"A classe média paga mais impostos que as pessoas mais
ricas do Brasil, isentas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, afirma o
embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Segundo dados recentes da Receita Federal
71 mil brasileiros detêm 1/3 da renda nacional, o que corresponde a 1 trilhão e
200 bilhões de reais em propriedades. "Nenhum jornal repercutiu, não se
fala nisso", destaca o embaixador. E a política econômica neoliberal
implementada pela presidenta Dilma Rousseff é preocupante porque cria uma crise
que vai justificar certas ações que contrariam as necessidades do processo de
desenvolvimento brasileiro, comenta o embaixador."
sábado, 12 de setembro de 2015
Cálculo político
Sérgio Braga:Alguém poderia me informar que tipo de
cálculo político maquiavélico estaria por trás da nomeação de Kátia Abreu para
a chefia da casa civil? Ou será só um balão de ensaio para nomear outro menos
ruim para o lugar do Mercadante?
Stéphane Monclaire :Os erros de cálculo da parte dos
principais atores políticos é um sintona da existência de uma forte crise política.
Pois quanto mais aumenta a fuidez da situação e a perca de recursos políticos,
mais diminui a visibilidade a curto e médio prazo. O que complica os cálculos e
a definição da estratégia dos atores.
Sérgio Braga :Se for verdadeira a notícia e não apenas
"intriga da oposição" acho que é isso mesmo, prof. Stéphane
Monclaire. O que revelaria uma completa desorientação política do governo e
aumentaria a probabilidade do impeachment, e não o contrário a meu ver.
Dimas Soares Ferreira :Prof. Sérgio Braga, nós que estamos na
base, longe das cúpulas dirigentes, pouco sabemos o que se passa nas hostes do
governo, principalmente o que se passa no interior dos palácios e gabinetes
ministeriais. Aliás, há um claro distanciamento entre o Partido e o governo
Dilma. As teses de radicalização à esquerda e de a crítica ao tal ajuste fiscal
mal mal está presente nos cadernos de teses do último Congresso. Os diretórios
municipais estão mergulhados em disputas internas já visando-se as eleições
municipais do ano que vem e a companheirada parece ainda não ter se dado conta
dos impactos desastrosos dessa conjuntura extremamente desfavorável que poderão
recair sobre a disputa eleitoral que se avizinha. Além disso, aqui em Minas o
Partido foi tomado por um bando de gente que só se interessa mesmo pela disputa
por cargos e nomeações no governo. O debate é cada vez menos qualificado. Nós
sobreviventes dos tempos em que o partido era referência de oposição ao projeto
neoliberal somos cada vez mais sufocados por essa gente que faz qualquer coisa
pelo poder, até mesmo se juntar a velhos inimigos e adversários.
Wilson Roberto Nogueira :Tentar chamar ou cooptar o agronegócio para o governo com
vistas a não ser derrotado no Centro- Oeste e sul,tanto nas eleições municipais
quanto na aprovação de emendas por parte da bancada ruralista (alguns já em
partidos da base -infiel- do governo) nas casas parlamentares .Uma guinada sim,
a direita , mas procurando se adaptar ao novo quadro reacionário que se
apresenta para manter-se até o fim do mandato.A perda das bases sociais coma administração optando por
lotear poder a adversários ideológicos
, se submetendo a novas agendas exógenas , por força da tempestade de crises
oportunamente majorada pelo sistema financeiro e suas agencias de extorsão
(S&P,et caterva ), as corporações de mídia e seus interesses empresariais
rentistas. O governo hipotecou o galinheiro
a voracidade de lobos e chacais atingindo não somente a administração ,
os interesses nacionais e do povo trabalhador mas embrulhando as conquistas da esquerda em
chumbo e jogando as no Tietê .Bom , elas flutuaram , espero. No mais sei que
devo estar errado na minha análise .
A flor do embiroçu
"Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Fil. Elis."
Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.
E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.
É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.
O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
[Machado de Assis]
O construtor em tempos líquidos.
Ele se apresenta como sociólogo e faz questão de mostrar a
sociologia como ciência capaz de desfazer impasses que atormentam a humanidade
há séculos. Se não todos, pelo menos os mais prementes. Passou pelo Rio numa
fulminante temporada e aos quase 90 anos exibe formidável disposição para
mediações e compartilhamentos. Do inspirador, Sócrates, pediu emprestada a
capacidade de armar diálogos e produzir sínteses – sempre intensas mesmo quando
breves. O saber enciclopédico flui com incrível naturalidade e isso a tal ponto
que os interlocutores mal distinguem o que é seu ou deles. Prodígios da
maiêutica.
