segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Coragem de Seres Só





Uma arma de triunfo te dei, sobre todas as outras: a coragem de seres só; deixou de te afectar como argumento ou força esmagadora a alheia opinião, as ligeiras correntes e os redemoinhos do mar; rocha pequena, mas segura, sobre ti se hão-de erguer, para que vençam a noite, as luzes salvadoras; não te prendem os louvores dos que te querem aliado, nem as ameaças dos contrários; traçaste a tua rota e hás-de segui-la até ao fim, sem que te desviem as variadas pressões. Só e constante, mesmo em face do tempo; os anos que rolam tu os consideras elemento de experiência; para os homens futuros episódios sem valor; se eles te abaterem, só terão abatido o que há de menos valioso; e contribuirão para que melhor se afirme o que puseste como lição da tua vida; a muitos absorve o actual; mas a ti, que tens como tua grande linha de cultura, e porventura tua alma, a posse das largas perspectivas, a hora começando te vê firme e firme te abandona. Nenhuma estóica rigidez neste teu porte; antes a compassada lentidão, a facilidade maleável de bom ginasta; não é por amor da Humanidade que hás-de perder as mais fundas qualidades de homem. Em tal espelho me revejo, eu que tomei tua alma incerta e a guiei; e contemplo como doce oferenda, como a mais bela visão que me poderias conceder, a clara manhã que já de ti desponta e lentamente progredindo há-de acabar por embalar o universo nos seus braços de luz.

Agostinho da Silva

........................................

A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.

Agostinho da Silva

Uma arma de triunfo te dei, sobre todas as outras: a coragem de seres só; deixou de te afectar como argumento ou força esmagadora a alheia opinião, as ligeiras correntes e os redemoinhos do mar; rocha pequena, mas segura, sobre ti se hão-de erguer, para que vençam a noite, as luzes salvadoras; não te prendem os louvores dos que te querem aliado, nem as ameaças dos contrários; traçaste a tua rota e hás-de segui-la até ao fim, sem que te desviem as variadas pressões. Só e constante, mesmo em face do tempo; os anos que rolam tu os consideras elemento de experiência; para os homens futuros episódios sem valor; se eles te abaterem, só terão abatido o que há de menos valioso; e contribuirão para que melhor se afirme o que puseste como lição da tua vida; a muitos absorve o actual; mas a ti, que tens como tua grande linha de cultura, e porventura tua alma, a posse das largas perspectivas, a hora começando te vê firme e firme te abandona. Nenhuma estóica rigidez neste teu porte; antes a compassada lentidão, a facilidade maleável de bom ginasta; não é por amor da Humanidade que hás-de perder as mais fundas qualidades de homem. Em tal espelho me revejo, eu que tomei tua alma incerta e a guiei; e contemplo como doce oferenda, como a mais bela visão que me poderias conceder, a clara manhã que já de ti desponta e lentamente progredindo há-de acabar por embalar o universo nos seus braços de luz.

Agostinho da Silva

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A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.

Agostinho da Silva

A viagem da palavra



No ano de 208, Serenus Sammonicius escreveu em Roma um livro, Assuntos secretos, em que revelava seus descobrimentos na arte da cura.
Esse médico de dois imperadores, poeta, dono da melhor biblioteca do seu tempo, propunha, entre outros remédios, um infalível método para evitar a febre terçã e espantar a morte: era preciso pendurar no peito uma palavra e se proteger com ela noite e dia.
Era a palavra Abracadabra, que em hebraico antigo queria dizer, e continua dizendo:
Envia o teu fogo até o final.
 
 
Galeano - 31 de dezembro

domingo, 30 de dezembro de 2012


Sobre a arte e a vida ( 01) Lezama Lima costumava dizer que o trabalho dos verdadeiros artistas equivale a fazer cadeiras de gelo para uso dos mergulhadores, a vida não é fácill para ninguém , mas ela certamente é mais difícil para os artistas, que arriscam tudo por sua arte, me parece que apenas os artistas se ocupam em transformar essa imensa e injusta dificuldade e esse risco em beleza e pensamento. 'Par délicatesse J' ai perdu ma vie' , Rimbaud tinha razão, a maioria dos artista perde a vida por causa da delicadeza, da intensa fragilidade e precariedade de seus modos de vida. Fragilidade, precariedade e intensidade quando encontram a alegria de criar algo para o outro, se convertem em seus contrários, a fragilidade se torna força e a intensidade se converte em coragem e a precariedade se dissolve na alegria de criar...Talvez o preço que os artistas paguem seja mesmo o preço da solidão, um tipo de solidão que não os separa do mundo, mas os distancia das pessoas,principalmente das pessoas que eles mais amam, se existe um triunfo nesse fracasso,os próprios artistas não podem afirmar qual a natureza deste triunfo...

Marcelo Ariel

sábado, 29 de dezembro de 2012



PIERRE LEVY >>>
(...)Filósofo dedicado a pensar a cibercultura, Pierre Lévy pontua que a Internet é um campo onde ocorrem disputas de poder. “A total liberdade de palavra é encorajada e os internautas são, como um todo, opostos a qualquer forma de censura”, escreve. Pierre Lévy entende o virtual como “extensão do potencial do humano” e não como “desrealização do mundo”. No universo virtual, as pessoas, exprimem conflitos, desenvolvem amizades e alianças intelectuais, “exatamente como entre pessoas que se encontram regularmente”. Daí, o fato de o machismo também estar presente nesse universo, havendo também contra ele resistências.(...) http://revistavestidamidia.blogspot.com.br/2012/06/machismo-virtual-e-atual.html

"O ouvinte não poderia ser melhorado? Tornar-se mais propenso a companhia se não diretamente humano. Na mente talvez haja espaço para animação. Uma tentativa de reflexão pelo menos. De recordação. De discurso até. Volição de algum tipo débil que seja. Um traço de emoção. Sinais e angústia. Um sentimento de fracasso. Sem perda do personagem. Terreno delicado. "
Samuel Beckett, in Companhia e outros textos. p 40