terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Illusion

http://www.lucileee.blog.lemonde.fr/

Discurso de noivado após o jantar

Este eu, um recipiente, que

desde que ninguém o abra,

parece compacto, liso

como um ovo Kinder,

quase apetitoso. Somente lá,

no interior, está escuro. Quem sabe

o que estará dentro, à tua espera.

Obsessões, sem dúvida,

hábitos enferrujados,

medos incompreensíveis,

truques em segunda mão,

desejos infantis.

Que tu a desejes ter,

a esta prenda embrulhada,

roça o milagre


HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Habitar teu nome

ouço callas e me acalmo

arremesso frutos aos países

de assombrados homens



quase íntima dos vulcões, aprendi:

o magma que escorre

em mim

ainda procura

por

si


Marize Castro



do livro Habitar teu nome, editora Una de João Pessoa (PB)

Folha

Sou como aquela folha – olha –

naquele ramo nu, que ainda um prodígio

mantém presa.



Nega-me, pois. De tal não entristeça

a bela idade que te dá essa cor ansiosa

e em mim só se demora num ímpeto infantil.



Dize-me tu adeus, se pela minha parte o não consigo.

Morrer é nada; perder-te é que é difícil.



(de Mediterranee, 1946)

UMBERTO SABA (Trieste 1883 – Gorizia 1957), pseudónimo de Umberto Poli



Tradução de David Mourão-Ferreira

domingo, 12 de fevereiro de 2012

“O tempo livre, a alma e, quem diria, uma prótese de primeira natureza, tudo é insumo precioso na busca do lucro. Sob o pretexto de satisfazer as necessidades humanas, a parafernália capitalista não faz mais do que zelar pela sua perpetuação, rebaixando os homens a meios de sua própria conservação.”


Fernando Haddad

Ofício de morrer

eu imagino assim a morte de pavese:

era um quarto de hotel em turim,

decerto um hotel modesto, de uma ou duas

estrelas, se é que havia estrelas.



uma cama de pau, de verniz estalado,

rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido

com a cova no meio, a do costume.

corria o mês de agosto com sua terra escura



encardindo as cortinas. nada ia explodir

naquele mês de agosto àquela hora da tarde

de luz adocicada. e alguém pusera

três rosas de plástico num solitário verde.



vejo como pavese entrou, como pousou a maleta

com indiferença, dobrou alguns papéis

e despiu o casaco (como nos filmes

italianos da época). depois foi aos lavabos



no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado

que esta vida é uma mijadela ou que.

voltou ao quarto, havia

uma fétida alma em tudo aquilo.



ele abriu a janela

e pediu a chamada telefónica.

a noite ia caindo sem palavras, memo sem businas

excessivas. encheu um copo de água. e esperou.



quando a campainha tocou, havia muito pouco

a dizer e ele já o tinha dito:

já tinha dito quanto amar nos torna

vulneráveis; e míseros, inermes;



que é precisa humildade, não orgulho;

e parar de escrever;

e que dessa nudez é que morremos.

foi mais ou menos isto – a nossa condição



demasiado humana, a voz humana, a frágil

expressão disso tudo, uma firmeza tensa.

«e até rapariguinhas o fizeram».

tinham nomes obscuros e nenhum



remorso lancinante, ninguém pra falar delas.

a mais temida coisa é a coragem

do que parecia fácil: tudo o que não se disse

carregado num acto de súbitas fronteiras.



foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir

pôs do lado de fora um letreiro

com do not disturb ou coisa assim,

nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.



não sei se o encontrou uma criada,

se a polícia veio logo, se deixou uma carta

ao seu melhor amigo, se apagou a luz,

nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.



não sei se entrou na morte como quem

traz imagens pungentes na cabeça,

palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente

está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.



não sei se foi assim, se existe uma outra

verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha

um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,

e sei que nessa altura há já poucas verdades



e nenhuma dimensão biográfica na morte.

já vem nas escrituras. eu prefiro

dizer que ele fechou a porta à chave

e sei que era viril a sua transparência.

Vasco Graça Moura
 - Poesia & Lda.

Imagens do Sagrado.

Em 1951, a revista O Cruzeiro publicou uma reportagem sobre um ritual de iniciação no Candomblé, na Bahia, com a seguinte títuto “As Noivas dos Deuses Sanguináros”, com 42 fotografias de Jose Medeiros. Seis anos depois, a mesma editora publicou un livro, chamado de “Candomblé”, com mais 22 fotografias inéditas. A nova forma de publicação colocou as mesmas imagens em outro formato e em outra valorização imagética. Pretendemos nessa comunicação discutir o deslocamento dos significados sociais entre o sensacionalismo e a documentação etnográfica. A partir de um estudo de caso, pretendemos discutir os formatos de apresentação de material etnográfico nos meios de comunicação de massas e suas decorrentes conseqüências com a invasão de um olhar leigo “voyerista” e, muitas vezes preconceituoso, induzido pela mídia em relação às cerimônias e rituais tradicionais de culturas locais não globalizadas.