Polonês meio-inglês, Zygmunt Bauman tem sobrenome alemão,
certamente por conta dos antepassados judeus: construtor. Ironicamente é dele o
conceito de que nosso tempo é essencialmente líquido, nada consegue
solidificar-se em formas estáveis. Para Bauman, o problema não é nossa
incapacidade para remediar esta condição líquida mas a falta de um agente capaz
de produzir o conhecimento necessário para corrigir a situação com a necessária
urgência.
Para ele, tudo é gerenciável: por isso enquadra-se como
pessimista a curto prazo e otimista numa perspectiva maior. O mal-estar e
desconforto que dominam o mundo contemporâneo não são indícios de uma guerra
iminente e inevitável. Parafraseando Klausewitz, pondera que existem guerras
por outros meios.
A Europa tem jeito, garante, falta apenas a experiência para
lidar com circunstâncias inéditas. Afinal, para manter um continente sem
guerras nem fronteiras faz-se necessário desenvolver um repertório de soluções
compatível com as diferentes situações.
Este gerenciador contumaz de aflições preocupa-se seriamente
com o consumismo desenfreado, esta felicidade “faz-de-conta” – líquida — de
acumular coisas. O mundo não tem condições de suportar este tipo de desgaste. E
não será com o mero clicar de um teclado que produziremos as saídas para este
impasse. Esse crítico dos meios de comunicação está mais próximo do quase
esquecido Marshall McLuhan cuja preocupação maior eram os meios convertidos em
mensagem.
Ao ser questionado sobre o seu segredo para vender quase 600
mil exemplares com os 35 títulos editados pela Zahar no Brasil ao longo de 26
anos abriu uma gostosa gargalhada: “eu não conhecia estes números !…”.
(Por Alberto Dines em 11/09/2015 na edição 867 do
Observatório da Imprensa)
russ
"How're
you?" or "How is life" which in Russian are "Kak
dela?"(Как дела) or "Kak zhizn'?" (Как жизнь?). Usually you are responded with "Excellent!" (Atlichna - Отлично); Ok (Narmalna - Нормально), Good (Harasho - Хорошо), So-so (Tak sibe - Так себе), Bad (Ploha - Плохо).
"Zdarova" - Здорово! (suits for man, like 'hey')
"how did you spend your weekend?' (Kak
provel weekend),
What are you going to do on your vacation?
(Kakie plani na otpusk)
O Leopardo
“‘Veja bem, dom
Pietrino, os ‘senhores’, como você diz, não são fáceis de compreender. Eles
vivem um universo particular criado não diretamente por Deus mas sim por eles
mesmo durante séculos de experiências especialíssimas, de fadiga e alegria
deles; possuem uma memória coletiva no mínimo robusta e assim se perturbam ou
se alegram por coisas que para você ou para mim não significam nada mas que
para eles são vitais porque se relacionam com esse patrimônio de recordações,
de esperanças, de temores de classe. [...] E com isso não quero dizer que são
maus: é outra coisa. Eles, na verdade, são diferentes [...] Talvez por isso
pouco se importam com coisas que para nós tem valor; quem está nas montanhas
não se preocupa com os mosquitos da planície e quem vive no Egito chega a
esquecer que existe guarda-chuva. O primeiro, porém, teme as avalanches os
crocodilos, coisas que no entanto nos preocupam pouco. Para os aristocratas
surgiram novos temores que nós ignoramos: já vi Dom Fabrizio, ele que é um
homem sério e sábio, ficar enraivecido por causa de um colarinho mal passado a
ferro; e ouvi dizer que o príncipe de Làscari não conseguiu dormir uma noite
inteira de tão furioso que ficou por terem lhe dado o lugar errado num almoço
na intendência.’” (Tommasi di Lampedusa, em O Leopardo)
A partilha dos mitos
"Setembro
A poesia dá-se bem com este mês,
cuja medida se assemelha à do verso - dias
partidos ao meio, deixando a alma indecisa
numa evocação de gastos sentimentos. Mas é
no campo, ao poente, saboreando o cheiro doce
dos frutos que apodrecem na terra, como algas
mortas, que uma voz insistente me chama - poe -
sai? Quem, por detrás do seu rosto sonoro e
abstracto? Memória que a noite depressa apaga..."
