quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Língua



Encontre eu
te amo nalgum
lugar dos

dentes e
olhos, morda
mas

cuidado pra não
ferir, você quer

tanto tão
pouco. Palavras
dizem tudo.

Eu
te amo
de novo,

e o vazio
pra que
serve? Pra

encher, encher.
Ouvi palavras
e palavras cheias

de buracos,
doendo. A fala
é uma boca.

 Robert Creeley



quarta-feira, 26 de setembro de 2012


"Vivemos em uma época que começou com o motor a vapor e se completou com a desintegração do átomo.A energia contida na fórmula relativista nos dará amanhã o banheiro , o dinheiro, a bateria portátil , o ouro que se relega na memória dos Westerns .A poesia vai alimentar as baterias nucleares e colocar a alma humana e o sofrimento em um herbário? Vivemos em tempos épicos e de épico nada temos."


Leo Ferré

Something On Earth

Something must have happened

On earth

The clouds

That towered

For days and nights above the steppe

Pushing dents

In my winter-tired tent

Are bursting apart now

Moving on in gray clumps

Perhaps a knot loosened

From the great tent whose roof struts

Are beams of sun, moon and wind

Or it was you who sent a bright thought

This way or lured from a hiding place

The dream which

Long expected

Only arrived last night

And which I

Hunkered in hope

Passed on to the coming day.

Galsan Tschinag

Apresentação de Sacher-Masoch.


Em Os cento e vinte dias, o libertino se declara excitado não pelos “objetos que aqui estão”, mas pelo Objeto que não está ali, quer dizer a “idéia do mal”. Ora, essa idéia de algo que não está, essa idéia do Não ou da negação, que não é dada nem possível de ser dada na experiência, só pode ser objeto de demonstração (no sentido em que o matemático fala de verdades que guardam todo seu sentido mesmo se dormirmos, e mesmo não existindo na natureza). É o porquê também dos heróis sádicos desesperarem e se enfurecerem vendo seus crimes tão magros comparados àquela idéia que eles só conseguem atingir através da onipotência do raciocínio. Sonham com um crime universal e impessoal ou, como diz Clairwil, com um crime “cujo efeito perpétuo aja, mesmo quando eu não mais agirei, de forma que não se passe mais um só instante da minha vida em que, mesmo dormindo, eu não seja a causa de uma desordem qualquer”. 

 G. Deleuze

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Look Up






Look up
See the snowflakes
Floating down

They are travelers coming home

They inhabited this earth
Before you and me
They are ancestors, brothers and sisters
Companions in time and space
Then sand, wind, stars
That rested, blew, flickered

Many of them
Perhaps we knew
Lived with them
In harmony
But often in bitter
Discord as well

Now they have
Become clouds
And return home as snow

Listen to
Their rushing sounds
It is a whispering
About you or me
           
Be silent
As they are
Fearing
To wake us
From the dream
Called life



Galsan Tchinang

http://www.galsan.info/

sábado, 22 de setembro de 2012

Exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.


 Nuno Júdice.


No centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida
ha uma fonte luminosa um chafariz
que levanta conviccoes coloridas
E eh lindo contempla-las e segui-las

no centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida
há uma dor que palmo a palmo
vai ganhando seu tempo
e eh útil aprender sua marca firme

no centro de minha vida
no núcleo capital da minha vida
a morte fica longe
a calma tem cheiro de chuva
a chuva tem cheiro de terra

isto me contaram por que eu
nunca estou no centro da mina vida

MARIO BENEDETTI


dia sem automóveis


Os ecologistas e outros irresponsáveis propõem que por um dia, no dia de hoje, os automóveis desapareçam do mundo.
Um dias sem automóveis? E se o exemplo se contagia e esse dia passa a ser todos os dias?
Que Deus não permita, e o Diabo tampouco.
Os hospitais e os cemitérios perderiam sua clientela mais numerosa.
As ruas se encheriam de ciclistas ridículos e patéticos pedestres.
Os pulmões já não poderiam respirar o mais saboroso dos venenos.
As pernas, que tinham se esquecido de caminhar, tropeçariam em qualquer pedrinha.
O silëncio aturdiria os ouvidos.
As autopistas seriam desertos deprimentes.
As rádios, as televisões, as revistas e os jornais perderiam seus mais generosos anunciantes.
Os países petroleiros ficariam condenados à miséria.
O milho e a cana-de-açucar, agora transformados em comida de automóveis, regressariam ao humilde prato humano.

 Galeano - 22 de setembro

La Danaide