terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
O Nome das Coisas
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
- Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome
das Coisas"
Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
- Mario Quintana, in: Sapato Florido, 1948.
A música é o verbo do futuro.
Até que ponto a recordação está próxima do remorso!
A medida do amor é amar sem medida.
Chega sempre a hora em que não basta apenas
protestar: após a filosofia, a ação é indispensável.
Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma
necessidade da alma.
Há pensamentos que são orações. Há momentos nos
quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos.
Mais facilmente se julgaria uma pessoa segundo os
seus sonhos do que segundo os seus pensamentos.
Nada se assemelha à alma como a abelha. Esta voa de
flor para flor, aquela de estrela para estrela. A abelha traz o mel, como a
alma traz a luz.
Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de
criança.
Não há nada como o sonho para criar o futuro.
Utopia hoje, carne e osso amanhã.
Os infelizes são ingratos; isso faz parte da
infelicidade deles.
O sábio sabe que ignora.
Se você quer civilizar um homem, comece pela avó
dele.
Ser bom é fácil. O difícil é ser justo.
Ser contestado é ser constatado.
Victor Hugo, novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta
A noite kuna
Galeano - 25 de fevereiro
O governo do Panamá havia ordenado, por lei, a redução
à vida civilizada das tribos bárbaras, semibárbaras e selvagens que existem no
país".
E seu porta-voz havia anunciado:
- As índias kuna nunca mais pintarão o nariz mas sim as
faces, e já não usarão argolas no nariz mas sim nas orelhas. E ja não vestirão
molas mas sim vestidos civilizados.
E elas e eles foram proibidos de sua religião e de suas
cerimônias, que ofendiam Deus, e a sua tradicional mania de se governar ao seu
modo e maneira.
Em 1925, na noite do dia 25 do mês das iguanas, os kunas
passaram à faca todos os policiais que os proibiam de viver sua vida.
Desde então, as mulheres kunas continuam usando argolas
nos narizes pintados, e continuam vestindo suas molas, esplêndida arte de uma pintura
que usa agulha e linha em vez de pincel. E elas e eles continuam celebrando
suas cerimônias e suas assembléias, nas duas mil ilhas onde defendem, por bem
ou por mal, seu reino compartilhado.
Canção da Saudade
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor.
Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na
minha edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives,
dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da
galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do
fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes
passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas
vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres
bellas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas
indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem
em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
- Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu
nº1' (ortografia da época)
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