Nuno Júdice, in. A partilha dos mitos (1982)
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
El armario
Estaba nublado, hacía frío y todo quedaba en una
semioscuridad, cuando el expreso Berlín-Roma penetró en una de las estaciones
intermedias de su ruta. En un compartimiento de primera clase, con cubiertas de
pasamanería sobre la tapicería de felpa, Albrecht van der Qualen, viajero
solitario, se despertó, incorporándose. Sentía la boca seca y en el cuerpo la
no demasiado agradable sensación producida cuando el tren se detiene después de
un largo viaje y nos damos cuenta del cese de un movimiento rítmico, tomando
conciencia de las llamadas y señales del exterior. Es como volver en sí después
de una borrachera o del letargo. Nuestros nervios, de pronto privados del ritmo
protector, se sienten perdidos y desamparados. Pero aun es peor si acabamos de despertar
del pesado sueño en el que se cae durante los viajes en ferrocarril.
Albrecht van der Qualen se desperezó un poco, se acercó a la
ventanilla y bajó el cristal. Miró a lo largo de los vagones. Algunos hombres
estaban ocupados en el furgón de correos, descargando y cargando paquetes. La
máquina emitía una serie de sonidos, resoplaba y rugía un poco, esperando
quieta, pero solo como lo hace un caballo, que alza los cascos, mueve las
orejas y aguarda impaciente la señal de partida. Una mujer alta y robusta, con
un largo impermeable, de cara inexpresiva pero preocupada, recorría el tren
llevando una maleta de unos cuarenta kilos, la empujaba frente a ella con una
rodilla. No decía nada, pero se le notaba acalorada y angustiada. Su labio
superior estaba tenso y bañado en pequeñas gotas de sudor. Era, en conjunto,
una figura patética.
«Pobrecilla -pensó Van der Qualen-, si pudiese ayudarte,
aliviarte, hacerte subir..., solo para la tranquilidad de ese labio superior.
Pero a cada quien lo suyo. Así están dispuestas las cosas de la vida; yo me
quedo aquí, perfectamente despreocupado, mirándote como miraría a un escarabajo
panza arriba.»
El cobertizo de la estación estaba casi sumido en la
oscuridad. Madrugada o anochecer... no lo sabía. Había dormido. ¿Quién podía
decir si habían sido dos, cinco o doce horas? En alguna ocasión había dormido
durante veinticuatro o quizá más, de un tirón, con un sueño extraordinariamente
profundo.
Llevaba un grueso abrigo corto con cuello de terciopelo. Por
su complexión era difícil decir su edad: se podía dudar entre los veinticinco y
el final de los treinta. Su piel era amarillenta, pero los ojos eran negros
como ascuas y estaban rodeados de profundas sombras oscuras. Aquellos ojos no
presagiaban nada bueno. Varios doctores, hablando francamente, de hombre a
hombre, le habían dado pocos meses de vida. Su cabello negro estaba lisamente
partido a un lado.
En Berlín -aunque Berlín no había sido el principio de su
viaje-, había subido al tren cuando este empezaba a moverse, llevando como por
casualidad un maletín de piel rojiza. Se había dormido y ahora, al despertar,
se encontraba tan completamente desligado del tiempo que le invadió una
sensación de alivio. Se regocijó con la idea de que al final de la fina cadena
que llevaba alrededor del cuello, había únicamente una pequeña medalla metida
en el bolsillo superior de su chaqueta. No le gustaba enterarse de la hora o
del día de la semana, y lo que es más, no tenía tratos con el calendario. Hacía
algún tiempo que había perdido la costumbre de saber el día del mes y hasta el
mes del año. «Todo tenía que estar en el aire...», pensó y la frase, aunque
bastante vaga, era comprensible. Este programa nunca o muy raramente, había
sido alterado, pues se tomaba el trabajo de mantener todo conocimiento molesto
a distancia. Después de todo, ¿no era suficiente con saber más o menos la
estación del año?
«Debemos estar más o menos en otoño -pensó, mirando el
húmedo y sombrío tren-. Es lo único que sé. Ni tan solo sé dónde estoy.»
