terça-feira, 12 de outubro de 2010
A Dança da Solidão
Solidão é lava
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo…
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão…
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Camélia ficou viúva,
Joana se apaixonou,
Maria tentou a morte,
Por causa do seu amor…
Meu pai sempre me dizia:
Meu filho tome cuidado,
Quando eu penso no futuro,
Não esqueço o meu passado
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia…
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Desilusão! Oh! Oh! Oh!..
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo…
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão…
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Camélia ficou viúva,
Joana se apaixonou,
Maria tentou a morte,
Por causa do seu amor…
Meu pai sempre me dizia:
Meu filho tome cuidado,
Quando eu penso no futuro,
Não esqueço o meu passado
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia…
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Desilusão! Oh! Oh! Oh!..
Poema da amante
Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Roberto De Simone – La Gatta Cenerentola -Villanella di Cenerentola – Cenerentola è Maria Grazia Schiavo
Chi nasce annuda e chi nasce ‘ncammisa
Io ca nascette annuda e senza niente
aspetto ca pe’ me cagna lu viento
Chi nasce cane e chi nascette gatta
Io ca nascette gatta e no canillo
aspetto ‘e m’ ‘o ‘ncappa’ nu suricillo
Chi ‘a tene ‘argiento e chi la tene d’oro
la caiulella pe’ ‘ncappa’ ‘o palummo
e forse io sola ‘a tenarraggio ‘e chiummo
Chi nasce ‘ncunia e chi nasce martiello
Si stu martiello ‘ncasa e nun m’apprezza
pure vene lu juorno ca se spezza
Chi nasce janco e chi niro gravone
Io mò gravone so’ ma te n’adduone
lu juorno ca m’appicciarraggio bbuono
Chi nasce annuda e chi nasce ‘ncammisa
Io ca nascette annuda e senza niente
aspetto ca pe’ me cagna lu viento
Chi nasce cane e chi nascette gatta
Io ca nascette gatta e no canillo
aspetto ‘e m’ ‘o ‘ncappa’ nu suricillo
Chi ‘a tene ‘argiento e chi la tene d’oro
la caiulella pe’ ‘ncappa’ ‘o palummo
e forse io sola ‘a tenarraggio ‘e chiummo
Chi nasce ‘ncunia e chi nasce martiello
Si stu martiello ‘ncasa e nun m’apprezza
pure vene lu juorno ca se spezza
Chi nasce janco e chi niro gravone
Io mò gravone so’ ma te n’adduone
lu juorno ca m’appicciarraggio bbuono
O nosso
Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.
Jorge Luis Borges
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.
Jorge Luis Borges
Che sera?
Paese mio che stai sulla collina
Disteso come un vecchio addormentato;
La noia, l’abbandono, il niente
Son la tua malacttia,
Paese mio ti lascio io vado via.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’,
E sara’, sara’ quel che sara’.
Gli amici miei son quasi tutti Via,
E gli altri partiranno dopo me,
Peccato, perche’ stavo bene
In loro compagnia
Ma tutto passa, tutto se ne Va
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto La chitarra
E se la notte piaNgero’
Una nenia di paese suonero’.
Amore mio ti dacio sulla Bocca
Che fu la fonte del mio primo amore
Ti do l’appUntamento,
Come, quando, non lo So,
Ma so soltanto che ritornero’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto la chitarra
E se la notte piangero’
Una nenia di paese suoneno’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Compositor: Sbriccolli/ Greco/ Pes/ Migliacci
Pueblo mío que estás en la colina
tendido como un viejo que se muere,
la pena y el abandono son tu triste compañía,
pueblo mío te dejo sin alegría
Ya mis amigos se fueron casi todos
y los otros partirán después que yo,
lo siento porque amaba su agradable compañía
Mas es mi vida tengo que marchar
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida, qué será
Si sé mucho o no sé nada,
ya mañana se verá, que será, será lo que será
Amor mío me llevo tu sonrisa
que fue la fuente de mi amor primero,
amor te lo prometo, cómo y cuando no lo sé
mas sé tan solo que regresaré
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida qué será
En la noche mi guitarra dulcemente sonará
y una niña de mi pueblo llorará
Disteso come un vecchio addormentato;
La noia, l’abbandono, il niente
Son la tua malacttia,
Paese mio ti lascio io vado via.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’,
E sara’, sara’ quel che sara’.
Gli amici miei son quasi tutti Via,
E gli altri partiranno dopo me,
Peccato, perche’ stavo bene
In loro compagnia
Ma tutto passa, tutto se ne Va
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto La chitarra
E se la notte piaNgero’
Una nenia di paese suonero’.
Amore mio ti dacio sulla Bocca
Che fu la fonte del mio primo amore
Ti do l’appUntamento,
Come, quando, non lo So,
Ma so soltanto che ritornero’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto la chitarra
E se la notte piangero’
Una nenia di paese suoneno’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Compositor: Sbriccolli/ Greco/ Pes/ Migliacci
Pueblo mío que estás en la colina
tendido como un viejo que se muere,
la pena y el abandono son tu triste compañía,
pueblo mío te dejo sin alegría
Ya mis amigos se fueron casi todos
y los otros partirán después que yo,
lo siento porque amaba su agradable compañía
Mas es mi vida tengo que marchar
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida, qué será
Si sé mucho o no sé nada,
ya mañana se verá, que será, será lo que será
Amor mío me llevo tu sonrisa
que fue la fuente de mi amor primero,
amor te lo prometo, cómo y cuando no lo sé
mas sé tan solo que regresaré
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida qué será
En la noche mi guitarra dulcemente sonará
y una niña de mi pueblo llorará
Privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
“Qualquer escritor, músico ou pintor, qualquer artista em geral, graças à própria natureza do trabalho que realiza, tem de estar particularmente consciente da enorme extensão de danos que causa a uma sociedade a ação da censura. A censura é uma organização do tipo canceroso: quando finca em um organismo qualquer, em seguida começa a crescer e a deformar todo o corpo social em que se instalou. Não creio que a censura apenas se limite a impedir que se digam muitas coisas, mas pior ainda – e isso talvez seja o mais grave de tudo -, faz com que as coisas que se dizem fiquem sempre mal ditas ou mal-entendidas. A censura faz com que se deformem todos os valores e, nessa atmosfera asfixiante, os critérios da própria cultura e da civilização confundem-se (…)” (Mario Vargas Llosa, durante o 44° Congresso do Pen Clube, 1979)
Eugenio Montale, 1960
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árida, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio
com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(Talvez Uma Manhã)
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árida, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio
com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(Talvez Uma Manhã)
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Pesos...
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
O Estado de S.Paulo
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
O Estado de S.Paulo
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O Bebado e A Equilibrista
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar…
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar…
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