domingo, 9 de dezembro de 2012

ALGUNS POEMAS


P. P. Pasolini 

SIBILA

Una furiosa luna sulle zolle



Non arate, le secche impalcature,

spande fuoco. Tanto più folle

quanto più calmo il passo mi conduce

verso angoscie che furono pure.



Uma furiosa lua sobre torrões

Não arados, secos assoalhos,

espalha fogo. Tanto mais veloz

quanto mais calmo o passo me conduz

a angustias que se foram.



*



Nella notte una precoce pioggia profuma

le insonni felicità dell’ esistenza.



Na noite uma precoce chuva perfuma

as insones felicidades da existência.



*



Bisogna bruciare per arrivare

consumati all’ ultimo fuoco.



E preciso queimar para chegar

consumidos ao derradeiro fogo.



*



La conoscenza è nella nostalgia.

Chi non si è perso non possiede.



O conhecimento está na nostalgia.

Quem não se perdeu não se apropria.



XXVI

In sogno

ti ho sentita gridare

Un grido

similar a quello che aveva straziato

la notte

all’ inizio del male.

Un grido d’ ira,

o creatura,

contro le figlie, te stessa

e la morte.



XXVI

Em sonho

te senti gritar

um grito

similar àquele que havia dilacerado

a noite

nos primórdios do mal.

Um grito de raiva,

ó criatura,

contra as filhas, contra ti

e a morte.



XVII

O dolce sonno

Ingannala ancora tu,

un poco.

Consuma queste ultime ore,

e, inavvertito,

falle valicare la soglia.



XVII

Ó doce sono

a engana tu, ainda

um pouco

consuma estas últimas horas

e, inadvertido,

fá-las ultrapassar o limiar



*



È Parola non Carne…

E finché resterà sospesa,

Io non entrerò nel destino.

Fui fanciullo, fui adolescente,

fui giovane… Tutto minaccia

di passare, anzi d’ essere passato

— una leggenda qualunque

alle mie spalle di morto…

Ed io la so, la Parola:

e come non potrei se son io

questo dato senza cifre,

questo Indefinito parlante?

Se son io questo vaso di miseria,

questa litania del peccato,

dell’ insoddisfazione, dell’ imperfetto,

questa voce ossessionata?

Non so far altro che ripetermi,

da anni, fin da quando

— ansioso Indiziato —

cominciai a smantellarmi:

eppure è RIMASTA PAROLA…

Tutto minaccia di passare,

… oh brivido atroce,

non sono mai vissuto!

Son corso intorno al cerchio

del mio destino e non son mai entrato!

E morirò cosi? Parola,

impazzisco di te e tu non vivi.



É Palavra não Carne…

E ate que reste suspensa,

não mergulharei no destino.

Fui criança, adolescente,

jovem… tudo ameaça

passar, ou melhor, de ter passado

— uma lenda qualquer

às minhas costas de morto…

E eu a sei, a Palavra:

e como não poderei se sou eu

este dado sem cifras,

este Indefinido falante?

Se sou eu este vaso de miséria,

esta litania do pecado,

da insatisfação, do imperfeito

esta voz atormentada?

somente sei me repetir

há anos, desde quando

— ansioso Indiciado —

comecei a me desmantelar:

também PERMANECEU PALAVRA

Tudo ameaça passar,

… oh frêmito atroz,

nunca vivi!

Corri ao redor

de meu destino e nunca entrei!

E morrerei assim? Palavra,

Enlouqueço por ti e tu não vives.



O tenero predone di profumi



Con la mano immersa dentro le perle

della sera dai corporei tepori,

attraverso la piazza, giungo al lume

modesto di un negozio, torno…Non ha

prezzo questo tepore scintillante

di freschezza, questa intensa notte

che lascia più aria intorno ai gridi,

più vuoti…

O tenero predone di profumi,

ecco di che morire d’ inquietudine.



Ó terno predador de perfumes



Com a mão imersa em pérolas

da noite da corpórea tepidez

atravesso a praça, alcanço o lume

modesto de uma loja, retorno… Não tem

preço esta tepidez cintilante

de frescor, esta intensa noite

que exala mais ar ao redor dos gritos

mais vazios…

ó terno predador de perfumes

eis porque morrer de inquietude









Tradução: Berenice Sica Lamas



Berenice Sica Lamas (Pelotas – RS) Poeta, escritora, ensaísta, psicóloga e doutora em Letras. Membro da Academia Literária Feminina/RGS. Vários livros publicados. Vive em Bologna (Itália). Ítalo-brasileira, trabalha com traduções. participa de círculos poéticos e de leitura, tem publicado poemas em revistas e em sites italianos e brasileiros. Premiada no concurso literario multicultural “Lune di primavera” do Comitato Internazionale 8 marzo (Perugia).