Su satisfacción ante este pensamiento, le hizo estremecerse
de placer. No, ¡no sabía dónde estaba! ¿En Alemania? Con seguridad. ¿En el
norte de Alemania? Habría que verlo. Mientras sus ojos continuaban pesados por
el sueño, la ventanilla de su compartimiento se había deslizado ante un letrero
luminoso; quizá llevaba escrito el nombre de la estación, pero ni la imagen de
una sola letra había sido transmitida a su cerebro. Aun aturdido, había oído
cómo el revisor gritaba el nombre dos o tres veces, pero no había captado ni
una sola sílaba. Afuera, en la semipenumbra de la que no se sabía si del día o
de la noche, se extendía un lugar extraño, un pueblo desconocido.
Albrecht van der Qualen cogió su sombrero de fieltro de la
red, su maletín de piel rojiza, la correa que aseguraba la manta escocesa de
seda y lana, roja y blanca, enrollada alrededor de un paraguas con empuñadura
de plata -y aunque su billete marcaba Florencia-, dejó el compartimiento y el
tren, caminó a lo largo del cobertizo, depositó su equipaje en la consigna,
encendió un cigarrillo, metió las manos -no llevaba ni bastón ni paraguas-, en
los bolsillos de su abrigo y salió de la estación.
Afuera, en la húmeda, tenebrosa y casi vacía plaza, cinco o
seis cocheros de punto hacían chasquear sus látigos. Un hombre, con gorra
galoneada y larga capa en la que se arrebujaba tembloroso, preguntó educadamente:
-Hotel zum braven Mann?
Van der Qualen le dio las gracias cortésmente y siguió su
camino. La gente con quien se cruzó llevaba el cuello del abrigo subido; él
subió el suyo, escondió la barbilla en el terciopelo, fumó y continuó
caminando, ni lentamente ni demasiado aprisa.
Pasó a lo largo de una pared baja y una vieja puerta
flanqueada por dos pesadas torres; cruzó un puente con estatuas en los
barandales y vio el agua deslizarse lenta y turbia bajo él. Un largo bote de
madera, viejo y carcomido, se acercó, conducido por un hombre con una larga
pértiga en la popa. Van der Qualen se quedó un momento reclinado sobre el
barandal del puente.
«Aquí -se dijo-, hay un río; este es el río. Es agradable
pensar que lo llamo así porque no sé su nombre», y siguió caminando.
Continuó hacia adelante un rato, por el adoquinado de una
calle que no era ni muy estrecha ni muy ancha, después dio la vuelta a la
izquierda. Anochecía. Empezaban a encenderse los fanales, vacilaban, brillaban
chisporroteando y después iluminaban la penumbra. Las tiendas estaban cerrando.
«Entonces hay que concluir que estamos, no cabe duda, en
otoño», pensó Van der Qualen, siguiendo por el camino negro y húmedo. No
llevaba chanclos, pero la suela de sus botas era muy gruesa, duradera y firme,
aunque no eran por ello menos elegantes.
Se mantuvo a la izquierda. Los hombres pasaban por su lado,
se apresuraban hacia sus negocios o volvían de los mismos.
«Y yo camino con ellos -pensó-, y estoy tan solo y soy tan
extraño a ellos como jamás lo ha sido hombre alguno. No tengo negocios ni
metas. No tengo ni un bastón en que apoyarme. Nadie puede ser más retraído,
libre y desligado. No le debo nada a nadie y nadie me debe nada a mí. Dios
nunca ha tendido Su mano sobre mí. Él no me conoce. La desdicha honesta sin
caridad es una buena cosa; un hombre puede decirse a sí mismo: no le debo nada
a Dios.»
Pronto llegó al final de la población. Probablemente la
había cruzado en diagonal. Se encontró en una ancha calle de los suburbios
flanqueada de árboles y villas, dio vuelta a la derecha, pasó tres o cuatro
travesías casi como callejuelas de pueblo, iluminadas tan solo por faroles, y
se detuvo en una que era ligeramente más amplia, ante una puerta de madera,
vecina de una casa común y corriente y pintada de amarillo deslucido, que
tenía, sin embargo, el sorprendente detalle de unas ventanas de vidrio
cilindrado, convexas y bastante opacas. En la puerta había un letrero:
En el tercer piso de esta casa se alquilan habitaciones.
