quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer.
Foi nesse momento que os raios de sol, já tênues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta, forte o bastante para ofuscar a imagem refletida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para iluminá-lo. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno de sua pequena pupila foi se iluminando, como se os olhos da moça e a luz se sobrepusessem, seus olhos se tornaram um vaga-lume misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.” (p. 15)
O PAÍS DAS NEVES
Yasunari Kawabata

Tradução de Neide Hissae Nagae
“Da janela do trem, avistava uma larga avenida com altas árvores que despontava logo após a estação Yurakucho e se estendia até a estação de Tóquio, cruzando de leste a oeste a linha do trem. Naquele momento, o asfalto refletia o pôr-do-sol tal qual um cinturão de metal radiante. Contudo, as árvores estavam à contraluz e apenas insinuavam-se suas silhuetas. As sombras pareciam frescas. Os galhos se expandiam para todos os lados, cobertos de folhas. Em ambas as calçadas, havia sólidas mansões de estilo ocidental. Estranhamente, poucas pessoas passavam por ali. Não havia viva alma até bem próximo do fosso do Palácio Imperial. Nem carros havia no asfalto que refletia a luminosidade. Observando de dentro daquele trem lotado, o lugar parecia estar suspenso no entardecer de algum mundo além da imaginação. Havia uma atmosfera estrangeira em tudo.” (p. 63)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“O verniz arranhado daquele vaso antigo deixava semi-aparente a assinatura da peça, ‘Soutan’, que também estava presente na caixa onde ele era guardado. Caso fosse autêntica, a cabaça teria cerca de trezentos anos. Kikuji não conhecia as flores usadas na cerimônia do chá, tampouco sua criada o sabia. Apesar disso, aquela bela-da-manhã parecia ideal a uma cerimônia das primeiras horas do dia. Ficou a observar o arranjo por algum tempo. Que fascinante era ver aquele ramo de vida tão efêmera dentro de uma cabaça tão antiga! Aquela singela flor combinaria melhor com o mizusashi de Shino que o ramalhete de estilo ocidental que comprara? Quanto tempo poderia durar num vaso uma bela-da-manhã? Kikuji sentiu certa inquietude ao pensar na sua fugacidade.” (p. 112)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“A peça era exatamente como Fumiko havia descrito ao telefone naquela manhã. Seu esmalte branco apresentava um leve toque avermelhado. Observando-o por algum tempo, parecia que aquela tonalidade rubra emergia de dentro do branco. Toda a borda era ligeiramente amarronzada, havendo apenas uma faixa mais escura. Seria ali onde a boca tocava? A bebida bem podia ter-lhe tingido a borda, ou então, seriam os lábios de alguém que a maculara. Aquela suave mancha marrom, à medida que era olhada, começava a parecer rosa. Seria mesmo a marca de batom da viúva impregnada na cerâmica, como Fumiko lhe contara? Kikuji também reparou numa coloração marrom-avermelhada nas trincas naturais da cerâmica. Era um tom parecido com o de um batom desbotado, uma rosa vermelha murcha... Mas quando o associou a uma mancha seca de sangue, sentiu-se enjoado. Tinha a sensação de um embrulho no estômago mesclado a uma certa sedução que o fascinava.” (p. 128-9)

 MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“Ele só havia visto Yukiko duas vezes. A primeira, na cerimônia do chá no templo Engakuji, quando Chikako levara a jovem a fazer uma demonstração, com a função de exibi-la a ele. Durante o preparo do chá, seus gestos eram simples e elegantes. Kikuji ainda trazia fresca na memória a imagem dos ombros e das mangas do quimono de Yukiko, bem como de seus cabelos, iluminados sob a divisória de papel-arroz por onde se projetavam suavemente as sombras das árvores próximas. Só não conseguia recordar-se muito bem de suas feições. Já o fukusa vermelho e o lenço de tsurus brancos que a jovem levava quando se dirigia à sala de chá eram-lhe vivas lembranças.” (p. 144)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“Os cedros da aldeia de Kitayama eram todos administrados por pequenos empresários. Contudo, nem toda família era dona de terra. Pelo contrário, poucos o eram. Chieko cogitava se seus pais também teriam sido empregados de alguma família proprietária. A própria Naeko dissera: ‘Estou trabalhando para...’ Tudo havia acontecido vinte anos antes. Chieko teria sido abandonada porque, na época, ter filhos gêmeos era considerado uma vergonha, além do que se acreditava na dificuldade de criá-los com saúde. Era possível que tivessem se preocupado também com os escassos rendimentos da família. Chieko esquecera de perguntar três coisas a Naeko. Por que abandonaram a ela e não a irmã? Quando ocorrera o acidente do pai, sua queda do alto do cedro? Naeko dissera ser ‘recém-nascida’ na época, no entanto... Havia dito também ter nascido na casa do avô materno, um lugar bem mais remoto do que a aldeia dos cedros. Nesse caso, qual seria o nome do lugar?” (140-1)

KYOTO
Yasunari Kawabata

Tradução de Meiko Shimon
“Suas lindas e intensas pupilas negras encerradas em seus grandes olhos eram de rara beleza. Suas sobrancelhas também eram belas. Lembrava uma flor sorrindo. Exatamente: uma flor sorrindo era a melhor definição.” (p. 37)

A DANÇARINA DE IZU
Yasunari Kawabata
“Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade no lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores. Decerto os velhotes não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar. Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem lágrimas frias, se desmanchassem em choro convulsivo ou berrassem, a garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria.” (p. 80)
A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS
Yasunari Kawabata

Tradução de Meiko Shimon
Poder-se-ia dizer que o mestre sofreu na última partida de go de sua vida com o racionalismo da modernidade, que tornou tudo rigorosamente amarrado em meticulosas regras; com isso, a graça e a elegância dessa arte tornaram-se artigos obsoletos, o respeito e a consideração aos superiores foram esquecidos, e nem ao menos há o mútuo apreço como seres humanos. (p. 67)
              
O MESTRE DE GO
Yasunari Kawabata

Tradução do japonês: Meiko Shimon
Diante do tabuleiro, a tensão entre o mestre e Otake se manifestava de modos opostos: calma contra agitação, indiferença contra nervosismo. Imerso no mundo do go, o mestre não mais deixava o tabuleiro. Para um profissional, basta ver a postura ou a expressão de seu adversário para saber se a situação da partida será favorável ou não; mas dizem que isso não se aplica no caso do mestre Shusai. (p. 56)

O MESTRE DE GO
Yasunari Kawabata

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

• Toda minha vida, tive o sentimento de estar distante de meu verdadeiro lugar. Se a expressão “exílio metafísico” não tivesse nenhum significado, minha existência sozinha forneceria um a ela.

(Emil Cioran)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Silêncio, fale comigo

Silêncio fale comigo
E ecoe o timbre da voz
Que já sussurrou promessas
Que se calou tão depressa
E assim se fez tão algoz

Silêncio fale comigo
Venham matear ao meu lado
Desperte esta placidez
Não fique assim tão calado
Fale comigo outra vez.

Cesar Tomazzini Liscano
Caminante, son tus huellas


el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.



Português



Caminhante, são teus rastos

o caminho, e nada mais;

caminhante, não há caminho,

faz-se caminho ao andar.

Ao andar faz-se o caminho,

e ao olhar-se para trás

vê-se a senda que jamais

se há-de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho,

somente sulcos no mar.


Antonio Machado

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dime


Dime por favor donde estás,
en que rincón puedo no verte,
dónde puedo dormir sin recordarte
y dónde recordar sin que me duela.

Dime por favor dónde pueda caminar
sin ver tus huellas,
dónde puedo correr sin recordarte
y dónde descansar con mi tristeza.

Dime por favor cuál es el cielo
que no tiene el calor de tu mirada
y cuál es el sol que tiene luz tan sólo
y no la sensación de que me llamas.

Dime por favor cuál es el rincón
en el que no dejaste tu presencia.
Dime por favor cual es el hueco de mi almohada
que no tiene escondidos tus recuerdos.

