Nesta
aldeia de ninguém
trapos indigentes nas cercas —
teréns de ninguém.
E sobre elas nuvens de ninguém,
e adiante — anúncios sobre a infância:
crianças esquálidas, bravias;
e música sobre o nu
de mulheres hunas e citas;
e aqui, no leito, ao rés dos olhos,
algures, junto a pestanas úmidas,
alguém morria e chorava,
enquanto eu compreendia
de uma vez por todas — era
minha mãe.
1960
Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
domingo, 23 de janeiro de 2011
Para falar de poesia
Falar de poesia é falar do nada
ou possivelmente de algumas raias externas
(onde a língua se devora)
discernindo ou determinando um desejo
penetrar este nada, uma lei, um olho
para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada
Impossível !
A morte não pode ser trocada por outra coisa.
Sinceridade – é o processo insaciável
de transição, de flutuação, em sentido oposto,
ou seja, eu-te-amo-não-te-amo
desaparece à beira da consciência
Não há mais tempo para a expressão
Eliminada pela simultaneidade
Onde achar um homem dançando como uma vela?
Escute, como o segundo milênio
a água avança sobre as margens – algas
A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés
seus quadris e ombros expostos
Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene
noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo
O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda
atraía mariposas do escuro.
O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,
revelando os traços honestos da matéria,
pálpebras rasgadas.
Uma tela e letras, esta é a estória,
arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima
de mariposas,
a descrição da noite aparece. Os ramais
do jardim pegam fogo,
campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,
entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!
O que mais dizer?
Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio
abrindo-se, como um arco,
cuja corda está corroída
pelo silêncio.
Arkadii Dragomoshchenko
Tradução: Régis Bonvicino
ou possivelmente de algumas raias externas
(onde a língua se devora)
discernindo ou determinando um desejo
penetrar este nada, uma lei, um olho
para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada
Impossível !
A morte não pode ser trocada por outra coisa.
Sinceridade – é o processo insaciável
de transição, de flutuação, em sentido oposto,
ou seja, eu-te-amo-não-te-amo
desaparece à beira da consciência
Não há mais tempo para a expressão
Eliminada pela simultaneidade
Onde achar um homem dançando como uma vela?
Escute, como o segundo milênio
a água avança sobre as margens – algas
A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés
seus quadris e ombros expostos
Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene
noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo
O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda
atraía mariposas do escuro.
O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,
revelando os traços honestos da matéria,
pálpebras rasgadas.
Uma tela e letras, esta é a estória,
arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima
de mariposas,
a descrição da noite aparece. Os ramais
do jardim pegam fogo,
campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,
entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!
O que mais dizer?
Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio
abrindo-se, como um arco,
cuja corda está corroída
pelo silêncio.
Arkadii Dragomoshchenko
Tradução: Régis Bonvicino
sábado, 22 de janeiro de 2011
A história de uma criança que desenhou uma galinha com três pernas.
"E a professora disse que a galinha não podia voar perto das nuvens, como se fosse um pássaro, e que nenhum tem três pernas. Aí agarota disse: "Eu sei disso .Porém eu coloquei a terceira perna para dar o impulso".O que eu quis dizer é que precisamos de heterodoxia, de criatividade, de não reproduzirmos as coisas mecanicamente.
juíz Carlos Ayres Brito
"E a professora disse que a galinha não podia voar perto das nuvens, como se fosse um pássaro, e que nenhum tem três pernas. Aí agarota disse: "Eu sei disso .Porém eu coloquei a terceira perna para dar o impulso".O que eu quis dizer é que precisamos de heterodoxia, de criatividade, de não reproduzirmos as coisas mecanicamente.
