terça-feira, 26 de março de 2013



O cão sem plumas
II

[...]

Quanto maior o poder de meu dinheiro, mais forte sou. As qualidades do dinheiro são qualidades e poderes essenciais meus, do possuidor. Portanto o que sou e o que posso fazer não são de forma alguma determinados por minha individualidade. Sou feio, porém posso comprar a mulher mais bela. O que significa que não sou feio, uma vez que o efeito da feiúra, seu poder repulsivo, é destruído pelo dinheiro. Como um indivíduo, sou manco, porém o dinheiro me proporciona vinte e quatro pernas. Logo, não sou manco. Sou um indivíduo perverso, desonesto, inescrupuloso e estúpido, mas o dinheiro é respeitado, e assim também seu dono. O dinheiro é o bem supremo, e consequentemente seu dono também é bom.

[Karl Marx. In: EAGLETON, Terry. Marx e a liberdade. São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 33-34]

segunda-feira, 25 de março de 2013



"Todos os Estados totalitários se apoiam na supressão do direito à informação. Só assim conseguem silenciar, pelo menos por um tempo, a propagação das violações, dos abusos, das violências contra o cidadão praticadas em “nome da ordem”, a revelar que na vida social não há direito perdido que não tenha sido usurpado por alguém. Falta de liberdades, de direitos e de acesso à informação são elementos fundamentais na consolidação do terrorismo de Estado."

Maria Rita Kehl

domingo, 24 de março de 2013

O Arco e a Lira



"A distância entre a palavra e o objeto-que é o que obriga,justamente,cada palavra a tornar-se metáfora daquilo que designa- é consequência de outra: somente o homem adquiriu consciência de si,separou-se do mundo natural e se fez outro no seio de si mesmo. A palavra não é idêntica à realidade que nomeia porque entre o homem e as coisas -e, mais profundamente, entre o homem e o seu ser- se interpõe a consciência de si." Octavio Paz. O Arco e a Lira.

Pedro Páramo



"Em minha vida, há muitos silêncios", disse Rulfo, certa vez. "Na minha escrita também."

Rulfo disse que levou Pedro Páramo dentro de si por muitos anos, antes de escrevê_lo. (...) Sim, existe uma estrutura em Pedro Páramo, mas è uma estrutura feita de silêncios, de fios soltos, de cenas cortadas, onde tudo ocorre num tempo simultâneo, que é um não_tempo." In Questáo de Ênfase, Susan Sontag, p. 144.

O intelectual



“O intelectual pode bem, e deverá sempre, se pôr a serviço duma dessas ideologias, duma dessas verdades temporárias. Mas por isso mesmo que é cultivado, e um ser livre, por mais que minta em proveito da verdade temporária que defende, nada no mundo o impedirá de ver, de recolher e reconhecer a Verdade da miséria do mundo. Da miséria dos homens. O intelectual verdadeiro, por tudo isso, sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário, pessimista, cético e cínico: fora da lei.”

- Mário de Andrade, 1976.

Momento




O homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. A insidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio um riso límpido e irresistível – em i, em a, em o – do fundo de um pátio da infância. Um riso... Senão quando o homem achou os fósforos e a vida recomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes...

- Mario Quintana, in: Sapato Florido, 1948.