Autor: Fernando de Tacca

Fotógrafo e professor no Departamento de Multimeios, Unicamp.

e -mail: tacca@unicamp.br

Fonte: Revista chilena de antropologia visual.número 4. julho 2004.
http://www.antropologiavisual.cl/fernando_de_tacca.htm#Layer2

Um poeta da resistência

Sobre o autor deste artigoUrariano Mota - Recife








É pernambucano, jornalista e autor de "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do cabo Anselmo, executada pela equipe do Delegado Fleury com o auxílio de Anselmo.








Um poeta da resistência





Recife (PE) - Em um belo dia de julho de 2009, o ex-preso político Alípio Freire nos guiou pelo Memorial da Resistência em São Paulo. Ali ele conduziu a mim, a minha esposa e filha pelas celas do Deops paulista e, em lugar da pura exposição do terror estatal, nos mostrou humanidade e sementes de esperança entre mortos e torturados.

Enquanto Alípio discorria por entre aquelas paredes, era possível notar que nele residiam juntos um artista plástico, um intelectual, um bom narrador de casos e causos, contados como se surgissem do nada, no meio de pausas de um cigarro e outro. Mas isso, digamos, ainda não estava materializado como um documento íntimo, pessoal da história daqueles anos - eram percepções de passagem entre fumaças. A existência do Memorial era, é objetiva, a sua necessária e dura referência está ao lado de nós. Ali houve e há uma história ocorrida antes e agora pelo rescaldo da ditadura, da sociedade de classes, abjeta e objetiva.

Mal sabia eu que outro Memorial da Resistência já se encontrava em gestação, em uma forma imprevisível e original, como agora sei ao ler “Poemas - De Ordem Política e Social”. Pois aqui ocorre o lugar de um outro Departamento, que em vez de um Deops se estabelece como um Poeops, mas nada de Poe, de Allan Poe, porque Alípio Freire escreve à sua maneira a Poesia que é uma Resistência daquelas vidas de jovens e velhos, homens e mulheres subversivos contra a Ordem. E o resultado agora todos vão conhecer.

Quisera eu poder guiá-los neste momento. Ainda que não tenha o dom do artista Alípio, quando em 2009 nos conduziu pelo Memorial da Resistência, tentarei algo à semelhança de uma apresentação do poeta neste livro que se abre como um fruto maduro, caído do pé da árvore do Brasil.

Na primeira revelação, descubro que todo poeta chama, reclama e ensina para o leitor uma nova poética - aquela que o liberta e nos liberta do vício do acostumado, da forma que é fôrma. Os indivíduos mais tradicionais e conservadores – e nada mais burro e estéril que pessoas condenadas à carga desses dois adjetivos – poderiam dizer que em alguns poemas de Alípio há uma tendência de versos que são uma prosa em linhas descontínuas. E com isso o estúpido confunde poesia com determinados temas e canto ao orvalho na flor, por um lado, e por outro, com a obscuridade, que com freqüência é vista como sublime.

Mas o que é a poesia? Será ela somente a de significados multívocos, quando não ambíguos, com a dignificação de “poesia aberta?” Ou seria ela, mais propriamente, aquele associada ao sentido de beleza e verdade, verdade e beleza, beleza e verdade, até o sol raiar e noite adentro? Se não for isso, parem aqui e respondam depois da leitura:

“Eu tenho uma casinha

lá na Marambaia

fica na beira da praia

onde helicópteros e aviões da Aeronáutica

despejavam corpos de opositores do regime.

Alguns

ainda com vida

Outros

esquartejados.

O terror de Estado contaminou tudo.

Até o nosso mais lírico cancioneiro”.



Na segunda revelação, descubro que este é um livro e lugar onde nasce e se inaugura uma floresta de citações mais adiante, em futuros discursos de políticos iluminados, em poemas vindouros de jovens poetas, em inteligentes conversas de muitos jovens e militantes de todas idades, inconformados com o lixo de mundo que recebem. Se não, olhem alguns versos, como estes:

“Da tragédia

Nós sobrevivemos

ao pau-de-arara.

Mas o pau-de-arara

também sobreviveu”.



Então vamos chegando mais perto da poética de Alípio Freire. A sua estética liga o domínio de conquistas cultas ao pensamento maduro, que gera reflexão, pois este é o poeta que não abstrai, não exclui o pensamento da sua poesia. Isso quer dizer: este poeta é um intelectual de esquerda, um pensador que exerce a sua história e cultura em um só corpo:

“Coquetel

Uma garrafa

Uma rolha

Gasolina

Óleo 30

Pólvora e ácido nítrico

Ou uma mecha em chamas...

... e...

desde então

aquela dificuldade insana de hierarquizar os alvos”.



E mais esta Prestação de contas:

“Para morrer

basta estar vivo.