Chiquilin de Bachin e Balada Para Mi Muerte



Chiquilin de Bachin, de Piazzolla e Ferrer – Ensemble Astor

Balada para mi muerte, de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer. Cantado por Raul Lavié

Moriré en Buenos Aires

será de madrugada

Guardaré mansamente

las cosas de vivir

Mi pequeña poesía

de adioses y de balas

Mi tabaco mi tango

mi puñado de spleen

Me pondré por los hombros

de abrigo toda el alba

Mi penúltimo whisky

quedará sin beber

Llegará tangamente

mi muerte enamorada

Yo estaré muerto en punto

cuando sean las seis

Hoy que Dios me deja soñar

A mi olvido iré por Santa Fe

Sé que en nuestra esquina vos ya estás Toda de tristeza hasta los pies Abrazame fuerte que por dentro

Oigo muertes viejas muertes

allet

Repitiendo tu nombre

por una calle blanca

Se me irán los recuerdos

en puntitas de pie

Moriré en Buenos Aires

Será de madrugada

Guardaré mansamente

las cve stuck to the ceiling

over my bed. I’ve listened to the songs

of the galaxy. Well, Carmen, I would rather

give you your third set of steak knives

than tell you what I know. Let me find you

some other store-bought present. Don’t

make me warn you of stars, how they see us

from that distance as miniature and breakable,

from the bride who tops the wedding cake

to the Mary on Pinto dashboards

holding her ripe red heart in her hands.

(tradução colectiva PoesiaIlimitada)

POEMA PARA NÃO SER LIDO NO TEU CASAMENTO

Pedes-me um poema sobre o amor

em lugar de uma prenda de casamento, tentando que eu poupe

dinheiro. Por três noites estendi-me sob

estrelas que-brilham-no-escuro colei-me ao tecto

sobre a minha cama. Escutei as canções

da galáxia. Bem, Carmen, eu preferiria antes

dar-te o teu terceiro jogo de facas de carne

a ter de te contar o que sei. Deixa que te descubra

algum outro presente de loja, comprado. Não

me faças avisar-te das estrelas, de como nos vêem

à distância, tão diminutas e quebráveis,

desde a noiva que encima o bolo de casamento

até Maria, no tablier de um Ford Pinto

segurando seu coração rubro e maduro entre mãos.

Amorosa antecipação

Jorge Luis Borges

Ni la intimidad de tu frente clara como una fiesta

ni la costumbre de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,

ni la sucesión de tu vida asumiendo palabras o silencios

serán favor tan misterioso

como el mirar tu sueño implicado

en la vigilia de mis brazos.

Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,

quieta y resplandeciente como una dicha que la memoria elige,

me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,

Arrojado a quietud

divisaré esa playa última de tu ser

y te veré por vez primera, quizá,

como Dios ha de verte,

desbaratada la ficción del Tiempo

sin el amor, sin mí.



Jorge Luis Borges in Luna de enfrente(1925) -Versión transcripta por José Ignacio Márquez.,pp 9.



Amorosa antecipação

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,

nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,

nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios

serão favor tão misterioso

como olhar o teu sono envolvido

na vigília dos meus braços:

Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,

serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,

dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.

Entregue à serenidade,

divisirei essa praia última do teu ser

e ver-te-ei acaso pla primeira vez

como Deus te verá,

já dissipada a ficção do Tempo,

sem o amor, sem mim.

Ariadne

deglutia flores
amassadas na maionese
acionava os alarmes da aurora
despertava no país do sono
brincava de cabra-cega na beira dos precípicios
palitava os dentes
à espera do apocalipse.

Paulo Melo Souza.

sábado, 8 de dezembro de 2012

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS




A viração desatava os cabelos lisos e negros de Flor,
punha-lhe o sol azulados reflexos.
No barulho das ondas e no embalo do vento.

Rompeu a aldeia sobre o mar de Itapoã,
a brisa veio pelos ais de amor, e,
num silêncio de peixes e sereias,
a voz estrangulada de Flor em aleluia;
no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!

Jorge Amado

ABC DE CASTRO ALVES



“A praça do povo, amiga, como o céu é do condor”.
A praça é do povo, é o seu campo de batalha, onde ele protesta e luta.
Nãos vistes ainda a multidão se agitar na praça como um mar em tormenta que destrói navios e invade o cais?

          No tempo do poeta Castro Alves
          Os negros eram escravos comprados em leilões,
          Mercadoria que se vendia, trocava e explorava.
          E em troca de tudo que eles deram ao branco,
          Sua força, seu suor, suas mulheres e filhas,
          A maciez da sua fala que adoçou a nossa fala,
          Sua liberdade,
          O branco lhe quis dar apenas,
          Além do chicote, os deuses que possuía.

          Mas deuses os negros traziam da África,
          Os deuses da floresta e do deserto,
          E continuaram fiéis aos seus deuses
          Por mais que rezassem ao deuses
          Dos seus donos.

          Do fundo das senzalas vinha o choro convulso
          Dos negros no bater dos atabaques,
          Quando chegava do longínquo das praças
          A inquietação do homens...
          Era toda uma raça que sofria,
          Se desesperava e reagia,
          Conservando alguma coisa de seu,
          Puramente seu.

          ......

          Assim ele via o negro, magnífico, forte e belo,
          Rompendo as cadeias, livre na sua força colossal..l.


Jorge Amado 

NOITE DOS “CAPITÃES DA AREIA”



A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar  em frente.                                                 
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.

A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.

Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas. 


Jorge Amado