quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Despedida
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir;
foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha
sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval
— uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a
qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se
encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram
mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado —
sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e
também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem
saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um
inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um
recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas
não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz
sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que
importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa
noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros
verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as
paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não
havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois
bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um
telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada.
Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio
torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a
pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de
cigarra perdido numa tarde de domingo.
- Rubem Braga, do livro "A Traição das
Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.
Tática e estratégia
Minha tática é
olhar-te
aprender como és
querer-te como és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar na tua memória
não sei como nem sei
com que pretexto
mas ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que és franca
e que não nos vendamos
simulacros
para que entre os dois
não existam véus
nem abismos
minha estratégia é
no entanto
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
Mario Benedetti
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Não digo adeus
Galeano - 8 de janeiro
Em 1872, por ordem do presidente da Equador, Manuela
León foi fuzilada.
Em sua sentença, o presidente chamou Manuela de Manuel,
para não deixar registro de que um cavalheiro como ele estava mandando uma
mulher para o paredão, embora fosse uma índia bruta.
Manuela havia alvoroçado erras e povoado e havia alçado
a indiada contra o pagamento de tributos e contra o trabalho servil. E como se
tudo isso fosse pouco, havia cometido a insolência de desafiar para um duelo o
tenente Vallejo, oficial do governo, diante dos olhos atônitos dos soldados, e
em campo aberto a espada dele tinha sido humilhada pela lança dela.
Quando este ultimo dia chegou, Manuela enfrentou o
pelotão de fuzilamento sem venda nos olhos. E perguntada se tinha algo a dizer,
respondeu, em sua língua:
- Manapi.
Nada.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Terra que espera
Galeano - 6 de janeiro
No ano de 2009, a Turquia devolveu a nacionalidade negada a Nazim Hikmet e
reconheceu, finalmente, que era turco seu poeta mais amado e mais odiado.
Ele não pôde ser informado da boa-nova: tinha morrido, fazia meio século, no
exílio, onde havia passado a maior parte da sua vida.
Sua terra esperava por ele, mas seus livros estavam proibidos, e ele também. O
desterrado queria voltar:
"Ainda me restam coisas por fazer.
Me reuni com as estrelas, mas não consegui contá-las.
Tirei água do poço, mas n!ao pude oferecê-la."
Não voltou jamais.
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