-Ah... -murmuró.
Tiró la punta de su cigarrillo, siguió a lo largo de un
entarimado que formaba la línea divisoria entre dos propiedades, giró a la
izquierda y entró en la casa. Una grasienta alfombra gris corría a lo largo de
la entrada. La cruzó en dos pasos y empezó a subir por la escalera de madera.
Las puertas de los apartamentos eran muy modestas; tenían
paneles de vidrio blanco con refuerzo de alambre y en algunas de ellas había
placas con los nombres. Los rellanos se iluminaban con lámparas de aceite. En
el tercer piso, el último, pues ya le seguía el ático, había puertas a la
derecha y a la izquierda, simples puertas de madera marrón, sin placas de
ninguna clase. Van der Qualen hizo sonar la campanilla del centro. Llamó, pero
no le llegó ningún ruido del interior. Llamó a la de la izquierda, no obtuvo
respuesta. Llamó a la derecha y oyó pasos ligeros, largos como zancadas, y la
puerta se abrió.
Salió una mujer, una dama; alta, delgada y vieja. Llevaba un
sombrero con un gran lazo lila pálido y un anticuado y deslucido vestido. Tenía
la cara hundida y semejante a la de un pájaro, y en su frente le había salido
una erupción, una especie de tumor fungoso. Era más bien repulsivo.
-Buenas noches -dijo Van der Qualen-. ¿Las habitaciones?
La anciana asintió; asintió y sonrió lentamente, sin una
palabra, de modo comprensivo. Con su bella y larga mano blanca, hizo un gesto
pausado, lánguido y elegante en dirección a la puerta próxima, la de la izquierda.
Después se retiró y apareció de nuevo con la llave.
«Vaya -pensó él cuando, detrás de la mujer, esperaba que
abriera la puerta-. Eres como una especie de ave de mal agüero, una figura
salida de la mente de Hoffmann, señora.»
Ella descolgó la lámpara de aceite de su gancho y le enseñó
el camino.
Era una habitación pequeña, de techo bajo y suelo oscuro.
Sus paredes estaban cubiertas con esteras de color pajizo. Había una ventana en
el fondo de la pared de la derecha, oculta tras largos y delgados pliegues de
muselina blanca. Una puerta blanca, también a la derecha, conducía al otro
cuarto. Este se hallaba patéticamente desmantelado, con llamativas paredes
blancas, contra las que se apoyaban tres sillas pintadas de rojo, que parecían
fresas en nata batida. Un armario, un lavabo con espejo... La cama, una
impresionante pieza de caoba, reposaba libremente en el centro de la
habitación.
-¿Tiene alguna objeción? -preguntó la anciana, pasándose
ligeramente la bella y larga mano blanca sobre el tumor fungoso de la frente.
Era como si lo hubiese dicho por casualidad, porque en aquel momento no podía
decir una frase más ordinaria.
Añadió en seguida:
-Por decirlo así...
-No, no la tengo -respondió Van der Qualen-. Las
habitaciones están bastante bien amuebladas. Me las quedo. Quisiera que alguien
fuese a recoger mi equipaje a la estación, aquí está la contraseña. ¿Sería
usted tan amable de hacer la cama y traerme un poco de agua? Me dará la llave
de la calle y la del piso. Quisiera un par de toallas. Me lavaré e iré al
centro a cenar. Volveré más tarde.
Sacó un poco de jabón de una caja niquelada que traía en el
bolsillo y empezó a lavarse la cara y las manos. Mientras lo hacía, miraba por
las ventanas convexas a lo lejos, más allá de las calles suburbanas, cenagosas
e iluminadas con gas, más allá aun de las luces de arco y las villas. Mientras
se secaba las manos, fue hacia el armario. Era cuadrado, barnizado de color marrón,
y con algunas grietas, que culminaba en una sencilla moldura curva. Estaba en
el centro de la pared de la derecha, exactamente en el nicho formado por una
segunda puerta blanca que, como es natural, comunicaba con las habitaciones a
las cuales la puerta principal y la del medio del rellano daban acceso.
«Algo hay en el mundo que está bien dispuesto -pensó Van der
Qualen-, este armario se adapta al nicho de la puerta como si lo hubiesen hecho
a medida.»