Para viver

não.”

A vontade que deixa na gente é de escrever somente com os seus poemas, porque descobrimos neles a expressão de um desconforto nosso, uma angústia que não teve ainda vida expressa. Como nestes versos, vizinhança de um epigrama:

“Onde não há igualdade

toda liberdade é sempre um excesso

de privilégios”.



Enfim, aqui reside uma poesia que são cravos, mas não são flores.

(Do prefácio ao livro “Poemas – De Ordem Política e Social”)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

AKHNILO

Akhnilo de James Salter



Era fim de agosto. No porto, os barcos estavam imóveis, nenhum mastro se mexia, nenhuma polia retinia. Os restaurantes tinham fechado havia tempo. Um carro ocasional, os faróis brilhantes, cruzava a ponte, vindo de North Haven, ou descia pela Main Street, passando pelas cabines de telefones arrebentados. Na estrada, as discotecas se esvaziavam. Passava das três da manhã.

Fenn acordou no meio da escuridão. Pensou que tinha ouvido alguma coisa, um som baixinho, o ranger de uma mola como a da tela da porta da cozinha. Ficou quieto no calor da cama. A mulher dormia tranquilamente. Esperou. A casa não estava fechada, apesar dos muitos casos de furto ou coisa pior perto da cidade. Ouviu um leve baque. Não se mexeu. Vários minutos passaram. Sem fazer barulho, levantou-se e foi até o vão estreito da porta, de onde alguns degraus levavam à cozinha. Parou ali. Silêncio. Mais um baque e um gemido. Era Birdman caindo de novo no chão.

Lá fora, as árvores pareciam reflexos negros. As estrelas estavam encobertas. As únicas galáxias eram os sons de insetos que preenchiam a noite. Olhou pela janela aberta. Ainda não estava seguro de ter ouvido alguma coisa. Quase podia tocar as folhas da faia imensa que pendia sobre a varanda dos fundos. Por um tempo que lhe pareceu longo, examinou a área de sombra junto ao tronco. Na imobilidade de tudo, sentia-se visível, mas também estranhamente receptivo. Seus olhos vagavam de uma coisa a outra nos fundos da casa, as pálidas colunas coríntias da pérgula do vizinho, a sebe misteriosa, a garagem de soleira carcomida. Nada.

Eddie Fenn era carpinteiro, apesar de ter estudado em Dartmouth e se formado em história. Quase sempre trabalhava sozinho. Tinha trinta e quatro anos. Tinha o cabelo ralo e o sorriso tímido. Nada de muito mais. Havia alguma coisa de apagado nele. Quando era mais jovem, dizia-se que era um talento, mas jamais se aventurara de verdade na vida, ficara perto da costa. A mulher, alta e míope, era de Connecticut. O pai dela tinha sido banqueiro. De Greenwich e Havana, dizia o anúncio fúnebre nos jornais. Ele cuidara da filial de um banco de Nova York por lá, quando ela era criança. Isso quando Havana era uma lenda e os milionários cometiam suicídio depois de fumar o último charuto.

Os anos tinham passado. Fenn olhou para a noite lá fora. Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim. Deixava-se impressionar por aquela vastidão. Pensou em tudo que estava oculto por trás daquilo, os gestos desesperados, os desejos, as surpresas fatais. Naquela tarde, ele vira um tordo bicando alguma coisa perto do limite da grama, pegando, jogando no ar, pegando de novo: um sapo, as patinhas hirtas estiradas em leque. O passarinho voltou a jogá-lo para cima. Os musaranhos cegos caçavam sem descanso por túneis vorazes, as línguas pontudas dos répteis sondavam o ar, sentia-se um abdômen triturado, a passividade das vítimas, o suave estertor do acasalamento. As filhas de Fenn dormiam na sala. Nada está seguro por mais de uma hora.

Parado ali, teve a sensação de que o som se alterava, não sabia bem como. Parecia isolar-se, como se permitisse que algo se destacasse dele, algo de cintilante e remoto. Tentou aos poucos identificar o que estava ouvindo como um grilo, uma cigarra, mas não, era alguma outra coisa, algo de febril e estranho que ganhava mais nitidez. Quanto mais atenção punha em ouvir, mais esquivo parecia o som. Tinha medo de se mover e perdê-lo. Ouviu o pio suave de uma coruja. A escuridão absoluta das árvores pareceu iluminar- se, e com ela também aquela nota singular e estridente.

Sem alarde a noite se abrira. O céu se revelava, as estrelas brilhavam fracamente. A cidade dormia, calçadas desertas, jardins em silêncio. Ao longe, em meio aos pinheiros, via-se a cumeeira de um celeiro. O som vinha de lá. Ainda não conseguia identificá-lo. Precisava chegar mais perto, descer e sair pela porta, mas assim talvez o perdesse, o som podia se calar, em alerta. Teve uma ideia perturbadora, que não pôde deixar de lado: o som estava em alerta. Trêmulo, repetindo-se e repetindo-se por cima dos demais, o som parecia chegar só até ele. O ritmo não era constante. Acelerava, hesitava, continuava. Era menos um grito instintivo e mais uma espécie de sinal, de código, diferente de tudo que ele ouvira antes, não uma série de pulsos curtos e longos,

mas algo de mais intricado, de certo modo quase como uma fala.

