segunda-feira, 23 de dezembro de 2013


Marina Tsvetaeva

Tel est fait de pierre, tel est fait d'argile,
Mais moi, je m'argente et scintille
Je m'occupe de trahir, je m'appelle Marine,
Je suis la fragile écume marine
Tel est fait de pierre, tel est fait de chair.
Pour eux cercueils et pierres tumulaires;
Dans les fonds marins baptisée
Je suis, dans mon envol, constamment brisée!

Au travers des coeurs, au travers des rêts,
Mon bon plaisir perce son chemin
Moi - Vois-tu ces boucles déchaînées?
Je ne suis point faite de dépôts salins,
Me brisant sur vos genoux de granit,
A chaque vague je ressuscite.
Que vive l'écume, joyeuse écume,

La haute écume marine

sábado, 21 de dezembro de 2013

Oscuridad hermosa

Un día como hoy nació el poeta chileno, Gonzalo Rojas, ganador del Premio Cervantes, 2003.



Anoche te he tocado y te he sentido
sin que mi mano huyera más allá de mi mano,
sin que mi cuerpo huyera, ni mi oído:
de un modo casi humano
te he sentido.

Palpitante,
no sé si como sangre o como nube
errante,
por mi casa, en puntillas, oscuridad que sube,
oscuridad que baja, corriste, centelleante.

Corriste por mi casa de madera
sus ventanas abriste
y te sentí latir la noche entera,
hija de los abismos, silenciosa,
guerrera, tan terrible, tan hermosa
que todo cuanto existe,
para mí, sin tu llama, no existiera.


domingo, 15 de dezembro de 2013

A educação pela pedra


Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu andensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

- João Cabral de Melo Neto, in “Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto". [Seleção Antônio Carlos Secchin], São Paulo: Global Editora, 8ª ed., 2001, pag. 185.
http://www.elfikurten.com.br/2013/04/joao-cabral-de-melo-neto-arquiteto-da.html

Crença dos habitantes de Matimati



"Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho."

(Crença dos habitantes de Matimati)
- in "Terra sonâmbula", de Mia Couto.
http://www.elfikurten.com.br/2012/11/mia-couto-o-afinador-de-silencios.html

Amemos burramente

"É um pouco aflitivo pensar nisso, e imaginar que, acima dos gestos e das palavras, o sentimento talvez valha alguma coisa; e que a ternura e o bem-querer devem ter um instinto certo e tocar naquelas zonas indefiníveis da alma em que nem os analistas conseguem explicar nada. Ora, pois; mesmo às cegas, burramente, amemos!"

- Rubem Braga, "Amemos burramente" - Um cartão de Paris.
http://www.elfikurten.com.br/2013/01/rubem-braga-o-cacador-de-ventos-e.html

Raymundo Faoro

"Em Raymundo Faoro, a história brasileira não é examinada como simples sucessão de lutas de classes, ou de ajustes e desajustes entre grupos sociais. Ele introduz as noções de estamento, casta e classe social de modo inovador, jogando luz sobre os diversos aspectos de nossa formação, em que nossa 'modernidade' aparece amarrada em formas serôdias de organização social e mental: uma cultura estamental-oligárquica e de substrato escravista que ainda comanda o presente."
- Carlos Guilherme Mota (historiador)
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sábado, 14 de dezembro de 2013

A Posse de Ontem (Possessão de Ontem)


 Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las
e que essas perdições, agora, são o que é meu.
Sei que perdi o amarelo e o negro
e penso nessas impossíveis cores
como não pensam os que veem.

Meu pai morreu e está sempre ao meu lado.
Quando quero escandir versos de Swinburne,
o faço, me dizem, com sua voz.
Só o que morreu é nosso,
só é nosso o que perdemos.

Ílion foi, porém Ílion perdura no hexâmetro que a plange.
Israel foi quando era uma antiga nostalgia.
Todo poema, com o tempo, é uma elegia.

Nossas são as mulheres que nos deixaram,
já não sujeitos à véspera, que é soçobra,
e aos alarmes e terrores da esperança.

Não há outros paraísos que os paraísos perdidos.

