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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Liberdade


(Tradução de Carlos Drumonnd de Andrade e Manuel Bandeira)
Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar
Liberdade

Paul Eluard 

domingo, 14 de abril de 2013

Poemas de Paul Eluard


Diz-se do amor


I

Nosso silêncio faz calar a tempestade
Acalmará a folhagem profunda

Carrego duas mãos abandonadas


II

O barco naufragava para sempre na bruma

Longe longe diz o ódio
Perto perto diz o amor


III

Os olhos de um ar vivo soberano inocente
Os seios leves ela ria de tudo

E o mar dispersou a areia de seu trono.


--


Diz-se da forma do amor


I

O sol duro como uma pedra
Razão compacta vinha feroz

E o espaço cruel é um muro que me encerra


II

Neste deserto que me habitava que me vestia

Ela me beijou e ao me beijar
Ela me ordenou que eu visse e escutasse.


III

Com beijos e palavras
Sua boca seguiu o caminho de seus olhos

Ali havia vivos mortos e vivos.



(O difícil desejo de permanecer – 1946)


Paul Eluard – Últimos poemas de amor.
Tradução: Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity.
Mais dois poemas de Paul Éluard


A aliança

Definitivamente são duas árvores pequenas
Sozinhas em um campo aberto
Que nunca mais se separarão.


--


N


I

Em que pensas
Eu penso no primeiro beijo que te darei.


II

Beijos semelhantes às palavras do sonhador
Estais a serviço de forças inventadas.


III

As ruas dos pequenos amores
Os muros acabam em noite negra

Eu amo
E minhas cortinas são brancas.


IV

Sem esplendor e doce em seu ninho
Ela aparece num sorriso.


V

No dia 21 de Junho de 1906
Ao meio-dia
Tu me deste a vida.


VI

Eu disse fácil o que é fácil
É a fidelidade.


VII

É preciso vê-la sob o sol forte das rochas
inacessíveis
É preciso vê-la em plena noite
É preciso vê-la quando ela está só.


(Uma longa reflexão amorosa – 1945)


Paul Éluard – Últimos poemas de amor.
Tradução: Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity.

No exílio

Ela é triste ela faz viver
A dúvida que tem de sua realidade nos olhos de outro
Planta maior no banho
Vegetal trabalhado moreno ou louro
À extrema flor de sua cabeça
Sua nudez contínua

Seus seios de favores recusados
Um riso dos cabelos de ébano

Entre as árvores
A tempestade que defende os seus

Quebra os caules de luz

Ela é também esta tempestade 
Que distribui armas desajeitadas
Às ervas aos insetos
Aos últimos calores
As névoas do outono
As cinzas do inverno
A pérola negra não é mais rara
O desejo e o enfado se irmanam
Manejo de manias
Tudo é esquecido
Nada é sacrificado
O odor dos escombros persiste

Os olhos cerrados é ela toda inteira.


(Uma longa reflexão amorosa – 1945)


*

Corpo ideal

Sob o grande céu aberto o mar dobra suas asas
Nos cantos de teu sorriso um caminho se abre em mim

Sonhadora toda em carne luz toda em fogo
Aumenta meu prazer anula o que se estende

Apressa-te em dissolver e meu sonho e minha vista.


(O difícil desejo de permanecer – 1946)


Paul Éluard – Últimos poemas de amor.
Tradução: Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Curva dos Teus Olhos




A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

- Paul Eluard, in "Algumas das Palavras" (Tradução de Antônio Ramos Rosa)