Dime por favor cuál es la noche
en que no vendrás para velar mis sueños...
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.

Jorge Luis Borges

A Traição




quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse.

Alexandre O’Neill

sábado, 26 de novembro de 2011

Um olhar sobre as raízes da narrativa Latino-Americana

Livros e fotos emolduradas com escritores como Julio Cortázar (1914- 1984) disputam cada metro quadrado da parede do escritório no Departamento de Literatura, habitado pelo “segundo melhor crítico” da Universidade de Yale. O epíteto foi conferido pelo amigo e colega Harold Bloom. Será necessário dizer que Bloom, jamais acusado pelo crime de modéstia, reservou para si a vaga do primeiro lugar? Roberto González Echevarría sorri curioso com a presença da repórter, como se o reconhecimento de um livro de crítica literária com cinco edições em inglês, em 20 anos, ainda provocasse surpresa. Mesmo depois de ter recebido, em março, do presidente Barack Obama, a Medalha Nacional de Artes e Humanidades, em companhia de Philip Roth e Joyce Carol Oates. Ele se confessa feliz com a longevidade de Mito y Archivo – Una Teoría de la Narrativa Latinoamericana. Acaba de escrever Modern Latin American Literature: A Very Short Introduction (Literatura Latino-Americana Moderna: Uma Introdução Muito Curta), que será lançado em 2012. Echevarría começa o novo livro afirmando que se guiou pela “avaliação severa” de qualidade. “Avaliação é a menos admitida e uma das mais predominantes práticas em critica literária”, escreve. Para ele, o colombiano Fernando Vallejo e o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) são dois romancistas que aproximaram a literatura latino-americana recente do lugar de proeminência que ocupou durante o boom dos anos 60. E aposta: “Sempre teremos a linguagem e as histórias, não importa o estilo da narrativa”.

O senhor ainda sustenta a tese de que o arquivo é uma fonte mais importante para a ficção latino-americana do que a origem tradicional do romance em outros continentes?

Sim. Comecei realmente a pensar na relação entre a lei e a origem da ficção ao escrever sobre o picaresco na Espanha no século 16. Ao mesmo tempo, estava refletindo sobre as crônicas da descoberta do Novo Mundo, porque eu ensinava e ainda dou cursos, tanto sobre a Idade de Ouro da literatura espanhola como sobre a literatura latino-americana colonial e moderna. Foi essa confluência fortuita que me levou a escrever o livro. E me ocorreu que La Vida de Lazarillo de Tormes y de Sus Fortunas y Adversidades, o romance anônimo de 1554, é um depoimento que um criminoso faz diante do juiz. Aquela primeira pessoa é muito parecida com a primeira pessoa em Hernán Cortés, quando ele escreve as suas Cartas de Relación. Foi quando me veio a ideia. Depois, comecei a estudar as origens de nova legislação na Espanha no século 16. Era difícil, especialmente para nós, latino-americanos, pensar na Espanha como um país moderno. Mas a Espanha teve a primeira monarquia moderna com os reis católicos, foi o primeiro Estado moderno e os monarcas reformaram a lei espanhola. A lei se tornou presente na Espanha do século 16. E os herdeiros reais criaram o primeiro grande arquivo do Estado em Simancas, perto Salamanca, num belíssimo castelo que havia se tornado uma prisão – e acabou como arquivo. Para mim, não há símbolo melhor da origem da ficção: castelo-prisão-arquivo. Daquela antiga prisão saiu Pícaro, o criminoso. Assim, os testemunhos de criminosos e dos conquistadores são as primeiras narrativas da América Latina. Elas foras escritas para o Arquivo. Claro que fui influenciado por teóricos como Michel Foucault, havia lido Vigiar e Punir. O fato é que não sou simplesmente um seguidor de teorias literárias, tento formular a minha própria. Reconheço que aprendi muito com Foucault, Derrida e outros, mas espero que esta seja minha contribuição para a teoria quando se trata de América Latina. E aprendi muito também com Jorge Luis Borges e Alejo Carpentier.

