Mostrando postagens com marcador Robert Kurz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robert Kurz. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de julho de 2016

MARX E O COMUNISMO


"O comunismo para Karl Marx não se trata nem do paraíso em terra nem da construção de um novo ser humano, mas sim da superação das exigências capitalistas feitas ao ser humano, de um final das catástrofes sociais produzidas pelo capitalismo. Nem mais nem menos. O fato de isto só ser viável, se for superada toda a história acontecida até o presente como uma história de fetiches, não reside na arrogância da crítica, mas sim na arrogância do próprio capitalismo. Mesmo após o capitalismo, continuará havendo doença e morte, dor-de-cotovelo e gente calhorda. Só que não haverá mais nenhuma pobreza paradoxal em massa, produzida através de produção abstrata de riqueza; não haverá mais um sistema autonomizado de relações fetichistas nem formas sociais dogmáticas. O objetivo é grande, exatamente porque, medido pela exaltação utopística, mostra-se relativamente modesto, e não promete nada mais que libertar de sofrimentos totalmente desnecessários."


ROBERT KURZ

quinta-feira, 18 de julho de 2013

NÃO HÁ REVOLUÇÃO EM LADO NENHUM

Robert Kurz (1943 - 2012)



Carta aberta às pessoas interessadas na EXIT! na passagem de 2011 para 2012

A esquerda que cheira o traseiro de cada manifestação social à vista na rua o que mais gostaria era de se regalar nas paisagens florescentes de um ano revolucionário em 2011. Para além da falta de vergonha para voltar a desenterrar e a remoer freneticamente a palavra começada por R, que estava enterrada e esquecida, a mera adulação dos diversos protestos e levantamentos não ajuda nada a causa da libertação social. Marx sublinhou com razão que uma transformação verdadeiramente revolucionária apenas progride na medida em que os seus começos e fases de transição são criticados sem dó nem piedade, para os superar e para repelir as suas meias-verdades, falácias e aberrações. Se assim não for, todo o empreendimento se pode transformar no seu contrário. Decisiva aqui é a importância da reflexão teórica. Isto é especialmente verdade numa situação como a de hoje, em que ainda não há uma ideia desenvolvida da ruptura revolucionária com a ordem estabelecida. A forma de mediação é a polémica contra o estado dos movimentos, e não o envolvimento disposto a adaptar-se, reagindo de modo puramente táctico às dificuldades ideológicas e limitando-se a reflectir afirmativamente para os intervenientes a sua falsa consciência imediatista. Depois de mais de 250 anos de história da modernização não há mais espontaneidade inocente...

Na história moderna a degradação social da juventude estudantil sempre foi fermento de erupções revolucionárias. Mas para que a partir daí ocorresse uma verdadeira revolução social teve de se criar em primeiro lugar um esboço teórico actualizado e, em segundo lugar, teve de realizar-se uma organização social abrangente, incluindo as classes mais baixas. A este respeito se mostra a completa vergonha intelectual, social e organizacional da geração Facebook. Em todos os movimentos não há vestígios de uma ideia nova e revolucionária, a classe média académica comporta-se em grande parte de modo auto-referencial e sem qualquer conexão sistemática com as classes mais baixas e o encontro não vinculativo através da Internet permanece sem força organizativa no domínio social. Além de frases democráticas ocas não há mais nada. Portanto, também em lado nenhum se pode falar de uma revolução, se se entender isso como mudança fundamental social e económica e não apenas como substituição das personagens da administração da crise por outras ainda piores.

Como não há qualquer dialéctica qualitativamente nova entre reforma e revolução, mesmo as abordagens sindicalmente limitadas não conseguiram implantar-se. A redistribuição dos rendimentos do petróleo e do turismo não se concretizou. Na Europa e nos EUA nem sequer exigências sociais específicas atingiram uma amplitude apreciável. Assim, a revolta está a ser instrumentalizada por forças muito diferentes que fazem valer a sua tendência para a barbarização perante o vazio ideal e organizacional. Nos países árabes são os fascistas religiosos islamistas que vencem uma eleição após a outra, assim pondo a descoberto a indiferença de conteúdo da democracia aridamente formal como padrão de legitimação. Eles já usurparam em parte os sindicatos, colocaram a sua política de caridade no lugar da emancipação social e, assim, ganharam as classes mais baixas, puseram em marcha o seu terror virtuoso hostil às mulheres e aos homossexuais e transformaram o incitamento anti-semita contra Israel numa válvula de escape para a raiva contra a falta de melhorias económicas. No sul e no leste da Europa está em grande ebulição o anacrónico fascismo nacionalista, que oferece a superfície de projecção para as formas bárbaras de digerir o vazio de ideias e a impotência social. Os pogroms contra os roma na Itália e na Hungria ou o tratamento cruel de refugiados e migrantes na Grécia falam por si. O complemento ideal para isso é dado pelo tom inequivocamente anti-semita do movimento occupy...

Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, esta verdade antiga precisa de ser reinventada para a situação historicamente mudada. É no desenvolvimento e disseminação de conteúdos inovadores de reflexão, na própria intervenção teórica, que reside hoje a resposta à questão do que fazer; não em pseudo-atividades inventadas, nem na actividade artesanal em pequenos mundos ilusórios resguardados, que ainda ficam trás dos movimentos de protesto. Somente quando estes se modificam a si mesmos, confrontando-se com a teoria reformulada e justamente assim se mediando consigo mesmos, só então eles deixam de funcionar no vazio. Não deixa de ser involuntariamente cómico que a esquerda parada ao lado volte a tematizar outra vez a "questão da organização" com grande vazio de conteúdo teórico e sem uma ruptura fundamental com o padrão de pensamento falido do antigo marxismo e da pós-modernidade. Isso já em 1968 correu horrivelmente mal.

A renovação teórica em atraso só pode visar negativamente o falso todo de modo essencialista e anti-relativista. Quem não quiser apreender e combater a totalidade capitalista já perdeu. A viragem culturalista e desconstrutivista levou a um impasse, porque pretendeu fazer esquecer a lógica objectivada do fetiche do capital para poder fazer desaparecer a crítica no design das particularidades. Deve-se, pelo contrário, provocar uma espécie de contenda do universalismo, que caracterize a abstracção categorial como referência essencial da realidade. Não será com a barriga nem com os pés que se tocará para as relações de crise a sua própria melodia...


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A comercialização da alma





Robert Kurz

Foi-se o tempo em que as pessoas de vez em quando ainda ousavam pensar, envergonhadas, em outra coisa senão na sua própria venalidade e na de seu produto. Cada vez mais os indivíduos se transformam, de fato, naquele "homo economicus" que outrora era uma simples imagem da economia política clássica. Com a economização de todas as esferas da vida, a economização da consciência avançou num grau até havia pouco inconcebível -e isso, graças à globalização, nos quatro cantos do mundo, não só nos centros capitalistas. Quando até mesmo amor e sexualidade, tanto na ciência quanto no cotidiano, são pensados cada vez mais como categorias econômicas e estimados segundo critérios econômicos, a "comercialização da alma" parece irresistível. Não há mais, é lícito pensar, nenhum oásis emocional, cultural ou comunitário alheio às garras econômicas: o cálculo orientado pelo lucro abstrato e a política empresarial de custos perfazem, no início do século 21, todo o circuito da existência. Dessa tendência social à plena economização nasceu, evidentemente, um novo tipo de socialização: o modelo da família nuclear fordista (mãe, pai, um filho, um cachorro, um carro) foi reduzido ao modelo do celibatário pós-moderno assexuado ("mônada hermética", um computador, um celular). Aqui estamos às voltas, em certa medida, com indivíduos-concorrência solitários, municiados de alta tecnologia, que, ao mesmo tempo, regrediram socialmente ao estágio do ego infantil: "Célere, flexível, pronta para o trabalho, egoísta, traiçoeira, superficial" -assim descreve uma revista econômica alemã as qualidades essenciais da chamada "geração @". Pessoas com tal estrutura de caráter e forma de consciência teriam sido consideradas ainda nos anos 70 como perturbadas mentais e habilitadas a um tratamento sociopedagógico; hoje foram alçadas a modelo social. Isso porque somente uma combinação de inteligência tecnicamente reduzida a consertos domésticos, absoluto sangue-frio e imaturidade emocional pode possibilitar que a "adaptação ao mercado" por parte da pessoa chegue a extremos -e é justamente essa norma de conduta que requer o capitalismo global em crise. Não é à toa que se vêem com frequência sempre maior figuras púberes com a máscara do sucesso estampada no rosto. Esses são os supostos "fundadores" do novo empresariado na Internet, que trabalham feito loucos e se identificam com sua empresa a ponto de renunciarem a si mesmos. Regalando-se em suas fantasias de onipotência, imaginam mudar a face do mundo, embora seu conteúdo pessoal seja caracterizado por lastimável banalidade e redunde em efeitos tecnológicos mínimos ou em alguma forma de propaganda sem graça. Com o palavrório de entrevistadores pop, eles se vêem fazendo uma "revolução", ao passo que na verdade são acríticos e conformistas ao extremo perante a ordem dominante, num grau jamais alcançado por nenhuma geração nos últimos 200 anos.