juíz Carlos Ayres Brito
Outro caso / outro poema
foi mais tarde
quando estávamos no chuveiro
que ela disse
“ainda vais escrever um poema sobre isto”
“sobre o quê?” perguntei
ANOTHER LOVE AFFAIR/ANOTHER POEM
it was afterwards
when we were in the shower
that she said
“you’re gonna write a poem about this”
“about what?” I asked
E. ETHELBERT MILLER
quando estávamos no chuveiro
que ela disse
“ainda vais escrever um poema sobre isto”
“sobre o quê?” perguntei
ANOTHER LOVE AFFAIR/ANOTHER POEM
it was afterwards
when we were in the shower
that she said
“you’re gonna write a poem about this”
“about what?” I asked
E. ETHELBERT MILLER
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
A secção dos congelados
Truncadas, indefinidas, passam
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. Os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: Janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós
num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome,
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. E contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter,
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir,
na companhia dos outros,
o quanto nos reclama a solidão.
Rui Pires Cabral
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. Os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: Janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós
num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome,
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. E contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter,
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir,
na companhia dos outros,
o quanto nos reclama a solidão.
Rui Pires Cabral
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A carne e o espírito
O olhar do sociólogo francês Roger Bastide sobre a literatura e as artes
RESUMO
Livro ilustrado dedicado às artes e copioso volume que reúne textos sobre literatura brasileira e francesa mostram Roger Bastide como um crítico arguto e ardoroso, porém indulgente com autores menores. A ideia de “encarnação” permeia seu pensamento crítico e permite compreender sua visão sobre a literatura nos trópicos.
MARCELO COELHO
O SOCIÓLOGO FRANCÊS Roger Bastide (1898-1974) estudou e amou intensamente o Brasil, país onde passou 16 anos de sua vida (de 1938 a 1954), dando aulas na Universidade de São Paulo e fazendo pesquisas pioneiras, em especial sobre o candomblé.
Mas dizer que Bastide gostava do Brasil é dizer muito pouco, e incorrer em certa imprecisão. Na verdade, ele parecia gostar de qualquer coisa que aparecesse à sua frente.
Pelo menos esta é a impressão que deixam as mais de mil páginas da “Navette Literária França-Brasil” [Edusp, 1.348 págs., R$ 172 os dois volumes], coletânea de seus textos críticos para diversas publicações brasileiras e francesas (como “Anhembi”, “Diário de S. Paulo”, Folha, “Mercure de France”), organizada por Gloria Carneiro do Amaral.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade”
Ao longo de tantos artigos, alguns bastante circunstanciais, outros importantes, é difícil ver Bastide sem entusiasmo pelo que comenta; são raríssimas as frases negativas saídas de sua pena.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade.” E foi assim que se animou, no seu livro sobre “A Poesia Afro-Brasileira” (Martins, 1943), a colocar o simbolista Cruz e Souza no mesmo nível de Stéphane Mallarmé e Stefan George.
Já nas primeiras páginas do volume “Textos de Crítica Literária de Roger Bastide”, vemos o jovem professor tecendo elogios a obscuros escritores de província, como Pierre Calel, André Lamandé, Louis Gratias, Raoul Stéphan…
O que Bastide admira nesses nomes que a história literária francesa esqueceu é sobretudo a capacidade que tinham de retratar, ou “cantar”, as realidades regionais. O “solo místico, ardente” do Quercy é o que fascina Bastide ao ler um romance de Hélène Lémery. Os jogos de bocha e o “vinho ensolarado” do sul da França dão assunto, diz Bastide, aos poemas “saborosos ou crocantes, perfumados ou suculentos” de Eugène Grangié.
O elogio às descrições locais, com seus perfumes, comidas e lavouras, corresponde, na verdade, a um programa de sensualismo literário que serviria para Bastide como instrumento corretivo a outra preocupação constante em sua vida e seus escritos: a religião. Em especial a das montanhas das Cévennes de sua infância, onde o rigor moral protestante podia combinar-se, segundo Bastide, não com o puritanismo burguês, mas com o espírito de independência e de revolta.