A ideia o assustou. As palavras, se é que eram palavras, eram tênues e pungentes, mas ele tremeu como se fossem a senha de um cofre. Sob a janela ficava o telhado da varanda. A inclinação era suave. Parou ali, perfeitamente imóvel, como perdido em pensamentos.

O coração batia com força. O telhado parecia largo feito uma rua. Teria que ir atrás daquilo, esperando não ser visto, movendo-se em silêncio, sem gestos bruscos, parando para sentir se havia alguma mudança no som a que ele estava agora completamente atento. A escuridão não o protegeria. Ele entrava numa noite de incontáveis redes e olhos irrequietos. Não tinha certeza se devia fazer aquilo, se ousava. Uma gota de suor brotou e correu pelo torso nu. Incansável, o chamado persistia. As mãos de Fenn tremiam.

Soltando a tela da janela, ele a baixou com cuidado e a encostou na parede. Movia-se em silêncio, como uma serpente, por cima do telhado de um verde esmaecido. Olhou para baixo. O chão parecia distante. Teria que se pendurar no telhado e se soltar, leve como uma aranha. Ainda via a cumeeira do celeiro. Movia-se na direção da estrela polar, podia sentir. Era quase como se estivesse caindo. O gesto era atordoante, irreversível, e o levaria aonde nada do que possuía poderia protegê-lo, descalço, sozinho.

Ao cair no chão, Fenn sentiu um arrepio pelo corpo todo. Estava para ser redimido. Sua vida não tomara o rumo que ele esperava, mas ele ainda se achava um ser especial, que não pertencia a ninguém. Na verdade, tinha uma ideia romântica do fracasso. Quase fora a sua meta. Esculpia pássaros em madeira, ou tinha esculpido. As ferramentas e os blocos de madeira parcialmente moldados estavam sobre uma mesa no porão. A certa altura, quase se tornara um naturalista. Alguma coisa nele, o silêncio, a disposição a ficar de lado, vinha a calhar. Em vez disso, começou a produzir mobília com um amigo que tinha algum capital, mas o negócio deu errado. Começou a beber. Certa manhã, acordou ao lado do carro, deitado junto aos sulcos de pneu da vereda, a velha senhora que vivia do outro lado da rua afugentando o cachorro. Entrou em casa antes que as filhas o vissem. Estava a um passo, disse o médico, de se tornar um alcoólatra. As palavras o espantaram. Isso fora há muito tempo. A família o salvara, mas não sem custo.

Parou. O chão era firme e seco. Foi até a sebe e cruzou a vereda do vizinho. O som que o trespassava era mais claro agora. Seguindo-o, passou por casas que mal reconhecia pelos fundos, por quintais abandonados em que latas e detritos se escondiam na grama escura, por galpões que ele jamais vira. O terreno começava a descer suavemente, estava se aproximando do celeiro. Podia ouvir a voz, sua voz, ressoando mais para o alto. Vinha de algum lugar do espectral triângulo de madeira que se elevava como a face de uma montanha distante que se aproxima repentinamente de uma curva da estrada. Movia-se vagarosamente em sua direção, com o medo de um explorador. Mais acima, ouvia a corrente tênue que trinava. Aterrorizado com a proximidade, parou e ficou quieto.

De início, ele recordaria mais tarde, não significava nada, era brilhante demais, puro demais para isso. Continuava a ressoar, mais e mais insano. Fenn não conseguia identificar, não conseguia repetir, não conseguia sequer descrever o som. Ganhara volume, pusera todo o resto de lado. Parou de tentar entendê-lo e, em vez disso, deixou que o percorresse, que o invadisse como um canto. Devagar, como um padrão que muda de aparência quando é observado e começa a tomar outra dimensão, o som se alterou inexplicavelmente e expôs seu núcleo real. Começou a reconhecer. Afinal eram palavras. Não tinham sentido nem antecedentes, mas eram sem dúvida uma linguagem, a primeira a se deixar ouvir de uma ordem mais vasta e mais densa que a nossa. Logo acima, na superfície esbranquiçada, desesperado, suplicante, estava o pioneiro sem nome.

Numa espécie de êxtase, Fenn chegou mais perto. Imediatamente percebeu o erro. O som hesitou. Ele fechou os olhos, num espasmo, mas era tarde demais, o som vacilou e parou. A toda a sua volta, as vozes retiniram. A noite estava repleta delas. Virou-se para um lado e para o outro, na esperança de encontrá-la, mas a coisa que ele ouvira já se fora.

