terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Pedra na água





'O sábio não é o homem que fornece
as verdadeiras respostas; é quem faz
as verdadeiras perguntas'...

–– Claude Lévi-Strauss (1908–2009),

O Nome das Coisas



Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser

- Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

Envelhecer




Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

- Mario Quintana, in: Sapato Florido, 1948.



 
A música é o verbo do futuro.

Até que ponto a recordação está próxima do remorso!

A medida do amor é amar sem medida.

Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável.

Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma necessidade da alma.

Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos.

Mais facilmente se julgaria uma pessoa segundo os seus sonhos do que segundo os seus pensamentos.

Nada se assemelha à alma como a abelha. Esta voa de flor para flor, aquela de estrela para estrela. A abelha traz o mel, como a alma traz a luz.

Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança.

Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã.

Os infelizes são ingratos; isso faz parte da infelicidade deles.

O sábio sabe que ignora.

Se você quer civilizar um homem, comece pela avó dele.

Ser bom é fácil. O difícil é ser justo.

Ser contestado é ser constatado.
 

Victor Hugo, novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta

 
 

A noite kuna



Galeano - 25 de fevereiro
 
O governo do Panamá havia ordenado, por lei, a redução à vida civilizada das tribos bárbaras, semibárbaras e selvagens que existem no país".
E seu porta-voz havia anunciado:
- As índias kuna nunca mais pintarão o nariz mas sim as faces, e já não usarão argolas no nariz mas sim nas orelhas. E ja não vestirão molas mas sim vestidos civilizados.
E elas e eles foram proibidos de sua religião e de suas cerimônias, que ofendiam Deus, e a sua tradicional mania de se governar ao seu modo e maneira.
Em 1925, na noite do dia 25 do mês das iguanas, os kunas passaram à faca todos os policiais que os proibiam de viver sua vida.
Desde então, as mulheres kunas continuam usando argolas nos narizes pintados, e continuam vestindo suas molas, esplêndida arte de uma pintura que usa agulha e linha em vez de pincel. E elas e eles continuam celebrando suas cerimônias e suas assembléias, nas duas mil ilhas onde defendem, por bem ou por mal, seu reino compartilhado.
 


Canção da Saudade




Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

- Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1' (ortografia da época)