O senhor não prefere se ver como um fruto da influência da narrativa da ficção mais do que da teoria literária?

Sim, acho que quaisquer ideias que formulo vêm da leitura de ficção – Alejo Carpentier, por exemplo, que foi um dos meus professores, e acabei por escrever um livro sobre ele, The Pilgrim at Home: Alejo Carpentier. Lendo Los Pasos Perdidos, de Carpentier, tive ideias que se tornaram relevantes para escrever Mito y Archivo. Quando eu fazia pós-graduação em Yale, li O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Ali estava: a forma de um arquivo, capítulos que podiam ser rearranjados, textos que usam recortes de jornal como fonte. E, é claro, em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, o arquivo é uma fundação do romance. O impacto de Cem Anos foi o mais importante para a elaboração de Mito y Archivo.

Pouco antes de Mito y Archivo ser concluído, O General em Seu Labirinto, de Márquez, foi lançado. Qual a importância disso?

Muito importante. Representou para mim mais um sinal de que estava no caminho certo. Porque ali está a figura do General Bolívar e a narrativa permitida por um arquivo de milhares de cartas.

O senhor se lembra quando primeiro usou a palavra arquivo como síntese da ideia do livro?

Não tenho certeza, mas gostaria de acreditar que fui inspirado pela etimologia da palavra – arch-ivo – mistério, origem. Architectura, construção que contém coisas. Desconfio que minha mente seja mais poética do que teórica.

Fale um pouco sobre a cumplicidade entre literatura e reportagem científica na América Latina, no século 19.


É o segundo momento, que veio depois do período da Lei, que estabeleceu mecanismos de narrativa. No século 19, tivemos a escrita produzida pelos exploradores científicos. Ela usava métodos que refletiam a emergência das ciências sociais, em conexão com as ciências naturais que deram origem à antropologia. Os Sertões, de Euclides da Cunha, é um livro que representa a quintessência desse fenômeno. Euclides viaja e descreve a paisagem; que livro fenomenal! E fiquei tão contente quando vi que Os Sertões inspirou Mario Vargas Llosa a escrever a Guerra do Fim do Mundo, que considero seu melhor romance.

O senhor afirma que, apesar de Euclides ter a intenção de se apoiar na tradição científica que se formava na época, ele perde o controle da própria perspectiva em Os Sertões.

Sim e acho que isso confere ao livro um molde profundamente literário. É um livro que dramatiza seu próprio fracasso ao tentar explicar Canudos. Isso, para mim, é a mais importante revelação e torna Os Sertões uma grande obra literária, além do que, suponho, o próprio Euclides imaginava. Só Guimarães Rosa descobriu a poética do sertão nesse nível. Mas Os Sertões é insuperável, umas das obras-primas da literatura.

E como o senhor vê Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, no contexto que chama de literatura da tradição antropológica?

É antropologia na medida em que mergulha na linguagem e nos mitos do sertão. Sempre me emociono com o fato de que Guimarães Rosa era um médico e aceitava que os pacientes pobres lhes contassem histórias como pagamento. Pode haver história mais bonita? Ele estava reunindo toda essa narrativa que forma Grande Sertão como um antropólogo. E a antropologia é o terceiro momento, depois da Lei e da exploração científica. O romance latino-americano moderno é essencialmente um projeto antropológico, com toda a poesia que existe na antropologia, como agora descobrimos com a antropologia pós-moderna.

Muitos consideram a prosa de Rosa, em sua invenção regionalista, à altura de Joyce.

Eu concordo plenamente com o argumento. O regionalismo, é claro, pode se tornar universal. Como dizia Miguel Unamuno, “lo universal en lo local”. O regionalismo de García Márquez não está preso a uma região específica, abraça toda a América Latina. E a comparação é justa: Rosa é um romancista tão bom quanto James Joyce, mas o português não tem a difusão literária do inglês. Ulisses é um romance regionalista e universal.

O senhor acha que sempre vamos ter a separação entre a literatura brasileira e a de língua espanhola?