Era tarde. O céu começava a ganhar um tom pálido. Fenn estava junto ao celeiro com os fragmentos de um sonho que se tenta recordar a custo: quatro palavras, distintas e inimitáveis, que ele criara. Protegendo-as, concentrando-se nelas com toda a força que tinha, começou a levá-las de volta. O barulho dos insetos parecia mais alto. Tinha medo de que alguma coisa acontecesse, que um cão latisse, que uma luz se acendesse num quarto e o distraísse, que ele afrouxasse a mão. Tinha que voltar sem ver nada, sem ouvir nada, sem pensar. Repetia as palavras consigo enquanto caminhava, os lábios se moviam sem parar. Mal ousava respirar.

Podia ver a casa. Estava cinzenta agora. Não havia luz nas janelas. Tinha que chegar até lá. O som das criaturas noturnas parecia aumentar com raiva e tormento, mas ele estava além disso. Estava fugindo. Percorrera uma distância imensa, estava chegando à sebe. A varanda não estava longe. Subiu no parapeito, a beira do telhado a seu alcance. A calha era firme, ele se ergueu. Sentiu o calor do asfalto quebradiço e esverdeado sob os pés. Passou uma perna pelo peitoril, depois a outra. Estava seguro. Instintivamente, tomou distância da janela. Conseguira. Lá fora, a luz parecia débil e histórica. Uma aurora espectral começou a atravessar as árvores.

De repente, ele ouviu o chão estalar. Alguém estava ali, uma figura à luz suave e sem cor. Era sua mulher, ficou pasmo diante da imagem dela, apertando a camisola de algodão contra o corpo, o rosto simplificado pelo sono. Fez um gesto de alerta.

“O que foi? O que aconteceu?”, ela sussurrou.

Não, ele implorou, balançando a cabeça. Uma palavra se perdera. Não, não. Ela se agitava e desfazia como uma coisa qualquer lançada ao mar. Ele tentava agarrá-la às cegas. Ela o abraçou. Ele se afastou abruptamente. Fechou os olhos.

“Meu bem, o que foi?” Ele estava perturbado, ela sabia. Ele jamais se recuperara por inteiro das dificuldades. Muitas vezes ele acordava no meio da noite, ela o encontrava sentado na cozinha, o rosto velho e cansado.

“Venha para a cama”, ela convidava.

Ele fechava os olhos com firmeza e tapava os ouvidos com as mãos.

“Você está bem?”, ela perguntou.

A devoção dela dissolvia tudo, as palavras estavam caindo por terra. Ele começou a girar em desespero.

“O que foi, o que foi?”, ela exclamou.

A luz vinha de toda parte, avançando pelo gramado. O sussurro sagrado esvanecia. Não tinha um minuto a perder. As mãos coladas à cabeça, correu até a sala atrás de um lápis, com ela correndo atrás, pedindo que lhe dissesse o que havia. Estavam sumindo, só restava uma, inútil sem as outras, e contudo de valor infinito.Enquanto ele escrevia, a mesa se mexeu. Um quadro tremeu na parede. A mulher, segurando os cabelos de lado com uma das mãos, examinava de perto o que ele escrevera. Dena, de camisola, surgira no vão da porta, despertada pelo barulho.

“O que foi?”, ela perguntou.

“Me ajude”, a mãe exclamou.

“Papai, o que foi?”

As mãos das duas estendiam-se para ele. No vidro do quadro, um quadrado brilhante de azul e verde estremecia, a folhagem luminosa das árvores. As vozes incontáveis recuavam, voltando ao silêncio.

“O que foi, o que foi?”, a mulher implorava.

“Papai, por favor!”

Ele balançou a cabeça. Estava quase chorando quando tentou se livrar das duas. De repente, descambou para o chão e ficou sentado ali, e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela.



Tradução: Samuel Titan Jr.



AKHNILO



Um conto de: JAMES SALTER

Do livro: “ÚLTIMA NOITE e outros contos”

Editora: Cia. das Letras



Retrato das raízes de um país triste

Ensaio clássico de Paulo Prado, publicado em 1928, ganha nova edição

“A visão mais pessimista de nossa história”, segundo Alceu de Amoroso Lima. “Triste no desfecho, mas de narrativa amena e pitoresca, empolgando o leitor, da primeira à ultima página”, no dizer de João Ribeiro. “Um livro que vale mais como obra de arte que de pensamento”, para Agripino Grieco. “Livro pré-freudiano, que repete todas as monstruosidades de julgamento do Ocidente sobre a América descoberta”, na definição de Oswald de Andrade. Estas são algumas das dezenas de opiniões que cercaram a fortuna crítica de Retrato do Brasil: Ensaio Sobre a Tristeza Brasileira, de Paulo Prado. Publicado pela primeira vez em 1928, a contrapelo da maré ufanista daqueles anos, ganhou um numero invulgar de leitores e provocou acirrada polêmica entre os críticos da época. Tudo isto o leitor pode conferir nesta oportuna reedição, primorosamente organizada por Carlos Augusto Calil e fartamente documentada, não apenas pelo acesso que o organizador teve aos arquivos pessoais do autor, mas com um sem-número de notas, depoimentos, resenhas e perfis produzidos nos últimos 80 anos.



