segunda-feira, 8 de novembro de 2010

E DEUS EXPULSOU ADÃO…

E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar

E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam

pelos vinhedos do Senhor

a Santíssima Trindade os encurralava

mesmo assim continuaram cantando

com voz infantil de tabuada

Deus e Deus quatro

Deus e Deus quatro

E a Santíssima Trindade chorava…

Por cima do triângulo isóscele e sagrado

um biângulo isopicante brilhava

e eclipsava o outro.

de “Histoires” (1963)


Jacques Prévert

domingo, 7 de novembro de 2010

The Rain, Vadim Klokov, Jivelox

Duduk - Vadim Klokov - The memories

Grito

Cedros, abetos,

pinheiros novos.

O que há no tecto

do céu deserto,

além do grito?

Tudo que e’ nosso.

São os teus olhos

desmesurados,

lagos enormes,

mas concentrados

nos meus sentidos.

Tudo o que é nosso

é excessivo.

E a minha boca,

de tão rasgada,

corre-te o corpo

de pólo a pólo,

desfaz-te o colo

de espádua a espádua,

são os teus olhos,

depois o grito.

Cedros, abetos,

pinheiros novos.

É o regresso.

É no silêncio

de outro extremo

desta cidade

a tua casa.

É no teu quarto

de novo o grito.

E mais nocturna

do que nunca

a envergadura

das nossas asas.

Punhal de vento,

rosa de espuma:

morre o desejo,

nasce a ternura.

Mas que silêncio

na tua casa.

David Mourão Ferreira

sábado, 6 de novembro de 2010

Quem morre?


Pablo Neruda

Morre lentamente

quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca

Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente

quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente

quem evita uma paixão,

quem prefere o preto no branco

e os pingos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,

justamente as que resgatam o brilho dos olhos,

sorrisos dos bocejos,

corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente

quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,

quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,

quem não se permite pelo menos uma vez na vida,

fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente

quem não viaja,

quem não lê,

quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente

quem destrói o seu amor-próprio,

quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,

quem passa os dias queixando-se da sua má sorte

ou da chuva incessante.

Morre lentamente,

quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,

não pergunta sobre um assunto que desconhece

ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,

recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior

que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos

um estágio esplêndido de felicidade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Devolva-me



Marize Castro

Devolva-me a cólera, a lanterna mágica,

que transportei comigo enquanto te amei.

Devolva-me a morte, a doença, a saúde,

o caos, o cais, as âncoras, o segredo,

teus ataques me deixaram forte

teus gozos me atingiram a alma

me fizeram odiar o amor.

Devolva-me a fantasia, as árvores sólidas

plantadas à margem de um delicado homem

que caminhava certo para a sabedoria dos pássaros.

Devolva-me o néctar, o túmulo dos milagres

a liberdade dos escândalos, os bosques, a lei da botânica,

a letargia da não-paixão,

o doce repouso nas águas da noite



do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro. editora uno













Give me back



Marize Castro





Give me back my rage, the magic lantern,

that I carried with me while I loved you.

Give me back death, illness, health,

chaos,cays, anchors, secrets,

your attacks left me strong,

when you came it reached my soul,

it made me hate love.

Give me back fantasy, the soilid trees

planted along the edges of a polite man

who would walk straight toward the wisdom of birds.

Give me back the nectar, the tomb of miracles,

the freedom of scandals, the woods, the law of botany, the lethargy of non-passion,

the sweet repose in the waters of night.



(translates by Steven White)



Primórdios



Marize Castro

Rumor de asas.



Resíduos de países distantes em meu coração.



do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro – editora Uno


Fino zelo







FINO ZELO – Marize Castro



Palavras quando caen sobre a gente

surpreendem, adoçam, cortam.



Pessoas quando tremem sobre a gente

cavalgam, encharcam, empoçam.



Fome quando só é fome -e nada mais-

destroça, cega, corrói.



Amor quando saliva

mesmo depois de muito, muito tempo,

é terra fértil, dança, paraíso, fino zelo.



Água descendo das estrelas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

William Christie - Haydn, The Creation

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos,

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 2 de novembro de 2010

No fim, sua vida era um livro aberto de páginas em branco,rezou sempre na mesma cartilha.
Flávio Falcão

sábado, 30 de outubro de 2010

Magie Noire

despedida do povo argentino ao seu líder Nestor Kirchener.Buenos Aires .novembro de 2010

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

O HOMEM E A MORTE

O homem já estava deitado

Dentro da noite sem cor.

Ia adormecendo, e nisto

À porta um golpe soou.

Não era pancada forte.

Contudo, ele se assustou,

Pois nela uma qualquer coisa

De pressago adivinhou.

Levantou-se e junto à porta

- Quem bate? Ele perguntou.

- Sou eu, alguém lhe responde.

- Eu quem? Torna. – A Morte sou.

Um vulto que bem sabia

Pela mente lhe passou:

Esqueleto armado de foice

Que a mãe lhe um dia levou.

Guardou-se de abrir a porta,

Antes ao leito voltou,

E nele os membros gelados

Cobriu, hirto de pavor.

Mas a porta, manso, manso,

Se foi abrindo e deixou

Ver – uma mulher ou anjo?

Figura toda banhada

De suave luz interior.

A luz de quem nesta vida

Tudo viu, tudo perdoou.

Olhar inefável como

De quem ao peito o criou.

Sorriso igual ao da amada

Que amara com mais amor.

- Tu és a Morte? Pergunta.

E o Anjo torna: – A Morte sou!

Venho trazer-te descanso

Do viver que te humilhou.

-Imaginava-te feia,

Pensava em ti com terror…

És mesmo a Morte? Ele insiste.

- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,

Mestra que jamais engana,

A tua amiga melhor.

E o Anjo foi-se aproximando,

A fronte do homem tocou,

Com infinita doçura

As magras mãos lhe cerrou…

Era o carinho inefável

De quem ao peito o criou.

Era a doçura da amada

Que amara com mais amor.

Manuel Bandeira

Repouso

Adalgisa Nery

Dá-me tua mão

E eu te levarei aos campos musicados pela

canção das colheitas

Cheguemos antes que os pássaros nos disputem

os frutos,

Antes que os insetos se alimentem das folhas

entreabertas.

Dá-me tua mão

E eu te levarei a gozar a alegria do solo

agradecido,

Te darei por leito a terra amiga

E repousarei tua cabeça envelhecida

Na relva silenciosa dos campos.

Nada te perguntarei,

Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes

E as palavras do meu olhar sobre tua face muito

amada.

Adalgisa Nery



De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)

Passamento de Néstor Kirchener -Plaza de Mayo.Novembro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Poema amoroso

Este é um poema de amor

tão meigo, tão terno, tão teu…

É uma oferenda aos teus momentos

de luta e de brisa e de céu…

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

deste pequeno poema,

o verso;

te deixará pasmo, surpreso, perplexo…

eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

Cora Coralina