Trata-se, grosso modo, do mesmo percurso seguido por André Gide (1869-1955), a cuja obra Roger Bastide dedicou um livro -e alguns artigos presentes na atual coletânea. Gide oscilou, como se sabe, entre as angústias religiosas de “A Sinfonia Pastoral”, por exemplo, e a descoberta transgressiva do prazer terreno, em outros romances como “O Imoralista” e “Os Frutos da Terra”.
Do espírito à carne, ou melhor, à “encarnação” do espírito no corpo: o tema, no qual o jovem Bastide via a verdade essencial do cristianismo, será a chave de seu interesse permanente por outros autores franceses, como François Mauriac, André Chamson e Pierre Jean Jouve, que aparecem várias vezes nas páginas do volume.
Mas os “frutos da terra”, que com tanto empenho foram procurados nas regiões rurais da França, haveriam de eclodir plenamente diante de seus olhos quando Bastide aportou no Brasil em 1938, convidado pela USP a substituir Claude Lévi-Strauss.
Estudando com raro apetite a literatura brasileira, Roger Bastide utiliza com frequência, e mesmo exagero, um procedimento que se poderia chamar de “crítica evocativa”.
Determinado autor (Graciliano Ramos, para citar um dos grandes, ou Dalcídio Jurandir, para citar um menos importante; ou ainda Jacques do Prado Brandão) escreve, por exemplo, sobre a seca, sobre a Amazônia, ou sobre o mar. É o bastante para que o crítico acenda seus fogos de artifício descritivos. Num livro, encontraremos “algas entre os cabelos da amada, fantasmas de mortos fosforescentes”; em outro, “ilhas verdes, madeiras cortadas, ervas de pajés, luzes de choupana”; em outro ainda, “plantas com espinhos que crescem [num] deserto de cascalho e terra queimada”.
Há muitas páginas assim ao longo do livro, o que torna especialmente admiráveis os momentos em que a crítica de Bastide revela seus poderes de análise, discernimento e proporção.
Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens
Em primeiro lugar, Bastide serviu, para os brasileiros de 1950, como um guia bastante seguro acerca das novidades intelectuais da França: Sartre, Camus, Ponge, Bachelard são apresentados em artigos informativos e criteriosos.
Mas é sobretudo nos textos mais longos, como o famoso “Machado de Assis, Paisagista”, ou o prefácio à tradução francesa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que essa descomunal coletânea de textos se mostra realmente indispensável.
Outra seleção de textos de Roger Bastide, agora principalmente sobre artes plásticas, sairá pela Imprensa Oficial neste ano.
Trata-se de “Impressões do Brasil” [no prelo], volume mais compacto e belamente ilustrado, com artigos que vão desde um texto meio antiquado (e, para variar, excessivamente elogioso) a propósito do pintor cubista André Lhotte (1885-1962) a esfuziantes análises sobre as portas de igrejas no barroco brasileiro e sobre a “estética” urbana em São Paulo.
Não por acaso, o texto sobre “Machado de Assis, Paisagista” reaparece no livro, organizado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. Opera-se, nesse estudo, a mais surpreendente sintonia entre o que havia de preocupação pessoal, de fundo religioso e regionalista, por parte de Bastide, e a própria matéria do escritor.
Todo o risco de um fascínio exterior pela sensualidade e pela paisagem, que Roger Bastide não parecia capaz de superar afetivamente, surge resolvido na escrita de Machado de Assis. Sentindo o problema “na pele”, por assim dizer, Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens.
Também em Jorge Amado, que surpreendentemente Bastide considera mais “revolucionário” do que Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, um fenômeno semelhante ocorreria. Não se trata, diz Bastide, de autor falando “sobre” o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele.
A escrita desses autores “incorpora”, portanto, o meio em que vivem. O termo “incorporação”, como chave para o pensamento de Bastide, foi destacado por Augusto Massi em outra antologia excelente de seus textos de crítica literária (”Poetas do Brasil”, Edusp, 1997), mais curta, e que a edição de Gloria Carneiro do Amaral não duplica.
