quinta-feira, 15 de julho de 2010

Thomas Hirshhorn (blue serie) women against war

Beethoven Grosse Fuge pt-1

Beethoven Grosse Fuge pt-2

The Dogma

Canto Esponjoso

Bela

esta manhã sem carência de mito,

E mel sorvido sem blasfêmia.



Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,

sem, na sombra, fantasmas.



Umidade de areia adere ao pé.

Engulo o mar, que me engole.

Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz

azul

completa

sobre formas constituídas.



Bela

a passagem do corpo, sua fusão

no corpo geral do mundo.

Vontade de cantar. Mas tão absoluta

que me calo, repleto.


Carlos Drummond de Andrade

Whale Hunter“

Nicolai Gedda "Down by the Salley gardens"

Down by the salley gardens my love and I did meet;


She passed the salley gardens with little snow-white feet.

She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree;

But I, being young and foolish, with her did not agree.



In a field by the river my love and I did stand,

And on my leaning shoulder she laid her snow-white hand.

She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;

But I was young and foolish, and now am full of tears.



William Butler Yeats

Down The Salley Garden - Andreas Scholl

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O bar, a parede e a flor

o bar






aqui

no fim do dia

rumino a alma

e espeto a dor

com o palito de azeitona











a parede e a flor



o paredão de pedra

divide são paulo e eu



as nuvens passam beirando as balas

e as meninas dos sinais



as barbas do edifício estão de molho

neste frio mariano



são paulo é uma cidade do alto

mas aqui também tem girassóis



mesmo que o frio arda

mesmo que a noite adentre a boca

mesmo que a boca adentre a terra



são paulo é uma cidade do alto

mas aqui também tem girassóis

mesmo que girem pra brindar a morte

Cida Pedrosa
fonte: Escritoras Suicidas

Estou Indo

Vem, vem, seja você quem for,


Não importa se você é um infiel, um idólatra,

Ou um adorador do fogo,

Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero,

Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,

Vem assim mesmo.

Rumi

Vem,

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados.

Cada átomo

Feliz ou miserável,

Gira apaixonado

Em torno do sol.

Poema Sufi, de Jalal ad-Din Muhammad Rumi

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sonetos a Orfeu

Rainer Maria Rilke

I, 22



A nós, nos cabe andar.

Mas o tempo, os seus passos,

são mínimos pedaços

do que há de ficar.



É perda pura

tudo o que é pressa;

só nos interessa

o que sempre dura.



Jovem, não há virtude na velocidade

e no vôo, aonde for.



Tudo é quietude:

escuro e claridade,

livro e flor.



Tradução: Augusto de Campos

Coisas e Anjos de Rilke – Ed. Perspectiva

Images d'un Flâneur à Paris. Photographies Fernando Rabelo

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Schubert à Tautavel avec le Trio Capuçon

Avantgarde - Get Down (Again) (Official Video HQ)

Lei Maria da Penha

A Fuga de Pulcinella

Pulcinella era a marionete mais inquieta de todo o velho teatro. Tinha sempre que protestar, seja porque no momento do espetáculo preferira passear, seja porque seu manipulador concedera-lhe uma parte cômica, enquanto ele preferira uma dramática.

-Qualquer dia destes – dizia em segredo a Arlecchino – corto a corda*! E assim fez, mas não durante o dia. Uma noite, ao conseguir tomar posse de uma tesoura esquecida pelo manipulador das marionetes, cortou de um topo ao outro os fios que lhe prendiam a cabeça, as mãos e os pés e propôs a Arlecchino:

-Vem comigo.

Só que Arlecchino não queria saber de separar-se de Colombina e nem Pulcinella tinha a intenção de ir atrás daquela manhosa, que no teatro tinha-lhe pregado cem mil peças.

-Irei sozinho! – decide. Lançou-se corajosamente rua a fora, pernas para que te quero!

“Que beleza – pensava ao correr – não sentir mais os puxões daqueles malditos fios em lugar nenhum. Que beleza meter o pé bem aonde se deseja”.

O mundo, para uma marionete solitária, é grande e terrível e habitado (especialmente à noite) por gatos ferozes, prontos a confundir qualquer coisa que fuja como um rato, a qual se dá a caça. Pulcinella conseguiu convencer os gatos, que se metiam com um bom artista, e conto após conto, refugiou-se em um jardim, encostou-se em um pequeno muro e ali adormeceu.

Acordou com o nascer do sol e tinha fome. Porém, ao seu redor, até onde a vista alcançava, não havia mais do que cravos, tulipas, zínias e hortênsias.

-Paciência – falava para si Pulcinella e, ao colher um cravo, começou a mastigar-lhe as pétalas com uma certa indiferença. Não era como comer uma bisteca grelhada ou um filé de peixe pérsico: as flores têm muito perfume e pouco sabor. Entretanto, para Pulcinella aquilo parecia o sabor da liberdade e, na segunda bocada, estava seguro de nunca ter provado comida mais deliciosa. Decidiu permanecer para sempre naquele jardim e assim o fez. Dormia sob uma grande magnólia, cujas duras folhas não temiam nem mesmo as fortes chuvas, e se nutria das flores: hoje um cravo, amanhã uma rosa. Pulcinella sonhava com montanhas de espaguetes e planícies de mussarelas, mas não se rendia. Tornava-se seco, seco, mas tão perfumado, que a todo instante abelhas pousavam em seu corpo para sugar-lhe o néctar e logo afastavam-se frustradas, pois não conseguiam afundar o ferrão na sua cabeça de madeira.

Veio o inverno. O jardim, agora sem flores, esperava a primeira nevasca e a pobre marionete não tinha mais nada para comer. Sem dedos que pudessem recomeçar a viagem: as suas pobres pernas de madeira não suportariam levá-lo para longe.

“Paciência, – falava para si Pulcinella – morrerei aqui. Não é um lugar feio para se morrer. Além do mais, morrerei livre: ninguém poderá prender um fio à minha cabeça, para me fazer dizer sim ou não.”

A primeira nevasca o sepultou abaixo de uma mórbida coberta branca.

Na primavera, naquele exato lugar, nasceu um cravo. Soterrado, calmo e feliz, Pulcinella pensava: “ Eis que acima da minha cabeça cresceu uma flor. Existe alguém mais feliz do que eu?”.

Porém, não estava morto, porque as marionetes de madeira não podem morrer. Ainda continua soterrado, só que ninguém sabe disto. Se vocês pretendem encontrá-lo, não amarrem nenhum fio em sua cabeça: aos reis e rainhas do teatro, este fio não incomoda, mas a ele, pode fazê-lo sofrer.



*cortar a corda: `tagliare la corda` (no original) é uma expressão idiomática que significa “ir-se embora”. No texto original é utilizada em forma de trocadilho, devido ao fato de Pulcinella ser uma marionete (consequentemente, presa por cordas).

Por Gianni Rodari


Bruna G. Galvão (tradução)

BIOGRAFIA: Gianni Rodari (1920-1980), jornalista e escritor italiano que se destacou como autor de histórias infantis. Dentre suas publicações está Favole al Telefono (1962), onde se encontra a fábula aqui traduzida

Fonte– Cronópios