Lo abrió. Estaba completamente vacío, con varias hileras de
ganchos en el techo; pero no tenía fondo, y en su lugar había un trozo de
arpillera, gris y arrugada, sostenida en las cuatro esquinas por clavos a
tachuelas.
Van der Qualen cerró la puerta del armario, cogió su
sombrero, se levantó de nuevo el cuello del abrigo, apagó la vela y salió. Al
llegar a la puerta de entrada, le pareció oír mezclado con el ruido de sus
propios pasos una especie de tintineo en la otra habitación: un sonido metálico
claro y suave. Pero quizá se equivocaba. Era como si un anillo de oro hubiese
caído en una jofaina de plata, pensó mientras cerraba la puerta exterior. Bajó
la escalera, salió a la calle y se dirigió hacia el centro del pueblo.
Entró en un restaurante de una calle animada y se sentó en
una de las mesas delanteras, dándole la espalda a todo el mundo. Comió soupe
aux fines herbes, un filete con un huevo escalfado, compota y vino, un pequeño
pedazo de Gorgonzola verde y media pera. Mientras pagaba y se ponía el abrigo,
le dio algunas chupadas a un cigarrillo ruso, después encendió un puro y salió.
Vagó un poco, encontró el camino de su pensión en los suburbios y fue hacia
allí sin prisas.
La casa con las ventanas de vidrio cilindrado aparecía
apagada y silenciosa cuando Van der Qualen abrió la puerta de la calle y subió
por la oscura escalera. Fue iluminándose con cerillas y abrió la puerta marrón
a mano izquierda, en el tercer piso. Dejó su sombrero y abrigo sobre un diván,
encendió la luz de su inmenso escritorio y encontró allí su maleta y su manta
de viaje con el paraguas. Desenrolló la manta y sacó una botella de coñac y un
vasito. Fue bebiendo a pequeños sorbos, sentado en un profundo sillón, mientras
terminaba de fumarse el puro.
«Es una suerte después de todo -pensó-, que haya coñac en el
mundo.»
Fue al dormitorio, encendió la vela de la mesita de noche,
apagó la luz de la otra habitación y empezó a desnudarse. Pieza a pieza fue
dejando su traje gris, discreto y de buena calidad, sobre la silla roja al lado
de la cama; pero al soltarse los tirantes recordó que su sombrero y abrigo aun
estaban sobre el diván. Los trajo al dormitorio, abrió el armario... Pegó un
salto hacia atrás y buscó apoyo a su espalda hasta asir una de las grandes
bolas rojas de caoba que adornaban los postes de la cama. La habitación, con
sus cuatro paredes blancas, en las que las tres sillas rojas resaltaban como
fresas en un plato de nata, se recortaba en la inestable luz de la vela. Pero
el armario estaba abierto y no estaba vacío. Había alguien dentro, una criatura
tan encantadora que el corazón de Albrecht van der Qualen se detuvo un momento
y después volvió a funcionar en largos, profundos y plácidos latidos. Ella
estaba totalmente desnuda y uno de sus brazos esbeltos se levantaba para
engarzar un dedo en uno de los ganchos del techo del armario. Largas oleadas de
cabello castaño caían sobre sus hombros infantiles, respirando ese encanto al
que no cabe otra respuesta que un sollozo. La luz de la vela se reflejaba en
sus ojos rasgados. Su boca era un poco grande, pero tenía una expresión tan
dulce como la de los labios del sueño cuando, tras varios días de dolor, nos
besan la frente. Sus caderas formaban nido y sus esbeltas piernas se pegaban la
una a la otra.
Albrecht van der Qualen se restregó los ojos con una mano y
volvió a mirar... y advirtió que en el rincón de la derecha, la arpillera se
había soltado del fondo del armario.
-Qué... -murmuró-. ¿Quiere usted entrar? ¿Quiere que cierre?
¿No desea un vasito de coñac? ¿Medio vasito?
Pero no esperaba respuesta y no obtuvo ninguna. Los ojos
brillantes y rasgados, tan negros que parecían sin fondo e inexpresivos, lo
miraban fijamente, pero sin intención y en cierta manera empañados, como si no
lo viesen.
-¿Quieres que te cuente un cuento? -dijo ella de pronto con
una voz baja y profunda.
-Cuéntamelo -contestó él. Se había dejado caer sobre el
borde de la cama, con el abrigo sobre las rodillas y con las manos apretadas
encima de él. Su boca estaba ligeramente abierta y tenía los ojos medio
cerrados. Pero la sangre latía tibia y suavemente por todo su cuerpo y sentía
un suave zumbido en los oídos.