Poderíamos também falar em “encarnação”, para manter viva a ideia de tensão religiosa que, graças a essa nova coletânea, revela-se presente o tempo todo na obra do sociólogo e do crítico literário francês.
Incorporação ou encarnação, o tema surge de outro ângulo quando Bastide prefigura as questões schwarzianas das “ideias fora do lugar”, ao propor o estudo dos mecanismos da aculturação ou do “transplante” para tratar da influência europeia sobre a literatura brasileira.
No capítulo das omissões, chama a atenção o desinteresse de Bastide por Vinicius de Moraes, justamente alguém que passou da angústia religiosa para a descontração popular.
A ausência de um índice remissivo é o pecado capital numa coletânea tão abrangente como a “Navette Literária”, que vem acompanhada de outro tomo, onde a organizadora traça um roteiro sintético dos artigos que coligiu
.
O olhar do sociólogo francês Roger Bastide sobre a literatura e as artes
RESUMO
Livro ilustrado dedicado às artes e copioso volume que reúne textos sobre literatura brasileira e francesa mostram Roger Bastide como um crítico arguto e ardoroso, porém indulgente com autores menores. A ideia de “encarnação” permeia seu pensamento crítico e permite compreender sua visão sobre a literatura nos trópicos.
MARCELO COELHO
O SOCIÓLOGO FRANCÊS Roger Bastide (1898-1974) estudou e amou intensamente o Brasil, país onde passou 16 anos de sua vida (de 1938 a 1954), dando aulas na Universidade de São Paulo e fazendo pesquisas pioneiras, em especial sobre o candomblé.
Mas dizer que Bastide gostava do Brasil é dizer muito pouco, e incorrer em certa imprecisão. Na verdade, ele parecia gostar de qualquer coisa que aparecesse à sua frente.
Pelo menos esta é a impressão que deixam as mais de mil páginas da “Navette Literária França-Brasil” [Edusp, 1.348 págs., R$ 172 os dois volumes], coletânea de seus textos críticos para diversas publicações brasileiras e francesas (como “Anhembi”, “Diário de S. Paulo”, Folha, “Mercure de France”), organizada por Gloria Carneiro do Amaral.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade”
Ao longo de tantos artigos, alguns bastante circunstanciais, outros importantes, é difícil ver Bastide sem entusiasmo pelo que comenta; são raríssimas as frases negativas saídas de sua pena.
Companheiro de atividade jornalística nos anos 1940, Antonio Candido conta ter repreendido Bastide pelo excesso de indulgência. “Eu não faço juízos de valor”, respondeu o francês, “eu faço juízos de realidade.” E foi assim que se animou, no seu livro sobre “A Poesia Afro-Brasileira” (Martins, 1943), a colocar o simbolista Cruz e Souza no mesmo nível de Stéphane Mallarmé e Stefan George.
Já nas primeiras páginas do volume “Textos de Crítica Literária de Roger Bastide”, vemos o jovem professor tecendo elogios a obscuros escritores de província, como Pierre Calel, André Lamandé, Louis Gratias, Raoul Stéphan…
O que Bastide admira nesses nomes que a história literária francesa esqueceu é sobretudo a capacidade que tinham de retratar, ou “cantar”, as realidades regionais. O “solo místico, ardente” do Quercy é o que fascina Bastide ao ler um romance de Hélène Lémery. Os jogos de bocha e o “vinho ensolarado” do sul da França dão assunto, diz Bastide, aos poemas “saborosos ou crocantes, perfumados ou suculentos” de Eugène Grangié.
O elogio às descrições locais, com seus perfumes, comidas e lavouras, corresponde, na verdade, a um programa de sensualismo literário que serviria para Bastide como instrumento corretivo a outra preocupação constante em sua vida e seus escritos: a religião. Em especial a das montanhas das Cévennes de sua infância, onde o rigor moral protestante podia combinar-se, segundo Bastide, não com o puritanismo burguês, mas com o espírito de independência e de revolta.