Ceremonia solitaria en compañía de tu cuerpo

 jorge eduardo eielson

Penetro tu cuerpo tu cuerpo
De carne penetro me hundo
Entre tu lengua y tu mirada pura
Primero con mis ojos
Con mi corazón con mis labios
Luego con mi soledad
Con mis huesos con mi glande
Entro y salgo de tu cuerpo
Como si fuera un espejo
Atravieso pelos y quejidos
No sé cuál es tu piel y cuál la mía
Cuál mi esqueleto y cuál el tuyo
Tu sangre brilla en mis arterias
Semejante a un lucero
Mis brazos y tus brazos son los brazos
De una estrella que se multiplica
Y que nos llena de ternura
Somos un animal que se enamora
Mitad ceniza mitad latido
Un puñado de tierra que respira
De incandescentes materias
Que jadean y que gozan
Y que jamás reposan


De "Ceremonia solitaria" Roma, 1964

Kabul.Afeganistão 1910


"[...] O tempo é de alteridades permanentes e recicláveis. Não é tempo de absolutos. Não é tempo de eu sei. É tempo de eu quero saber. Não é tempo de certezas duradoras. É tempo de dúvidas permanentes. O tempo é de reinvenções perenes e continuadas. O tempo nos exige transmutações rápidas e sinceras. O tempo está a exigir de nós: ouvir, ouvir, ouvir, ouvir,......... O tempo está a exigir de nós só saber depois de sentir. É tempo de alteridades e emoções radicalizadas."
- Paulo Baía

* Leia o ensaio na íntegra no site:
http://www.elfikurten.com.br/2013/11/e-tempo-de-alteridades-radicalizadas.html


Monólogo de uma sombra

"Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!"


- Augusto dos Anjos


A alma das velhas casas


No silencio do pósmeridio grave e ardente
entrei a velha casa onde vivêra outr’ora,
quando, ainda alma em flor e corpo adolescente,
era luz, era ardor, era sonho, era aurora.

A sala ampla e deserta, a varanda silente,
echoam do meu passo ao ruído e, frio agora,
o quarto onde dormia é lúgubre e dolente
e o terreiro ermo e nu de rosas não se enflora.

É sêcco o algibe. Chora uma rola num galho.
Abro o velho portão. Galgo a estéril, maninha
gleba de morro mal vestida de cascalho. . .

E desses que — ai de mim! Outr’ora aqui viveram
resta, pairando no ar, a alma triste e sosinha
das velhas casas cujos donos já morreram!

- José de Mesquita, Matto--Grrosso evoccativo - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).

Serenidade


Refugiado

 Refugiado


O sol atravessa as fronteiras
sem que os soldados atirem
o rouxinol canta manhã e tarde
e dorme em paz
com todos os pássaros dos kibutz
um asno extraviado
pica o pasto
em paz
sobre a linha de fogo
sem que os soldados atirem nele
e eu
teu filho exilado
- Ó terra de minha pátria
entre meus olhos e teus horizontes
a muralha das fronteiras 

(Salim Jabran)

Lakota chiefs who negotiated with General Miles to settle the Indian War. 1891.

The Chiefs are: 1. Standing Bull, 2. Bear Who Looks Back Running [Stands and Looks Back], 3. Has the Big White Horse, 4. White Tail, 5. Liver [Living] Bear, 6. Little Thunder, 7. Bull Dog, 8. High Hawk, 9. Lame, 10. Eagle Pipe. Probably on or near Pine Ridge Indian Reservation.

Vela


Mikhail Lermontov

Branqueia a vela solitária
Na névoa azul do mar!...
O que ela procura no país distante?
O que ele deixou na terra pátria?

As ondas brincam, o vento assobia,
E o mastro se curva e range
Ai! Ele não procura felicidade,
E não corre atrás da felicidade!

Sob ele um jato de azul claro
Sobre ele um raio dourado de sol
Mas ele, rebelde, pede tempestades,
Como se nas tempestades estivesse a calma!

~em russo~

~Парус

Белеет парус одинокий
В тумане моря голубом!..
Что ищет он в стране далекой?
Что кинул он в краю родном?..

Играют волны - ветер свищет,
И мачта гнется и скрыпит...
Увы, - он счастия не ищет
И не от счастия бежит!

Под ним струя светлей лазури,
Над ним луч солнца золотой...
А он, мятежный, просит бури,

Как будто в бурях есть покой!

La Reine de Mohély. Album de Madagascar, Mission de 1863.

//...Désiré Charnay (dit), Charnay C.-J. le Désiré...//
(1828-1915)