Todos foram unânimes em discordar da tese central de que o povo brasileiro é um povo triste e, sobretudo, da equação psicológica através da qual Paulo Prado resumia toda a história brasileira: luxúria + cobiça + romantismo = tristeza. Muitos diziam que o autor confundira as coisas, tomando o sintoma de uma crise de identidade como sendo a própria identidade nacional. Talvez pela clareza do seu estilo ou pelo tom pitoresco da sua argumentação ele acabou por fazer a cabeça de muitos pensadores, então ainda jovens na época, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. – inaugurando uma modalidade de ensaio sobre a identidade nacional que serviria de modelo para aquela tríade de clássicos da década seguinte. Combatendo tanto o ufanismo estéril quanto os determinismos biológicos e raciais que pesavam na compreensão do Brasil, o Retrato pode ser visto como uma espécie de catalisador daquela ansiedade dos modernistas de 1922 em compreender o País de forma intuitiva e rápida.



Mas também representou a síntese mais notável de um debate virtualmente já estabelecido entre a intelectualidade que se voltava para a busca de uma explicação das origens brasileiras. É o caso do pouco conhecido ensaio Melancolias, de Matheus de Albuquerque – publicado em 1915 – com tema e argumentação semelhantes ao ensaio de Prado, embora literariamente inferior a este. Também não havia nada de especificamente brasileiro naquela equação que apontava a tristeza como signo da nacionalidade, pois tal discurso sintético era parte de um conjunto de padrões de comportamento que há muito a cultura ocidental já vinha atribuindo ao universo selvagem e rural, os dois frequentemente assimilados.



Seja como for é sempre compensador ler, ou reler, o Retrato. Como seu grande mestre e inspirador – o historiador Capistrano de Abreu -, Paulo Prado lembrava, em alguns momentos, aqueles moralistas do século 18, ao estilo de Fontenelle – com apenas uma diferença essencial -, o pensador francês viveu numa época de euforia com o progresso, enquanto o ensaísta brasileiro já respirou o oxigênio mental de uma época de forte descrença com o progresso e com a razão iluminista. Há momentos nos quais ele parece mesmo um moralista demodée em pleno século 20, assistindo a uma profunda crise dos valores e de linguagem pública. Lembra ainda Capistrano também na capacidade de citar o documento na hora certa, encaixando – com mão pesadíssima diga-se – trechos de um viajante ou frases diretas retiradas de autos inquisitoriais, quebrando a amenidade da narrativa. Sua caracterização dos portugueses como “um povo já gafado do germe de decadência quando começou a colonizar o Brasil” faz eco daquela ferina definição de Capistrano que dizia que “O Brasil não passava de um Portugal rarefeito e ampliado”. O mais ilustre padrinho dos modernistas paulistas revela-se ainda implacável contra quaisquer regionalismos. Ao tratar da decadência paulista na época da mineração, arremata: “Foi quando os paulistas se barbarizaram de vez: dispersos, escondidos pelas roças, procurando a solidão no seu amuo característico, vivendo de canjica, pinhão e içá torrado”. Conclui que a cidade de Salvador não passava de “um extravagante caravançarai, pitoresco e tropical”, e ao caracterizar o Rio de Janeiro, não deixa por menos, subscrevendo a extravagante descrição de Luccock de que a cidade era uma “das mais imundas associações de homens debaixo dos céus”.



Quanto à discutível equação de Prado para explicar a psicologia nacional, é possível perceber quanto ela serviu de fonte e inspiração para Sérgio Buarque discorrer sobre o significado da cordialidade na história brasileira no seu Raízes do Brasil, publicado em 1936. Por trás da categoria tristeza estava uma sociedade sem grandes mediações, resultando em formas de convívio nas quais predominam a familiaridade, o personalismo e a afetividade, que acabam exportadas para a vida pública e para as estruturas políticas. Seria apenas pela mobilização de tais categorias sentimentais que não apenas o universo social como também o universo religioso ganhavam sentido: note-se que, no conhecido exemplo de Buarque, o Brasil é o único país no qual Santa Tereza de Lisieux vira “Santa Terezinha”. A diferença era que as categorias sentimentais enfeixadas por Buarque na metáfora do homem cordial não eram apenas negativas – como queria Paulo Prado – mas também positivas e, neste caso, tristeza e melancolia, assim como alegria e fuzarca eram faces da mesma moeda. Afinal, como dizia Millôr Fernandes, “a distância entre o riso e a lágrima é apenas o nariz”.