Trata-se, grosso modo, do mesmo percurso seguido por André Gide (1869-1955), a cuja obra Roger Bastide dedicou um livro -e alguns artigos presentes na atual coletânea. Gide oscilou, como se sabe, entre as angústias religiosas de “A Sinfonia Pastoral”, por exemplo, e a descoberta transgressiva do prazer terreno, em outros romances como “O Imoralista” e “Os Frutos da Terra”.
Do espírito à carne, ou melhor, à “encarnação” do espírito no corpo: o tema, no qual o jovem Bastide via a verdade essencial do cristianismo, será a chave de seu interesse permanente por outros autores franceses, como François Mauriac, André Chamson e Pierre Jean Jouve, que aparecem várias vezes nas páginas do volume.
Mas os “frutos da terra”, que com tanto empenho foram procurados nas regiões rurais da França, haveriam de eclodir plenamente diante de seus olhos quando Bastide aportou no Brasil em 1938, convidado pela USP a substituir Claude Lévi-Strauss.
Estudando com raro apetite a literatura brasileira, Roger Bastide utiliza com frequência, e mesmo exagero, um procedimento que se poderia chamar de “crítica evocativa”.
Determinado autor (Graciliano Ramos, para citar um dos grandes, ou Dalcídio Jurandir, para citar um menos importante; ou ainda Jacques do Prado Brandão) escreve, por exemplo, sobre a seca, sobre a Amazônia, ou sobre o mar. É o bastante para que o crítico acenda seus fogos de artifício descritivos. Num livro, encontraremos “algas entre os cabelos da amada, fantasmas de mortos fosforescentes”; em outro, “ilhas verdes, madeiras cortadas, ervas de pajés, luzes de choupana”; em outro ainda, “plantas com espinhos que crescem [num] deserto de cascalho e terra queimada”.
Há muitas páginas assim ao longo do livro, o que torna especialmente admiráveis os momentos em que a crítica de Bastide revela seus poderes de análise, discernimento e proporção.
Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens
Em primeiro lugar, Bastide serviu, para os brasileiros de 1950, como um guia bastante seguro acerca das novidades intelectuais da França: Sartre, Camus, Ponge, Bachelard são apresentados em artigos informativos e criteriosos.
Mas é sobretudo nos textos mais longos, como o famoso “Machado de Assis, Paisagista”, ou o prefácio à tradução francesa de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que essa descomunal coletânea de textos se mostra realmente indispensável.
Outra seleção de textos de Roger Bastide, agora principalmente sobre artes plásticas, sairá pela Imprensa Oficial neste ano.
Trata-se de “Impressões do Brasil” [no prelo], volume mais compacto e belamente ilustrado, com artigos que vão desde um texto meio antiquado (e, para variar, excessivamente elogioso) a propósito do pintor cubista André Lhotte (1885-1962) a esfuziantes análises sobre as portas de igrejas no barroco brasileiro e sobre a “estética” urbana em São Paulo.
Não por acaso, o texto sobre “Machado de Assis, Paisagista” reaparece no livro, organizado por Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. Opera-se, nesse estudo, a mais surpreendente sintonia entre o que havia de preocupação pessoal, de fundo religioso e regionalista, por parte de Bastide, e a própria matéria do escritor.
Todo o risco de um fascínio exterior pela sensualidade e pela paisagem, que Roger Bastide não parecia capaz de superar afetivamente, surge resolvido na escrita de Machado de Assis. Sentindo o problema “na pele”, por assim dizer, Bastide inovou a crítica machadiana ao notar que, longe de ser um autor blindado para o meio ambiente do Brasil, Machado de Assis fez com que a paisagem fosse absorvida na carne e no espírito de suas personagens.
Também em Jorge Amado, que surpreendentemente Bastide considera mais “revolucionário” do que Graciliano Ramos ou José Lins do Rego, um fenômeno semelhante ocorreria. Não se trata, diz Bastide, de autor falando “sobre” o povo, mas de alguém que faz o povo falar através dele.
