quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pássaros nasceram para voar

O mundo sempre me pareceu um grande mistério. Lembro que ainda pequena, eu devia ter uns seis ou sete anos, vi minha irmã mais velha abater um passarinho para depois, com a ajuda de alguns amigos, dissecá-lo como a um sapo de laboratório familiar. Não arrisco explicar, aos olhos daquela menina, todo o sentimento que a cena lhe trouxe. Mas desconfio que deva ter sido algo aterrador, pois desde então, e observe que já se passaram muitos anos, passei a sentir a vida como uma eterna sucessão de enganos. Eu não cabia na família, na escola, no trabalho e, de resto, nem em mim mesma.



De início, achavam que se tratava apenas de timidez. Depois, os suores nas mãos e o silêncio que podia durar uma festa inteira, passou a ser visto pelos outros como arrogância. ‘Sofia, você precisa aprender a controlar suas emoções’, diziam-me os amigos mais próximos. No meio em que convivia, tornei-me o laboratório ideal para as frustrações alheias. E de tanto ouvir conselhos e repreendas, acabei por ter a sensação de que me dissecavam como àquele passarinho morto por minha irmã.



Primeiro arrancaram-me as pernas. Disseram-me que elas não me levavam na direção correta e que, portanto, não me eram úteis. Em seguida, analisaram e descartaram, um a um, os componentes desse pobre corpo. Foi quando descobri que ao invés de músculos, eu possuía raízes que se entrelaçavam e que pareciam expressar as mais longínquas memórias. E que no lugar de sangue, meus corredores vertiam um líquido gelatinoso e branco, uma seiva de vida que encerra um susto qualquer.



A simples idéia de que tal segredo pudesse vir a ser desvendado por algum de meus perscrutadores, congelava-me a alma. Pobre de mim. Como se não bastasse ter emprestado a esse mundo pernas, bocas e gestos aceitáveis, tinha ainda que esforçar-me para trocar com o ambiente externo, sentimentos corriqueiros, enxaquecas plausíveis, preocupações banais e um choro compreensível aqui e acolá.



Foi agarrada a essa indiscutível certeza que procurei encenar, neste grande palco, um medíocre, porém razoável, papel. Fiz-me mulher e deixei que rasgassem, dentro de mim, as mais finas veias. Como um acrobata, lancei-me em mãos e teias de palavras vilipendiosas. Deixei-me sugar até a última gota e derramei intranqüilas lágrimas em lençóis que nunca envelheciam. Ao final de cada espetáculo, retornava sozinha para o camarim. E ali ficava, ora imóvel — perturbada pelas ondas que me engoliam na mansidão do nada —, ora debatendo-me nas paredes invisíveis que me serviam de prisão.



Com o tempo, desisti de procurar aceitação. Percebi que de alguma forma não merecia ser amada, nem tampouco compreendida. Agarrei-me aos galhos que cresciam silenciosamente em meu mundo, adubando, no frescor das noites insones, algumas poucas lembranças que me pudessem ser úteis. Deixei que transbordasse nas veias partidas pelos inúmeros erros que cometi, aquilo que outrora era líquido e que não sei por qual motivo específico, tornara-se uma gosma pegajosa. Na solidão e na ausência, preguei em cada parede um retrato do que poderia ter sido minha existência e lancei-me aos ventos, experimentando a liberdade do pássaro que desconhece o momento exato da morte. E é feliz por existir na inocência de que está sempre pronto para o abate.

Vássia Silveira – Releituras


E-Mail: vassia@uol.com.br

Site: http://www.anaesuasmulheres.com

Blog: http://gavetasejanelas.zip.net

Vássia Silveira nasceu em Belém (PA), em 1971. É jornalista, mãe de Clara e Anaís e autora do site “Ana e suas mulheres”. Foi editora da revista “outraspalavras”, no Acre. Atualmente mora em Fortaleza e tem textos publicados nos sites Cronópios e Bestiário, entre outros. Assina também o blog “Gavetas e Janelas”. Em julho de 2007 lançou seu primeiro livro, “Braboletas e Ciúminsetos” (literatura infantil), pela Editora Letras Brasileiras, com ilustrações de Marcelo Vaz.

Fonte: blog leituras favre

terça-feira, 11 de maio de 2010

Mario Quintana - Segundo Poema de muito Longe

POLYUSHKA POLYE - ORIGINAL VERSION

Russian Traditional Songs - Marusia

O Encouraçado Potemkin (1925) - Sergei Eisenstein

Escuridão formosa

À noite toquei-te e senti-te

sem que minha mão fugisse para lá de minha mão,

sem que meu corpo fugisse, aos meus ouvidos:

de um modo quase humano

senti-te.

A pulsar,

não sei se como sangue ou como nuvem

errante,

em minha casa, na ponta dos pés, escuridão que sobe,

escuridão que desce, cintilante, correste.

Correste por minha casa de madeira,

e abriste as janelas,

e senti pulsar a noite toda,

filha dos abismos, silenciosa,

guerreira tão terrível e tão bela,

que tudo quando existe,

sem tua chama, não existiria para mim.


Gonzalo Rojas
do livro “Rosa do Mundo”
assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

Criterion Trailer 2: Seven Samurai

Rua Vida Mimosa

Crédito: Fabiano Accorsi in http://www.flickr.com./

A Rua da vida

A Affonso Schmidt


Esta é rua da vida. E a vida se revela,

a rua sem pudor, completamente nua.

Mas, mostrando-se nua, a vida não é bela

e não é boa a vida através desta rua.



O convite que sai da entreaberta janela

tem a fascinação indizível da sua

promessa de pecado ! E, atraída por ela,

a sombra do homem pelas portas se insinua...



Marítimos gingando o corpo forte e suado,

malandros de chinelo, asiáticos franzinos,

toda esta malta vil que o homem detesta



vem deixar, nesta rua, um pouco do passado;

vem cumprir, nesta rua, os seus torvos destinos

para que possa haver a nossa rua honesta !

Cid Silveira(1910)

Carlos Drummond de Andrade

Erik Satie - Gnossienne No.1

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Il Grande Bar

http://www.outrosventos08.blogspot.com/

Hibridismo linguístico

Katyuscia Carvalho

Sou discípula das palavras subversivas

da língua insubmissa pela própria natureza

que não se dobra a doutrinas castradoras

nem cala a boca para as sentenças normativas.



Falo na língua que tem sangue nas veias

- que língua sem sangue ou sem pigmentação

não tem história: é língua-pálida, língua-amorfa!

E eu me pinto em dialetos da minha miscigeNAÇÃO.



Tenho na boca um idioma que dança,

que batuca, que se alegra e que se enfeita

com cocais, com colares, com sotaques

com as sílabas todas desta gente bra-si-lei-ra
Juracy Ribeiro – Blog Releituras

Jurássica



quando estou naqueles dias

é brabo deixar de escrever cartas

pode ser fatal



nos meus dias jurássicos

toda pedra no caminho

é um enorme dinossauro

toda corda bamba

é uma serpente

pra me enfocar

e me devolver

ao remetente



toda lembrança

de seu beijo

é tábua

de salvação



Minha crueldade



no ritual de purificação

eu sou uma borboleta

que Deus segura

pelas pontas das asas

com dois dedos

sobre a vela

acesa.

Juracy participou do livro “Mulheres de São José – Outros poemas”, 1996, de onde extraímos os poemas ora apresentados (p. 67 e 69 )

fonte: blog leituras favre

swanee river boogie

Meade Lux Lewis - Boogie Woogie

Erik Satie "Trois Gymnopédies"