RETRATO DO BRASIL:



ENSAIO SOBRE A TRISTEZA BRASILEIRA



Autor: Paulo Prado



Editora: Companhia das Letras



(400 págs., R$ 49)



* ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, Raízes do Riso (COMPANHIA DAS LETRAS)


Elias Thomé Saliba
 – O Estado de S.Paulo

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.



Teus pés de osso arqueado,

teus pequenos pés duros.



Eu sei que te sustentam

e que teu doce peso

sobre eles se ergue.



Tua cintura e teus seios,

a duplicada purpura

dos teus mamilos,

a caixa dos teus olhos

que há pouo levantaram voo,

a larga boca de fruta,

tua rubra cabeleira,

pequena torre minha.



Mas se amo os teus pés

é só porque andaram

sobre a terra e sobre

o vento e sobre a água,

até me encontrarem.



Tus pies (Pablo Neruda)



Cuando no puedo mirar tu cara

miro tus pies.

Tus pies de hueso arqueado,

tus pequeños pies duros.

Yo se que to sostienen,

y que tu dulce peso

sobre ellos se levanta.

Tu cintura y tus pechos,

la duplicada pu’rpura

de tus pezones,

la caja de tus ojos

que recien han volado,

tu ancha boca de fruta,

tu cabellera roja,

pequeña torre mía.

Pero no amo tus pies

sino porque anduvieron

sobre la tierra y sobre

el viento y sobre el agua,

hasta que me encontraron.

Pablo Neruda

Ausente

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,

guarda para si paisagens que desejo sonhar.

Sob pálpebras alvas de tecido sonolento

percebo o claro volume genital do seu olhar.

Desejo amparo de algum sono, quero fugir

do olho molhado, vermelho, recém-acordado,

intumescido de sono e que me espia chorar

Helga Holtz

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Un poco de poesía no le hace mal a nadie

Hay gente que no lee poesía nunca: le revienta, le parece cursi, no la entiende. Son el producto de la mala formación que la escuela peruana –y latinoamericana en general– logra producir tras un proceso horroroso de solemnidad, aderezado con rigurosas dosis de estupidez y amasado en el transcurso de once años sostenidos. Entonces la poesía tiene que ser “trascendente”, “sublime”, “proteica” y todos esos adjetivos que provocan sarcasmo. Hasta que algunos espíritus rebeldes y persistentes descubren en sus adolescencias a algún poeta que los saca de cuadro, Rimbaud, Bukowski, Pavese o Luchito Hernández, y regresan a vislumbrar esa fuerza perturbadora de lo simbólico, escondida detrás de estos signos sobre un papel o pantalla en blanco. La verdad que la poesía es solo un juego con el lenguaje que de muy pequeños nos encanta porque lo vamos descubriendo y poco a poco le vamos perdiendo el interés, a menos que la sigamos cultivando despacio, tranquilamente, evitando la mala hierba, para recuperar la sorpresa ante esas extrañas y perfectas epifanías.



Wislawa Szymborska, la gran poeta polaca y Premio Nobel de Literatura 1996, es una de aquellas personas que tras su aparente bonhomía permiten a cualquier mortal volver sobre la fe en las palabras. Su obra es parca, como su estilo, y sin embargo a través de un riguroso trabajo de constancia y de penetración en las sensibilidades contemporáneas ha forjado una manera diferente de contemplar el mundo y escribirlo. Aquí uno que titula simplemente Agradecimiento: “Debo mucho/ a quienes no amo.// El alivio con que acepto/ que son más queridos por otro. // La alegría de no ser yo/ el lobo de sus ovejas. //Estoy en paz con ellos/ y en libertad con ellos,/y eso el amor ni puede darlo/ ni sabe tomarlo”. Genial.



Szymborska, “¡cómo se pronunciará correctamente!, pero como lo decimos en castellano se percibe tremendamente sonoro”, ha sido un espíritu juguetón y especial. Aprendió castellano para leer a Cervantes “con diccionario” y porque le parecía que el español sonaba “a un latín bellamente estropeado”. Durante sus ratos libres solía realizar pequeños collages de figuras extraídas de revistas de 1920. Por expresa decisión de ella, sus libros de poemas con collages nunca han sido traducidos del polaco. Nunca se movió de Cracovia. Cuando la invitaban a diversos lugares, sobre todo después del Nobel, ella siempre contestaba: “iré cuando sea más joven”. Leyendo sus poemas uno puede deducir que detestaba los círculos literarios, la gente que respira en poesía todo el día, y prefería recluirse en su departamentito de edificios grises y burocráticos de su ciudad para simplemente atisbar la vida: sus poemas nos hablan de los amores-no amores, de las cartas de la hermana, de una bomba puesta en un bar, de los edificios cayendo en Nueva York en setiembre del 2001 o de los desayunos de los obreros del movimiento Solidarinosc. La simpleza de cada una de esas palabras es, en realidad, años de años cincelándolas, controlándolas, domándolas, en uno de los idiomas más complicados de la tierra.