A escrita desses autores “incorpora”, portanto, o meio em que vivem. O termo “incorporação”, como chave para o pensamento de Bastide, foi destacado por Augusto Massi em outra antologia excelente de seus textos de crítica literária (”Poetas do Brasil”, Edusp, 1997), mais curta, e que a edição de Gloria Carneiro do Amaral não duplica.
Poderíamos também falar em “encarnação”, para manter viva a ideia de tensão religiosa que, graças a essa nova coletânea, revela-se presente o tempo todo na obra do sociólogo e do crítico literário francês.
Incorporação ou encarnação, o tema surge de outro ângulo quando Bastide prefigura as questões schwarzianas das “ideias fora do lugar”, ao propor o estudo dos mecanismos da aculturação ou do “transplante” para tratar da influência europeia sobre a literatura brasileira.
No capítulo das omissões, chama a atenção o desinteresse de Bastide por Vinicius de Moraes, justamente alguém que passou da angústia religiosa para a descontração popular.
A ausência de um índice remissivo é o pecado capital numa coletânea tão abrangente como a “Navette Literária”, que vem acompanhada de outro tomo, onde a organizadora traça um roteiro sintético dos artigos que coligiu
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Histórias hilárias de Jorge Luis Borges
Livro lançado na Argentina relata situações pitorescas vividas pelo autor
Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo
O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Certa noite, os dois caminhavam na direção da Praça Berkeley quando Infante, suspeitando que o colega não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para “emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de O Aleph, enquanto ele, sozinho, continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.
Este caso com outros 332 foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em O Outro Borges – Anedotário Completo, recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos “causos” mostra as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantas histórias como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, comenta.
CAUSOS
Blefe
No livro, Paoletti conta duas cenas presenciadas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Na primeira, alguém disse ao argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Ele respondeu: “Sim, mas leve em conta que é involuntário…”. Na outra, um estudante contestador grita ao escritor: “Você está morto!”. Borges retrucou: “É verdade, só existe um erro nas datas”.
Lugar errado
Adolfo Bioy Casares, sua mulher Silvina Ocampo e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. Nem se lembram do nome do morto. Em outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá de proferir uma palestra. Mas entram, por engano, na casa errada, onde é celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.
Gastronomia
Paoletti relata que, em uma entrevista em Roma, um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou ser muito provocante: “Em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “Já não existem mais. Devoramos todos eles”.
Livro lançado na Argentina relata situações pitorescas vividas pelo autor
Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo
O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Certa noite, os dois caminhavam na direção da Praça Berkeley quando Infante, suspeitando que o colega não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para “emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de O Aleph, enquanto ele, sozinho, continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.
Este caso com outros 332 foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em O Outro Borges – Anedotário Completo, recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos “causos” mostra as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantas histórias como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, comenta.
CAUSOS
Blefe
No livro, Paoletti conta duas cenas presenciadas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Na primeira, alguém disse ao argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Ele respondeu: “Sim, mas leve em conta que é involuntário…”. Na outra, um estudante contestador grita ao escritor: “Você está morto!”. Borges retrucou: “É verdade, só existe um erro nas datas”.
Lugar errado
Adolfo Bioy Casares, sua mulher Silvina Ocampo e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. Nem se lembram do nome do morto. Em outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá de proferir uma palestra. Mas entram, por engano, na casa errada, onde é celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.
Gastronomia
Paoletti relata que, em uma entrevista em Roma, um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou ser muito provocante: “Em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “Já não existem mais. Devoramos todos eles”.
Movimentos no Escuro
José Miguel Silva
BRIEF ENCOUNTER – DAVID LEAN (1945) – (2005)
Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
de “Movimentos no Escuro”, Relógio d’Água, Lisboa,2005
José Miguel Silva
BRIEF ENCOUNTER – DAVID LEAN (1945) – (2005)
Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
de “Movimentos no Escuro”, Relógio d’Água, Lisboa,2005
O instante luminoso
Viveríamos apenas.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.
PÉTER ZIRKULI
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.
PÉTER ZIRKULI
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