Ella se había dejado caer sentada en el armario y con sus
delgados brazos se rodeaba una rodilla doblada; tenía la otra pierna extendida
ante sí. Sus pequeños senos se unían bajo la presión de sus brazos, y la luz
resplandecía en la piel de su rodilla doblada. Hablaba... hablaba con voz
suave, mientras la llama de la vela continuaba su danza silenciosa.
Dos caminaban entre los brezales, la cabeza de ella
reposando en el hombro de él. Cundía el aroma de todas las cosas nacidas, pero
la niebla nocturna empezaba a levantarse de la tierra. Entonces empezó. Y a
menudo era en verso, rimando en el modo incomparablemente dulce y fluido que
viene hacia nosotros, una y otra vez, en el semiletargo de la fiebre. Pero
terminaba mal, era un final triste: los dos quedan en un abrazo indisoluble,
con los labios unidos. Entonces uno apuñala al otro en el pecho, con un
cuchillo inmenso... y no sin razón. Así termina. Entonces se levantó con un
gesto infinitamente dulce y modesto, levantó la arpillera gris por el rincón de
la derecha... y desapareció.
Desde entonces la encontró cada noche en el armario y
escuchó sus cuentos... ¿Durante cuántas veladas? ¿Cuántos días, semanas o meses
permaneció en aquella casa y en aquella ciudad? ¿Qué ganaríamos con saberlo? ¿A
quién preocupa una miserable estadística? Sabemos, además, que varios médicos
le habían dicho a Albrecht van der Qualen que le quedaban pocos meses de vida.
Ella le contaba historias. Eran tristes y sin interés, pero flotaban como un
suave estribillo sobre su corazón y lo hacían latir más tiempo y con mayor
dicha. A veces perdía el control... su sangre se inflamaba. Tendía las manos
hacia ella y ella no se le resistía. Pero entonces, durante varias veladas, no
la encontraba en el armario y, al regresar, permanecía callada durante vanas
noches. Después, poco a poco, empezaba a hablar hasta que él perdía nuevamente
el control.
¿Cuánto duró? ¿Quién lo sabe? ¿Cómo saber si Albrecht van
der Qualen se despertó en aquella tarde gris y bajó del tren en aquella
desconocida ciudad? Quizá permaneció despierto en su vagón de primera clase y
dejó que el expreso Berlín-Roma le llevase velozmente más allá de las montañas.
¿Cargaría cualquiera de nosotros con la responsabilidad de contestarlo de modo
definitivo? Todo es incierto.
«Todo puede estar en el aire...»
FIN
Biblioteca Digital Ciudad Seva
Dedicatória
De AKHMÁTOVA:
Dedicatória
Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Neva mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe…
O veredicto… e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se de seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda… cambaleando… sozinha…
Onde estão, agora, as companheiras de infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.
(Março de 1940)
Fonte : KinoRuss
É Proibido
Pablo Neruda
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Ler mais:
A opinião pública estava silente. A imprensa foi omissa.
A opinião pública estava silente. A imprensa foi omissa.
Imagens fotográficas chocantes que podem servir a propósitos
humanitários e ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e,
com isso, dificultar a ocorrência de similares, devem ser publicadas com
destaque.
A decisão deve ser tomada caso a caso, mas as imagens de
Aylan Kurdi certamente estão na mesma categoria daquelas dos prisioneiros dos
campos de concentração de Auschwitz e Dachau, das deformidades provocadas em
crianças pela poluição na baía de Minamata, das torturas impostas a
prisioneiros iraquianos por soldados dos EUA em Abu Ghraib, dos efeitos de
bombas de napalm sobre civis sul-vietnamitas na Guerra do Vietnã.