El miércoles 1º de febrero Szymborska murió en Cracovia, acompañada de sus amigos más cercanos, y al parecer de la misma manera tranquila como trascurrieron sus últimos años. De cara a la muerte recordemos este poema sobre la vida: “En esta escuela del mundo/ ni siendo malos alumnos/ repetiremos un año/ un invierno o un verano“

Rocío Silva Santisteban – La República



DISCURSO DE NOIVADO APÓS O JANTAR

Este eu, um recipiente, que

desde que ninguém o abra,

parece compacto, liso

como um ovo Kinder,

quase apetitoso. Somente lá,

no interior, está escuro. Quem sabe

o que estará dentro, à tua espera.

Obsessões, sem dúvida,

hábitos enferrujados,

medos incompreensíveis,

truques em segunda mão,

desejos infantis.

Que tu a desejes ter,

a esta prenda embrulhada,

roça o milagre.

Hans Magnus Enzensberger

UMA CANTIGA COR-DE-TERRA

Outro poema sobre a morte, etc. –

certamente mas e quanto à batata?

Por razões óbvias não é mencionada

por Horácio ou Homero, a batata.

E o que dizer de Rilke e Mallarmé?

Será que não lhes disse nada, a batata?

Muito poucas palavras rimam

com ela, a batata cor-de-terra?

Não é muito preocupada com o céu.

Espera pacientemente, a batata,

até que a arrastemos para a luz

e a atiremos ao fogo. A batata

não se importa, mas será possível

que seja demasiado quente para os poetas, a batata?

Bom, vamos então esperar um pouco

até que a comamos, à batata,

e a cantemos e depois a esqueçamos novamente.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

POR VEZES

Quando conheces alguém

mais inteligente ou mais estúpido do que tu -

não faças caso disso.

As formigas e os deuses,

acredita, sentem o mesmo.

Que exista mais gente na China,

digamos, que em San Marino,

não é uma desgraça.

A maioria das pessoas, sem dúvida, é

mais negra ou mais branca que tu.

Por vezes és um gigante,

qual Gulliver, ou um anão.

Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir

uma beleza ainda mais radiante,

alguém ainda pior.

És medíocre,

felizmente. Aceita-o!

Sete graus centígrados a mais

ou a menos no termómetro -

e estarias além da salvação.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

SERMÃO DOMINICAL DE ASTRONOMIA

Quando a conversa se volta para as nossas desgraças –

fome, homicídios, assassinatos, etc. –

Garantido! Uma casa de loucos!

Mas, por favor, permitam-me

ressalvar, sem falsas modéstias

que apesar de tudo

é um planeta bastante favorável

este, no qual nos encontramos,



uma pérgula rosa,

comparado com Neptuno

(menos 212 graus centígrados,

velocidade do vento de mais de 600 mph

e uma pipa de metano

na atmosfera).

Só para que se saiba que noutros lugares

é muito menos confortável.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fachadas

FACHADAS



1.



No fim da estrada vejo o poder

e é como uma cebola

com rostos sobrepostos

que caem um a um…



2.



Esvaziam-se os teatros. É meia-noite.

Palavras ardem nas fachadas.

O enigma das cartas sem resposta

afunda-se na fria cintilação


Tomas Tranströmer – Poesia & Lda

Morre aos 88 a poeta e Nobel de Literatura Wislawa Szymborska

A escritora, premiada em 1996, sofria de um câncer de pulmão

A poeta polonesa Wislawa Szymborska, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, morreu ontem, aos 88 anos, em Cracóvia.

Szymborska (pronuncia-se Chembórska), conhecida por ser fumante inveterada, tinha câncer de pulmão e morreu em casa, de acordo com seu assistente pessoal, Michal Rusinek.

Em sua premiação, o comitê do Nobel a qualificou como o “Mozart da poesia”, destacando a elegância de sua linguagem. Szymborska também foi agraciada com o prêmio Goethe, em 1991, e o Herder, em 1995.

A escritora teve sua primeira compilação lançada em português no ano passado pela Companhia das Letras, com o título “Poemas”.


Também em 2011, o presidente polonês Bronislaw Komorowski concedeu a Szymborska a maior distinção do país, o prêmio “Order Orła Białego” (”Águia Branca”), por sua contribuição à cultura nacional.


Em reação à sua morte, o presidente escreveu que ela “inspirou os poloneses por décadas com seu otimismo e com o poder da beleza e a força de sua palavra”.


O primeiro-ministro Radek Sikorski afirmou em seu Twitter que a morte da poeta foi “uma perda irreparável para a cultura polonesa”.


Seus escritos são vistos como uma forte crítica às utopias e tragédias do século 20.


Entre os admiradores de Szymborska, estão o cineasta Woody Allen e o escritor Umberto Eco, que já declarou que ela escrevia “de forma descomplicada sobre as coisas mais importantes”


Fonte: Folha de São Paulo 02/02/2012