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terça-feira, 29 de outubro de 2019

AINDA NÃO ESCURECEU



(Not Dark Yet -- Bob Dylan -- vb:ijs)

As sombras vêm caindo e eu aqui o dia inteiro
O calor não dá sossego, o tempo foge sorrateiro
Sinto como um aço essa alma fria e dura
Em mim as cicatrizes sol nenhum cura
Sem mais espaço sequer pra alguma base
Ainda não escureceu, mas quase

É: meu senso do humano já foi pelo ralo
Por trás de cada beleza algo pisa em nosso calo
Ela me escreveu uma carta com capricho e gentileza
Botou em palavras o que tinha na cabeça
Não vejo nem por que achar que é só fase
Ainda não escureceu, mas quase

Já estive em Londres, e em Paris, cidade-luz
Desci alguns rios até mares tão azuis
Conheço as raízes deste mundo de ilusão
Não quero provar nada nem que alguém me dê razão
Às vezes esse fardo parece pesar mais e
Ainda não escureceu, mas quase

Onde nasci vou morrer, queira ou não aceitar
Pode parecer que ando, mas sigo no lugar
Cada nervo do corpo está vazio e amortecido
Não lembro nem o que me trouxe aqui, fugido
Nem ouço murmúrio em prece pela paz e
Ainda não escureceu, mas quase

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Com Deus A Nosso Lado

um poema (musicado) do nobel de literatura 2016

Com Deus A Nosso Lado
(With God On Our Side - Bob Dylan - 1964)

Com Deus Ao Nosso Lado
Meu nome não importa, e a idade, tampouco
Minha terra natal se chama Meio Oeste
Pois lá fui criado pras leis respeitar
E a terra onde vivo tem Deus a seu lado
Os livros de história contam, e contam tão bem
A cavalaria atacava, e os índios caíam
A cavalaria atacava, e os índios morriam
O país era jovem, com Deus a seu lado
A Guerra Hispano-Americana teve o seu dia
E a Guerra Civil também depressa se foi
E os nomes de heróis me forçaram a decorar
Com armas nas mãos e Deus a seu lado
A Primeira Grande Guerra lacrou nosso destino
A razão dessa luta eu nunca entendi
Mas aprendi a aceitá-la e aceitá-la com orgulho
Pois não se contam os mortos quando Deus está a seu lado
A Segunda Grande Guerra chegou ao seu fim
Perdoamos os alemães e nos tornamos seus amigos
E embora seis milhões nos fornos eles tenham fritado
Os alemães agora também têm Deus a seu lado
Aprendi a odiar os russos por toda minha vida
Se outra guerra começar serão eles os inimigos
De odiar e temer, de correr e se esconder
E tudo aceitar bravamente, com Deus a meu lado
Mas agora temos armas de pós químicos tóxicos
Se formos obrigados, vamos usar esses tóxicos
Um apertar um botão, e lá se vai o mundo todo
E você nunca faz perguntas, quando Deus está a seu lado
Nas minhas horas escuras tenho pensado sobre isso:
Que o próprio Jesus Cristo foi traído por um beijo
Mas não posso pensar por você, decidir sobre o fato:
Se Judas Iscariotes tinha Deus a seu lado
Então agora em despedida, estou cansado pra diabo.
A confusão que sinto língua alguma falava
As palavras me enchem a cabeça, e se derramam por terra:
E se Deus está a nosso lado, impedirá a próxima guerra

versão brasileira: ijs

tradução do Ivan Justen Santana, link para o seu blog


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

DOENTE DE AMAR




(LOVE SICK - Bob Dylan - vb:IJS)

Vou caminhando
Mortas ruas de cimento
Caminhando
Com você no pensamento
Minhas botas tão cansadas
Minha mente tão cabeada
E as nuvens chovendo

Será que
Escutei alguém mentindo?
Será que
Escutei gritos longínquos?
Falei feito um menino
Você me arrasou só sorrindo
E eu dormindo

Doente de amar
Mas ainda estou lá
Desse jeito de amar
Tão doente de amar

Eu vejo
Vejo amantes pelo prado
Eu vejo
Silhuetas na janela
Assisto a elas e outras
Que me deixam pendurado
Numa sombra

Doente de amar
E o relógio em tique-taque
Desse jeito de amar
Tão doente de amar

Às vezes
O silêncio é qual trovão
Às vezes
Pego a estrada em contramão
Você consegue ser sincera?
Eu só imagino
E acho que não

Doente de amar
Queria nunca ter te visto
Tão doente de amar
Te esquecer já não consigo

Não sei mais que fazer
Daria tudo só
Pra estar com você.
 
Tradução: Ivã Justein Santana

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maggie’s Farm


O SÍTIO DA MARGA
(Maggie’s Farm)

Não vou trampar no sítio da Marga mais
Não, não vou trampar no sítio da Marga mais
Pois eu acordo de manhã
Junto as mãos, rezo por chuva
Minha cabeça ferve
Co’as ideias mais malucas
Mas é uma vergonha, esfregar chão ela me faz
Não vou trampar no sítio da Marga mais

Não vou trampar pro irmão da Marga mais
Não, não vou trampar pro irmão da Marga mais
Pois ele te dá uma moeda
Ele te dá uns dez centavos
E te pergunta sorrindo
Se divertem-se os escravos
E ele multa a gente por ofensa ao capataz
Não vou trampar pro irmão da Marga mais

Não vou trampar pro pai da Marga mais
Não, não vou trampar pro pai da Marga mais
Pois fumar na nossa cara
É o seu divertimento
E a janela do seu quarto
Ela é feita de cimento
A Guarda Nacional, desse velho ela anda atrás
Não vou trampar pro pai da Marga mais

Não vou trampar pra mãe da Marga mais
Não, não vou trampar pra mãe da Marga mais
Pois ela fala aos serviçais
Sobre Deus, leis e conselho
E todo mundo diz
Que ela é o cérebro do velho
Ela tem sessenta e tantos mas diz que tem vinte e tais
Não vou trampar pra mãe da Marga mais

Não vou trampar no sítio da Marga mais
Não, não vou trampar no sítio da Marga mais
Pois eu faço meu melhor
Pra ser eu na minha pele
Mas todos eles querem
Que eu seja ao jeito deles
Eles cantam enquanto eu trampo, eles estragam minha paz
Não vou trampar no sítio da Marga mais

canção do Bob Dylan
versão da letra em português feita pelo poeta
Ivan Justen Santana