Carlos Eduardo Lins da Silva
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http://observatoriodaimprensa.com.br/…/muito-alem-de-aylan…
Carta sobre o Stalinismo – 1963
"[...] parece-me injustificada a lenda defendida no
Ocidente de que se Trotski tivesse tomado o poder teria havido um
desenvolvimento mais democrático do que sob Stálin. Basta pensar nas discussões
realizadas em 1921 sobre os sindicatos para compreender que se trata de pura
lenda. Trotski sustentava então, contra Lênin, a tese de que era preciso
estatizar os sindicatos para incrementar de maneira mais eficaz a produção, o
que significava que objetivamente os sindicatos deviam deixar de ser
organizações de massa com uma vida própria. Lênin, que partia do exame da
situação concreta e defendia o sentido da democracia proletária nas relações
dos sindicatos com o partido, e o poder central, empreendia a defesa dos
interesses materiais e espirituais dos trabalhadores onde quer que essa defesa
se fizesse necessária, e mesmo em face de um Estado burocratizado. Não quer e
não posso aqui abordar toda a questão, mas é certo que Stálin, nos anos que se
seguiram, prosseguiu de fato (ainda que não na argumentação) na linha de
Trotski e não na linha de Lênin. Assim, se mais tarde Trotski acusou Stálin de
ter-se apropriado do seu programa, pode-se dizer que neste ponto, em muitos aspectos,
ele tinha razão. Aquilo que hoje consideramos despótico e antidemocrático na
época staliniana tem ligações estratégicas bastante estreitas com as ideias de
Trotski. Uma sociedade socialista dirigida por Trotski seria pelo menos tão
pouco democrática quanto a staliniana e ainda se teria orientado
estrategicamente à base do dilema política catastrófica ou capitulação,
afastando-se da tese substancialmente justa defendida por Stálin acerca do
socialismo em um só país. A impressão que tive do meu encontro com Trotski, em
1921, deixou-me a convicção de que ele, como indivíduo, seria levado ao
"culto da personalidade" em forma pior do que Stálin."
György
Lukács
Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive
uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem?
Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra
morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que
espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para
além, no sentido de casa, que advérbio escolheis?
Como se diz na vossa, na nossa língua a palavra futuro?
[Berta Piñan]
terça-feira, 8 de setembro de 2015
O menino sírio morto na praia, com sua mãe e irmão numa
malfadada tentativa de fuga dos horrores da guerra e da degradação de seu país;
o pai que não sai da beira do túmulo; a solidariedade de populares alemães e
austríacos aos refugiados; e a generosidade do Brasil de receber os imigrantes.
Este foi certamente o assunto da semana. A tragédia no Oriente Médio é, sem
dúvida, a expressão mais acabada da barbárie a que o capitalismo financeiro
está conduzindo a humanidade.
Todos os valores se desmancham no ar, liberdade, igualdade,
fraternidade, democracia, justiça, direitos. Vale tudo na busca desenfreada do
lucro. O que é uma criança morta afogada numa praia do Mediterrâneo? Nada mais
do que nada.
Penso que só tendo em vista esta tragédia se pode dar a
devida dimensão ao “caso” Fábio Júnior. Um acontecimento zero, junto com muitos
outros zeros que fazem a alegria de jornais, sites e tevês.
Um menino.
Roberto Elias Salomão
Aquele que diz sim, aquele que diz não: religiosidade e heresia
" Imaginação e religião entronizada são antitéticas. O
dogma, cerne das
grandes religiões monoteístas, nada mais é que uma diligente
e metódica rejeição à curiosidade, autonomia e inventividade. É nesta relação
assimétrica entre aquele que ignora, teme e suplica, e o Outro que tudo sabe e
tudo dispensa que reside o poder das Igrejas".
"Se tomarmos imaginação em sua acepção primeira, ela é
quase o mesmo
que poesia: aquele modo de pensar e exprimir dúbio, sinuoso
e plástico, linguagem elíptica e larga, na qual hesitações, contrastes e
incoerências, o chiaroscuro dos obrigatórios oxímoros, enfim, são virtudes
cardeais. A imaginação não teme o exagero nem o ambíguo, vagueia no fluxo contínuo
e contraditório de ideias e humores, e é seu empenho fazer emergir o
inesperado: numa palavra, cabe à imaginação dar vida ao sujeito. O sujeito
ímpar, imprevisível e assertivo em sua incorrigível unicidade. Se a imaginação
corteja o universal, é porque se nutre do absolutamente individual. Ela é
inseparável do singular, do irrepetível, do novo,
da criatura se afirmando e se recriando, condensando seu
potencial e cintilando, inconfundível. Desta perspectiva, qualquer exercício de
imaginação, por tímido que seja, será sempre um insulto às religiões".
(Marília Pacheco FIORILLO)
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