino las sinfonías del fallecimiento
que buscan descanso encima
del témpano de fuego, lejos
y muy cerca de lo que deseamos ser.
Concluí –ayer- que el aspecto
de mis manos es bastante embelesado,
de nata mortífera y hojas de libros
que fueron esmeradamente empastados
por los hijos de tus hijos bastardos.
Alexander Vórtice
www.lacoctelera.com/alexandervortice
http://www.opinionvortice.blogspot.com/
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada
Vinícius de Moraes
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada
Vinícius de Moraes
Ojos II
EN la oscuridad el mandato
de Omega es nebulosa de pestañas abiertas.
Querido amigo cubierto de iris
y resonancias magnéticas,
querido sabor añejo que me otorgó la vida,
querido amor de todos los amores posibles…
Yo he visto un bisbiseo
de calambres y aguijones
allende las discursiones
de las virtuosas galaxias.
Alexander Vórtice
www.lacoctelera.com/alexandervortice
http://www.opinionvortice.blogspot.com/
de Omega es nebulosa de pestañas abiertas.
Querido amigo cubierto de iris
y resonancias magnéticas,
querido sabor añejo que me otorgó la vida,
querido amor de todos los amores posibles…
Yo he visto un bisbiseo
de calambres y aguijones
allende las discursiones
de las virtuosas galaxias.
Alexander Vórtice
www.lacoctelera.com/alexandervortice
http://www.opinionvortice.blogspot.com/
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)

