quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
DOENTE DE AMAR
(LOVE SICK - Bob Dylan - vb:IJS)
Vou caminhando
Mortas ruas de cimento
Caminhando
Com você no pensamento
Minhas botas tão cansadas
Minha mente tão cabeada
E as nuvens chovendo
Será que
Escutei alguém mentindo?
Será que
Escutei gritos longínquos?
Falei feito um menino
Você me arrasou só sorrindo
E eu dormindo
Doente de amar
Mas ainda estou lá
Desse jeito de amar
Tão doente de amar
Eu vejo
Vejo amantes pelo prado
Eu vejo
Silhuetas na janela
Assisto a elas e outras
Que me deixam pendurado
Numa sombra
Doente de amar
E o relógio em tique-taque
Desse jeito de amar
Tão doente de amar
Às vezes
O silêncio é qual trovão
Às vezes
Pego a estrada em contramão
Você consegue ser sincera?
Eu só imagino
E acho que não
Doente de amar
Queria nunca ter te visto
Tão doente de amar
Te esquecer já não consigo
Não sei mais que fazer
Daria tudo só
Pra estar com você.
Tradução: Ivã Justein Santana
cheguei há pouco do amor (cidade de gaivotas loucas
e
luzes cegas). não concordas? eu sei bem sei: vês as
coisas
como falésias altas e impossíveis como ameias. cheguei
há
pouco do amor e trago comigo esse discurso aprendiz:
o idealismo. desculpe: o que pensa destas palavras
dos
começos desse caminho as dóceis letras da promessa?
perdão perdão: há que passar para o outro lado (um
parâmetro de cada vez). se bem me lembro em pequeno
as cigarras podiam ser domesticadas e cada adeus
era um veneno. obrigado obrigado: também me pareceu
ser essa a sua opinião. cheguei há pouco do amor e
vejo as certezas do mundo como uma ilusão. receio
pelo
eterno procuro a fantasia mas: é sempre no ventre
dessas gaivotas que se dão os primeiros beijos
(João Luís Barreto Guimarães)
EXPOSIÇÃO
Escrever é expor-se.
Revelar sua capacidade
Ou incapacidade.
E sua intimidade.
Nas linhas e entrelinhas.
Não teria sido mais útil silenciar?
Deixar que saibam-te pelo que parece que és?
Que desejo é este que te leva a desnudar-te?
A desmascarar-te?
Que compulsão é esta?
O que buscas?
Será a incapacidade de fazer coisas úteis?
Mais objetivas?
É por isso que procuras o subjetivo?
Para quem a tua mensagem?
Para ti?
Para outrem?
Não sei.
Mais uma que faço sem saber por quê.
Michel Temer
Odes
Colhe o dia, porque és ele
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
- Ricardo Reis, in "Odes"
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
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