A literatura brasileira é a mais rica do continente, depois da norte-americana, que é tremenda. Machado de Assis é o melhor escritor da América Latina no século 19. Mas, apesar da diferença de língua que nos separa, houve a fecundação cruzada. Nós somos quase os mesmos. Eu era muito amigo do Haroldo de Campos, que ensinava aqui, em Yale, quando eu fazia pós-graduação. Ele usou em um de seus poemas uma frase que eu tinha dito para o Severo Sarduy, também meu grande amigo. Estava na Flórida, uma vez, conversando com uma cubana exilada que havia pertencido à alta burguesia e agora tinha de trabalhar. Perguntei: “Senhora, é duro trabalhar?” Ela respondeu, “Ai, meu filho, trabalhar é a morte vestida de verde-jade”. Ela parecia ter escapado de um romance do Severo Sarduy! Mandei para o Severo, que usou como título de um capítulo de Colibri. Quando o Haroldo leu, adorou e escreveu o poema A Morte Vestida de Verde-Jade.

O que o senhor acha do argumento de que realismo mágico é uma vertente esgotada?

É o que grupos como McCondo e La Nueva Onda acreditam. E compreendo que a literatura precisa se renovar, o jovem deve matar o velho e tudo isso. Mas quando se fazem esses pronunciamentos esperamos que eles sejam seguidos por grandes obras literárias. E isso ainda não aconteceu. Você pode fazer gozação e dizer que a América Latina não é como Macondo, é globalizada, etc. Mas cadê o novo Cem Anos de Solidão? Macondo existe como a Londres de Charles Dickens ou a Paris de Proust.

Ao final do livro o senhor pergunta: Há narrativa além do arquivo?

Tenho pensado sobre isso (suspira). O mito do arquivo em romances como Cem Anos de Solidão se repetiu em outras ficções – menores, devo dizer. E a tentativa de fugir disso não me parece bem-sucedida na América Latina. As únicas exceções que me ocorrem citar são Fernando Vallejo e Roberto Bolaño. Noturno de Chile, do Bolaño é um romance maravilhoso.

Em outra pergunta o senhor especula se os sistemas de comunicação estão se tornando a nova fonte de narrativa.

Acho que sim e acredito até na transformação da leitura como uma experiência digital. O boliviano Edmundo Paz Soldán, que leciona em Cornell, escreveu, por exemplo, sobre hackers. A questão é, se além de tema, os novos sistemas estão afetando a forma da literatura. É bom lembrar que a mídia é uma outra forma de arquivo, inclusiva e onipresente. O Paz Soldán é um dos mais interessantes entre estes autores jovens. Um outro efeito dos sistemas de comunicação é que se lê menos. Os meus alunos em Yale, que estão entre os melhores do país, leram muito menos do que as gerações anteriores. Mas, no fim das contas, acho que a narrativa é como um fênix, sempre acaba por se erguer das cinzas. Por isso, fico tão feliz quando descubro um Roberto Bolaño. A literatura sempre se renova. Sempre teremos a linguagem e as histórias, não importa o estilo da narrativa.

Fonte : O Estado de S.Paulo. 26/11/2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os cogumelos do Paraíso

Minha loucura

não tem complexo

nem de Édipo, nem de Electra,

nem de qualquer puro amor

que saia das artérias.



Vivo no paraíso dos cogumelos

dias tristes, dias alegres,

mas tudo é ilusão passageira,

só não passa nesta vida

a casca estrangeira.



O doce e o amargo

do sabor da tua língua

ficou no Caribe

lá nos Portos cheios de gozo

e de prostituição.



Os cogumelos do paraíso

são adubados com a maresia

e os marujos já não são mais fêmeas,

pois as fêmeas são eternos machos

depois da ceia que consome seus rabos.



Nós não temos nada,

se temos a vida

ela ainda nos deve a morte,

portanto tudo é ilusão

dias de trabalho, outros de ócio

dias de amor, outros de ódio,

e os cogumelos são adubados

para fabricar desejos,

e onde não há alucinação

não germina gente,

nem se fabrica coração.

Cristiane Neder